O Outono é a Cor dos seus Olhos
8 Mansfield
Notas iniciais
Os dias seguintes se passaram com um clima de tensão em casa. A fama de usuário de drogas fez com que minha mãe apenas me cumprimentasse ao longo do dia, quanto que meu pai me lançava olhares pesarosos e sorrisos sem dentes e desanimados, como se eu estivesse passando por um período difícil e que apoiava a minha superação. Stella, como sempre, continuava a me debochar.
As horas de trabalho no escritório de meu pai me afugentavam dos pensamentos a respeito de Margareth. Embora eu houvesse a infinita certeza absoluta de que não existiam mais chances entre nós, não conseguia evitar em pensar nos seus longos cabelos dourados, os olhos azuis faiscados por tons de verde e sua voz divertida que desafinava em tons mais agudos. Não conseguia evitar em pensar no cara com nariz de papagaio, se ele realmente a fazia feliz e se era melhor que eu nesse quesito, e toda vez que eu chegava à conclusão de que ele poderia ser o melhor uma onda de cólera efervescia meu corpo. Não conseguia evitar em pensar nas risadas, beijos, abraços e elogios que ele era capaz de arrancar dela, e eu não mais.
Cada manhã eu acordava e fitava o espelho, as rugas de expressão esgotadas e amarguradas se refletiam diante de mim como se zombassem da minha situação asquerosa. Olheiras se aprofundavam, o cabelo crescia rebeldemente e a minha barba que finalmente tomava forma me deixava com aspecto de morador de rua. Por que eu ainda me importava com ela? Por que eu a deixava me atingir tanto? Eu realmente ainda a amava?
Acho que não.
Deveria ser o tal ciúme. Alguém havia tomado o que era meu. Só que ela não era mais minha, o que tornava aquele sentimento irracional. Ou então, deveria ser a tal suspeita de traição. Eu havia dedicado todo o meu amor e atenção a ela, como um súdito devoto e Marge simplesmente me substituiu por outro. Só que não havia provas de que ela realmente tinha me traído, apenas suposições. Deveria ser o descaso, por fim. Nos abandonamos, nos deixamos de se importar um com o outro e decidimos colocar um ponto final, pois eu acreditava que não havia mais amor entre nós. Mas não era um ponto final, e sim uma vírgula. Ainda havia amor em mim. E ela, infelizmente, só tinha sua amizade a me oferecer. Pelo menos antes, agora eu não passava de um estúpido sem culpa.
Na manhã de quarta-feira do dia 26 de março estávamos todos tomando café da manhã no balcão da cozinha, o cheiro da tradicional panqueca com maple syrup tomava conta do ambiente. O sabor ardente do líquido açucarado descia arrastado pela garganta, e bastaram quatro garfadas para me sentir satisfeito. Levantei-me silenciosamente da cadeira alta, levando meu prato até a pia procurando não chamar atenção dos meus pais. Naquelas semanas minha fome havia tirado férias, assim como meu sono e meu controle de ansiedade, fazendo com que minha mãe ficasse neurótica a respeito da minha saúde.
– James, volte agora com esse prato e termine de comer. – Ela ordenou, sua autoridade maternal não conseguindo esconder a preocupação ao fundo.
– Se eu comer somente um terço dessas panquecas, meu organismo irá aproveitar o pouco que está no meu estômago. No entanto, se eu forçar e comer tudo acabarei vomitando e meu organismo ficará faminto até a próxima refeição. – Argumentei, pretendendo sair daquela discussão através da lógica. Contudo, é impossível lutar contra neuroses maternais utilizando a lógica.
– Você está se afundando nessa doença, James. Já passou do momento de dar um basta nisso. – Desde o acontecimento do ecstasy, minha mãe me chamava pelo nome próprio completo.
– Ela tem razão, bad trip. – Concordou Stella, sem demonstrar muito interesse na discussão.
–Eu estou doente? Obrigado por me informar.
– Depressão é uma doença muito séria. Seu pai e eu achamos que você conseguiria superar sozinho essa fase, mas não é o que você vem mostrando. Então, nós já procuramos um psicólogo e sua primeira sessão será...
– Superar o quê? O namoro fracassado e ridículo que tive com Margareth? Ou o caminho das drogas que entrei? Se quiserem me por numa clínica de reabilitação não me importo, vamos lá, acho que vai até ser bastante divertido cuidar de vacas! Pelo menos será bem melhor do que ficar nessa casa sendo taxado por algo que não sou ou ir para essas sessões de terapia que não ajudarão em porcaria nenhuma! Eu já superei a Margareth desde o primeiro dia, não quero ter mais nada com aquela garota insignificante e desejo nunca mais vê-la até o último dia em que eu viver! Sinto repugnância só de pensar nela… se estou doente é por causa de vocês, que não me deixam em paz e me cansam todos os dias com essas bobagens e preocupações sem sentido – Retruquei, o peito subindo e descendo rapidamente com a perda do fôlego.
