O Outono é a Cor dos seus Olhos
7 Uma Vaca Brega
Notas iniciais
Comecei pelas primeiras, e bati a cabeça com a própria mão ao ler a minha dignidade se esvaindo pelo ralo. Eu estava perdidamente chapado para enviar aquilo. A mensagem do “eu te amo” quase enfartou meu coração. E a resposta de que ela só queria minha amizade esmagou o meu órgão palpitante e iludido.
Respirei fundo mais uma vez, para ler as mensagens que eu não havia respondido. As três mensagens continham, nestas exatas palavras:
Eu não acredito que você os permitiu fazer isso. Por que você deu meu número para eles?
Quer saber, você é patético. Totalmente. Eu fiz muito bem em terminar com você.
Além de idiota, é covarde. Por que não me responde? Está com medo da vaca brega? Vê se cresce. Até nunca mais, James.
Fiquei alguns segundos encarando o nada, tentando encaixar a versão da noite anterior que Andrés me contara com aquelas mensagens. Entreguei o número a quem? A memória continuava a não ajudar, mesmo depois das explicações do filipino. Lembrei-me vagamente de algumas ocasiões, mas nenhuma que se adaptasse àquelas mensagens.
Verifiquei o horário em que as mensagens foram entregues: 02h36min, 02h45min e 02h57min da manhã respectivamente. Eu já deveria estar no sono profundo do blecaute. Se não fui eu quem deu o número, alguém que estava com meu celular deveria ser o responsável por sabe lá o quê.
A primeira pessoa que veio a minha cabeça foi Jack Leblanc. Liguei imediatamente para ele, sua voz arrogante atendeu tipicamente carregada de sono.
– E aí, bela adormecida.
– O que houve ontem? – Repliquei, seco.
– Antes ou depois de você furar seu dedo na máquina de fiar?
– Estou falando sério, Jack. Recebi algumas mensagens da Marge e ela parece bastante ofendida. Quem pegou o número dela e o que fizeram?
– Vejamos… roubaram as muletas do Joey, os vizinhos chamaram a polícia, você foi para o hospital, eu fiquei com a Lindsey, desculpa cara mas eu deduzi que as suas chances com ela já haviam acabado… ah, e a mensagem de voz. – Jack emitiu uma risada fanha.
– Que mensagem? – Perguntei, perdendo a paciência.
– Cara, eu juro que não tive nenhum envolvimento nisso. Nessa hora eu estava ninando no sofá. Liam, Evan e Joey que estavam quimicamente adulterados enviaram uma mensagem de voz pelo WhatsApp para a Marge. Foi muito, tipo, muito engraçado mesmo.
– Eu pareço estar rindo?
– É porque você ainda não ouviu.
– Vocês só fazem merda. Acham que podem entrar na minha vida pessoal e fazerem as suas brincadeiras estúpidas só para lucrar algumas risadas?
– Calma, Jim. Esse término de namoro não fez bem para você, está ficando fora de si à toa. Antes você riria disso, nós somos seus parceiros, esqueceu?
– Não estão agindo como tais.
– É mesmo? E por acaso você agiu como tal quando eu fui mandado para aquela bosta de clínica de reabilitação? Quando Evan quase perdeu o irmão mais novo no acidente? Ou quando Joey foi internado no hospital? Não. Você não agiu. Manteve-se afastado, pois estava muito feliz no seu namoro perfeito para se lembrar da gente. Agora que está com o rabo entre as pernas, veio atrás de nós e o acolhemos de novo.
Engoli em seco.
– Foi mal. Não estou bem mesmo.
– Já procurou um psicólogo?
– Já procuraram um para mim. E como foi na clínica de reabilitação?
– Eu não sei qual é a lógica de que se as pessoas se isolarem para cuidar de um gado elas largarão seus vícios.
– Então não funcionou?
– Fiz um terror emocional para a minha mãe e fui liberado antes de terminar o tratamento. Ou melhor, antes da minha vaca começar a dar leite.
Jack revelou mais algumas de suas experiências na clínica de reabilitação, e eu tive que desligar pois a minha mãe estava me chamando. Desci as escadarias e ela disse que eu tinha visitas. Fui até a sala de estar, onde encontrei Joey e Evan sentados no sofá encarando a macabra escultura do bode na estante.
– Que surpresa. – Eu disse ao vê-los.
– Jim! Desculpa cara, desculpa, desculpa, desculpa… — Repetiu Joey, levantando-se de súbito e caindo no sofá novamente com um semblante de dor.
– Está tudo bem. Vou deixar essa passar.
– A gente promete não vacilar de novo – Complementou Evan.
– Vocês pretendiam me dar uma surra caso não aceitasse o perdão? – Perguntei, notando que Joey carregava um taco de beisebol em uma das mãos.
– Roubaram minhas muletas. O taco é um improviso. Eh. – Respondeu Joey, desgostoso. Imaginei a cena engraçada de uma pessoa da altura de Joey se apoiando em um pedaço de madeira que tinha um pouco menos de 1 metro.
– Ele só tem tamanho. – Comentou Evan.
– Bem, já que o estrago está feito, pelo menos quero rir um pouco disso. Onde está a gravação?
Joey puxou o seu celular do bolso, o qual foi utilizado para o crime. Eles não usaram meu celular pois não queriam que a Marge pensasse que eu era o responsável por aquilo, sendo que os gênios esqueceram de que ela os conhecia, inclusive reconhecia as suas vozes.
Ideias de bêbado.
A gravação iniciava com grunhidos inteligíveis, seguidos de sons que imitavam uma galinha, pelo menos foi o que eu presumi. Em seguida vinha a voz super grogue de Joe, Evan e Liam, que falavam ao mesmo tempo:
Marge, você é a mulher do Homer Simpson! Vaca, vaca, vaca, vaca brega. Vaca, vaca, vaca, vaca gorda. Sabe o que a vaca disse quando terminou de comer grama? Maaaarge. Cara,não fez nenhum sentido isso que você disse. Você que não tem nenhum sentido. Eu tenho mais sentido que você. Vou perguntar para a Marge. Marge, quem tem mais sentido, Joey ou Liam? Responde logo, Marge. Deixe de ser tão cínica. Ela não pode responder porque isso é uma gravação, seu idiota. Então deixa eu cantar uma música para ela. Cante. Marge, Jim me pediu para cantar esse poema para você. Maarge, se manca, você é mais feia que um cão chupando manga….
Definitivamente Margareth Walls nunca mais queria me ver em sua vida.
E foi o melhor para nós dois.
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