Notas iniciais
O capítulo está grandinho, se acharem que o ritmo "tá muito pesado" deixem um review e aí partilho em capítulos mais pequenos. Enjoy!

Eu já havia acordado, porém como se tratava de uma manhã de domingo gostava de prolongar o sono além do que era necessário organicamente. A segunda melhor sensação da vida é estar enrolado nas cobertas em sua cama desarrumada, com aquela preguiça matinal enraizada desde os seus pés até a sua cabeça sabendo que não existe nenhum compromisso para apressar esse momento tão precioso. A primeira melhor sensação da vida logicamente é quando temos que levantar cedo no dia seguinte, e aí você acorda no meio da noite e percebe que ainda faltam muitas horas para o dia amanhecer.

No entanto, naquela manhã de domingo eu não pude desfrutar do meu conforto de ter doze horas de sono. Despertei do meu estado de semiconsciência com duas mãos que agarraram meus tornozelos e deram um único e ágil puxão, que fez meu corpo escorregar por toda a extensão da cama e cair de bunda no piso gelado de porcelana. Aturdido e com o cobertor sobre minha cabeça, olhei para os lados atonitamente na tentativa de compreender o que estava ocorrendo.

– Quem eu estou? Onde eu sou? – Perguntei ao ver meu pai de pé em minha frente, meus pensamentos embaralhados não entendendo qual era a necessidade de Richard ter feito aquilo.

– Hoje é dia de limpar a garagem! – Ele anunciou bem-humorado, erguendo as mãos criminosas para o alto.

– Aaaah nããão… – Reclamei, com os olhos ainda semicerrados pelo sono recente.

Comecei a recordar vagamente de meu pai pedindo para Stella e eu limpar a garagem nos finais de semana passados, mas nós inventamos desculpas umas duas vezes e acreditamos ingenuamente que ele havia se esquecido de nos conceder tal honra.

– Se não foram por bem, irão por mal. Hoje não há escapatória! Desça em cinco minutos para tomar café. Caso tente voltar a dormir terei que apelar para o balde de gelo. – Ele ameaçou, saindo do quarto assobiando prazerosamente.

Ergui-me do chão totalmente desequilibrado, jogando o cobertor de volta para a cama. O rádio-relógio apitou sete horas da manhã. Acordar sete da manhã em um domingo deveria ser um crime. Troquei as calças de moletom do pijama por calças de tecido cor cáqui, e saí com passos arrastados para o corredor. Ao passar pelo quarto da minha irmã, vi que Stella havia sofrido o mesmo golpe que eu. Ela ainda estava sentada no chão, dormindo com a cabeça pendendo pelo pescoço e um filete de saliva escorria pelo canto da boca. Minha vontade de fotografa-la e postar no Facebook foi gigante, e tive que exercer bastante meu lado bonzinho para me conter.

Tomamos café-da-manhã no balcão da cozinha como estávamos acostumados a fazer, e admirei o dia nublado com suas nuvens densas e roxas através das janelas de guilhotina. Eu preferia dias como aquele, chuvosos e brumados. Fosse talvez pelo ar melancólico e sensível que as coisas recebiam, perfeito para ouvir uma música depressiva ou se afundar em um sofá para assistir um filme bem ruim e se empanturrar de pipoca. Fosse talvez pelo tom de verde mais escuro que as plantas tomavam, deixando as ruas mais lúgubres e nostálgicas.

– Por onde andou ontem, Jim? – Mamãe indagou, enquanto abocanhava apetitosamente um brownie de chocolate com nozes.

Ela estava voltando a me chamar pelo apelido, o que era um bom sinal para o nosso relacionamento.

– Visitei a Kim e ela tinha dois ingressos para o jogo de futebol no Rogers Centre. Como não tinha nada melhor a fazer, acabei indo. – Menti, evitando contato visual.

– Quem ganhou? – Indagou meu pai, adquirindo interesse no assunto.

– Hã… os Argonauts.

– Isso! – Ele comemorou, dando um leve soco na bancada. – Deveríamos assistir juntos alguns jogos. Às vezes eu sinto que estamos meio distantes.

