O Orfanato: Orfanato Ou Hospício
11 É Difícil Dizer Adeus
Notas iniciais
Seus lábios tomam os meus enquanto ele se inclina sob mim. Eu dou um tapa estalado no seu rosto que deixa a marca vermelha da minha fúria no formato da minha mão.
Amber: Canalha!
Ele ri.
Peter: Eu não mereço um beijo de despedida?
Ele faz um biquinho.
Amber: Claro, eu tenho certeza de que a parede adoraria um beijo seu.
Hayden me ajuda a levantar.
Hayden: Sério, Peter. Eu já entendi que você quer ferrar a minha vida, mas deixa a Amber fora disso.
Peter: Você não faz ideia, né?! Você realmente não se toca. Cara, você e eu crescemos juntos. Nós éramos irmãos! Aí você conheceu ela.
Ele aponta pra mim.
Peter: Aí você fica diferente de uma hora pra outra. Agora você é todo romântico. Cara, você esqueceu quem você é. Acorda.
Ele se levanta e sai.
Amber: Por mim já chega. Cansei.
Saio do auditório e vou até o 21.
Ao chegar, olho no relógio. São cinco e quarenta. Sou a primeira a chegar no quarto. Eu pego uma toalha e entro no banheiro. Tomado o banho, coloco uma calça jeans, sapatilha preta e uma blusa branca. Penteio o meu cabelo e o prendo em um coque. Saio em direção à sala da Tia Hattie;
Ao chegar, bato na porta e ela se abre.
Tia Hattie: Oi, Amber. Está pronta?
Amber: Sim.
Nós andamos até a garagem, a Tia Hattie abre o portão e nós entramos.
Tia Hattie: Boa noite, Bessie.
Ela destrava o carro e nós entramos. Afivelo o cinto e ouço o barulho do motor sendo ligado. Volto a minha atenção ao tempo. Hoje não choveu, mas também não fez muito sol...
Lilly P.O.V
Peter me olha com lágrimas nos olhos.
Peter: Tchau bafo-de-bode.
Uma lágrima escorre pelo seu rosto.
Peter: Eu te amo.
Nos abraçamos.
Lilly: Eu sei.
Lilly: Venha me visitar.
Peter: Tá.
Ele me solta e bagunça o meu cabelo. Eu rio. Não me incomodo com essas coisas.
Ethan me beija intensamente, soltando a sacola que carrega.
Lilly: Tchau.
Digo com a voz embargada. Uma lágrima rola pelo meu rosto.
Ethan: Eu vou cuidar do seu irmão. Voltarei para te visitar sempre que puder. Eu nunca vou te esquecer.
Eu começo a chorar. Ele enxuga as minhas lágrimas.
Peter: Bafo-de-bode, você está chorando?
Lilly: Não, os meus olhos estão suando!
Kyle: Lilly, os olhos não suam.
Lilly: É IRONIA!
Kyle: Essa moça é bonita? Se todo mundo fala dela, deve ser.
Nós rimos. Então o Peter e o Ethan entram no carro vermelho e vão embora junto com o sol, em uma explosão de cores: amarelo, laranja, rosa, vermelho, roxo e azul.
Amber P.O.V
Entro no quarto e lá está ela. Usando roupas de hospital, seus cachos dourados soltos, um braço e uma perna engessados, respirando pela cânula, como sempre.
Amber: Oi, Kate.
Amber: Eu sinto a sua falta. Todos os dias. Melhora, tá?
Amber: Hoje o Peter me beijou no meio da peça. Eu dei um tapa na cara dele... Sempre quis dar um tapa desses...
Amber: Já até imagino o que você diria agora: To confusa. Eu deveria chamar ele de Tio Peter?
Eu rio.
Amber: Não, Kate.
***
Eu entro no 21.
Alex: Am, que bom que você chegou. Você perdeu a despedida do Ethan e do Peter, mas eu acho que você não liga... O problema é que a Lilly tá meio triste. Ela aponta para a Lilly que enterrou o rosto no colo da Alex.
Lilly: MEIO triste?!
Ela se levanta, com os cabelos azuis caindo sob o rosto.
Amber: Eu sei, Lilly. Não é fácil... Mas a gente tem que seguir em frente.
Lilly: Mas eu não quero seguir em frente, eu quero o meu irmão e o meu namorado de volta.
Eileen: Não é como se eles estivessem mortos, Lilly. Você pode ir visita-los e eles virem te visitar...
Amber: Se eu te der um pirulito você engole o choro?
Ela fica quieta e acena positivamente.
Eu pego um pirulito que eu tinha ganho da Tia Hattie há alguns dias e a entrego. Ela agarra o pirulito, o desembala e enfia na boca.
