Notas iniciais
Olá galerinha sapeca! Venho com um comunicado bom por um lado e ruim por outro... o lado bom é que irei postar todos os dias (que assim seja!), e o lado ruim é: assim que postar todos os capítulos do Volume 1, precisarei tirar a história do ar T.T Isto se deve ao contrato que irei assinar com a editora, e o mesmo proíbe que eu reproduza o texto completo na internet. Como achei que seria uma puta falta de sacanagem com vocês que acompanharam até aqui, resolvi postar todo o primeiro volume para quem estiver interessado possa ler. Quanto ao segundo volume (serão dois livros), infelizmente não poderei postar aqui... mas quem quiser, haverá o ebook na Amazon e eu poderei passar o link de compra :) Enfim, novamente muito obrigada para quem está doando um pouco de seu precioso tempo para ler esta narrativa. Agora vamos para mais aventuras de Jim e Ava :D

Levantamos da mesa e fomos até a grande janela que integrava à estrutura pontiaguda do lado externo, na qual se podia observar os prédios do centro da cidade que se projetavam ao longe, feito obeliscos ofuscados pelo sol. A luz adentrava amplamente através da vidraça, iluminando intensamente o recinto de paredes claras e deixando mais vívido o tom de castanho que coloria os olhos de Ava, tornando também suas sardas mais nítidas, sendo eu capaz de contar cada pequeno ponto laranja de sua face.

– O museu fechará daqui a meia hora, talvez seja melhor nós irmos. – Ela sugeriu, umedecendo os lábios.

– Sim. – Concordei, apesar de não estar muito disposto a voltar para casa. Olhei para o relógio e vi que eram cinco da tarde, constatando que o tempo havia passado extremamente rápido. – O que irá fazer quando chegar ao hotel?

– Provavelmente terminarei de ler meu livro e pedirei um jantar pelo serviço de quarto. Aí comerei na cama assistindo televisão, coisa que minha mãe jamais permitirá eu fazer com ela por perto. – Ava sorriu, e imaginei que ela provavelmente estaria pensando na sua casa em Londres. – Estou sentindo falta dos meus pais.

– Você retornará ao Brasil para depois voltar e se mudar junto com eles?

– Não, ficarei no hotel até meus pais chegarem. Certamente eles estarão aqui no Canadá semana que vem, estão apenas resolvendo algumas burocracias. Tipo, muitas burocracias. – Ela complementou, revirando os olhos de forma travessa.

– E então você oficialmente se tornará uma moradora da Abbeville Road. Ansiosa?

– Digamos que a experiência já me deixou familiarizada com mudanças – Ela disse, expressando cansaço em suas palavras. – Hum… estou pensando em fazer uma reforma no meu quarto, sabe, deixá-lo mais a ver comigo… colocar um papel de parede, cortinas e pôsteres, trocar o lustre, o interruptor, os armários, o colchão, e tudo que estiver cheirando a velho. – Continuou Ava, demonstrando antipatia pelo novo lar.

– Caso precise de ajuda, pode contar comigo.

O rosto dela se transformou em um imenso sorriso, explicitando a sua típica animação que havia tirado uma folga por aquelas horas.

– Você está falando sério?

– Estou sim. Entenda como uma extensão dos serviços da empresa de relocação do meu pai.

– Seria ótimo! Valeu mesmo, Jim! Eu preciso de um canadense genuíno que me informe onde posso comprar essas coisas por um preço legal. E a boa notícia é que você está designado como a pessoa mais indicada para tal função!

– Sinto-me honrado.

– Antes de irmos, preciso ir ao banheiro. Onde será que fica? Ah, bem ali.

Eu assenti e Ava se dirigiu ao banheiro, com passos desengonçados de quem estava com a bexiga prestes a estourar. Estudei as pessoas que estavam desfrutando de um momento relaxante naquele lounge, e de repente as risadas me pareceram mais espontâneas, os olhares mais verdadeiros e as vozes mais agradáveis. Não havia atrasos, nem reuniões, muito menos problemas para se preocupar. Era um segundo fora do tempo da humidade, não contabilizado pelos relógios do Big Ben ou Notre-Dame, como num quadro pintado eternamente o qual ninguém poderia alterar nenhum traço. Vi que em uma mesa próxima de mim alguém esquecera uma caneta de cor azul, e sob ela havia um guardanapo no qual estava rabiscado um desenho feito por alguma criança. Uma ideia surgiu em minha mente e instintivamente apanhei a caneta e um guardanapo novo, no qual escrevi com letras cursivas e deitadas:

Gostaria de agradecer pelo incrível passeio de hoje. Como uma retribuição, estou disposto a lhe mostrar a Universidade de Toronto por um ângulo que você nunca viu antes. Caso concorde, espere por mim na segunda-feira às duas da tarde. Para a garota que gosta de comunicações sociais verdadeiras.

