Notas iniciais
Oi meus amores, aqui estamos com mais um novo cap.

Naquela noite, demorei mais que o de costume para cair no sono. Não estava pensando em Marge, como nas outras noites, mas em Ava. O quarto estava um breu e apenas algumas frestas da luz dos postes da rua atravessavam pela persiana, enquanto que eu estava deitado olhando para o teto que eu não conseguia enxergar, os braços dobrados por trás da cabeça.

Ponderei sobre os conselhos de Kimberly, e julguei o fato de eu estar me tornando frio e consequentemente afastar as pessoas que poderiam me machucar, incluindo as pessoas que também poderiam me tornar feliz. A concepção do meu futuro como um cara solitário e dono de trinta gatos me era assustadora. Embora eu desejasse não me envolver profundamente com ninguém, eu também não queria ficar sozinho, deixando-me em um paradoxo. No fundo daquela escuridão, percebi que na verdade eu não sabia o que queria. Eu só estava confuso e magoado e que intimamente eu não pretendia ser um sujeito insensível, apenas estava vulnerável demais e com medo de ser atingido novamente. Porém, ser atingindo pelo o quê? O que eu tanto temia?

Eu temia amar tanto alguém e não receber o mesmo em troca, somente uma apunhalada no peito de que eu nunca fui bom o suficiente. Era isso que Marge havia feito comigo. Ela deu sua última cartada no High Park, enquanto caminhávamos sobre a espessa camada fofa de neve que cedia aos nossos pés. Eu percebi que seu olhar azul-esverdeado estava triste, mesmo que seu rosto estivesse praticamente escondido entre os cachecóis e o tuque florido de crochê. Andávamos em silêncio, observando tudo aquilo que um dia foi verde se transformar em um lençol branco e congelado.

– Eu sinto falta da primavera. Definitivamente, o inverno é a pior estação para mim – Ela disse, quebrando a quietude.

– Enquanto que o inverno é a minha estação favorita. – Comentei, mesmo não sendo verdade. Estávamos meio brigados, e no clima de discussão eu gostava de dizer qualquer coisa para contrariá-la.

– Curiosamente não estou surpresa com a sua resposta, você simplesmente é o oposto de tudo o que eu sou – Marge falou, levantando um leve tom de crítica.

– Nós apenas somos mais diferentes do que óleo e água.

– Se você acha que somos como o óleo e a água, não deveríamos ficar juntos. São duas substâncias que nunca se misturam, logo nunca daremos certo.

Eu parei de caminhar e olhei fixamente para ela, soltando um arquejo pelas narinas que formaram uma fumaça branca. Marge fez o mesmo.

– Nós podemos simplesmente caminhar em paz? Estou cansado de discutir.

Margareth meneou com a cabeça, seus olhos se enchendo d’água rapidamente.

– Eu também estou cansada, Jim. E acho que eu não suporto mais isso.

– Do que você está falando? – Senti que desta vez não seria uma discussão como qualquer outra.

– Eu decidi tomar uma decisão importante. Para nós dois. Será o melhor, Jim. Nós precisamos seguir em frente, só que não mais juntos. Nós precisamos encontrar a nossa própria paz. – Ela respirou fundo, uma lágrima escorreu lentamente pela sua face rosada e pingou sobre o cachecol.

– Margareth, pare de dizer bobagens. Eu te amo, essa é a única paz que eu tenho. – Fui até ela com passos afundados na neve e quis abraçá-la, mas Marge deu dois passos para trás.

– Não, nós temos que admitir… não dá mais para continuar. – Ela redarguiu com a voz embargada, colocando a mão sobre meu peito para garantir distância entre nós.

– Como não? Eu amo você Marge, e você ainda me ama. Como não podemos continuar se tudo isso é o que importa?

– O seu amor não é o suficiente, James. Não é o suficiente para nos manter juntos e não foi o suficiente para que eu continuasse a amar você.

