O Orfanato

1 O garoto do Mc Donald's


Era véspera de Natal, duas e meia da tarde, e como de costume o centro estava lotado. As lojas estavam cheias e as pessoas com sacolas até o pescoço. Por que os brasileiros deixam tudo pra última hora? Ou melhor, últimos segundos?

Fui pegar um sorvete, em um dos quiosques do Mc Donalds, e sem perceber acabei esbarrando com um garoto, lindo por sinal.

– Ah, me desculpe! Por favor, pode atendê-la primeiro. disse com um sorriso encantador.

– Imagina, você chegou primeiro, por favor, moça, atenda ele. Eu posso esperar.

– Mas eu me meti na sua frente sem querer. Perdoe-me. Atenda ela.

E lá nós ficamos naquela briga. Até que a atendente nos interrompeu e ele, vendo que eu não iria passar na frente, cedeu.

Depois daquele incidente, ainda tinha que comprar mais alguns brinquedos e correr para o orfanato.

Chegando na casa tive uma surpresa. O garoto do Mc Donald's estava lá. Estava lá e na minha cadeira. Cadeira onde eu costumo sentar para falar com as minhas crianças. Ele ficou espantado assim que me viu e logo foi se levantando. Já as crianças, ficaram muito felizes. Ah, como eu adoro aquelas crianças. Já fazem parte de mim. Há um ano que as visito e realmente me tornei outra pessoa.

Sentei-me na minha cadeira e Alberto, o mais velho, foi pegar uma cadeira para o garoto do sorvete. Perguntava-me o que ele poderia estar fazendo ali. Não parecia ser do tipo que deixava a família para ajudar as crianças. Me enganei.

Quando iria começar a entrega dos presentes, as crianças me puseram uma touca de Mamãe Noel, e puseram um chapéu de duende no garoto, serei seu ajudante, disse ele em um tom de voz quase imperceptível. Peguei a lista com o nome das crianças, apesar de não precisá-la, e abri o saco de presentes para começar a distribuição.

Cada entrega era um abraço e uma criança feliz. Como me sentia bem fazendo aquilo. Quando chegou na hora da entrega do brinquedo da Cecília, ela me deu o melhor abraço de todos. Identifico-me muito com ela. Ela é como eu era com 6 anos. Lógico que eu não passei por tudo o que ela passou, como, a morte da mãe, o abandono do pai e ter que ser largada em um orfanato, mas mesmo assim ela é uma criança feliz, que pensa no futuro e adora Barbie. Sempre que vou lá, vemos os filmes da Barbie, e de Natal, eu fiz questão de lhe dar uma. A sua cara quando abriu o presente, nossa, aquele foi o meu presente de Natal. A carinha de cada criança feliz foi o meu presente.

Ora ou outra percebia que o garoto me observava.

Assim que terminei a entrega de presentes, as crianças me deram o melhor presente que já recebi. Um vídeo de agradecimento. Com fotos e filmagens de nossos encontros mensais. Comecei a chorar. Chorar muito. O garoto me confortou em seus braços. No começo foi estranho, um qualquer que eu não sabia nem o nome, me confortando. Mas depois, parecia que já nos conhecíamos, de tão a vontade que fiquei com ele. No final do vídeo estava com a cara vermelha e inchada. Não sei por que, mas fiquei preocupada com o meu estado. Será que estava me importando com o que ele acharia da minha cara toda inchada? Com certeza, não.

Hora do lanche que eu trouxe pra vocês! disse o garoto. Fiquei pensando, como ele sabia que tinha que levar lanche?. Isso não me importava agora, só queria aproveitar meu momento com as crianças, antes que a dona do orfanato, Cristina, começasse a me expulsar daqui. Como de costume, também levei algumas comidinhas que as crianças adoram. Antes do Natal, pedi que elas fizessem uma listinha do que queriam que eu comprasse, e o fiz. Montamos a mesa, e por vários momentos notei o garoto me observando. Observando o modo que eu falava e que tratava as crianças. Isso estava ficando estranho.

No final do horário do lanche, Cristina já chegou me expulsando. Ela não gostava de ver as crianças felizes? O que a levou ser dona de um orfanato? Não sei, e não me importa. Só queria que ela tivesse mais amor por aquelas crianças que precisam tanto de afeto.

