Notas iniciais
Primeiramente, agradecer à recomendação linda da Miss Snow *-* e dar boas-vindas aos novos leitores. Já devo ter falado por aqui, mas volto a repetir: cada um de vocês é importante para mim! Os leitores são a alma da inspiração de um escritor (pelo menos aqui no Nyah, hahahaha). Espero que gostem, como sempre.

Fale a primeira coisa que vier à cabeça...

– Oi – Eu disse, com a voz para dentro.

– Olá… — Ava respondeu, franzindo o cenho. – O que está fazendo aqui?

– Eu estou aqui para pedir desculpas. – Pigarreei, simplesmente o meu discurso planejado fugiu da minha mente e eu não tinha ideia do que falar para ela. Encaramo-nos por longos instantes, e senti minhas bochechas pegarem fogo. – Então… desculpa por deixá-la esperando naquele dia. Estou me sentindo péssimo. Arrependido. Profundamente, profundamente, profundamente arrependido. – Engoli em seco, presumindo que não fui nem um pouco convincente. – Profundamente mesmo.

Ava ergueu as sobrancelhas, aparentemente surpresa. Seus lábios entreabertos procuravam uma resposta, mas apenas conseguiram um questionamento.

– Você veio até aqui só para isso?

– Sim. – Realmente eu era um idiota. Eu não poderia ter me despencado do subúrbio para o centro da cidade somente para dizer aquele pedido de desculpas horrível. – Talvez eu também esteja aqui para tomar um café na Tim Hortons. – Complementei, dando de ombros.

Ela permaneceu com o olhar baixo, discernindo a situação. Enquanto isso, observei os seus fios lisos de cabelo escorrerem levemente por cima de seus olhos.

– Por que você não veio? – Ela perguntou em voz baixa, quase num sussurro.

– Eu… — Hesitei várias vezes, até relembrar o discurso que fiz para Billy. – Não pude ir, pois precisei levar a minha mãe ao hospital, ela torceu o pé. Torceu bem feio. Tipo, ficou tão inchado que parecia elefantíase.

– Ela está bem agora? – Ava perguntou, demonstrando preocupação. Ufa. Ela havia acreditado.

– Sim, melhor impossível. Ela ficará de cama por alguns dias, mas nada sério. Não liguei para lhe avisar porque você não é muito adepta aos aparelhos eletrônicos, então...

– Verdade. – Ela balançou positivamente a cabeça em pequenos movimentos. – Nossa, como eu fui injusta. Naquele dia, eu pensei que você havia furado comigo de propósito. Sabe, parecia que você me achou a garota mais irritante do universo. Muita gente gosta do meu jeito hiperativo, mas eu compreendo que há outras pessoas mais quietas que preferem companhias mais… quietas. Definitivamente não sou a companheira ideal para elas! Se bem que uma vez, o meu amigo me disse que indivíduos com personalidade introvertida preferem andar com pessoas de personalidade extrovertida, como se fosse um equilíbrio entre a amizade, tipo yin-yang. Então como eu falo muuuuito, o adequado seria andar com pessoas muuuuito quietas. Continuando, eu pensei que você havia me odiado e que nunca mais queria me ver novamente, quer dizer, você foi meio grosso comigo e mesmo assim eu deixei aquele recado. Tenho que confessar, xinguei você um pouco. Mas pelo visto, eu estava errada e eu também lhe devo desculpas por ter te achado o cara mais babaca e arrogante de todo o Canadá.

Cocei a nuca, impressionado com a honestidade de Ava. Não era todo dia que eu encontrava pessoas que realmente falavam o que estavam pensando, pelo menos exatamente como estavam pensando, sem eufemismos e comedimentos. Fiquei envergonhado por estar tão longe de ser sincero como ela estava sendo comigo.

– Aceito as suas desculpas somente se você aceitar as minhas. – Eu disse, e um pequeno sorriso começou a nascer nos lábios de Ava, que perdeu o controle e deu mais uma de suas gargalhadas musicais.

– Temos um acordo, senhor Carten. – Ela esticou a mão direita e eu a apertei, sentindo a delicadeza e maciez de sua palma.

– Que tal conhecermos a Tim Hortons agora? – Ofereci.

– Você andou conversando com o Billy, não é? – Ela indagou, expressando desconfiança.

– Por que a pergunta? – Brinquei, enquanto prosseguíamos a caminhada pela calçada da Sherbourne Street com as mãos nos bolsos.

– Eu comentei com ele sobre o meu desejo de ir à cafeteria.

– Desculpe-me Ava, mas há muitos canadenses que desejam ir à Tim Hortons todos os dias. Não se sinta especial. – Ela riu. – Sim, de fato conversei com Billy um pouco.

– E o que mais ele falou para você? – Uma leve expressão receosa ocupou a face de Ava. Imaginei que sua preocupação tivesse algo relacionado ao elogio “gracinha”.