E a veracidade da sua resposta me assombrava todas as noites, no silêncio da madrugada. Porém, naquela noite eu estava diferente. Não estava lamentando pela perda de sua companhia, mas por não ter enxergado a verdade tão cedo. Sim, éramos diferentes e nunca daríamos certo. Não éramos capazes de aceitar as nossas imperfeições, como peças defeituosas que jamais se encaixariam. E só por que eu não havia me adaptado a uma peça, não significava que nenhuma das outras bilhões de peças no mundo teriam o mesmo fim.

Existia alguma peça no mundo a qual eu seria o suficiente para ela.

Ava poderia não ser essa peça, e no fundo eu não queria que fosse. Ela estava mais para uma amiga em potencial, e toda a sua vitalidade poderia me ajudar a curar a ferida que estava aberta em mim. Eu não sabia como explicar, mas Ava exalava uma positividade que me conectava a ela, e mesmo que eu estivesse fugindo da maritaca do tênis de bolinhas amarelas, essa conexão sempre me fazia lembrar sua existência.

Ri sozinho no escuro, ao me flagrar fazendo planos com uma garota que conheci por apenas um dia. Talvez fosse um sinal de que eu precisasse de mais dias como aquele.

PRIMAVERA

O sábado amanheceu com céu sem nuvens e azul celeste. Da janela do quarto eu podia ver os vizinhos cobertos em seus roupões felpudos, derretendo os resquícios da geada sobre a grama com as mangueiras de jardim. Os primeiros brotos verdes desabrocharam dos abetos plantados em frente de casa, e já era possível identificar os pequenos botões de flores nos arbustos, coloridos como as luzinhas de Natal. Era o prenúncio da primavera, embora que o clima continuasse bastante frio.

Ergui da cama num pulo e fui me espreguiçando até o banheiro, onde mais uma vez me coloquei diante o velho espelho zombeteiro. Passei a mão pela barba desgrenhada, que estava ganhando volume e formava uma camada espessa que tomava conta de meu rosto como uma moita. Procurei um barbeador na gaveta e inicialmente pensei em somente apará-la, porém o único motivo para tê-la deixado crescer foi para provar um ato de liberdade por estar separado de Marge.

Eu não queria mais nenhum vínculo que me unisse a ela, fosse este bom ou ruim.

Passei o barbeador por toda a linha da mandíbula, aniquilando qualquer vestígio de pelos. Ao terminar, alisei a pele límpida e com o frescor mentolado do creme de barbear, sentindo que eu estava um quilo mais leve. A mudança me proveu uma aparência totalmente diferente, passando de um mendigo depressivo para só um cara que não tinha dormido muito bem. Durante o banho, pensei em como eu poderia restabelecer contato com Ava. Provavelmente ela estaria chateada, embora algo me dissesse que ela era o tipo de pessoa que perdoava facilmente. Talvez ela ainda estivesse hospedada no Clarion Hotel, mas três dias já haviam sido transcorridos e o receio de que ela não estivesse mais lá era grande. Mesmo não estando, eu poderia encontrar Ava assim que ela se mudasse para a casa na Abbeville Street, informação que eu poderia conseguir através do meu pai. Uma ponta de angústia cresceu como avalanche sobre a ansiedade, pois o meu desejo de vê-la era imediato, mas eu havia de me conformar caso precisasse esperar por isso.

A primeira ideia que me ocorreu foi dirigir até o Clarion Hotel, e perguntar na recepção se Ava White ainda estaria hospedada em algum quarto. Coloquei uma calça jeans e um suéter de linho cor cinza por cima de uma blusa branca, penteei os cabelos que já estavam cobrindo as minhas orelhas de tão grande e baguncei um pouco os fios que caíam sobre a testa, como eu gostava de fazer. Antes de deixar o quarto, avistei o vidro de perfume dentro do armário e borrifei algumas gotas no pescoço. O.k., talvez eu tivesse borrifado metade do frasco.