– Tudo bem, Cristina! Já estou saindo, me dê mais cinco minutos, por favor!? – eu disse impaciente. Comecei a me despedir das crianças, e o garoto fez o mesmo. Quando saímos, ele se pôs ao meu lado e começou a caminhar comigo.

– Então, há quanto tempo você visita as crianças? – ele indagou tentando iniciar uma conversa.

– Há um ano. – respondi friamente.

– Acho que ainda não me apresentei me chamo Sam. – disse ele estendendo a mão para que eu a apertasse, então o fiz.

– Me chamo, Sofia. – respondi de volta. – E o que te levou ao orfanato?

– Eu moro duas casas antes dali. – ele falou apontando para uma casa vermelho bordô enorme. – Resolvi visitá-los este Natal. Acho que no meu subconsciente, algo me dizia que deveria ir. E ele estava certo. As crianças são incríveis, e a menina que cuida delas tem um coração imenso. Se um dia eu puder, gostaria de estar dentro desse coração também. – ele disse diminuindo o tom de voz.

Oi? O que aquele menino do sorvete estava falando? Aquilo foi uma declaração?

– Nós já passamos da sua casa faz um tempo... – disse tentando desviar da declaração que recebi faz pouco.

– Sim, eu sei. Mas resolvi te acompanhar até o trem, certo? Nós estamos indo até o trem? – ele perguntou sem graça.

– Sim, mas não precisa se dar ao trabalho. Eu posso ir sozinha. Você deveria estar em casa, com a sua família. Não acompanhando uma estranha. Por favor, volte. – pedi, mas desejando ao contrário.

– Que isso, imagina! Meus pais e minha irmã estão no mercado. Vão voltar só à noite. – ele disse me contrariando, como eu havia imaginado que ele faria. – Onde você mora?

– Em Fireeasy. É 20 minutos de trem. Então você tem uma irmã? – queria mesmo saber sobre aquele rapaz.

– Sim, ela é três anos mais velha que eu, tem vinte anos.

– Como ela se chama?

– Bárbara. E você? Tem irmãs ou irmãos? – perguntou.

– Não, – disse meio triste – acho que é por isso que eu me apeguei tanto às crianças do orfanato.

– Principalmente à Cecília. Estou certo? – ele disse fazendo uma cara de sabido.

– Isso é tão óbvio? – perguntei preocupada. – Não queria que as crianças sentissem isso. Eu gosto de todas elas, mas realmente, a Cecília é a criança com a qual eu mais me identifiquei. Quando eu tinha a idade dela pensava igual a ela, gostava das mesmas coisas.

– Não é óbvio. Acho que eu acabei te observando demais, e acabei chegando a essa conclusão. – Ele disse envergonhado.

– Você é um bom observador. – E então ele assentiu com a cabeça como forma de agradecimento.

Depois disso, fomos calados até a estação, ora ou outra ele me olhava, acho que queria ver se estava contente ao lado dele.

– Então, quando nos vemos novamente? – ele perguntou fazendo uma cara encantadoramente tristonha.

– Se a Cristina não implicar, eu pretendo visitar as crianças dia 31.

– Quer que eu fale com ela? Assim você não precisa se deslocar até aqui. Eu posso ligar para te dar a resposta. – Ele falou meio nervoso, como se tivesse pensado em algo rápido para conseguir o meu número.

– Tudo bem – ele conseguiu – me empresta seu celular pra eu adicionar meu número.

– Sim, aqui está – disse tirando o celular rapidamente do bolso e colocando na minha mão.

Devolvi o celular e exatamente no mesmo minuto meu trem chegou.

Quando fui beijá-lo na bochecha ele acabou indo para o mesmo lado e acabamos nos beijando sem querer. Nossos lábios se tocaram durante um segundo, mas foi o suficiente para nos deixar completamente envergonhados.

– Desculpa! Meu Deus, como sou desastrado. Foi sem querer, quer dizer, eu não faria isso, não sou assim, me desc... – ele estava completamente nervoso, resolvi interromper.

– Não foi nada, foi sem querer, eu sei. – Disse entrando no trem.

– Tchau – falou abanando timidamente.