Notas iniciais
E aqui está o pequeno milagre de Jim Carten. Espero que gostem! :)

O dia 26 de março poderia ter sido como qualquer dia do ano, exceto pela discussão naquela manhã. Porém, por uma decisão do destino ou simplesmente o acaso, fui levado pelas circunstâncias a conhecer a pessoa que mudaria totalmente a razão de eu levantar da cama todos os dias.

É engraçado como o fato de que uma única pessoa pode mudar totalmente o que você conhece como vida, e mostrar assustadoramente que você não tem o controle sobre nada. Essas pessoas surgem quando você menos espera – não adianta sair procurando, você não irá encontrá-las. Elas são como sinalizadores, que aparecem no curso de sua vida apontando para o caminho que você deve percorrer, porque o destino por assim decidiu. E aos que acreditam no acaso, sorte, coincidência, casualidade ou qualquer outro tipo de nome, também de nada adiantará sair em uma jornada em busca dessas pessoas, pois elas surgirão em uma hora e lugar crucialmente corretos.

Ao colocar minha roupa semi-formal para trabalhar, como eu costumava chamar – blusa e sapatos sociais com calça jeans – meu pai avisou que não seria necessário acompanhá-lo até a empresa, pois naquele dia eu tinha que realizar um serviço diferente. Entregou-me uma pasta fina e transparente, na qual passei os olhos rapidamente e vi que eram dados de um voo e o endereço de uma casa em Scarborough.

– É um serviço muito importante para uma família que trabalha numa empresa de laboratórios. Você buscará uma moça no aeroporto e a levará até o endereço da casa que está no papel, e mostrá-la a ela. Mostre a casa com o mesmo intuito de um corretor de imóveis: o piso será o mais lindo e polido de todos, os quartos são os maiores que o de qualquer casa da região e as janelas as mais amplas. Fascine-a. – Ele explicou enquanto amarrava o nó da gravata.

– E por que eu? Não há nenhum funcionário mais experiente para isso?

– Bem… esta jovem é um caso especial. Não costuma ser normal algum membro da família se deslocar de muito longe para visitar a moradia oferecida pela empresa de relocação. Geralmente há uma reunião direta com o cliente, e este informa sobre as opções para a família.

– E de qual lugar ela está vindo?

– Brasil.

Arqueei as sobrancelhas, surpreso.

– Não sei se eu posso fazer isto. Sabe, tive aquele acesso de raiva na cozinha e confesso que estou até com um pouco de medo de mim mesmo. Não quero sair gritando com os outros por aí e perder sua clientela.

– Eu tenho certeza que não o fará. – Ele afirmou apanhando a maleta, pronto para partir.

– Qual o motivo de tanta certeza?

– Você está com medo de si mesmo.

Peguei a chave da picape Ford Ranger que estava sobre a minha posse naquela semana e o casaco no cabideiro. Antes de ir embora, o cachorro do senhor Mansfield apareceu correndo em minha direção, com uma meia abocanhada. Pensei por alguns instantes o que fazer com ele, afinal não seria o correto deixá-lo sozinho, era um animal que eu não conhecia e poderia destruir todos os móveis culminando a minha expulsão de casa. Resolvi levá-lo comigo ao aeroporto, arrastando-o até o carro através da meia que ele agarrava aos dentes ferozmente. Abri a porta da picape e o cão notou que a brincadeira havia acabado, e repentinamente abandonou a meia rasgada no chão e deu um salto para o banco de couro, comportando-se igual ao um ser humano sério, com o focinho levantado para o alto e o corpo ereto.

Cachorros são imprevisíveis.

Girei a ignição e o carro deu partida, dirigindo até o Toronto Pearson International Airport. O dia estava parcialmente claro com o sol da manhã morno e havia indícios de nuvens carregadas no céu, sem previsão de neve. Durante o caminho refleti sobre o que meu pai havia dito para mim, e a ideia de que eu realmente não havia amado Margareth me parecia errônea. Eu havia cultivado um sentimento forte por ela e consequentemente estava sofrendo com isso até então. Contudo, esse sentimento forte era a única coisa que eu tinha para definir o que é o amor, já que era a minha primeira namorada.