Se Ava podia estar perfumada para ser recebida por mim no aeroporto, eu poderia estar perfumado para ser recebido por ela no hotel.

O relógio marcava oito horas da manhã quando retirei a picape Ford da garagem, e o trajeto até a Sherbourne Street levaria em média quarenta minutos. Será que Ava estaria acordada? Qual horário os ingleses costumavam se levantar?

No decorrer do percurso, planejei o que eu diria para ela. Logicamente pediria desculpas, e inventaria alguma justificativa para não ter comparecido naquele dia. Minha mãe havia torcido o pé e precisou ir ao hospital? Fiquei enrolado no trabalho da empresa e não consegui sair a tempo? O psicólogo havia me deixado muito transtornado e preferi não sair de casa? Descobri que minha ex-namorada estava em um novo relacionamento e fiquei trancado no meu quarto até anoitecer?

Todas as mentiras eram plausíveis, exceto a última, que era a verdade. Depois que eu lançasse mão do subterfúgio, eu esperaria que ela me entendesse com seu singular sorriso resplandecente, e eu a levaria para um restaurante onde nos conheceríamos mais. Ou melhor, ela me conheceria mais, já que eu não havia dito nada sobre mim no outro dia.

Eu realmente gostaria que todos os meus planos acontecessem, e não dei muita atenção para a possibilidade de ela ter voltado para os pais dela, seja lá onde eles estivessem no mapa-múndi. Estacionei o carro na vaga em frente ao prédio do hotel e subi as escadas que levavam ao hall de entrada.

Timidamente me dirigi a uma das recepcionistas de cabelos loiros e crachá com nome de “Matilda”, que me acolheu com um sorriso simpático e bem treinado.

– Bom dia, em que posso ajudá-lo? – Eu poderia jurar que ela era a mulher do telemarketing que ligava para a minha casa todos os dias para oferecer cartão de crédito.

– Oi, bom dia. Eu estou procurando por uma amiga minha, Ava White. Ela fez check-in na quarta-feira, mas eu não sei se ela ainda está hospedada aqui… ela tem cabelos ruivos e rosto com sardas. Por acaso já a viu?

A moça arqueou as sobrancelhas e inclinou a cabeça para o lado, fazendo uma expressão de condolência.

– Infelizmente não tenho permissão para informá-lo sobre a estadia dos nossos hóspedes, senhor.

– Hmm... você não pode me dar ao menos uma dica? É muito importante. – Insisti, fazendo cara de coitadinho.

– Não, senhor – Ela negou novamente, demonstrando pesar.

– Por favor, você precisa me ajudar. – Aproximei-me dela deitando o tórax sobre o balcão que nos separava, falando em tom de murmúrio. – Eu estou ficando louco... Matilda. Aquela garota arrasou comigo. Não consigo mais dormir, nem comer, muito menos me concentrar. Está vendo as olheiras no meu rosto?

– Sim, estou vendo sim – A recepcionista respondeu comovidamente, colocando a unha do polegar pintada de rosa entre os dentes incisivos.

– Quantas pessoas já fizeram você se sentir assim, Matilda? Nas nuvens? Ela é para casar, acredite em mim. Nenhum homem será capaz de valorizá-la como eu estou disposto a fazer. Mas Ava ainda não sabe. Eu preciso contar a ela antes que seja tarde.

Matilda olhou para os lados e após para a tela do computador, bastante indecisa. Ela ergueu a cabeça por cima do meu ombro e abriu um largo sorriso, encontrando uma saída.

– Acho que o segurança ali atrás pode lhe dar alguma dica – A recepcionista piscou o olho direito, apontando para um jovem uniformizado de cara espinhenta que estava ao lado da porta de entrada.