– Verdade, seria uma boa. – Concordei, embora não desse a mínima para esportes. Houve uma época em que eu era mais ligado, por participar de uma liga de hockey no gelo. Eu torcia pelos Argonauts e acompanhava os campeonatos de perto junto ao meu pai. Porém, perdi toda a aproximação quando comecei a namorar Margareth e ele sofreu um pouco com isso.

– Bem… eu não tive oportunidade de falar com você até agora, então acho que este é um momento ideal para isso. – Richard pigarreou, ajeitando-se no seu assento. Ele hesitou várias vezes, procurando as palavras corretas. – Quero pedir desculpas pelo “encontro arranjado”. Realmente, sua mãe e eu pensamos que você precisava de um empurrão para superar Margareth e.... sim, nós planejamos o negócio de buscar Ava no aeroporto. Não deveríamos nos intrometer tanto na sua vida pessoal. Foi um erro.

Refleti sobre as seus dizeres quietamente, e embora que aquela situação houvesse provocado uma discussão entre nós dias atrás, apenas afirmei com a cabeça calmamente.

– O.k. Eu perdoo vocês, portanto que entendam que eu não preciso de ajuda para arranjar outra namorada. Fala sério, eu sou o maior pegador de Scarborough. – Brinquei, provocando risos.

– Esta é a melhor herança que eu poderei passar a você – Disse meu pai, e minha mãe instantaneamente deu uma cotovelada ciumenta nele. – Holly, você sabe que é o amor da minha vida. Ninguém chega aos seus pés. – E eles deram um beijo ruidoso de saliva sendo trocada, fazendo com que eu desviasse a atenção.

– Ah, eu gostaria de pedir um favor, pai. Eu poderia sair mais cedo do escritório amanhã? Irei visitar a Universidade de Toronto. – Falei, e meus pais automaticamente interromperam seu beijo pegajoso e me encararam pasmos.

– Eu ouvi certo? Você irá visitar a universidade? – Minha mãe repetiu, estupefata de tão maravilhada.

– Sim. Talvez contribua para eu tomar a minha decisão. – Respondi, mesmo sabendo que a real razão de eu ir para lá não tivesse nada a ver com isso.

– Seria ótimo, James. Estou orgulhoso por você tomar uma iniciativa. – Encorajou meu pai, com um sorriso brando e um tapinha nas costas.

Infelizmente, a notícia de um provável passo em direção a minha escolha profissional não foi suficiente para me livrar da limpeza de garagem. Stella desceu cinco minutos após de terminarmos a refeição matinal, aparecendo na cozinha coçando os olhos e ainda vestindo o pijama de listras rosas. Suas olheiras estavam tão roxas que pareciam dois hematomas, quanto que sua audição estava aparentemente sensível. Logo saquei que ela estava de ressaca.

– É melhor você por uns óculos escuros – Recomendei, servindo uma xícara de café para ela.

– Me… proteja… deles – Ela balbuciou, com as mãos cobrindo o rosto.

Ela estava se referindo aos meus pais, que provavelmente ficariam muito chateados se descobrissem a sua ressaca. Meus pais não eram moralistas quanto ao álcool, eles sempre conversavam sobre o assunto naturalmente e compartilhávamos cervejas em casa nas datas festivas. Porém, caso chegássemos bêbados de uma festa ou coisa parecida, isso era justificativa para fecharem a cara por uma semana. Eu estava até surpreso por eles terem driblado o lance do ecstasy tão cedo.

– Não se preocupe, eles já foram para a sala. Mas repense sobre os óculos – Caçoei, batendo na sua testa com a mão como se fosse uma porta.

– Bem… pensado. – Ela assentiu, levantando a xícara como se estivesse carregando um bloco de concreto.

– Pelo visto a noite na Brunswick House foi boa. – Continuei, rindo forçadamente da condição precária de Stella. Devo confessar que também não gosto quando a vejo assim.

– Uma… das melhores… em toda minha vida. Pena que… tudo que é bom… tem seu preço – Ela respondeu, derramando o café sobre as pernas. – E esta noite… está custando o preço de… um diamante da Tiffany.

– Sua situação está feia mesmo. Melhor você trocar de roupa o mais rápido possível e se esconder na garagem.

– Bem… pensado – Ela repetiu, erguendo-se da cadeira alta e indo para as escadas feito um zumbi.