– Ele falou que você é a garota mais irritante do universo, e que eu deveria fugir dali enquanto ainda havia tempo. Ah, e que você estava planejando uma vingança para mim que envolvia agulhas e alicates de dentista. Acho que só.

– Ele se esqueceu de dizer que eu finjo perdoar as pessoas para me vingar quando elas menos esperam.

– O.k. Agora estou com medo de você. – Nós rimos juntos.

– Viu, eu sabia que você estava fingindo ser sério! – Ela exclamou, enquanto ajeitava a boina em cima da cabeça.

– Eh, você me pegou.

De repente o emaranhado de pensamentos e sentimentos confusos desapareceu da minha cabeça, deixando um vácuo de alívio que estava sendo preenchido pela leveza daquele momento. A rua era movimentada por carros, pessoas e ciclistas, sendo banhada pelo sol do meio-dia que avivava os tons da cidade. Tudo parecia exalar uma harmonia eufórica, onde eu também podia participar daquilo ao encher meus pulmões com o ar fresco da estação.

A cafeteria se localizava ao final da rua, na esquina com a Bloor Street. Ao entrar no estabelecimento, rapidamente fomos recebidos pela aconchegante calefação que aqueceu nossas mãos e pontas do nariz, permitindo que nós pudéssemos nos desfazer dos agasalhos pesados. Ava se interessou pelo café mocha, enquanto eu pedi o tradicional double-double. Sentamos em uma mesa um de frente para o outro, ao lado da grande janela de vidro que nos desligava do dinamismo das ruas.

– Então, como você aproveitou esses dias estando numa das maiores cidades multiculturais do mundo? – Perguntei, bebericando o café fumegante com cautela.

– Eu apenas saí duas vezes. Na primeira, explorei o que tinha aos arredores do hotel e acabei descobrindo que o Royal Ontario Museum fica a somente vinte minutos daqui! Nossa, eu simplesmente fiquei maravilhada com toda aquela arquitetura excêntrica. Fiquei uns dez minutos lá em frente que nem uma boba, admirando a imensidão daquelas estruturas pontiagudas como se elas estivessem me engolindo. Você teve essa sensação também? Depois tentei entender o que significava todas aquelas formas, e cheguei à conclusão de que parece um livro aberto, sendo folheado. E para você, o que parece?

– Para ser sincero, eu nunca parei para analisar a arquitetura do Royal Ontario Museum. Acho que se eu passei por lá três vezes, foi muito.

– Você nunca entrou lá? – Ava questionou, boquiaberta. Ela sugou com vontade o café mocha com o canudo, fazendo um semblante de dor instantes após. Em seguida começou a respirar pela boca, balançando as mãos exasperadamente. – Ai, ai, ai! Queimei minha língua!

– Se você beber igual a um refrigerante é meio óbvio que isso irá acontecer…

– Eu sempre, sempre me queimo com bebidas quentes. Não sei beber algo sem utilizar a língua! – Ela exclamou, como se estivesse brigando consigo mesma.

– O segredo de beber algo quente é fazendo bico, assim. – Projetei os lábios para frente como se fosse dar um beijo e Ava me imitou. – Em seguida você suga o líquido como se estivesse puxando o ar para dentro, e aí você mantém a língua abaixada e o café vai direto para a goela, está vendo? – Expliquei sem desfazer o bico, falando como se estivesse com um ovo dentro da boca. Demonstrei o processo sorvendo um gole do café e ela tentou fazer o mesmo, porém mais uma vez sua face se converteu em uma expressão dolorosa.

– Ai, ai, ai, ai, ai! Agora queimei a queimadura!

– Bem, realmente é uma técnica que exige muita prática, então não fique triste se você fracassou na primeira vez. Está na mesma categoria de dificuldade de assobiar, amarrar cadarços ou fazer bola de chiclete…

– Ha-ha-ha. – Ela ironizou, com a mão sobre o rosto. – Você ainda não respondeu a minha pergunta.

– Sobre o museu? Não, eu nunca estive lá. Eu não sou fã desses tipos de passeio turístico. – Falei, em tom enfadonho.

– Então está perdendo uma experiência extraordinária! Quer saber, você precisa ir lá. Nós precisamos ir lá. Urgentemente. – Ela determinou, com um entusiasmo que a fez esquecer sua dor de língua num instante.

– Pode ser, vamos qualquer dia desses… — Desconversei, afinal visitar museus definitivamente não era o meu programa favorito.

– Não, precisa ser hoje! Estamos tão próximos, basta virar a esquina! E além do mais, você está me devendo uma! – Ava insistiu, igual a uma criança. – Por favor, por favor, por favor! – Ela continuou a implorar com as mãos atadas em forma de reza.