Dobrei o guardanapo em quatro partes e o guardei no bolso da calça, deixando a caneta na mesma posição como a encontrei. Ava e eu saímos do museu e voltamos para o característico tumulto da Bloor Street. O sol estava começando a se pôr à oeste, extinguindo o pouco de calor que ele oferecia aos nossos vulneráveis corpos e permitindo que o frio de um grau positivo se apossasse de nós.

– Eu deveria ter escolhido um agasalho melhor – Ava comentou, retirando seus braços das mangas do blazer azul e abraçando seu tronco por debaixo da roupa.

– Infelizmente o calor ainda demorará um pouco para chegar. O inverno só nos deixa em paz totalmente lá para o início de junho. Enquanto isso, os canadenses continuam brancos que nem almas. – Eu disse, tirando o meu casaco verde-musgo com capuz para dar a ela. – Aqui, pode vestir.

– Tem certeza? Apenas esse suéter de linho não irá esquentar nada.

– Não se preocupe, já estou acostumado com este clima glacial…

Ava vestiu o casaco, que ficou grande o suficiente para cobrir as suas mãos e alcançar metade das suas coxas. Ela naturalmente já possuía um ar infantil, e utilizar uma roupa maior do que o seu tamanho acentuou esse aspecto.

Conversamos sobre seriados de televisão, que Ava provavelmente assistiria após chegar ao quarto. Descobri que ela era fissurada em Skins, uma série britânica que se passava em Bristol, sendo esse um dos motivos que a incentivou ingressar na universidade de lá. Falei que eu não gostava muito de seriados, mas que meu ponto fraco era filmes de todos os gêneros. Então Ava me perguntou se eu não gostava de algum gênero específico de filme, e respondi que não. Ava disse que eu provavelmente possuía algum problema com especificações, por isso eu tinha dificuldade para escolher uma carreira.

– Mas não quer dizer que seja uma deficiência, pode ser um dom. Não ter preferências significa gostar de tudo no seu caso, e você gostando de tudo o torna uma pessoa mais satisfeita, e satisfação gera felicidade. Viu? Você deve ser uma pessoa muito, muito feliz. – Concluiu Ava, enfatizando seu sotaque o qual eu estava me acostumando.

– Minhas olheiras parecem dizer isso? – Indaguei, puxando as minhas pálpebras inferiores para baixo. Ela riu espontaneamente.

– Preciso confessar que sua aparência não está nos melhores dias. Sabe, quando o conheci, deduzi rapidamente que você deveria ser uma pessoa muito amarga. Não uma pessoa ruim, apenas triste. Eu senti que você não estava sendo você, pois eu também senti que no fundo você era um cara legal, que só tinha acordado com o pé esquerdo naquele dia.

– Como você sentiu que eu era legal? – Questionei, bastante interessado em ouvir a resposta.

– Você voltou para me buscar na estação de metrô. – Ela respondeu, virando o rosto para mim. – Mesmo me achando a garota mais irritante do mundo, não teve coragem para me deixar sozinha.

Eu poderia dizer que eu havia voltado para buscá-la somente por causa de meu pai, que me demitiria caso descobrisse que eu tinha abandonado sua cliente numa cidade desconhecida. Porém, eu estaria mentindo outra vez. Reconheci que existia outro motivo para eu ter voltado, mas eu não sabia explicar exatamente qual era. Então eu simplesmente consenti e guardei meu mérito de cara legal.

Chegamos ao estacionamento do hotel e permanecemos parados um de frente ao outro, com as mãos nos bolsos. Ava me deu um sorriso sem dentes e eu a correspondi da mesma forma.

– Então… tchau – Ela disse, desajeitadamente.

– Tchau – Respondi, sentindo uma pontada de decepção no rosto dela ao notar que eu não daria nenhum sinal que evidenciasse um próximo encontro.

– Tchau. – Ela repetiu.

–Até – Completei, e rimos juntos da situação embaraçosa. – Gostei muito de hoje. – Confessei, soltando um pigarreio tímido.

– Igualmente. Deveríamos repetir mais vezes. Não o museu, estou dizendo que deveríamos visitar outros locais diferentes. Se você estiver afim, claro. – Ela corrigiu. – Ah, e antes que eu esqueça – Ela ergueu os braços e tirou o casaco, devolvendo-me. – Obrigada.

– Não há de quê. – Apanhei a roupa e a coloquei sobre o ombro.

– Então… acho que é isso, hora de ir – Ela abriu os braços e eu entendi o gesto, indo ao encontro dela e nos abraçamos.

Ava me lembrou Andrés: ambos gostavam de contato humano. Nosso abraço durou mais tempo do que costumaria durar um abraço convencional, e senti os braços dela em volta da minha nuca e sua face posicionada entre meu ombro e pescoço, com seu queixo afilado apoiado na minha clavícula. Ao mesmo tempo, ouvi a sua respiração acelerada e senti os seus cabelos próximos ao meu nariz, que possuíam um aroma floral. Pensei em como seu corpo era frágil e delicado ao colocar minhas mãos sobre sua cintura fina. Tive a vontade de apertar o abraço para senti-la mais perto de mim, contudo nos mantivemos naquele toque suave igual a de uma gota de chuva que escorrega sobre a superfície de uma folha de árvore. Separamo-nos aos poucos e Ava permaneceu com o olhar voltado para baixo, supostamente envergonhada.