Sorri como agradecimento, dirigindo-me até ele. Nada como uma história de paixão irrefreável para amolecer as mulheres. Ao me aproximar, o rapaz manteve o olhar estático em direção à parede e os braços cruzados nas costas, ignorando a minha presença. Seu rosto inexpressivo e sua postura impecavelmente ereta me fez titubear um pouco.

– Com licença, estou precisando de uma informação.

Ele virou o rosto para mim atonitamente, como se despertasse de um sono profundo. Logo desfez o cruzamento de braços e relaxou os ombros, como se houvesse saído de um molde.

– Pois não, em que posso servi-lo?

– Estou apenas procurando pela minha amiga, Ava White. Uma moça de média estatura, cabelos ruivos até metade das costas, sotaque britânico… por acaso a viu passando por aqui? – Apontei para o hall, com a esperança despontando dentro de mim.

O segurança abriu um sorriso de lado, balançando a cabeça positivamente.

– Ava! Sim, a conheço. Nós conversamos anteontem durante um bom tempo. Sim, a conheço, sim.

Um alívio inundou a minha alma, transformando-se em um intenso entusiasmo.

– E saberia me dizer se ela ainda está hospedada aqui?

– Hum… eu não a vi ontem. Não, não a vi. Porém, eu trabalho nos turnos da manhã e da tarde, tipo, toda a manhã e depois a tarde inteira, e o turno da noite é com outro segurança. O Gibson. Grande cara, grande cara o Gibson. – Comecei a notar que ele tinha um certo problema com repetições.

– E hoje, nada também?

– Não, não. Basicamente, só a vi chegando na quarta-feira, depois ela saiu lá pelas quatro da tarde, sim, quatro da tarde, na quinta-feira ela ficou esperando um cretino que não apareceu, coitadinha, e conversamos bastante. Bastante mesmo. Depois disso, não a vi mais. Não, não a vi.

Olhei para os meus pés, mordendo o lábio inferior. Eu era o único naquele recinto que sabia quem era o tal cretino, e mesmo assim sentia como se todos estivessem me encarando com ar de reprovação, enquanto a culpa pesava sobre os meus ombros.

– Ela deu alguma pista de quanto tempo ficaria hospedada durante a conversa entre vocês? – Persisti, não querendo que aquela chama de esperança se apagasse tão brevemente.

– Hum… — O segurança permaneceu reflexivo, acariciando o cavanhaque ralo. – Ela falou muito de muita coisa, mas não estou me recordando de nada que o possa ajudar. Nada mesmo. Bem, Ava disse que adoraria conhecer a cafeteria Tim Hortons, e não sairia daqui até passar por lá. Tim Hortons, eu amo o chili deles. Porém, ela falou que não iria sozinha, porque tomar café é um momento para ser compartilhado com amigos, algo assim. É, amigos ou família. Então como não a vi com ninguém, provavelmente ela ainda não visitou a cafeteria. E se ela ainda não visitou… temos uma chance de ela estar aqui, eh? – O segurança terminou a frase com uma entonação promissora, dando-me uma cotovelada de brincadeira.

A linha de raciocínio do funcionário era muito fantasiosa, mesmo assim criei uma pequena expectativa. Afinal, Ava parecia ser uma pessoa imprevisível, do tipo que realmente ficaria por mais um dia no Canadá apenas para achar uma companhia que tomasse um café na Tim Hortons, ao passo que ela também parecia do tipo que convidaria um estranho na rua só para tomar um café na Tim Hortons.

– Então vale a pena esperar mais um pouco. – Falei para ele, dando de ombros. O segurança, que de acordo com seu crachá se chamava Billy, ofereceu-me o sofá de espera para sentar. – O que mais Ava disse a respeito desse cretino?