Fui para a garagem e ao abrir o portão de correr, deixei escapar um palavrão. O cômodo estava lotado de caixas abertas cheias de quinquilharias pelos cantos, ferramentas largadas pelo chão, pneus furados, bicicletas e manchas de óleo. Várias teias de aranha pendiam do teto, e as paredes estavam começando a ficar emboloradas pela umidade. O único espaço vazio era o quadrado do meio onde o carro dos meus pais ficava estacionado. Gastei meia hora pensando por onde começar, e cada vez que eu tentava, desistia, voltando a minha posição inicial na entrada da garagem. Decidi primeiramente tirar o carro de lá, e então precisei retirar meu carro antes para depois mover o outro veículo. Com um espanador de pó, eliminei todas as teias de aranha e em seguida comecei a arrastar as caixas de papelão para o gramado da frente de casa.

Stella chegou à garagem quarenta minutos depois de eu ter começado a limpeza, com os cabelos molhados e uns óculos escuros da marca Ray-Ban estilo aviador.

– O sol de hoje está tão forte! – Ironizei, enquanto ela apanhava uma lata de tinta para sentar em cima.

– Cara, eu não tenho forças nem para respirar. Por favor, limpe a garagem sozinho que eu fico te devendo essa.

– Hum… poderei pedir qualquer coisa?

– Tudo. Menos um encontro com alguma amiga minha. Seria muito bizarro ouvir como foi, sabe… ela com você – Stella disse, com os cotovelos apoiados nos joelhos.

– Digo o mesmo. – Concordei, sentindo um frio percorrer a espinha ao imaginar tal situação. – O que eu tenho a pedir é muito mais simples: a posse da chave do carro por um mês inteiro.

Stella ficou boquiaberta, mostrando claramente a sua indignação.

– Mas eu tenho um aniversário para ir esta semana, e já prometi dar carona a todos! – Ela contestou.

– Então pode começar a esfregar todas essas manchas de óleo no chão. – Retorqui indiferente ao seu drama, jogando uma bucha para ela.

– Fala sério, Jim! Você pode pedir qualquer outra coisa.

– Eu quero a chave do carro, somente isso.

– Não.

– Tudo bem.

– O.k.

– Comece a limpar.

– Não.

– Vou chamar o papai.

– Que coisa de bebê.

– Paaai…

– Já entendi! O.k.

– Que bom.

– Mas posso ficar com o carro só no sábado? Por favorzinho?

– Não.

– Ah, vá se danar.

– Com todo o prazer.

As negociações entre Stella e eu eram bem simples e diretas, funcionando perfeitamente bem após dezenove anos de uso.

– Que dor de cabeça. – Ela reclamou, massageando as têmporas.

Continuei a empurrar as caixas para fora, uma por uma. Algumas estavam extremamente leves quanto que outras pareciam guardar toneladas de chumbo. Perguntei o que havia dentro delas, e comecei a bisbilhotar os objetos que estavam na superfície. Álbuns, brinquedos de quando éramos crianças, troféus, discos de vinil, até sapatos com sola rasgada tinham. É impressionante como o ser humano se apega às coisas materiais e as guardam durante toda a vida, mesmo sabendo que não possuem mais utilidade. Tudo para que um dia – quando estiverem mandando seus filhos limparem a garagem – encontrem esses objetos novamente e os apreciem como achados arqueológicos.

– Sairá com seu brotinho hoje? – Debochou Stella.

– Está se referindo ao meu brotinho de laranja, limão ou uva?

Ela forjou uma gargalhada esganiçada, depois fingindo estar sofrendo de um infarto fulminante pondo a língua para fora e revirando os olhos para o alto.

– Suas piadas são tão boas que eu nem consigo achar a graça. – Ela retorquiu, com cara de entediada.

– Falou a garota que está usando óculos escuros num dia nublado.

– Mas voltando ao assunto... o nome dela é Ana, ou Eva, como é mesmo?

– Ava.

– Ah, sim. Ava. Como ela é?

– Uma garota que tem dois olhos, um nariz e uma boca como qualquer outra pessoa.

– Putz Jim, hoje você está se superando. Sério, eu quero saber mais sobre ela. Pode ser minha futura cunhada!

– Eu já disse que só tenho interesse na amizade dela. E não, ela não é feia e nem por isso estou sentindo atração por Ava. – Retruquei, carregando a última caixa de papelão para o gramado e limpando o suor da testa na manga da blusa.

