O Orfanato
3 O presente
Notas iniciais
Dia sete de fevereiro era o aniversário do Sam, menos de uma semana pra a tão esperada data e eu não fazia idéia do que dar de presente para ele. Eu sabia que qualquer coisa que eu desse ele iria adorar, ou pelo menos fingir, mas mesmo assim queria dar algo que ele realmente gostasse. Comecei a pensar no quarto dele. No dia que eu fui a casa dele foi divertido, os pais do Sam são incrivelmente engraçados. Quando eu cheguei, eles abriram a porta pra mim, o Sam ainda estava no banho. Ele gosta de tomar banho. Uma esponja para se ensaboar seria um bom presente. Talvez não. Nesse tempo que estamos juntos eu nunca lhe dei nada e ele já havia me dado vários presentes e todos eu adorei. Ele me conhecia mais do que eu o conhecia? Quando eu era menor e ia aos aniversários dos meus coleguinhas, minha mãe sempre comprava carrinhos da Hotweels de presente para os meninos e eles adoravam. O problema é que o Sam faria dezoito anos, e não sete. No meio dos meus pensamentos, ouvi o telefone tocar, era ele.
̶ Pensando em mim? – perguntou ironicamente.
– Na verdade, sim. – pensei em contar meu drama da escolha do presente perfeito, mas não achei necessário.
– Estou esperando você me contar o seu pensamento. – ele falou como se estivesse completando a minha frase. – Então...
– Não era nada demais. Não quero ser grossa nem nada, mas por que você me ligou?
– Então, como você sabe, dia sete é o meu aniversário e a minha mãe está preparando uma festa aqui em casa, dezoito anos, sabe como é, né? Daí, eu queria saber se a senhorita se deslocaria até aqui para comemorar comigo?
– É verdade, dia sete é o seu aniversário, tinha quase esquecido –mentira. – Que horas começa a festa do quase homem?
– Primeiro, eu sei que você não esqueceu o dia do meu aniversário. Segundo, eu também sei que a senhorita deve estar num conflito consigo mesma para achar um presente para mim e terceiro, vai começar à tarde, quatro e meia, talvez. Minha mãe quer fazer um chá da tarde, enfim. Pode?
Isso confirma que ele me conhece mais do que eu o conheço. Não consigo enganar ao Sam. Parece que ele lê os meus pensamentos e que está o tempo inteiro comigo.
– Primeiro, senhor sabichão, você estava certo, não esqueci o dia do seu aniversário. Segundo, eu realmente estou em um conflito comigo mesma porque eu não sei o que comprar pra você e terceiro, é claro que eu vou à sua festa.
– Nossa, eu acertei todas. E só pra constar, gostei do “senhor sabichão”. Combina perfeitamente comigo. Na questão ‘presente’, nem se preocupa, eu gosto de todas as coisas do mundo, então, qualquer presente será perfeito.
– Eu detesto pessoas como você. Eu sei que qualquer presente não será perfeito, não minta pra mim. Eu estou a um passo de pedir pra você passar o telefone pra sua mãe e pedir ajuda a ela.
– Para com isso, sério. Não quero que você fique assim por um presente. Mas se você está a um passo de falar com a minha mãe, não fale, ela vai mandar você me dar o jogo do banco imobiliário. Não vai ajudar.
– Por que o jogo do banco imobiliário?
– Era o meu sonho ter esse jogo quando eu era criança e a minha mãe nunca comprou pra mim, e então sempre que nós conversamos sobre o meu aniversário, eu finjo um trauma sobre isso.
– Eu sou uma péssima namorada. Você já me deu vários presentes e todos incríveis, e o que eu já te dei? Nada. E agora na data mais importante da sua vida, eu não sei nem o que comprar você. Eu não te mereço.
– Nunca mais repita isso. Por favor. Você é a melhor namorada do mundo. De verdade, às vezes eu penso se eu sou digno de você. Antes de te conhecer eu não era nem a metade do que sou hoje. Você não sabe, mas aquele dia que eu fui ao orfanato, a minha mãe me obrigou a ir, e então, depois de te conhecer eu me transformei em outra pessoa. Você me transformou em outra pessoa. Você e as crianças. De todas as mulheres que existem nesse mundo, você é a melhor. E daí se você não sabe o que comprar pra mim? Isso não muda o meu sentimento. Quando nós nos vimos pela primeira vez, eu me apaixonei no mesmo minuto em que nos esbarramos. O seu jeito turrão me encantou. Depois quando nos encontramos no orfanato e eu vi o modo como você cuidava das crianças, pronto, eu já estava imaginando o nosso casamento. Um presente nunca irá mudar isso. Para de pensar desse jeito senão eu vou me sentir culpado por ter nascido. E sobre os presentes que eu comprei pra você, não foram planejados e nem foram tão incríveis assim.
Tudo bem, eu realmente estava sendo dramática demais. Mas que culpa eu tenho se eu sempre quero fazer o melhor em tudo? Eu quero que quando ele receba o presente, ele realmente goste.
– Eu fiz tudo isso? –Falei chocada, pois eu nunca imaginei que um dia faria tanta diferença na vida alguém.
– Fez. – Ele respondeu sério, como se ainda tivesse tentando me convencer. – E eu nunca serei completamente grato por isso.
– Eu te amo, sabia? – Estava quase chorando.
– Sinceramente? Sim. Mas eu te amo mais e, por favor, sem discussões de “não, eu amo mais”.
– Você realmente achou que eu fosse fazer isso? Óbvio que não. Mas eu amo mais e ponto final.
– Esse é o presente perfeito pra mim. Vai ser extremamente piegas o que eu vou falar agora, mas o seu amor é o meu presente, e enquanto você continuar me amando eu serei o homem mais feliz do mundo.
– Obrigada por me fazer chorar em plena tarde. Bom, amorzinho, eu tenho milhares de coisas para fazer, como lavar a louça. Depois a gente se fala. Estou morrendo de saudades.
– Estou morrendo de saudades também. Talvez eu passe aí mais tarde para te fazer uma surpresa. Só talvez.
Adoro quando o Sam faz “surpresas” pra mim. Na maioria das vezes ele faz isso. Avisa antes, ao invés de realmente me surpreender. Mas mesmo assim, eu amo.
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