Um silêncio perpassou a cozinha, com os olhares estupefatos da minha família sobre mim. Apressadamente saí do aposento e fui para o lado de fora da casa, batendo a porta com força. Sentei no degrau frio da escada de entrada, a cabeça entre as mãos que apertavam fortemente as orelhas gélidas. Eu conseguia escutar as batidas furiosas do meu coração ecoando pelo corpo, como se houvesse um segundo órgão logo abaixo do meu cérebro. Escutei um latido alto perto o suficiente para me assustar, e ao erguer os olhos vi meu vizinho, o senhor Mansfield, passeando com o seu cachorro beagle como era o de costume todas as manhãs. Ele se manteve parado alguns metros distante de mim e me encarou ali sentado, dando um aceno e perguntando:
– Tudo bem, meu filho?
– Tudo na mais perfeita ordem, senhor Mansfield. – Respondi, com a voz falhada e baixa.
Ele abriu um sorriso benevolente, sentindo que havia algum problema comigo. Em seguida, abaixou-se na altura do seu animal de estimação e murmurou algo para ele, soltando a sua coleira. O cachorro docilmente correu até mim, colocando as suas patas em meus joelhos e encostando seu focinho molhado em meu queixo. Fiz um carinho em seu dorso com a mão, olhando para o senhor Mansfield atonitamente.
– O meu amiguinho é um tanto terapêutico. Ajudou-me bastante quando minha esposa faleceu. – Ele fez uma pausa, mostrando que ainda sentia desconforto ao falar da morte da esposa. – Pode ficar com ele por alguns dias, se quiser. Eu ainda tenho o meu golden retriever. Quanto à comida não se preocupe, pode passar na minha casa para alimentá-lo.
Eu estava disposto a dar um “não, obrigado” retórico, entretanto ao contemplar os grandes olhos castanhos do animal senti a sua ingenuidade e alegria sem motivo aparente me invadir. Ele subiu em meu colo como se me conhecesse há anos e repousou sua cabeça sobre meu pulso.
– Eu… não sei… você tem certeza? Ele parece ser bem ligado ao senhor.
– Ele parece ser bem ligado com todo mundo, meu rapaz – Respondeu senhor Mansfield com uma risada.
– Sendo assim… acho que posso passar o dia com ele. Obrigado, senhor Mansfield. – Agradeci, ainda confuso com aquela ocorrência inusitada.
O velhinho assentiu com a cabeça, dando um adeus para o seu cachorro, que curiosamente permaneceu quieto sobre o meu colo, como se soubesse que seu dono havia lhe dado uma missão e era necessário ficar comigo para um bem maior. Quando me lembrei de perguntar qual era o nome do cão, o senhor Mansfield já havia entrado na sua casa.
Fiquei por alguns momentos ali, acariciando a pelugem do animal e tentando processar o que havia acabado de ocorrer na cozinha. Estava envergonhado, porém eu sabia que tinha uma porcentagem de razão. Eu realmente estava passando por um período difícil e todos aqueles holofotes sobre mim só pioravam o estado das coisas.
Escutei a porta se abrindo logo atrás com o rangido das dobradiças que deveriam ter sido lubrificadas por mim no verão passado, e a sombra de meu pai entrou no campo periférico da visão. Richard se sentou ao meu lado, soltando um arquejo cansado. Nesses momentos eu percebia que meu pai estava envelhecendo, e por um instante imaginei como seria a minha família sem ele e sendo eu o homem da casa.
Eu precisaria melhorar muito o meu controle.
– Por acaso… é o cachorro do senhor Mansfield? – Ele perguntou atonitamente, apontando para o beagle que não parava de balançar o rabo freneticamente.
– Sim. Ele vai passar o dia comigo. – Respondi baixinho.
Meu pai fez um grunhido de reflexão, preferindo não explorar muito sobre o assunto e passar a conversa adiante.
– Quer falar sobre o que ocorreu na cozinha? – Ele iniciou, quase que num murmúrio.
– Acho que não. Eu já disse tudo o que havia para ser dito.
Ele assentiu com a cabeça, começando a acariciar a orelha do cão, que tentava lamber a mão dele.
– Você sabe o que é amor, Jim? – Ele indagou, surpreendendo-me.
– É gostar especialmente de uma pessoa, eu acho. Querer ficar ao lado dela para sempre.
– Sim. – Richard concordou com um risinho frouxo. – Mas há como querer ficar ao lado de uma pessoa o tempo inteiro? Contando com todos os momentos de brigas, desentendimentos e tristezas?
Permaneci quieto, não sabendo responder quanto a isso.