Eu sabia muito bem que não bastava virar a esquina para chegar ao Royal Ontario Museum, mas do modo como Ava estava me pedindo fiquei com medo de negar e ela acabar chorando.

– Tudo bem. Podemos dar uma passada rápida. – Concordei, derrotado.

– Eeeee! – Ela comemorou, batendo palmas com um sorriso de orelha a orelha. Não pude conter uma risada que escapuliu pelo canto da boca. – E depois nós poderemos passar na Universidade de Toronto, guia turístico?

– Calma, uma coisa de cada vez, por favor! O que você quer ver por lá?

– Quero conhecer a minha nova universidade, oras. Serei transferida para a Universidade de Toronto para cursar o segundo ano em Odontologia. Quer dizer, não é exatamente o segundo ano, ainda estou inscrita em matérias do primeiro porque com tantas mudanças de país para país minha grade curricular acabou se transformando numa salada. Mas continuo a ter esperanças de receber o meu diploma, quem sabe, daqui a dez anos…

– Ah, entendo. Deve ser legal seguir a mesma carreira que os pais. – O fato de eu não frequentar a faculdade me fazia esquecer que jovens da minha idade costumavam estudar em uma.

– Em qual faculdade você se formou?

A indesejável pergunta foi lançada fazendo com que um calafrio percorresse a minha espinha.

– Eu não me formei, e também não estou cursando nenhuma faculdade. – Respondi amargamente.

– Ah, entendo. Você está estudando para o processo seletivo para conseguir ingressar numa faculdade, como é no Brasil?

– Hum… acho que não é bem assim. Aqui no Canadá basta você obter boas notas na escola e pagar a faculdade, não existe nenhuma prova. Graças a Deus.

– Interessante. Então… — Ela não terminou a frase, fazendo um gesto com a mão para que eu a completasse.

– Então o que?

– Por que você não está fazendo uma graduação?

Respirei fundo, soltando o ar pelas narinas. Aquele assunto realmente me deixava desconfortável, nem todo mundo era capaz de compreender a minha dificuldade.

– Eu não consegui decidir o que fazer ainda. Não possuo interesse especial por nenhuma área, porque até agora não descobri no que eu sou bom. Quer dizer, eu quero trabalhar com algo que eu realmente goste. Não desejo acabar me frustrando e me tornando um fracassado futuramente, que odeia todos os dias de sua vida e se sente um inútil por não ter encontrado uma posição no mundo na qual se encaixe.

Ava umedeceu os lábios, reflexiva.

– Eu entendo você. Perfeitamente. Eu não costumo admitir isso para ninguém, mas... – Ela se inclinou sobre a mesa, fazendo com que seus longos cabelos avermelhados deslizassem sobre a superfície. — Eu também não gosto de Odontologia. O meu sonho é ser arquiteta – Ela cochichou, pesarosa.

– Tipo, Arquitetura e Odontologia são carreiras super idênticas. – Nós rimos. – E por que continua fazendo, então?

– Bem, na verdade eu descobri que gosto de Arquitetura depois que entrei na Universidade de Bristol, ainda na Inglaterra. Eu sempre fui influenciada pelos meus pais, que me incentivaram a seguir a carreira deles e acabei acreditando que seria o ideal para mim. Entretanto, quando comecei a cursar vi que não tinha n-a-d-a a ver comigo. Então houve um dia de apresentações dos cursos para os estudantes e assisti à palestra de Arquitetura. Foi amor à primeira vista! No entanto eu continuo cursando Odontologia, pois não quero decepcionar meus pais. Sabe, eles estão tão felizes e orgulhosos de mim, fazendo vários planos com tanta satisfação que não tenho coragem de simplesmente dizer que acho estudar dentes um saco e trancar a matrícula.

– Mas eles precisam entender. Você já os acompanham pelo mundo inteiro por causa do trabalho deles, mesmo que esteja sofrendo bastante com isso. Seria muito egoísmo de seus pais não compreenderem o seu lado.

Ava consentiu, enquanto brincava com um pedaço de guardanapo.

– Seus pais entendem a sua indecisão? – Ela perguntou sem levantar o olhar da mesa, sua voz continha sobriedade.

– Bem, eles fingem que sim. Mas no fundo eu sei que estão loucos para que eu decida entrar em qualquer carreira, estando satisfeito ou não. Eles ligam bastante para o que os vizinhos pensam de mim.

Ava deu uma risadinha de consolação, e eu percebi que aquele assunto estava desgostoso para ambos.

– Quem aí está a fim de ver coisa velha? – Perguntei, fingindo uma leve entonação de vontade.

Ava ergueu o braço, mudando o seu ânimo numa fração de segundo.

– Eu! Eu! Eu!

– Então vamos para um asilo. Brincadeira.

Notas finais
A Tim Hortons é uma cafeteria canadense verídica. Se um dia visitar Toronto, não se esqueça de pedir o tradicional Double-Double! ;)