– E ela sente atração por você? – Prosseguiu Stella, ardilosa.

– Bem… não sei. Ela me mandou algumas indiretas que deixaram as coisas meio óbvias. Tipo, disse que eu era uma gracinha e me deu um bilhete para marcar um encontro. – Peguei a vassoura e comecei a varrer o chão, que levantou uma camada espessa de poeira que estimulou minha alergia.

– Bilhete? Ela veio de onde, do século XIX? – Zombou minha irmã, que soltou um espirro. – Pode varrer para o outro lado? Já estou ferrada o suficiente para ter alergia também.

– Na verdade ela veio de Londres. Os pais dela são dentistas-cientistas, algo assim, e os três viajam o mundo inteiro por causa de uma pesquisa sobre gengivas.

Stella fez uma expressão transtornada por trás do Ray-Ban.

– Que garota estranha! Nossos pais bem que poderiam arranjar alguém mais normal para você…

– Espera, você sabia que era um encontro arranjado? – Eu interroguei, incrédulo, parando de varrer e me apoiando na haste da vassoura.

– Aaah… mais ou menos. Eu soube que eles estavam tentando empurrar alguma garota para você, inclusive pensaram até em marcar um encontro com a Laure, nossa vizinha, e você através de mim. Assim que eu descobri o rolo todo.

Arqueei as sobrancelhas, perplexo. Meus pais realmente haviam acreditado que eu não tinha capacidade nenhuma para me envolver com outra pessoa. Uma coisa era unir o útil ao agradável – um serviço da empresa precisava ser cumprido e de quebra poderia resolver meu problema emocional – agora simplesmente marcar um encontro às cegas com a minha vizinha era uma atitude desesperadora.

– Hum… eh… nem sei o que falar – Soltei um espirro – a Laure nem faz meu tipo. – Contrapus, voltando a varrer o pó acumulado para fora da garagem.

– E por acaso a Ava faz? – Incitou Stella.

– Pela milésima vez, eu não tenho segundas intenções com ela! Ava é uma garota maneira e está passando por uma situação difícil, não conhece ninguém daqui além de mim. Acho que é minha obrigação ser amigo dela. – Protestei, irritado. Stella era o tipo de pessoa que persistia até conseguir arrancar a resposta que ela gostaria de ouvir.

– O.k., bad trip. Não precisa ficar estressadinho. – Ela retorquiu, enfiando a mão no fundo do bolso do casaco que tinha o bordado “Universidade de Toronto” e apanhando o celular, começando a tradicional jornada de visitar suas redes sociais sequencialmente: primeiro Facebook, depois Instagram, em seguida o Twitter e finalizando pelo Tumblr. Stella realizava esse ritual aproximadamente 30 vezes ao dia.

Enquanto eu era trocado por uma malha de relacionamentos interconectados por uma rede de internet sem fio, os questionamentos impostos por Stella rondavam a minha cabeça.

Não, eu não tinha nenhuma pretensão em ter algo com Ava.

Quer dizer, o fato de Ava me achar atraente não significava que o sentimento era recíproco. Ela era realmente legal, e embora sua beleza um tanto angelical misturada com infantilidade não fosse o meu estilo preferido, não podia negar que era bonita de um jeito diferente. Mesmo assim, eu continuava a apostar piamente na minha postura de cara independente. Eu não estava procurando por um novo amor, sendo o meu propósito cair no limbo da solteirice e curtir alguns romances sem compromisso. Ava não parecia ter a mesma finalidade que a minha. O modo como ela tinha me abraçado havia dito muita coisa – há gestos que equivalem mais que mil palavras – a demora, a respiração acelerada e o coração palpitante eram sinais de que ela estava gostando do abraço, além de denunciarem seu nervosismo. Nervosismo é uma consequência da ansiedade, e a ansiedade é uma consequência de se apaixonar por alguém.

Meu Deus, Ava estava apaixonada por mim?

Seria possível?

