O Orfanato

9 Quintal vintage


Uma semana depois de voltar à rotina da faculdade, chegou o fim de semana. Eu e meus melhores amigos, George e Felipe, decidimos ir a um pub. Sam foi conosco.

– Lembra quando nós éramos namorados, Sofia? – George relembrou.

– Vocês namoraram? – Sam perguntou confuso. – Você não é...

– Gay? – ele completou a pergunta e logo respondeu. – Sou, mas antes disso, Sofia e eu namoramos. Não durou nem um mês. Eu não conseguia aceitar a homossexualidade, e como nós sempre fomos melhores amigos, a Sofie tentou me ajudar.

– Mas não deu certo. Eu sempre soube que ele era gay, mas ele quis tentar. – Continuei.

– Então, no segundo semestre da faculdade eu conheci o George e a Sofie, nós viramos melhores amigos até que em um belo dia de sol, quando nós estávamos voltando para a casa, eu disse a ele que o amava e aqui estamos. – Felipe terminou a história.

– Foi bem mais amorzinho vendo.

– Você começou a chorar, Sofie. – George lembrou rindo.

– Não ria de mim! Eu estava no ápice da minha TPM, como não iria chorar? Foi tão lindinho!

– Uau, que história engraçada e estranha e confusa. E como era o namoro de vocês? – Sam estava interessado na história.

Então, começamos a relembrar a nossa “história”.

– Eu lembro que o George ia para a minha casa nos finais de semana e nós ficávamos nos sites de fofocas, ele fazia as minhas unhas, nós líamos as revistas, falávamos do pessoal da faculdade...

– A gente fazia pipoca de micro-ondas e olhava “O casamento do meu melhor amigo”. A Sofie era Julianne e eu o George, o amigo gay. Legítimas noites do pijama! Nossa! Falando isso agora eu vejo como eu sou gay.

Conversamos e rimos até a madrugada. Estava com saudade dos meus amigos da faculdade. Não via George desde o final das aulas, ele foi passar as férias na Inglaterra visitando sua família real. Ele é britânico. Isso explica seu nome. Quando tinha três anos, seus pais se divorciaram e como sua mãe é brasileira, ele veio para cá. Nessas férias o Felipe foi com ele para ser apresentado para a sua família. Todos aceitaram muito bem seu relacionamento. Na verdade, eles já sabiam da opção sexual de George, só o próprio tentava fugir disso.

– Eu tenho almoço de família amanhã! Não sei como vou conseguir acordar antes do meio dia, tenho que ir para a casa. Tchau meninos! Você vem comigo, Sam?

– Claro que sim.

– Sofie, nós temos que marcar uma festa do pijama! O que você acha que sábado que vem? – George perguntou.

– Sim! Você e o Fe na minha casa, então. Nós combinados isso melhor segunda.

Entramos dentro do táxi e o Sam começou a me questionar sobre fazer uma festa do pijama com o Fe e o George.

– Para de ser ridículo, eles são completamente apaixonados um pelo outro. Eu não vou te convidar porque você vai se sentir deslocado. Nós conversamos sobre assuntos femininos. Não será divertido para você.

– Ta. Nós vamos pra sua casa agora e depois eu vou para a minha. Que horas começa o almoço?

– Por que você não dorme na minha casa?

– Não dá, eu combinei de sair com a minha mãe amanhã de manhã. Nós vamos ao supermercado.

O taxi parou na frente da minha casa, me despedi de Sam e desci. Entrei e a minha mãe já estava dormindo. Fui para o meu quarto e quando abri a porta vi que tinham vários ursinhos de pelúcia perfumados sobre a minha cama. Aposto que o Sam havia se esquecido da surpresa senão teria me contado como sempre faz. A cara dele fazer isso. Tomei banho e fui dormir.

– Acorda, Bela Adormecida... – Sam sussurrava perto do meu ouvido. – Todos estão a sua espera.

– Só mais cinco minutinhos.

– Sofie, acorde. Estou aqui desde as onze horas, ajudei sua mãe a fazer o arroz e a maionese, e o seu quase padrasto a fazer churrasco. Vamos, levante.

Levantei da cama e fui para o banheiro. Quando me olhei no espelho e vi o estado em que me encontrava, lembrei que o Sam que havia me acordado e que ele havia me visto desse jeito. Toda escabelada e com a cara amassada. Desci com ele e não tinha ninguém na sala, estavam todos no quintal.

– Finalmente! – exclamou minha mãe quando me viu.

– Depois de muito tentar, consegui acordar a Bela Adormecida.

– Como vocês são umas gracinhas. – Retruquei.

Geralmente eu acordo mal humorada e naquele dia eu estava.

– Cuidado senão ela morde. – Meu quase padrasto alertou.

– Fábio, fica frio. – Minha mãe o cortou.

O churrasco não estava pronto ainda. Então nos sentamos na mesinha e ficamos conversando. No nosso quintal tinha aquela mesinha branca de ferro, com as cadeiras brancas de ferro também, como nos filmes. Nosso quintal era como um quintal de filme. Em estilo vintage. A segunda melhor parte da casa. A primeira era o meu quarto.

– E, então, quando sai o casamento?

– Filha! – minha mãe estava envergonhada.

– O que foi? Eu só fiz uma pergunta inocente. Vocês já estão juntos há mais de cinco anos. Está na hora.

– Eu já disse isso para a sua mãe, mas ela está me enrolando.

– Acho que o churrasco está pronto, querido. – Mamãe falou desviando o assunto.

Fábio tirou o churrasco de espeto, pôs numa travessa e colocou sobre a mesa já posta.

– Adivinha quem colocou a mesa? – Sam perguntou se entregando.

– Hummm – fiz uma expressão pensativa, – você, talvez?

O churrasco estava ótimo. Na época que os meus pais eram casados, meu pai não fazia churrasco, nós íamos a uma churrascaria, ou comprávamos pronto. Mas nada que se compare ao que o Fábio faz. Ele vem aqui em casa pelo menos uma vez por mês para assar. E de sobremesa, o Sam levou uma torta de limão e outra de bolacha.

– Eu juro que fui eu que fiz! Sou um ótimo cozinheiro! – ele dizia tentando me convencer.

– Ahh, eu adorei os ursinhos perfumados que você comprou pra mim! – lembrei deles naquele exato momento.

– Mas eu não comprei nada...

– Eu sei que você comprou. Quem mais faria isso? – estava confusa.

– Eu estou falando sério. Não comprei nada. Será que não foi a sua mãe? – Sam tentou achar um “culpado”.

– Perguntei à minha mãe se havia sido ela a responsável pelos ursinhos, mas ela negou e explicou que um entregador havia deixado uma caixa e que o remetente tinha pedido para que ela colocasse sobre a minha cama. Ela o fez, pensando que fosse de você.

– Isso está estranho. Muito estranho. Quem mandou isso para você então?

Notas finais
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