– Ela comentou que o tal sujeito era o único cara que conhecia aqui no Canadá, e que ele a levaria ao Scarborough Bluffs se atendesse ao pedido dela. Eu fui ao Scarborough Bluffs ano passado, é bem legal. Aí perguntei se o cara era algum namorado ou pretendente, e Ava respondeu que não, embora ele fosse uma gracinha. – Não pude evitar que minhas bochechas enrubescessem nesse momento. – Então ela esperou um bom tempo, exatamente aí onde você está sentado agora, exatamente, sim. Depois acabou desistindo, percebi que ela ficou bem triste. Não sei qual é a do cretino, mas ela parecia se importar bastante com ele. Sim, parecia se importar bastante com ele. – Billy abaixou a cabeça, suspirando. – Tanta gente querendo encontrar alguém legal e esses babacas desperdiçando a oportunidade e partindo corações de boas garotas. Pobres corações partidos.

– Sim. – Concordei, meu olhar perdido para a janela. A culpa se alastrava em mim na mesma velocidade que um raio se partia no céu, tão pesada que até chegou a dificultar minha respiração. Eu era um desses babacas.

– Por que você está atrás dela? Achei que Ava conhecesse apenas uma pessoa no Canadá. – Interrogou Billy, interrompendo o meu remorso hipnótico. – A não ser que você seja o tal cara… — Ele desconfiou, franzindo o cenho.

– Eu… eu sou o irmão dele. Vim pedir desculpas, meu irmão é uma pessoa bem difícil de lidar.

Billy arregalou os olhos, passando a mão na cabeça.

– Eu que tenho de pedir desculpas! Foi mal por chamar seu irmão de cretino. Foi mal mesmo, não fazia a mínima ideia.

– Não precisa se desculpar, ele de fato é um cretino. – Soltei uma risada falhada, ao ver o segurança encabulado pela minha mentira.

Olhei para o relógio de pulso, faltavam vinte minutos para as dez horas. Provavelmente Ava já poderia estar acordada. Ou não. A inglesa convivera com tantos fusos horários diferentes que o seu relógio biológico deveria ser uma bagunça. Enquanto ponderava sobre os afazeres de Ava, observei os hóspedes circulando pelo hall, alguns chegando com suas malas enormes e outros saindo para os seus passeios turísticos com chapéus e blusas havaianas floridas por baixo dos casacos de lã.

– Quando ela desistiu de esperar meu irmão, parecia muito triste ou só um pouco? – Perguntei, brincando com o os meus dedos entrelaçados.

– Bem, tudo ocorreu de forma gradativa, sabe. No início, ela estava extremamente empolgada, dava gargalhadas o tempo inteiro e andava de um lado para o outro, como se não conseguisse conter a própria energia. É, ela tinha bastante energia. Conforme o tempo foi passando, ela sentou nesse sofá e suas gargalhadas se reduziram a pequenos risos. Aquelas risadinhas forçadas que você dá quando está cansado, entende? Sim, risadinhas forçadas. Até que ela desanimou de vez. Ficou olhando para o chão com a mente bem longe daqui. E aí resolveu subir para o quarto. – Explicou Billy, voltando para a sua pose moldada de segurança do hall.

Montei todo o cenário na minha cabeça: escutei as gargalhadas deliciosas de Ava ecoando pelo ambiente, em seguida senti a decepção corroer a sua energia e altivez como uma doença, até as suas esperanças morrerem e a angústia finalmente atingir o seu âmago. O fardo do arrependimento esmagou meu peito, e uma onda de vergonha me percorreu provocando um arrepio na espinha. O que ela estaria pensando de mim agora? Se ainda estivesse no Canadá, continuaria a querer me ver? Quais palavras eu diria para compensar a mancada que dei, caso a encontrasse naquele instante no hall?

Uma hora e meia transcorreu desde que resolvi aguardar pela sua hipotética presença, e eu estava sentindo as minhas esperanças esvaecerem iguais as de Ava. Talvez aquele fosse meu castigo, sofrer o mesmo que ela sofreu e não obter nenhum resultado no final. Mesmo assim, esbocei um discurso mentalmente no qual diria que a minha mãe havia sofrido um acidente e não pude comparecer ao compromisso, mas que estava com muito peso na consciência por tê-la deixado esperar e somente naquele sábado eu conseguira algum tempo para passar no Clarion Hotel. Sim, eu estava profundamente, profundamente, muito profundamente arrependido. E eu repetiria “profundamente” até que ela me perdoasse.

