Notas iniciais
Espero que gostem!

Prossegui meu caminho até chegar à casa de Liam, que ficava logo de frente para a praia. A casa, que estava mais para um chalé, tinha três andares e varandas minúsculas com balaústres de cor branca que serviam mais para enfeite do que para um cômodo exterior da casa. Toquei a campainha e logo em seguida Andrés me atendeu, risonho.

_ Só estava faltando você! – Ele anunciou, dando-me um abraço forte.

Andrés é filipino, o que significa dizer que ele vem das Filipinas (parece um pouco óbvio, mas até hoje não sei muito bem por onde fica as Filipinas). Eu confesso que sinto muita admiração por ele, devido a sua história de vida e o modo como ele ainda encara os fatos. Andrés perdeu praticamente metade da família em um tufão e escapou da morte por um fio, e desde então se mudou com o pai e os três irmãos para o Canadá. Porém mesmo com aquela catástrofe, ele não é o tipo de pessoa depressiva e fracassada, muito pelo contrário, Andrés mantém uma estima incrível e valoriza cada instante que vive e isso inclui abraçar todo mundo em toda oportunidade que tem, além de declarar o que sente em relação a cada um. Quem não o conhece estranha bastante, porque aqui no Canadá a gente não tem muito o costume de contato físico.

_ Sabe como é, moro em Scarborough. Que bom te ver, cara – Eu disse, dando leves tapas em suas costas.

_ Você precisa comprar uma casa por aqui, irmão.

_ Claro, só estou esperando a minha plantação de maconha crescer e aí estou feito.

Atravessamos o hall de entrada que era coberto por plantas trepadeiras e fomos para a cozinha, onde uma gritaria imperava e uma música eletrônica soava um tanto alta. Pelo caminho, deparei-me com várias pessoas que nunca tinha visto, carregando caixas de cerveja e soltando risos aleatórios. Uma garota de madeixas loiras e boca colorida de vermelho topou de frente comigo ao sair do banheiro e esboçou um sorriso de canto para mim, saindo pela lateral com um olhar de esguelha.

_ Acho que ela gostou do que viu – Falou Andrés sem escrúpulos, com uma expressão marota.

Ao chegarmos à cozinha que ficava na parte dos fundos, deparei-me com a seguinte cena: Joey, que estava de muletas sem eu saber o porquê, equilibrava uma lata de cerveja na ponta da muleta e tentava ridiculamente bebê-la sem derrubá-la, enquanto que os outros gritavam seu nome até ele dar o primeiro gole e a lata espatifar no chão, inundando o piso de porcelanato impecavelmente branco com o líquido amarelo espumante. Joey urrou feito um urso, comemorando a sua vitória de sabe lá o quê, ao passo que os outros urraram em seguida e quiseram pular em cima dele como se tivessem marcado um countdown num jogo de futebol americano.

_ CALMA AÍ, SEUS IDIOTAS! MINHA PERNA! – Ele rugiu, fazendo uma cara de dor quando alguns já haviam se jogado por cima dele.

_ Oi gente… – Cumprimentei o mais tranquilamente possível, ignorando aquela cena e fingindo que tinha amigos normais e sãos que entenderiam a situação difícil que eu estava passando.

_ JAMES! – Gritou primeiramente Jack erguendo a cabeça da montanha humana, seguido pelos outros, fazendo um coro dessincronizado de doer os ouvidos.

Todos vieram até mim para apertar minha mão e trocar meios abraços, exceto Joey que continuava arrastado no chão com a mão no rosto.

_ Comece a beber antes de contar toda a história de como levou o pé na bunda do ano. Quero te ver bêbado para filmar e pôr no Youtube – Falou Liam, entregando uma lata congelada de Coors Light na minha mão que rapidamente adormeceu meus dedos.

_ Vá se danar, Liam. – Retorqui, abrindo a lata que soltou um guincho refrescante e dando uma grande golada na bebida que desceu queimando.

_ Pelo menos terá um tempo para os amigos agora, eh? Não entendo porque certas pessoas simplesmente desaparecem quando namoram. – Insinuou Evan, atirando o tronco para cima do balcão de mármore.

_ Por sexo.

