O Outono é a Cor dos seus Olhos
21 A Cor dos seus Olhos
Notas iniciais
O trânsito estava livre ao contrário do que eu havia previsto, e tivemos que deixar o carro estacionado em uma rua próxima e prosseguir andando, pois o Distillery District é uma área reservada somente para pedestres. O lugar é praticamente uma vila européia conservada ao longo de décadas, constituída de casas estilo vitoriano e galerias. Após tanto esforço, a loja Greg’s Icecream estava fechada com a sua pequena placa na porta rindo para nós, afinal de contas somente pessoas insanas como Ava White gostariam de tomar sorvete em pleno clima de três graus. Sentamos numa escada de mármore composta por dois ressaltos que pareciam mais como defeitos na calçada, em frente à porta de vidro trancada. Ficamos um ao lado do outro, com os nossos queixos batendo nos joelhos dobrados.
– E agora? – Perguntei, ao vê-la tristonha.
– Cara, não sei. Tudo o que eu queria era uma bolinha de sorvete de morango com nozes. E cobertura de chocolate. E raspinhas de chocolate. Aquele canudinho de biscoito também seria uma boa. Hmmm. – Ela suspirou, sonhadora.
– Eu gosto de sorvete de passas ao rum. Morango é um sabor tão… simples. É só morango – Comentei, esticando os braços para trás e apoiando as mãos sobre a calçada de paralelepípedo.
– Sorvete de passas ao rum é coisa de gente velha. “Olá, tenho sessenta e nove anos e gosto de passar a tarde de domingo fazendo compras online na Polishop e comendo sorvete de passas ao rum” – Ava brincou, imitando a voz de uma pessoa idosa e ranzinza.
– O que você tem contra a Polishop? – Interroguei, rindo.
– Fala sério, apenas pessoas aposentadas sonham em comprar um barbeador elétrico que corte os pelos do nariz e se preocupam com batatas fritas sequinhas.
– Eu me preocupo com batatas fritas sequinhas. Tenho colesterol alto.
– E você também gosta de sorvete de passas ao rum, sendo mais uma prova de que você é um senhor de oitenta anos preso a um corpo de jovem! Só me falta dizer que também gosta de fazer sauna vestindo uma bermuda quadriculada e comendo um pacote de uvas passas.
– É mesmo? Então o vovô aqui irá levá-la imediatamente para casa, pois já está na hora do toque de recolher.
– Então tente me pegar!
E assim Ava se levantou num pulo ágil e correu em disparada pela rua de paralelepípedo praticamente deserta, ecoando o som das chapas de metal das suas botas entre as construções antigas que se misturavam com as lojas modernas do distrito. Não acreditei que eu estava correndo atrás dela, quando me dei conta de que já havia me erguido e a acompanhado na corrida. O vento frio cortava minha face como se esta fosse um cubo de gelo que se trincava em vários pedaços, e as fachadas da vila passavam como vultos vermelhos pela visão periférica. Minhas pernas queimavam, e o casaco estava pesado demais para suportar o movimento dos ombros. Mas eu continuei a correr, mesmo que o bico dos sapatos pudesse prender entre as frestas dos paralelepípedos, e eu continuei a correr, concentrando-me somente em Ava que ria deliciosamente e nos seus cabelos que espargiam pelo ar como as flamas de uma fogueira selvagem. Desembocamos em um dos extremos do distrito, onde havia uma praça com uma escultura bem esquisita em seu centro que se assemelhava a uma chupeta gigante. Ava contornou o monumento circularmente e eu fingi segui-la, entretanto corri para o sentido contrário e acabamos topando frente a frente. Ela soltou um grito de desespero ao perceber que eu iria atingi-la e tentou dar meia-volta, mas eu já havia pegado a borda de seu sobretudo esvoaçante e a puxei para perto de mim, trazendo o seu corpo junto ao meu.
– Você me enganou, não é justo! – Ela protestou, alternando a respiração ofegante com as palavras.
– E você fez o vovô correr, não é justo também – Nós rimos ao mesmo tempo. – Minhas pernas estão queimando. Talvez eu não tenha somente a alma, mas o corpo de um velho também…
Permanecemos próximos enquanto recuperávamos o fôlego, nossos peitos subindo e descendo ritmicamente. A distância entre nós era tão curta que eu podia sentir o calor emanado do corpo dela, produzido pela energia gasta.
– Não fique com ciúmes dele, seus olhos também são lindos – Falou Ava, abrindo um sorriso verdadeiro.
Levei alguns segundos para captar a mensagem e assim que a assimilei, abri um sorriso também, encabulado.
– Eu? Eu com ciúmes… ciúmes de quem? Daquele cara? O cara da Bloor Street? Eu nem o conheço! Como… de onde tirou isso? – Gaguejei, constrangido. E mais uma vez minhas bochechas se tornavam duas maçãs fervilhantes.
– Ah James, pode confessar para mim. Você sentiu ciúmes quando eu garanti que realmente estava descrevendo aquele cara no jogo da verdade. E eu nem sei por que ficou enciumado, se os seus olhos são mais bonitos que os dele!
Dei uma gargalhada nervosa, apoiando-me nos fios de aço da chupeta gigante que se erguia ao nosso lado.
– Bem, se você está dizendo, quem sou eu para contrariá-la? – Eu disse, com uma expressão galante que eu não pude conter.
– É verdade verdadeira, Jim. Não estou mentindo para agradá-lo. Sua íris é cinza ou azul? – Ela perguntou, inclinando sua cabeça para perto da minha, de tal forma que a única coisa que eu conseguia enxergar era seu rosto bem próximo com os grandes olhos curiosos vasculhando o interior dos meus. Se Ava desse um passo a mais, sua testa acabaria se encostando à minha.
– O que você acha, doutora? É bom ou ruim? – Brinquei, sem mover um fio de cabelo para evitar exceder o estreito espaço que nos separava.
– Suas pupilas estão pequenas, então acho que você está bem – Ela respondeu, rindo. Ava voltou para a sua posição original. – De fato, são cinza. Parabéns James Carten, você agora faz parte da Associação dos Olhos Nublados.
– Sinto-me honrado. E você faz parte da Associação dos Olhos Castanhos.
– Blééé. Você tem que criar um adjetivo para a cor dos meus olhos, só assim a brincadeira tem graça! – Ava queixou, arregalando seus olhos para que eu pudesse analisá-los bem.
– Deixe-me ver.
Copiei o seu movimento e me inclinei para sua direção, novamente encolhendo o intervalo entre nossas faces. Existe um espaço particular entre os indivíduos que não se deve ultrapassar, exceto quando acontece um beijo ou um abraço. Geralmente não ultrapassamos essa área de privacidade para analisar os olhos de alguém.
Estudei as faíscas escuras que partiam da sua pupila negra e brilhante e que mergulhavam no castanho vívido, cuja extremidade era mais clara e o seu interior mais avermelhado, como uma avelã madura. Senti que ela olhava diretamente para mim, e esbocei um leve sorriso.
– O outono é a cor dos seus olhos – Eu disse. – Eles possuem todos os tons das folhas secas das árvores de maple.
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