Tudo faria total sentido: o bilhete no carro, a grande decepção por eu não comparecer ao encontro, o elogio, a brincadeira, o olhar aflito em busca de algum meio para manter contato, o abraço apertado. Embora que nos conhecêssemos há apenas quatro dias, a paixão à primeira vista era uma excelente hipótese para explicar tudo. Apesar de naqueles dias atuais as pessoas estivessem mais imunes à paixão, ainda mais no primeiro encontro, nada era impossível. Afinal, minha colega do terceiro ano do ensino médio havia se apaixonado por Jack Leblanc o vendo de costas pela primeira vez em uma fila do refeitório. Como? Não sei. Só sei que ela gamou loucamente nele. Então, por que uma garota ingênua e pueril como Ava não acreditaria em amor à primeira vista?

Por um momento, desisti de todo o raciocínio como se tivesse apagado um quadro negro recheado de cálculos matemáticos e coloquei meus pés de volta a realidade. Eu detestava gente arrogante e muito mais quando eu estava sendo arrogante. Pobre Ava! Ela era um ponto perdido na imensidão do Canadá e queria somente uma companhia, quanto que eu especulava sobre seus plausíveis flertes. Ela estando ou não afim de mim, eu permaneceria impassível, desejando apenas sua amizade.

Isso. Seríamos somente amigos. Ava que se cuidasse quanto aos seus sentimentos.

Após remover toda a sujeira – pelo menos a que não estava escondida – amarrei os sacos de lixo e os coloquei na lixeira em frente à rua. Pela calçada do outro lado, caminhava lentamente o senhor Mansfield, corcunda devido à idade e carregando uma sacola de papel em uma das mãos. Seu semblante parecia cansado, e não havia nenhum sinal de um dos seus cachorros como era o habitual.

– Bom dia, senhor Mansfield – Cumprimentei, erguendo uma das mãos em forma de aceno. Naquele instante percebi que eu nunca havia descoberto o primeiro nome do meu vizinho há quinze anos.

– Bom dia, meu jovem – Ele respondeu, acenando também.

– Como está Map… Snoopy? – Perguntei, corrigindo ainda em tempo.

– Não está tão bem, porém melhorará logo. – O senhor atravessou a rua, indo ao meu encontro. Esperei pacientemente seus passos curtos me alcançarem.

– O que houve? – Indaguei, quando ele finalmente chegou ao meu lado.

– Somente uma intoxicação. Snoopy é um filhote, então está na fase de curiosidade e acaba comendo tudo o que vê pela frente… — Explicou, soltando o mesmo sorriso que os pais dão quando dizem que seus filhos são levados. – Passei no supermercado para comprar a água de coco que o veterinário recomendou… o pobrezinho vomitou a noite inteira e está bem desidratado.

– Coitado. Eu poderia visitá-lo depois que eu terminar de limpar a garagem? – Pedi, e o rosto do senhor Mansfield irradiou felicidade no mesmo instante.

– É claro! Snoopy ficaria muito feliz em ver seu amiguinho novamente. – Eu acho engraçado o modo como os velhinhos empregam as palavras no diminutivo. Fazem-nos sentir igual uma criança, quando que na verdade somos em relação à idade deles.

– Ótimo, daqui a meia hora eu passo na sua casa. Até – Despedi-me e o senhor Mansfield seguiu seu rumo, apesar de ter levado alguns minutos para sair do terreno que era considerado o de minha casa.

Stella foi para dentro e eu continuei a empilhar as caixas de papelão, arrumar as ferramentas em seus devidos lugares e esfregar as manchas de óleo. Embora fosse um trabalho absurdamente chato e exaustivo, não estava reclamando ou praguejando mentalmente como fazia nas outras vezes que meu pai me pedia um favor (obrigatório). Pelo contrário, eu estava cantarolando minhas músicas preferidas e diria que até um pouco ansioso para visitar o Snoopy.

Sei lá, mas talvez eu estivesse daquele jeito por causa de Ava. É bom saber que alguém no universo inteiro quer somente a sua companhia, embora que naquele caso ela só desejasse a minha por ser a única pessoa que conhecia. Imaginei o seu rosto espargido pelas pequenas manchas douradas ao ler meu bilhete, o sorriso de dentes expressivamente brancos se abrindo conforme absorvia cada letra. Estaria Ava pensando em mim naquele exato segundo, como eu estava pensando nela sentado naquele chão de concreto com uma esponja espumada na mão?