Já íamos para a sala de estar, quando Joey berrou por socorro. Colocamos o cara de dois metros em pé e entregamos as muletas, e ele nos seguiu mancando até o aposento onde a festa estava concentrada. A sala de estar do Liam era cinco vezes maior que a minha, com espelhos alastrados pelas paredes que duplicavam seu tamanho, e um teto rebaixado de gesso que tinha cinco sistemas de jogo de luzes. Os sofás de couro estavam lotados de jovens que gritavam na tentativa de estabelecer uma comunicação, fosse por causa da música que parecia sair de todas as frestas da casa ou pelo álcool. Ficamos acomodados nos primeiros degraus da escada que eram revestidos por um carpete mais macio que a minha cama, enquanto que Joey preferiu sentar numa poltrona reclinável que Jack empurrou para ele.

_ Mas o que aconteceu aí? – Perguntei, apontando para a perna imóvel de Joey com o queixo.

O grandalhão fez uma cara rabugenta, falando baixo:

_ Apliquei a injeção do jeito errado. Agora vou ficar mancando por uma semana. Já aconteceu antes, nada demais.

_ Cara, você já tem doutorado nisso e mesmo assim ainda erra – Gozou Jack, provocando risos.

_ Joe, tem certeza que isso não é perigoso? Tipo, você já está usando há muito tempo. – Disse Andrés, expressando a sua típica preocupação com os amigos.

_ O que não mata engorda, eh? – Respondeu Joey dando de ombros, apertando seu próprio bíceps que parecia mais com uma coxa de boi. – E como está o nosso patinho maltratado? – Ele mudou de assunto, virando-se para mim. Joey detestava que os outros lembrassem de que ele usava anabolizante, e sempre desviava de assunto quando os holofotes caíam sobre ele por mais que cinco segundos – a não ser que uma gatinha estivesse admirando seus músculos.

_ Com ódio. Raiva. Rancor. E tudo o que não há de bom. – Respondi desanimado, relembrando do nó no estômago e o fato de que eu estava sozinho.

_ Tenha fé irmão, isso vai passar. – Consolou Andrés, pousando a mão no meu ombro com firmeza.

Eu olhei para ele, e recordei da primeira vez que o filipino nos contou sobre as mortes na sua família e as cicatrizes que o tufão havia deixado nas suas costas, e me senti um total estúpido por estar cabisbaixo por uma garota que já estava com outro. Lancei um sorriso de canto e meneei com a cabeça, revoltado com a minha própria lamúria.

_ Quer saber, que se dane aquela vadia. Onde está a vodka?

Eu queria ultrapassar os limites naquela noite, ingerir mais álcool que um carro flex. Mas a verdade é que eu nunca tinha feito isso na vida, então já se pode imaginar o estrago que foi. O que evita maiores tragédias nessas situações são os amigos mais experientes que te avisam a hora de maneirar, porém no meu caso o único amigo que realmente tinha bom senso naquela casa era Andrés, e ele não bebia. Logo, participei de todos os brindes e de todas as competições de bebida nos quais quem perdesse era obrigado a virar uma long neck (eu perdi a maioria), e não recusei nenhuma tragada de narguilé cuja essência era puro álcool etílico.

Dancei em cima do sofá, derrubei o vaso de flores da mesa de centro, chamei uma garota de gostosa e levei um tapa na cara, mirei todos os cantos do banheiro com urina menos o vaso sanitário, joguei as muletas do Joey pela janela (ele ficou esperando um bom tempo na poltrona muito enraivecido até alguém fazer a caridade de ir atrás delas), fiz as melhores amizades com pessoas que nunca mais vi na vida até começar a virar o bêbado chato e depressivo que só sabia falar da ex-namorada.

O álcool é como uma montanha-russa: você é o cara mais legal do universo até chegar ao ponto mais alto, depois é só uma descida única, rápida e sem volta. Há quatro tipos de bêbados no ponto mais baixo da montanha-russa: os depressivos, os amáveis, os espertos e os agressivos, e os quatro estão agrupados no mesmo conjunto de “chato”.

Eu descobri que era depressivo, quanto que Jack Leblanc era agressivo e já estava procurando por briga com um cara que só havia derrubado seu copo sem querer. Eu realmente queria que a briga acontecesse, pois Jack estava dando um passo para frente e dois para trás e não conseguia manter a cabeça parada na mesma posição, mas o cara era sensato e viu que seria uma competição um tanto injusta.