Lilly: Meu precioso!
Ela fala, imitando o Smeagol (de O Hobbit e Senhor dos Anéis).
Nós rimos.
***
Alguns meses se passaram desde a apresentação da peça. O Jason foi embora semana passada. A Amy também, mas eles não foram juntos. Então, quem sobrou foi o Hayden, o Kyle, a Alex, a Lilly, a Eileen e eu. Estou na Bessie à caminho do hospital para a rotineira visita.
Tia Hattie: Chegamos.
Eu desafivelo os cintos e nós saímos.
Entramos no hospital, cumprimentamos a Janet e andamos pelo corredor até o quarto em que a Kate tem estado. Desta vez, a Tia Hattie entrou junto comigo. Ela costuma ficar esperando na sala de espera. Que estranho, o doutor também está aqui. O que será que ele está fazendo aqui no horário de visitas?
Doutor Perkins: Olá, Amber e Hattie.
Tia Hattie: Já foi confirmado, doutor?
Doutor Perkins: Sim, já está tudo pronto.
Amber: Do que vocês estão falando?
Doutor Perkins: Amber, é melhor se sentar.
Eu me sento. Agora estou começando a ficar preocupada...
Doutor Perkins: Amber, você sabe quanto tempo faz que a sua irmã está aqui no hospital?
Amber: Uns sete a oito meses, por quê?
Doutor Perkins: É um bom tempo, não é?
Amber: Aonde o senhor quer chegar?
Doutor Perkins: Amber, como médico, a minha função é dar o meu melhor para salvar as vidas dos meus pacientes. E nós temos tentado com todas as nossas forças, mas não há mudança nenhuma. Nós já tentamos de tudo, mas não encontramos nenhuma solução para o problema de Kate. Está vendo essa máquina conectada nesses “tubinhos”?
Amber: Sim.
Doutor Perkins: Essa máquina consome muita energia, sabe. Energia é dinheiro e nós não podemos mais gastar com um paciente improdutivo, entende?
Eu limpo a garganta, que parece estar com algo entalado.
Amber: Vocês vão desligar a máquina?
Doutor Perkins: Nós não podemos nos dar ao luxo de continuar..
Eu o corto, falando mais alto.
Amber: Vocês vão desligar a máquina?
Doutor Perkins: Sim, me desculpe, Amber. Mas não há nada que possamos fazer.
Amber: Ela sobreviverá sem a máquina?
Doutor Perkins: Bem, a probabilidade é mínima.
Enxugo impacientemente uma lágrima que cai.
Amber: Quando?
Doutor Perkins: Ainda hoje, eu presumo.
Amber: Então não foi pra visitar que você me trouxe aqui, foi? Foi pra dizer adeus!
Tia Hattie: Eu sinto muito, eu... Não tive outra escolha...
Amber: Vocês não sabem o quanto eu tentei, o quanto eu me esforcei pra que Kate tivesse uma vida normal. Eu era praticamente um pacote três em um: mãe, pai e irmã. Vocês acham que foi fácil?! NÃO FOI. Eu desisti de muito por ela. Aí vocês vem e me dizem que vão desligar a máquina. VÃO DEIXAR ELA MORRER! Ela não merecia isso. Ela merecia uma vida boa, uma vida normal. Ela é uma menina incrível. Uma vez, ela achou um cachorro na rua, mancando, todo ferido, à beira da morte. Ela o levou pra casa e cuidou dele por um ano. Ela fazia maravilhas, era lindo ver como ela alegrou o cachorrinho. Um dia, o cachorrinho escapou e foi atropelado na rua. Ela sofreu tanto... Eu jurei pra mim mesma que eu nunca mais deixaria ela sofrer.
As lágrimas invadem-me a face, rolando em uma explosão de tristeza, raiva e o mais forte: dor. Não a dor física, uma pior, a dor que se sente na alma, que perfura o coração.
O doutor deixa a sala, sem consolo, nem palavras.
Tia Hattie me abraça.
Amber: Dói. Dói muito.
Eu digo entre soluços.
Tia Hattie: Eu sei, eu sei. Mas, vai ficar tudo bem.
Eu olho para a Kate, deitada na maca, em um sono do qual não vai acordar.
***
Estou sentada à mesa no salão principal. Cutucando um prato de macarrão. Acabo de contar o que houve.
Eileen: Come, Am. Macarrão é o seu preferido.
Amber: Eu não estou com fome.
Eileen: Eu sei que você está triste, mas precisa comer.
Amber: Eu não sinto fome, não sinto calor, não sinto frio, só sinto o vazio que me preenche.
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