Parecia convincente.

Simulei o discurso para Billy, porém troquei as palavras “eu” por “meu irmão”. O segurança ouviu até a minha última palavra mantendo a sua postura ereta de forma imaculável e o olhar fixo em um quadro diante dele.

– Considero muito bonito o gesto que está fazendo pelo seu irmão. Bonito, bonito. Mas há decisões que tomamos nessa vida que não importam as desculpas a serem ditas, as mágoas continuarão lá, dentro das pessoas. E pode até parecer que elas acreditam nos discursos bonitos, porém existem atitudes que nos marcam sem volta, sabe?

Digeri a opinião de Billy por alguns segundos, julgando como uma conclusão muito drástica. Eu era apenas um cara desconhecido que não havia comparecido em um louco encontro marcado por um bilhetinho, e não achava que tal situação poderia repercutir uma sequela tão prolongada.

Os ponteiros do meu relógio de pulso divagavam no interior da caixinha de vidro, indicando que ainda eram onze e dez da manhã. Eu alternava meu olhar entre meu relógio e o do hotel, que estava dois minutos adiantados, portanto tornando-se o meu relógio favorito. Cada segundo se arrastava, e comecei a ter impressão de que cada segundo estava durando dois segundos, na verdade. Enterrei meu rosto em uma das mãos, apoiando o braço sobre o joelho. Apanhei o celular e chequei os grupos de bate-papo do Whatsapp, sendo que cada um continha mais de mil mensagens não lidas, acumuladas durante meses. Abri o grupo formado pelos meus amigos “mais próximos”, intitulado de Os Superdotados de Ontário, e comecei a rir sozinho.

Joey Allen: caras, não axei minhas muletas até hoje. Minha mãe sentiu falta delas e eu disse que o cachorro deve ter interrado em algum lugar.

Jack Leblanc: o que seu cachorro enterrou foram as suas aulas de Inglês. Pelo amor de Deus, volta para o primário…

Evan Parker: não tem como voltar, ele nunca saiu do primário. HAHAHAHAHA

Jack Leblanc: que vaciiiloooo! HAHAHAHAHAHA

Joey Allen: na próssima briga que vocês se meterem, não contem comigo para espantar as moscas, seus ingratos…

Liam Dixon: calma Joe, para o emprego de guarda-costas não é necessário ter uma faculdade.

Jack Leblanc: sério? Então o Jim também pode virar um guarda-costas.

Joey Allen: isso é muito vaçilo, o cara nem está aqui para se defender!

Jack Leblanc: porra Joey, você é burro ou também tem Alzheimer? Acabei de dar a cola de como se escreve “vacilo” e você escreve um estrupício desses na minha tela! Ai meus olhos! Meeeus ooolhos!

Liam Dixon: HAHAHAHAHAHAHA

Joey Allen: Jack, você está muito engraçadinho para alguém que me pediu para guardar o segredo sobre a calçinha

Evan Parker: HAHAHAHAHA

Evan Parker: gente, eu só tenho uma urina guardada na minha bexiga e eu não sei se eu me mijo de rir do segredo da calcinha ou dos erros gramaticais do Joe.

Liam Dixon: UUUUUUUH segredo da calcinhaa! Essa história promete! Desembucha logo Joey!

Andrés Reyes: que calcinha é essa, gente?

Liam Dixon: o Andrés só aparece na conversa quando chega a hora de falar sacanagem…

Andrés Reyes: sacanagem? Vocês estão falando sobre sacanagem a essa hora da manhã?

Evan Parker: não existe hora certa para falar de SEXO, Andrés.