Afundei no sofá ao lado de Joey, com a mente rodando de tal forma que cada passo dado parecia um terremoto escala 9 de Richter. Coloquei as mãos nas têmporas na tentativa de colocar a minha cabeça no lugar que ela deveria estar, mas não deu muito certo. Olhei para Joey, que tinha um riso caçoado nos lábios. Ele estava tremendo ou era impressão a minha?

_ Você tá doidão.

_ E você… tá cem por cento... para dizer o contlálio…

Ambos nós gargalhamos, prosseguindo um silêncio asnático após.

_ Sinto pelo que aconteceu com a Marge, cara. Ela não merecia um pedacinho de você. – Joey disse, esboçando um espaço extremamente curto entre os dedos indicador e polegar.

_ Ela já me superou, Joe. Ela já tem… um papagaio… pra ela. – Eu falei, levando quase um minuto para terminar a frase.

_ Papagaios são legais.

_ Não, Joe… ela já tem outro… é isso. – Expliquei, tampando a minha boca ao sentir todo o álcool incendiando meu esôfago na tentativa de se livrar do estômago cheio.

_ Nããão! – Bradou Joey, pasmo. – Ninguém pode te substituir!

_ Eu sei, irmão. – Nós nos abraçamos fortemente, e fui engolido pelos músculos do Joey até que minha visão se resumisse ao bordado do time de futebol Argonauts do seu moletom.

Joey era o bêbado amável.

_ Ela já tem alguém! Dá para acreditar?! – Anunciou Joey para Jack e Liam, que se aproximavam apoiados um no outro com passos rastejantes.

_ Megera! – Retrucou Liam, empurrando Jack para o sofá, este caindo feito uma fruta madura da árvore. – Mas de quem você está falando mesmo?

_ Da Marge, cara. Da Marge. – Joey respondeu, as lágrimas nos olhos se acumulando e molhando os nós dos dedos.

_ Sério, Jim? – Liam perguntou, com uma lerdeza de trinta segundos depois que Joey havia dito a última palavra.

_ Tudo verdade. Aquela piranha desgraçada. – Xinguei, inclinando meu corpo para deitar, prestes a vomitar a qualquer instante.

_ Você tem que tomar seu posto, não pode abrir mão da guerra tão fácil! – Replicou Liam, apontando o dedo para o nada, como se eu fosse um soldado ferido que tinha de voltar para o combate.

_ Do que você está falando? – Questionei, após soltar um arroto etílico.

_ Marge ainda gosta de você, e está fazendo isso somente para provocar ciúmes, mostrar que não precisa de você para viver. O que ela realmente quer é você correndo atrás dela, dizendo que a ama e dando um leãozinho de pelúcia de presente!

_ Por que leãozinho? – Perguntou Joey, totalmente hipnotizado pelo discurso de Liam.

_ Porque sim, Joe! Você irá mandar uma mensagem para ela agora, falando que quer voltar, e vamos acabar com essa palhaçada de vez.

_ Tem certeza? – Eu indaguei com insegurança.

_ Eu sei o que estou dizendo, cara. Confie em mim.

Liam era o bêbado esperto.

_ Você não concorda comigo, Jack? – Liam se virou para Jack, que já estava desmaiado no sofá de boca aberta.

_ Eu concordo! – Apoiou Joey, batendo palmas.

Liam foi até o cabideiro, onde apanhou meu celular no bolso do casaco térmico. Jogou até mim, fazendo um gesto para que eu digitasse a mensagem. Ajeitei-me no sofá lentamente e levei alguns segundos para encontrar o ícone de mensagens no display. A caixa de texto se abriu e encarei a tela branca que doía meus olhos. Eu poderia escrever qualquer coisa naquela tela, e este era o problema: encontrar as palavras que me definiam naquele emaranhado de sentimentos. Depois de uma outra ameaça estomacal, digitei letra por letra:

Sinto sua falta.

Hesitei antes de clicar em “enviar”, mas minha mão parecia tão pesada que o dedo cedeu à resistência.

Olhei para Liam, que possuía um semblante de aprovação. Eu não sabia se o que eu tinha acabado de fazer era o correto, mas toda a sensação de solidão e de que havia algo errado comigo tinha desaparecido, assim como o meu senso para saber o que estava certo ou errado também tinha.

Notas finais
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