Dei uma olhadela novamente nas informações que estavam nos papéis. Meu pai nunca havia me permitido fazer outra função além da análise de processos, e aquele encargo inusitado me pareceu um tanto estranho. Uma jovem solitária que estava se despencando da América do Sul para o Canadá, em busca de visitar o seu novo doce lar com o seu guia nem um pouco animador que havia acabado de ter uma decepção amorosa. Algo cheirava a situação planejada.

Meus pais realmente estavam jogando com todas as cartas para me ver saindo daquele buraco.

De qualquer forma, eu não estava nem um pouco disposto a investir em nenhum outro relacionamento. Eu queria um momento de solidão, uma solteirice com paz. Estava determinado a cuidar de mim mesmo, aproveitar mais momentos com meus amigos e resolver de uma vez por todas a questão da faculdade. Estava farto de viver em prol de alguém que não me correspondia à mesma altura, passar por situações desgastantes que não chegariam a nenhuma conclusão e que apenas me esgotavam mais e mais. Agora eu era um homem livre, que poderia optar pelo o que eu achasse melhor para mim, sem regras ou restrições impostas por uma garota que não me entendia por completo.

Olhei para o retrovisor e observei a barba desgrenhada que crescia desordenadamente pela linha da mandíbula. Ali estava a prova de que eu era um homem independente de qualquer crítica feminina. Cheio de si, enchi os pulmões e estufei o peito, sentindo-me bem consigo mesmo. Eu estava renovado.

Adentrei ao estacionamento do aeroporto e desliguei o carro, desafivelei o cinto de segurança e estava pronto para sair, quando um latido me lembrou de que não estava sozinho. Encarei o cachorro do senhor Mansfield, que estava com a grande língua para fora e o rabo balançado de um lado para o outro. Percebi que eu não tinha nenhuma coleira, então carreguei o cão debaixo do braço e com o outro segurei a pasta. No decorrer do caminho até o saguão, várias crianças vieram até mim para acariciar o beagle, chamando o cachorro para brincar com suas vozes entusiasmadas e se comunicando através de berros que só as crianças conseguem entender.

Conferi os dados do voo e aguardei na área de desembarque. O saguão era amplo e o teto revestido por telas transparentes que permitiam os raios solares inundarem o local, aquecendo levemente a pele. Muitas pessoas andavam apressadamente de um lado para o outro carregando suas malas e conversando em seus celulares. Eu sempre tive um secreto fascínio pela mistura cultural e emocional dos aeroportos: pessoas vestidas de terno, roupas indianas, étnicas e burcas, algumas sorriam e falavam alegremente, enquanto outras se abraçavam fortemente deixando que as lágrimas rolassem pela face. Eu ouvia repetidamente um “eu te amo” de um casal que se despedia ao meu lado, seus braços tão colados no corpo de um do outro que nem um serrote era capaz de separá-los. Do outro lado, uma família tirava fotos para enviar à vovó. Tudo parecia exalar uma aura de mudança, novas pessoas chegavam enquanto que as pessoas antigas partiam. Porém todas elas eram banhadas e aquecidas pelos mesmos raios solares que me tocavam, e eu sentia que isso era um elo que conectava a todos nós.

Segurei na altura do tórax a placa que me identificava como funcionário da empresa de meu pai, e aguardei a tal jovem sair das portas automáticas. O avião já estava na pista de pouso, e as malas começaram a ser despachadas na esteira. O rabo do beagle batia alvoroçadamente contra as minhas costas, exaltando a sua suprema felicidade em estar naquele lugar inédito.