Andrés Reyes: caras se controlem, por favor, minha irmã está aqui do meu lado e ela pode acabar lendo alguma coisa.

Evan Parker: pode acabar lendo o que? A palavra SEXO?

Liam Dixon: qual o problema da palavra SEXO, Andrés? Ela é tão bonita, S-E-X-O!

Evan Parker: SEXO SEXO SEXO SEXO SEXO SEXO SEXO

Andrés Reyes: o.k., volto mais tarde quando as crianças terminarem de falar sobre como deve ser tocar o peitinho de uma garota…

Continuei lendo a conversa, que acabou em uma risada sobre uma piada imoral e sem a revelação do segredo da calcinha. Jack Leblanc desapareceu da conversa no mesmo instante que Joey mencionou o tal fato, o que me fez presumir que o segredo da calcinha era verídico.

Joguei alguns aplicativos e após revi as fotos que eu tinha guardado no celular. A maioria delas era com Margareth, e passei o dedo lentamente sobre o display, estudando cada foto. Abraços, beijos e risadas espontâneas. Ela segurando uma colher com o nariz, ela dormindo no sofá, ela fazendo caretas, ela construindo um boneco de neve. Cada imagem daquela continha uma história, e fui relembrando o passado como um filme romântico de final trágico. Passei por uma foto que eu particularmente gostava: o rosto de Marge bem próximo da câmera, dando para notar cada detalhe de sua íris azulada e do esboço de suas feições preguiçosas, os braços esticados num espreguiço congelado no tempo. Tínhamos tirado a fotografia logo após acordarmos de um cochilo à tarde, ainda deitados na cama e abraçados manhosamente. Por trás dos longos cabelos dourados de Marge, as últimas faixas de sol sobre a Terra se esvaíam.

Tentei não sentir saudade, tentei não sentir mágoa, tristeza ou rancor. Tentei me manter indiferente quanto àquela imagem, meus olhos tenros admirando todas as minúcias que aqueles pixels poderiam oferecer. Não era necessário conhecer a nossa história para constatar que a foto exalava o que tinha de mais íntimo em nós. O nosso amor. E a emanação daquele instante estava gravada para sempre em minha memória.

De uma por uma, apaguei as fotos que eu tinha com ela em um processo doloroso, mas firme. Procurei não demorar muito, pois se eu parasse para pensar provavelmente mais lembranças viriam à tona e a coragem para deletá-las desapareceria na mesma velocidade que eu havia a criado. Conservei-me impassível, como se houvesse uma muralha de concreto que protegesse todo o meu peito contra aquelas inofensivas fotografias. E assim consegui apagar todas, exceto a minha favorita. Nesta, a minha muralha foi derrubada bem no seu centro, desmoronando-a por completo. Contemplei mais uma vez a foto, soltando um suspiro.

– Bom dia, Billy! – Cumprimentou uma voz com sotaque inconfundível.

Ergui o rosto e esquadrinhei o hall rapidamente, vendo o vulto dos cabelos cor de fogo desaparecer pelo vão da porta de entrada.

– Vá atrás dela, garoto! – Billy encorajou, fazendo sinal para que eu me apressasse.

Corri alguns metros, com a expectativa misturada à ansiedade explodindo dentro de mim como fogos de artifício. Abri a porta em um único empurrão e avistei a inglesa de blazer azul violáceo e boina quadriculada caminhando até a calçada movimentada. Com passos largos fui até Ava e cutuquei seu ombro com a mesma urgência de um bombeiro que apaga um incêndio. Ela se virou para mim, e seus olhos castanhos vivos penetraram nos meus cinza gélidos. Uma ligeira felicidade perpassou por mim ao constatar que ela realmente estava ali comigo. Ava me analisou da cabeça aos pés, como se não acreditasse no que estava vendo. Uma expressão perplexa tomava conta de sua face levemente corada.

E agora, o que diria para ela?