O Orfanato
2 HO-HO-HO
Cheguei em casa deitei-me na cama e fiquei pensando naquele dia. Primeiro nos esbarramos no Mc Donalds, depois, o encontro no orfanato e então ele me acompanha até o trem. Depois nos beijamos sem querer e confesso que achei muito fofo o modo que ele ficou depois disso, e o quão nervoso ele ficou. A primeira vista ele não parecia esse tipo de garoto. Ele aparenta ser daqueles que encantam todas as garotas. E que se aproveitam disso. Quando ele estava interagindo com as crianças, percebi que ele não era o bad boy que eu pensava que fosse. Pelo contrário. Será que estou apaixonada? Acabei de conhecê-lo. Não é possível. Meu telefone toca, interrompendo meus pensamentos.
– Alô? – disse pensando que fosse ele.
– Oi, filha! Liguei só pra avisar que a mamãe já está chegando em casa. Beijinhos.
Por que minha mãe fala desse jeito comigo? Como se eu tivesse 11 anos e não 17.
Depois disso, voltei aos meus pensamentos. Será que ele realmente vai me ligar? Hoje é noite de Natal e vou tentar não pensar nisso.
Nove horas, minha família já estava toda aqui. Em volta da mesa, devorando um Peru. Espero que a Cristina esteja assim com as crianças também. Não me preocupo porque confio na Maria, a cozinheira, que adora as crianças, e provavelmente, como no Natal passado, esteja com as crianças. Enquanto pensava nelas, meu telefone tocou.
– Alô?
– HO-HO-HO. – Alguém disse imitando uma voz rouca de Papai Noel.
– Papai Noel? – eu disse sem saber quem era.
– Quase, sou o ajudante da Mamãe Noel, mas quem sabe um dia eu não viro ele? – ele disse nada envergonhado
– Oi, Sam! Feliz Natal! – falei sem dar muita ênfase para o que ele havia dito.
– Feliz Natal!
– Então...? disse querendo sabe o porquê daquela ligação.
– Só queria ouvir a sua voz... – silêncio – e desejar feliz Natal pra você e pra sua família.
– Obrigada.
Ele queria ouvir a minha voz? A minha voz de taquara rachada? Esse menino deve ter comido muito sorvete do Mc Donald's.
Silêncio
– Amanhã eu vou ao orfanato falar com a Cristina. – disse começando um assunto.
– Ah sim! Não se esquece de me ligar caso ela deixe.
– Bem capaz que vou esquecer. Telefono na mesma hora, independente da resposta. Bom, vou desligar agora, nós vamos abrir os presentes.
– Tchau, espero que você ganhe o que pediu pro Papai Noel.
– Nem preciso ganhar nada, o meu dia já me bastou. Conheci pessoas maravilhosas hoje, e nada vai superar isso.
– Eu sei o que você está sentindo agora. Vou desligar. Tchau, Sam.
– Espera! Acho que me esqueci de te dizer, mas... Eu adorei ter te conhecido hoje.
– Eu também.
Logo quando desliguei minha família inteira me perguntou com quem estava falando no telefone, porque ninguém me liga. Disse que era a operadora. Não queria dar satisfações do por quê um menino estava falando comigo no telefone.
Dois dias após o Natal, e após conhecer Sam, eu ainda não paro de pensar nele e também sobre o pedido que ele vai fazer à Cristina. Ela precisa aceitar. Meu celular toca e me assusta.
– Oi, Sam. Vamos poder ir? perguntei curiosa
– Então... – ele falou com uma voz triste – É LÓGICO QUE SIM!
– Pensei que fosse dizer ao contrário. Conseguiu me enganar. – falei dando uma risada irônica.
– Foi fácil com a Cristina. Ela nem implicou comigo. Logo deixou.
– Então ela provavelmente gostou de você, porque se fosse eu, ela não deixaria. Você disse que eu iria junto, não disse?
– Claro que eu disse! – ele falou afirmando seriamente.
– Ah ta. Que horas eu posso ir?
– Das 15:30 até as 16:30.
– SÓ? – falei indignada.
– Sim... Só uma hora. Foi isso que consegui. – ele falou decepcionado
– Bom, se tratando dela, uma hora é até demais. Obrigada por ter pedido. Mesmo! Se fosse eu ela não deixaria. Então até o dia 31.
– Me liga na hora que estiver quase chegando, pode ser?
– Tudo bem, eu ligo avisando. – falei meio pausadamente.
Véspera de ano novo, ainda não estava acreditando que o Sam tinha conseguido convencer a bruxa da Cristina. Eu estava nervosa. Eu não sabia o que vestir. Será que Sam ia gostar? Eu realmente estava pensando nele? Tudo o que eu fazia me remetia a ele. Eu realmente estava apaixonada por garoto que havia conhecido há sete dias? Acho que estava.
