O Orfanato
10 Ursinhos perfumados
Havia se passado sete dias desde começo dessa loucura e nada do remetente dos ursinhos aparecer. Não fazia ideia de quem tinha feito aquilo. Se não era do Sam, de quem era então? Quem deixaria ursinhos e ainda por cima perfumados? Não fazia sentido. Enquanto estava pensando sobre isso, os meninos chegaram aqui em casa. Iríamos fazer nossa festa do pijama. Contei para eles sobre o mistério dos ursinhos e eles ficaram tão curiosos quanto eu para saber de quem eles vieram.
– Como assim você não faz ideia de quem tenha te mandado isso? – George indagava querendo uma resposta que eu não sabia dar.
– Não faço ideia! Foi um de vocês dois para me pregarem uma peça?
– Claro que não. Você sabe que se fosse nosso, o George já teria se entregado. – Fe respondeu. E é verdade. O Ge não sabe guardar segredos.
– Eu já estou ficando maluca! – falei gritando. – Por que a pessoa que fez isso não dá um sinal de vida?
– O Sam deve estar adorando esse mistério também. – George lembrou dele. – Até porque esses ursinhos, provavelmente, não vieram de uma mulher.
– Nem me fale. Preciso saber quem me mandou isso!
– Vamos parar de pensar um pouco nisso e começar nossa sessão cinema. Eu trouxe “O casamento do meu melhor amigo”, “Titanic”, “Dirty Dancing”, “O guarda-costas” e “Ghost”. – Felipe estava tentando me distrair.
– E aqui nessa bolsa tem dez barras de chocolate ao leite e branco e um pacotão de Ruffles! – George disse animado.
Estávamos assistindo ao segundo filme da nossa lista, quando meu celular tocou, na parte mais triste do filme, quando Rose percebe que Jack está morto, e o solta no mar.
Era um número desconhecido.
– Espera um minuto, meninos, vou atender.
Saí do quarto e fiquei no corredor. Entre soluços atendi o celular. Era o Bento.
– Você está chorando? – interrogou com voz de preocupação.
– Sim, reação clássica de quando assisto Titanic.
– Ah ta! Então, você gostou da surpresa? Estava esperando você me ligar para fazer algum comentário, mas como você não ligou, então, resolvi eu mesmo ligar.
Do que ele estava falando?
– Os ursinhos... – ele respondeu como se pudesse ler os meus pensamentos.
– Espera aí, foi você que mandou os ursinhos perfumados?
Não estava acreditando.
– Sim, você gostou? – ele perguntou na maior naturalidade, como se nós fossemos super íntimos.
– Foi muito bonito, mas, Bento, eu tenho namorado.
– Eu sei, mas eu mandei como amigo. Naquele dia do parque, enquanto estava no carro, olhei para o lado e vi uma loja cheia de ursinhos. Resolvi comprar os mais bonitos para você.
Não sabia o que falar. Estava sem palavras.
O silêncio estava ficando constrangedor, então, Bento continuou o assunto.
– Eu não sabia que isso iria te deixar chateada. Não foi a minha intenção. Se eu soubesse não teria enviado os ursos para você.
– Eu não fiquei chateada. É só que... você não deixou nenhum remetente. Eu não sabia quem tinha mandado. E foi uma surpresa para mim que os ursinhos vieram de você. Entende?
Quando eu vejo, George e Felipe estavam parados a frente da porta, esperando que eu desligasse o telefone.
– Sim, eu entendo. Não quis causar isso. Tchau, Sofia.
Não consegui responder de volta. Apenas desliguei o telefone. Ainda estava perplexa. Os meninos estavam esperando uma resposta minha.
– Então!? De quem vieram os ursinhos carinhosos perfumados? – Felipe estava me olhando fixamente.
Os dois estavam com as sobrancelhas erguidas, expressando curiosidade.
– Vieram do Bento.
– Quem é Bento? – os dois perguntaram ao mesmo tempo.
Eu não havia contado para eles sobre o Bento.