É bom saber que talvez haja uma pessoa interessada em você, pois aumenta a sua autoestima e o faz se sentir mais seguro de si, e consequentemente mais atraente. Você passa a vida inteira achando que seu jeito é desengonçado, que sua aparência não chama atenção e que ninguém está reparando nos pequenos detalhes que faz você ser você, como os livros que gosta e as músicas que ouve. Quando, de repente, descobre que alguém está na espreita, atento aos seus detalhes e curioso para conhecê-los mais. É quando você deixa de ser mais um indivíduo na multidão para aquela pessoa, e se torna o seu mundo.

Quando por fim terminei a limpeza e estacionei os carros em suas respectivas vagas, dirigi-me até a casa vizinha e senti os primeiros pingos de chuva sobre os fios de cabelo. Toquei a campainha e aguardei embaixo do teto da varanda, enquanto a malha de água começava a encharcar a grama e o asfalto. O vento frio soprou entre os galhos das árvores, e um arrepio eriçou meus pelos dos braços.

– Aí está você! – Disse o senhor Mansfield sorridente, abrindo a porta e me deixando passar pelo vão.

– Cheguei alguns minutos atrasado, mas aqui estou. – Respondi, entrelaçando os dedos na altura do peito.

Um cachorro da raça golden retriever veio correndo para o hall de entrada, apoiando as suas patas num impulso sobre minhas pernas e quase me jogando para trás.

– Laika, desça agora! Seja obediente como a ensinei – Ordenou o senhor, apontando para a cadela com o dedo indicador. Laika retirou suas patas de mim e correu de volta, escorregando em um tapete no meio do caminho. – Desculpe, nós recebemos poucas visitas e ela é bastante agitada…

– Tudo bem, senhor Mansfield. – Falei, percebendo que ele realmente se importava com a educação de seus cachorros.

O idoso me levou até a sua sala de estar, indicando para que eu sentasse no sofá de dois lugares enquanto que ele se acomodava em uma poltrona de balanço cheia de almofadas quadriculadas. O aposento tinha cheiro de velho misturado com comida de cachorro. Não sei explicar o porquê, mas gente velha tem cheiro de gente velha.

– Parece que cairá um dilúvio, eh? – Ele comentou, dando uma espiada pela janela de madeira.

– Verdade. É a chegada da primavera.

– Ah, sim. Definitivamente a melhor primavera que Toronto já teve foi a de 1989. As flores de cerejeira do High Park estavam tão rosadas que pareciam árvores de algodão doce!

Um silêncio transcorreu entre nós, pois eu não sabia o que comentar a respeito da primavera que aconteceu antes de eu ser um mero espermatozoide. Aproveitei para observar em volta. Em cima da lareira, havia prateleiras repletas de retratos com fotos em preto e branco, cujas pessoas nunca eu cheguei a ver. A primeira era a única que consegui reconhecer, na qual estava a esposa do senhor Mansfield quando muito jovem sentada em um banco de praça. Sua expressão era austera, porém realçava os seus belos traços. Na segunda, os dois estavam na cerimônia de casamento, com várias pessoas ao seu redor jogando grãos de arroz na entrada da igreja. Nesta dediquei alguns segundos a mais para analisar seus rostos felizes, um de frente ao outro com as mãos dadas, o senhor Mansfield falando alguma frase interrompida eternamente naquela fotografia. Talvez ele estivesse dizendo “eu te amo”. Um “eu te amo” dito para sempre. Na última, a qual me chamou mais atenção por ser colorida, havia os dois novamente, porém desta vez estavam mais velhos e com um rapaz entre eles, cujos olhos e sorriso eram iguais ao do senhor Mansfield. Perguntei-me calado quem ele era, já que nunca tinha o visto desde criança.

– São as pessoas mais importantes da minha vida – O senhor mencionou, ao me ver estudando os retratos. Um sorriso amarelo jazia em seus lábios murchos.

– Sua esposa era muito bonita, eu queria tê-la conhecido melhor. Meus pêsames – Eu disse, constrangido. Eu não sabia lidar muito bem com a morte, afinal nenhum parente ou amigo meu havia falecido. Então toda circunstância parecida como essa me deixava hesitante, pois eu me perguntava se estava sendo inconveniente ou ofensivo.