Entrando no trem não tive como não reparar num casal. Pareciam tão felizes. Como será que ele a pediu em namoro? Afinal de contas, por que eu estou pensando nisso?
Estava quase chegando, hora de ligar para Sam.
Quando cheguei à estação ele estava lá. Por que isso não me surpreendeu?
– Oi. – disse sorrindo e logo me abraçou.
– Oi, Sam! – falei retribuindo o abraço e sem querer sair dele.
– Devo confessar que eu estava com saudades de te ter perto de mim. – ele falou se afastando e olhando bem no fundo dos meus olhos.
Por que ele fazia isso? Ele sabia exatamente como me deixar completamente encabulada. O que eu diria á ele? Pensa, Sofia.
– As crianças devem estar nervosas pensando que nós não vamos. – eu disse tentando desviar do assunto, mas Sam não queria.
– Por que você sempre tenta mudar de assunto quando eu te elogio, ou quando admito meus sentimentos? Eu estou realmente apaixonado por você, Sofia. Desde quando nos esbarramos no Mc Donald's, não consigo parar de pensar em você. Eu fui para o orfanato pensando "será que algum dia eu vou vê-la novamente?" e o destino foi bom comigo, porque ele te colocou na minha vida, e se depender de mim você não sairá dela tão cedo. Eu te liguei todos os dias, porque eu não aguentei um dia sem ouvir a sua voz. Sem saber o que você estava fazendo. Eu te amo, Sofia. Eu amo o seu jeito. O que jeito que você trata as crianças, o modo que você olha pra elas, com tanto amor. Amo o seu cabelo e o modo como você mexe nele quando fica nervosa, como agora. Eu amo os seus olhos castanhos. Amo a sua voz. O seu rosto tão meigo. Eu amo tudo em você. Não tenho dúvida disso. Tão pouco tempo e um sentimento tão forte e verdadeiro. Isso nunca tinha acontecido comigo, nunca soube como é estar assim, mas agora percebo que não é fácil. Meu ano novo depende de você pra ser completo. Minha vida depende de você pra ser completa. – ele disse segurando as minhas mãos e olhando fixamente nos meus olhos.
Uau.
– Eu não tenho palavras. Você realmente ama tudo em mim? Quer dizer, a gente mal se conhece...
– Eu vou adorar descobrir seus defeitos e qualidades, junto com você. Ao seu lado. – ele disse me interrompendo. Eu tenho um presente de Natal, atrasado, pra você. – ele falou tirando uma caixinha do bolso.
Ah meu Deus!
Ele continuou. – Então, quer namorar comigo? – ele perguntou abrindo a caixinha e assim eu pude ver o lindo anel que estava ali.
– Eu não sei o que dizer – eu estava perplexa. Perdi os sentidos. Não me lembrava mais nem como se respirava.
– Você poderia dizer um 'sim' talvez... – ele disse sabendo que aquele seria a minha resposta.
– É claro que eu quero.
Depois daquele choque, se eu posso dizer assim, fomos para o orfanato. Quando chegamos lá, tive mais uma surpresa. Cada criança estava com uma camiseta com uma letra e aos poucos elas iam se organizando e assim formaram uma frase.
Sofia, quer namorar comigo?
– É que o pedido de namoro não ia ser daquele jeito. Eu que não aguentei. Assim é bem mais bonito.
– Você quer me matar hoje? – eu disse surpresa com aquela situação. Jamais imaginaria que alguém um dia fosse fazer aquilo pra mim.
– Bem capaz que eu iria querer te matar. Eu te quero pra mim. Pra sempre.
Nessa hora eu já estava chorando. Na verdade, chorando muito. Sempre fui sensível e naquela situação então, não aguentei.
– Você está chorando? Não sei muito sobre vocês, mulheres, mas sempre depois que o homem faz uma coisa dessas e a mulher chora, é um bom sinal, não é? – ele falou torcendo para que a sua percepção estivesse certa.
– É sim. Mas espera aí, isso foi ensaiado? Quando você veio aqui?
– Há uma hora. Tive que arrumá-los, colocar as camisetas, ensaiá-los.
– Eles são sensacionais – eu disse.
– Só eles? – ele falou fazendo uma cara de cachorrinho abandonado.
Nem disse nada, apenas o beijei. E como em um filme, as crianças começaram a nos aplaudir.
Notas finais
Beijos, Carol.
P.S.: Se você fizer alguma coisa daquelas que eu falei a cima, eu vou ficar muito feliz.
Fale com o autor