Cada garota que saía das portas automáticas me chamava atenção e eu me perguntava se era a tal Ava, como estava escrito nas informações. As pessoas me ignoravam e tomavam seus rumos, cada uma se encontrando com os conhecidos em minha volta. A ansiedade ia aumentando à medida que o tempo transcorria, e comecei a duvidar se eu realmente estava no terminal correto, checando os papéis de cinco em cinco minutos. Até que uma moça saiu e abriu um sorriso enorme para mim, e uma onda de alívio tomou conta do meu corpo. Ela veio correndo em minha direção, como se me conhecesse desde sempre e esperasse por um abraço meu há muito tempo, abrindo os braços para mim. Quando ela realmente se aproximou, desviou-se da minha pessoa e pulou em cima de um cara que estava atrás, este lhe dando um vigoroso beijo nos lábios.

Fiquei por alguns segundos contemplando ainda desnorteado a cena do casal apaixonado que trocavam beijos em cada centímetro quadrado de seus rostos. De repente, uma leve mão cutucou meu antebraço e o cachorro do senhor Mansfield soltou um latido que ecoou por todo o saguão. Levei um susto e me virei rapidamente, dando de cara com uma garota que afastou a mão num reflexo ao perceber meu sobressalto.

– É você que está me esperando? – Ela perguntou, indicando a placa que eu segurava.

Eu fiz que sim com a cabeça, contendo a euforia do beagle debaixo da axila que estava querendo pular para o colo de Ava.

– Você é a Ava, correto?

Ela abriu um grande sorriso, revelado dentes perfeitamente enfileirados e brancos como leite.

– Ava White, prazer em conhecê-lo e o seu prazer em me conhecer é todo meu também – Ela estendeu a mão e eu a apertei, enquanto que o cão tentava lamber nossos dedos entrelaçados. – Aaaah! E quem é esta fofura? Sim mamãe, eu sou muito, muito fofo! – Ela começou a falar com voz de criança, brincando com as orelhas do animal e fazendo caretas esquisitas.

Ava possuía um sotaque britânico bastante carregado. Parecia uma menina grande, tinha curvas de mulher porém feições de uma criança: cabelos lisos e ruivos que iam até a cintura, rosto salpicado por sardas na região do nariz e nas bochechas rosadas, olhos levemente puxados nos cantos de cor castanho vivo, lábios carnudos e face com formato ligeiramente arredondado. Ela usava uma blusa de manga com várias listras coloridas, uma calça vermelha e um tênis branco de bolinhas amarelas, carregando uma mala com estampa de zebra. Considerei-a um tanto excêntrica.

Após passar um tempo razoável brincando com o cão espalhafatosamente, ela me perguntou se o cachorro tinha um nome.

– Eu não sei o nome dele – Respondi secamente. Ava franziu o cenho em tom de total reprovação. – Quer dizer, ele não é meu cão. Eu o peguei emprestado. – Ela franziu a testa mais ainda. – Quer saber, esquece. Vamos para o carro.

– Acho que eu passei por uma situação parecida com a sua! Uma vez, quando eu tinha dez, onze ou doze anos, por aí, teve um concurso de bichos de estimação na minha escola, só que eu não tinha nenhum animal de estimação pois meu pai é alérgico a qualquer tipo de pelo animal, mas isso já não é mais um problema porque inventaram uma raça de gatos hipoalergênicos, pelo menos foi o que eu vi em um seriado da televisão… o que eu estava falando mesmo? Ah, o concurso. Eu não tinha nenhum animal para desfilar comigo, então peguei emprestado o gato da minha amiga. Não foi muito legal, porque o gato era bastante melindroso e acabou me mordendo no meio do desfile, mas ele estava estranho sabe, então desconfiaram que ele pudesse ter raiva e eu tive que tomar várias vacinas… mas no final descobriram que ele só era mal-humorado mesmo.

Primeira observação sobre Ava: ela adorava falar muito e detestava poupar informações desnecessárias.

Entramos na picape, e a garota continuava a falar sobre como era uma pena ter chegado em época de primavera, que adoraria conhecer o outono canadense para ver pilhas e pilhas de folhas de maple acumuladas pelo chão da cidade.

– Faltam apenas seis meses para o outono, passará rápido. – Comentei, enquanto tirava o carro da vaga.

– Talvez eu não queira que passe rápido – Ela disse em voz baixa, afagando o beagle aninhado em seu colo.