– Ela adorava você e sua irmã. Mesmo que vocês não tivessem muito contato direto, minha esposa gostava de ir até a varanda e vê-los brincando no jardim, correndo e pulando de um lado para o outro… nós podíamos ouvir suas conversas daqui – ele fez um gesto apontando para a sala. – Sabe, crianças têm sempre a mania de falar gritando. Mas a Joanne adorava. – Ele completou, com a voz carregada de ternura ao falar da mulher.

Eu sabia que era errado, muito, muito errado levantar à tona um assunto desagradável, mas a minha curiosidade venceu a convenção e eu tive que perguntar.

– Quem é o rapaz da foto?

O senhor Mansfield ergueu os olhos, examinando a fotografia de família como se a visse pela primeira vez, apesar de vê-la todos os dias ao sentar naquela poltrona. Os cantos de sua boca envergaram para baixo, junto com o seu olhar. Ele se ajeitou entre as almofadas e titubeou um pouco, emitindo um riso fugaz antes de responder.

– Meu filho, Oliver. – Seu tom soou quase inaudível. – Ele… não chegou a morar em Scarborough. Por isso nunca o viu.

A resposta que eu estava esperando foi confirmada, e rapidamente a culpa me fervilhou com a mesma intensidade que a chuva era despejada do lado de fora.

– Hum… entendo. Meus pêsames. De novo.

– Obrigado. – O senhor se ajeitou novamente no assento, aparentemente amargurado. Eu podia escutar sua respiração pesarosa atravessando aquele silêncio impiedoso. – Depois que Oliver se foi, encarei a morte de Joanne de uma forma diferente. Quando um filho morre, eu espero sinceramente que você não viva o suficiente para presenciar isso, nós somos obrigados a criar expectativas para manter a sanidade mental. Eu acredito indubitavelmente que Oliver está no Paraíso como um anjo, servindo a Deus. – Ele fez uma pausa, soltando um profundo arquejo que pareceu durar um século. – E agora eu acredito que Joanne finalmente tenha se encontrado com ele outra vez, e dado o abraço apertado que ela tanto queria nestes últimos anos… — Ele tentou se conter ao máximo que pode, porém mesmo assim uma singela lágrima cristalina gotejou de seus olhos marejados.

Eu estava excepcionalmente arrependido. Minha vontade era de levantar daquele sofá e ir para casa o mais depressa possível, e se pudesse evitar para sempre olhar nos olhos do senhor Mansfield. Este por sua vez, continuou a dolorosa história com a voz embargada pelo choro.

– Oliver tinha hemofilia do tipo A. Nós fizemos de tudo para ele se sentir como um garoto normal, embora que não pudesse participar das mesmas brincadeiras e atividades de uma criança da sua idade. Joanne sabia que havia casos de hemofilia na sua família, e por isso tinha receio de ter um filho, mesmo sendo o seu maior desejo. Eu insisti, dizendo que eram apenas pensamentos pessimistas que não mereciam a devida atenção. Quando soubemos do diagnóstico, senti uma imensa culpa, pois o pesadelo de Joanne havia se realizado por minha causa… mas ela, afetuosa como sempre, disse que a única culpa que eu tinha era de proporcionar a maior felicidade da vida dela. – Outro suspiro pesaroso, acompanhado de mais lágrimas. – Oliver morreu aos vinte e dois anos, após ser atropelado por um carro. Ele queria muito ir ao aniversário de sua amiga, a única amiga que ele tinha… então Joanne e eu achamos que deveríamos deixá-lo ir. Ele passou a maior parte dos dias dentro de casa, e ficava aborrecido por sermos superprotetores. Mas era necessário, não fazíamos por mal, Oliver… – Ele afirmou, mais para si mesmo. – Acho que foi o dia mais feliz da vida dele, apesar de ser o último. Deixamos nosso filho em frente à casa onde aconteceria o aniversário, e repetimos todos os cuidados que ele deveria tomar mesmo que já tivesse escutado milhares de vezes. Joanne e eu fomos para uma pizzaria que ficava na mesma vizinhança, para estar por perto caso acontecesse algo. Que pudéssemos ajudar. – O senhor Mansfield engoliu em seco, brincando com a aliança que ainda mantinha no dedo anelar. – Sarah, a amiga de Oliver, contou-nos como tudo aconteceu. Ela chorava tanto… bem, os convidados queriam comprar bebida alcoólica, porém todos eram menores de idade, exceto Oliver. Então insistiram para que ele fosse até a loja de bebida, e ele aceitou. Eu não o culpo por ter aceitado, afinal ele era um garoto carente de amizades e tudo o que Oliver mais gostaria era de participar de um grupo, logo estava disposto a agradar qualquer pessoa. Durante o caminho, ele se distraiu enquanto conversava animadamente com os amigos de Sarah e… bem… ele não prestou atenção no sinal verde e continuou andando… era noite… os faróis estavam desligados…