Não pronunciamos mais nenhuma palavra sequer e eu discretamente puxei o guardanapo dobrado do bolso, escondendo este com a palma da mão fechada. Estendi a mesma mão para Ava que a apertou, percebendo a textura do pequeno papel durante o aperto, pegando-o para si e retirando a mão fechada em punho.

Dei um meio sorriso e saí em direção à picape, vestindo novamente o casaco que estava impregnado com o perfume de melancia. Embora estivesse bastante curioso para saber qual era a expressão de Ava ao ler o bilhete, minha vergonha falava mais alto e preferi entrar no carro sem olhar para trás. Dei partida e segui pela Sherbourne Street, colocando o CD do The Cities e cantando os refrãos alegremente até chegar a minha casa. Ao abrir o porta-luvas para guardar o disco, encontrei um batom de embalagem rosa que pertencia a Margareth.

Curiosamente eu não havia lembrado da minha ex-namorada em um tempo recorde desde que terminamos. Quando eu estava com Ava, eu só conseguia pensar nela e no presente que vivenciávamos. Esquecia-me de Marge, da terapia psicológica, dos meus amigos loucos e até da família. Minha mente se voltava para cada segundo do agora, e o passado e o futuro paravam de me atormentar, algo que raramente acontecia. Talvez sua amizade me fizesse bem. Talvez ela fosse uma boa pessoa a qual eu não devesse me afastar.

As luzes de casa já estavam acesas quando entrei, e aspirei o agradável cheiro do jantar que denotava serem legumes ao vapor. Subi as escadarias e passei pelo quarto de Stella, que estava com a porta aberta. Minha irmã vestia uma jaqueta preta de couro com botas de cano longo, a maquiagem de sombra escura e lábios vermelhos realçava seu belo rosto. Infelizmente, Stella era uma mulher considerada gostosa para sua idade, embora que a última coisa que eu quisesse pensar na face da Terra era sobre a sensualidade da minha irmã gêmea. O fato era que vê-la arrumada me deixava com ciúmes ao pensar no bando de canalhas que dariam em cima dela só para tê-la por uma noite.

– Para onde pensa que vai? – Perguntei emburrado, encostando-me na entrada da porta com os braços cruzados.

– Olha quem chegou, bad trip! Eu quem deveria estar perguntando onde você estava o dia inteiro. – Ela contrapôs, penteando os cabelos negros.

– Visitei o Royal Ontario Museum. – Eu disse, orgulhosamente.

Stella arqueou as sobrancelhas, surpreendida.

– Meu irmãozinho bancando o intelectual? Essa é nova. Quem é a garota? – Ela automaticamente perguntou, com um sorriso malicioso.

– Não há nenhuma garota. Quer dizer, tem sim, mas não da maneira como está pensando. O nome dela é Ava, a cliente que o meu pai pediu para buscar no aeroporto. Mas pelo amor de Deus, não fale nada para eles, ou senão me encherão o saco dizendo para namorá-la e esquecer a Marge.

– Então a tal Ava é só um caso passageiro? – Continuou Stella, agora passando rímel nos cílios em frente ao espelho.

– Ela não é um caso, ela não significa coisa alguma. Só estamos passando um tempo juntos, como amigos fazem.

– Então ela é feia.

– Como...? Não, ela não é.

– Então você tem interesse nela.

– Eu já disse que não! – Retorqui, perdendo a paciência.

– Meu querido maninho, só existe dois tipos de amizade entre homens e mulheres. No primeiro tipo, o macho sente atração pela fêmea e espera que ela abra uma fresta para que a amizade evolua para mais alguma coisa. No segundo tipo, o macho não sente atração pela fêmea e aí está a amizade mais verdadeira da natureza: os dois se tornam grandes amigos e o homem vê a mulher como um macho também.

Soltei uma gargalhada irônica.

– Você aprendeu isso com as suas experiências de balada?

– Não. O que acontece na Brunswick House, fica na Brunswick House. – Stella era fanática pela boate Brunswick House, a qual frequentava religiosamente todos os sábados com seus amigos de faculdade.

– O.k., só evite sair com algum retardado para depois eu ter que chamar o Joey. Ele está com a perna ferrada e não conheço mais ninguém que seja do tamanho dele. – Pedi, enquanto via Stella apanhando a bolsa de mão. Ela se aproximou de mim e me deu um beijo no rosto.

– E você evite de se apaixonar – Ela objetou, apertando a minha bochecha.

– Mas de onde você tirou essa ideia louca?

– Desse seu sorriso bobo nos lábios que não vejo há meses.