– Um cara que eu conheci num jantar da empresa da minha mãe. Naquele dia, eu e o Sam estávamos brigados, então, eu fui sozinha. Ele estava sentado ao meu lado e nós ficamos conversando a noite toda. Depois a mamãe foi para a casa do Fábio, e ele me deu uma carona.
– Só isso? – George perguntou esperando que eu tivesse mais detalhes para contar.
– Só isso. Ah, e naquela noite estava frio e ele me emprestou seu blazer.
Então, Felipe segurou as minhas mãos e falou sério:
– Sofie, ele está apaixonado por você.
Só consegui rir.
Os meninos têm mania de juntar casais e falar que todos estão apaixonados. O problema é que eles esqueceram que eu não preciso mais de um namorado. E o outra, o Bento não estava apaixonado por mim. Ele mesmo disse que havia mandado os ursinhos sem segundas intenções. Mesmo se ele estivesse apaixonado por mim, eu tenho o Sam, e eu o amo.
– Vamos voltar a ver o filme. – Larguei as mãos de Felipe e me direcionei ao quarto.
– Nós terminamos sem você... Vamos colocar “Darty Dancing”. Adoro ver o Patrick Swayze rebolando aqueles quadris. – George comentou.
E lá estava o clímax do filme. A dança. Adorava assistir esse filme com eles. Sempre quando chegava nessa parte, nós começávamos a cantar a música. Ou melhor, berrar a letra da música.
– Because, I’ve had the time of my liiiiiiiifeee, no I never felt this way before. Yes, I swear, it’s the truuuuuthhh, and I owe it all to youuuuuuuuuuu. – Nós três berrávamos juntos.
E de repente, Felipe começou a ter um ataque de riso. Eu e Ge ficamos nos olhando e logo percebemos o por quê daquela crise.
Na primeira vez que assistimos a esse filme juntos, nós tentamos fazer a dança. Eu era Jennifer Grey e o George era Patrick Swayze. Ocorreu tudo bem até que resolvemos fazer a parte em que ela pula e ele a põe no alto. Pois é. Não deu certo. Eu e o Patrick... digo, George, caímos no chão feito dois patetas, enquanto o Felipe ria da nossa cara. Lógico que esse momento sempre foi citado nas nossas festas do pijama.
Continuamos assistindo ao filme e mais uma vez fui atrapalhada pelo toque do celular.
– Por que você não desliga essa joça? – Fe disse rindo.
– Deve ser um dos amores dela. Atende! Vamos descobrir quem é. Sam ou Bento?
– Aposto no Sam. O Bento deve estar chorando agora pela rejeição de mais cedo.
– Dá pra vocês dois pararem! – dito isso, atendi o celular. E só para constar, era o Sam
– Como está a noite com os seus amigos? – Sam perguntou.
– São quase quatro horas da manhã. Ainda não foi dormir? – não sei por que disse isso. Foi a primeira coisa que saiu da minha boca.
– Desculpe, mamãe. Já estava indo dormir. – Sam dava gargalhadas. – Então, o que estão fazendo por aí?
– Maratona de filmes. Já assistimos Titanic – que inclusive perdi o final por uma ligação, mas esse detalhe não contaria ao Sam – e agora estamos vendo Dirty Dancing. Está no final.
– Qual o próximo?
– O casamento do meu melhor amigo.
– Assisti a esse filme hoje com a minha mãe. Estava passando na TV a cabo. Me lembrei de você e George. – ele falou dando uma risadinha.
– E você? Está fazendo o que por aí?
– Assistindo filmes com a minha mãe. Ela me fez ver filmes de amorzinho. Estávamos assistindo Nunca é tarde para amar. Lembrei de você também. Agora estava pensando se ligava ou não para você. Não quero parecer um namorado controlador.
– Eu adorei você ter ligado. Só um minuto – tirei o celular do ouvido – o que vocês querem? – perguntei sussurrando para os rapazes.
– Que você mande um oi para o Sam. – Eles falaram juntos.
– Oi – Sam berrou. – Ah! Sofie, eu reservei uma mesa para nós jantarmos no seu restaurante favorito. Tenho uma surpresa para você.
– Tudo bem. Então, até amanhã.
– Amo você.
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