– Pelo menos você há de concordar que quando nós discutimos com nossas parceiras sentimos raiva e mágoa. E quando a raiva e a mágoa se tornam constantes, tendemos a nos distanciar delas e o desejo de tê-las por perto diminui. – Ele hesitou um pouco. Era muito raro ouvir meu pai falando sobre sentimentos, ainda mais sobre amor, e me senti constrangido. – O amor não consiste no desejo de ter a pessoa por perto, e sim na vontade de estar ao lado dela quando os defeitos precisam ser vencidos. Amar consiste muito mais em apreciar os defeitos do que as qualidades, pois amar as peças que não se encaixam nos fazem querer ficar ao lado delas para sempre.
– Então você está dizendo que eu não amei os defeitos da Marge?
– Para amar os defeitos você precisa primeiramente aceitá-los, e só conseguimos aceitar os defeitos que são compatíveis com os nossos. Provavelmente os dela não eram compatíveis com os seus.
– Então não a amei de verdade?
– Você ainda não está apto para responder a esta pergunta.
– Por que não?
– Você precisa encontrar alguém que lhe mostre o que é amar de verdade. Quem o ama de verdade é capaz de aceitar todas as suas imperfeições.
Virei o rosto para meu pai, cujos olhos cinza que transmitiam frieza por todos aqueles anos, agora transmitiam ternura. As rugas de seu rosto se acentuaram, e eu presumi que a idade havia dado a ele uma experiência sobre o amor melhor que a minha.
– Obrigado pela reflexão.
– Por nada. Porém isso não o livra da terapia.
Bufei alto, fazendo com que o meu cabelo na testa levantasse com o ar esfumaçado que exalou da boca.
– Pelo visto estou recebendo um decreto. – Brinquei.
– A terapia será muito mais eficiente do que você imagina. Há outras complicações que você precisa trabalhar. Como o fato de você não ter se interessado pela faculdade ainda.
Agora ele havia tocado no calcanhar de Aquiles da família Carten. O fato de eu ainda não ter entrado na faculdade era quase que um assunto proibido, tocado somente em casos de extrema importância. O brilho dos méritos de Stella era forte o suficiente para irradiar sobre mim, fazendo com que meus pais esquecessem um pouco de que eu não estava traçando nenhum futuro. As amizades de meus pais também evitavam falar sobre o assunto, dirigindo todas as perguntas retóricas para Stella. Qual termo ela está cursando? Qual área ela pretende seguir? Ela trabalhará na empresa da família? Vocês devem sentir tanto orgulho!
Eu não havia entrado na faculdade pelo simples motivo de não saber qual carreira me identificava mais. Na escola eu era um aluno mediano em todas as matérias, e não me destacava em nenhuma. Eu simplesmente as estudava e garantia as notas para passar de ano. No ensino médio, todos os alunos começaram a definir os seus cursos para se dedicarem às matérias específicas e determinar qual o nível de estudo, enquanto que eu continuava a sentir o vazio da indecisão. Acabei realizando o teste vocacional oferecido pela escola, que incrivelmente indicou que eu era apto a seguir cursos como Física, Arquitetura, Jornalismo, Cinema, Engenharia Ambiental e Direito. Presumindo, não consegui chegar a lugar algum. Analisei os meus interesses: eu gostava da área de exatas, mas não conseguia lidar com equações muito complexas; gostava da área de humanas, mas não tinha um forte gosto pela leitura; gostava da área de biomédicas, mas não tinha aptidão para lidar com pessoas. Com medo de acabar numa carreira que me deixasse infeliz, preferi aguardar por um tempo para refletir sobre a questão. E desde então já fazia um ano que eu estava no limbo da incerteza. Para ocupar o tempo disponível passei a auxiliar meu pai na sua empresa de serviços de relocação (que consiste em dar suporte aos profissionais estrangeiros recém-chegados a um país), lidando com pilhas de pastas de processos que apenas asseguravam que eu não queria trabalhar com aquele tédio para o resto da vida.
– Você já conseguiu ter alguma ideia do que fazer ou simplesmente desistiu e resolveu ser meu funcionário eternamente? – Continuou Richard.
– Eu sei que sou complicado de entender, mas eu só quero escolher a coisa certa. Tenho receio de ser um homem de meia-idade frustrado que não poderá voltar atrás.
– Jim, há muita gente que não segue a carreira dos sonhos, mas sim a carreira que simplesmente gosta. Há pessoas como você que nunca conseguiram encontrar a profissão que exerce o que há de melhor nelas, mas seguiram uma profissão com qual elas se identificaram em parte. Talvez seja o seu caso.
– Eh, agora ficou fácil. Só me resta escolher entre Engenharia, Direito, Música e Medicina.
Richard se levantou, rindo. Antes de fechar a porta, o cachorro do senhor Mansfield saltou do meu colo e correu para dentro de casa.
– Eu acho melhor certificar de que ele é adestrado ou então sua mãe irá expulsar vocês dois de casa.
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