As palavras se misturaram em um som incompreensível, terminando num ganido sofrido. Eu me mantive paralisado, observando aquele pobre senhor solitário, seu corpo tão frágil e fraco se encolhendo na poltrona de balanço, com o rosto enrugado se convertendo em uma expressão de uma dor que jamais seria cicatrizada. Snoopy, que surgiu na sala com passos arrastados, andou até os pés de seu dono e se deitou, soltando um grunhido baixo que parecia dizer “calma, eu estou aqui”.

– O trauma em si não foi tão grave, mas foi o suficiente para provocar uma forte hemorragia interna. – Ele prosseguiu, quando recobrou a voz. – Eu percebi que havia algo de errado quando as ambulâncias passaram pela rua da pizzaria, Joanne e eu nos encaramos no mesmo instante e não foi necessário dizer nada para entrarmos no carro. Nós não falamos nada até chegar a casa. E continuamos sem falar nada ao ver o corpo do nosso menino estirado naquela maldita maca… ai meu Deus, que você os tenha. Que você os tenha como seus anjos fiéis. – O choro se agravou novamente e ele se ergueu da poltrona, indo até o banheiro com seus passos pequenos.

Ficamos Maple e eu na sala, fitando um ao outro. Eu simplesmente não conseguia mais chamá-lo de Snoopy. Eu não conseguia mais respirar o ar daquela sala, eu não conseguia mais olhar para aqueles retratos. Eu estava petrificado naquele sofá, a imagem grudada na minha retina do jovem Oliver perdendo seus batimentos cardíacos enquanto o sangue jorrava dentro de si, vendo seus pais desesperados o acompanhando na ambulância pela última vez. E mesmo assim fora o dia mais feliz da vida dele.

O senhor Mansfield retornou, o rosto lavado com água pingando sobre o casaco de lã. Desta vez, ele sentou ao meu lado no sofá.

– Desculpe por tudo isso. Eu ainda… eu… não consigo controlar meus sentimentos. Sou um pobre velho sentimental.

– Eu quem devo pedir desculpas, senhor Mansfield. Fui muito inconveniente. – Repliquei, o gosto amargo descendo pela boca.

– Não, não, de forma alguma… não existe uma forma bonita para falar de morte, além dos poemas.

– Sim, claro. – Abaixei-me e acariciei o dorso do cachorro, que se retinha deitado no chão quietamente. – Está na hora do almoço e acho que devo ir… minha mãe sentirá minha falta. Quer dizer, ela está me esperando… ela gosta de almoçar com os filhos…

Qualquer palavra soava como facadas para mim. Tentei evitar pronunciar mãe/falta/filho nas próximas frases.

– Tudo bem, meu jovem. Snoopy e eu agradecemos sua visita.

– Foi um prazer conhecer a sua casa, senhor Mansfield. Desculpe o inconveniente mais uma vez. – Levei alguns minutos ainda até conseguir me levantar de vez, como se um imã prendesse as minhas pernas.

O anfitrião me levou até a porta de entrada, e perguntou se eu não queria ficar um pouco mais até a chuva passar, e eu disse que não. Dessa forma, ele me ofereceu um guarda-chuva e eu aceitei por educação, caminhando devagar embaixo da chuva vigorosa que açoitava impiedosamente o fino tecido de lona que me protegia. Na metade do percurso, virei para trás com o intuito de dar o último adeus, porém o senhor já havia se retirado para o interior da casa. Permaneci imóvel, imaginando Joanne Mansfield sentada no balaústre da varanda, assistindo Stella e eu brincando naquele gramado com um sorriso nos lábios, pensando em como seria dar um abraço apertado no seu filho.