O Orfanato
8 Cabine fotográfica
Notas iniciais
Quando eu saí do jantar estava friozinho, então o Bento me emprestou o seu blazer. Chegando em casa, pude ver de longe que o Samuel estava na porta me esperando. O problema é que eu voltei com o Bento, pois depois do jantar, a minha mãe foi para a casa do namorado dela.
– Quem é aquele na sua porta? – o Bento perguntou preocupado, pensando que podia ser um ladrão.
– Aquele é o meu namorado. Obrigada pelo blazer e pela carona. – Eu disse tirando o casaco e descendo do carro.
Quando eu desci do carro, o Bento ficou esperando uns segundos e depois foi embora.
– Quem te deu carona? Onde está a sua mãe? – Sam perguntou desconfiado.
– Era o Bento, eu o conheci no jantar. A minha mãe foi para a casa do namorado dela. – ele ainda parecia desconfiado e não respondeu – Vamos entrar? Está frio aqui fora.
Entramos e ele foi se direcionando para o meu quarto. Dessa vez ele não fez a inspeção.
– Eu não quero mais ficar brigado com você. Está sendo um martírio para mim. Me desculpe. Eu fui grosso com você e você tem razão, eu mudei rápido em relação a...
– Não fale mais o nome dela. Por favor. Desde que ela voltou pra sua vida, tudo entre nós está diferente. Eu não aguento mais isso. Eu também quero me desculpar, eu agi como uma criança, mas como eu não vou sentir ciúmes de alguém como ela?
– Você é muito melhor que ela. – Ele disse isso começando a meu pescoço e subindo até meus lábios.
– Sam... – chamei o fazendo parar – eu nunca fiz isso.
– Você é virgem?
Assenti.
– A gente pode parar se você não estiver se sentindo pronta.
– Eu estou pronta.
No outro dia de manhã eu acordei e não havia ninguém do meu lado. Eu achava que o Sam não fosse desse tipo. E eu estava certa, pois alguns segundos depois ele voltou com uma bandeja de café da manhã. Clichê, mas fofo. Me senti naqueles filmes de amorzinho.
– Bom dia, Sofie! – ele disse colocando a bandeja no meu colo sobre o lençol.
– Bom dia! Que fome. Vamos ver o que nós temos de bom aqui... – falei isso comendo um pedaço de bolo. – Sam, eu quero sair hoje com você!
– Gostei da sonoridade dessa frase. Aonde vamos?
– Não sei, eu quero ir a um lugar diferente.
– Vamos a uma ferragem! – ele disse rindo e me fazendo rir.
– Como você é engraçadinho. Eu estou falando sério! – disse franzindo a testa.
– Esqueci completamente! Eu tenho auto-escola daqui à – ele olhou seu relógio de pulso – vinte minutos. Mas a gente podia almoçar juntos, o que você acha? Depois nós podemos ir ao parque e passar a tarde toda juntinhos. Pode ser?
– Vejo-me sem opção... Tudo bem! Então nós podíamos almoçar naquele restaurante novo, o que abriu perto da estação. Me disseram que lá tem aquelas cabines fotográficas, sabe? Aquelas que a gente vê nos filmes. E também que é muito bonito.
– Perfeito! – ele fez uma pausa e envergonhadamente perguntou: – Eu posso tomar banho aqui?
– Claro que pode!
Então Sam se levantou da cama e se direcionou ao banheiro, peguei uma toalha e entreguei para ele. Saindo do banho, nos despedimos e eu voltei a dormir.
Acordei com a minha mãe aos berros me chamando. Gritando que o Sam estava na sala a minha espera. Levantei-me, tomei um banho, escovei os dentes, coloquei um vestido e uma sapatilha, penteei-me e desci. Lá estava ele, mais bonito do que nunca.
Saímos de casa e fomos até o restaurante a pé. Não era muito longe. Vinte minutos de caminhada. Fomos conversando, então nem demorou tanto e chegamos. Realmente o lugar era maravilhoso. A entrada era em estilo retro. Mal podia esperar para entrar. E tinha a cabine fotográfica. Quando chegamos, a primeira coisa que pedi foi para tirar fotos. Fizemos várias caretas, como nos filmes, e depois entramos. Dentro era ainda mais bonito. Era como as lanchonetes dos anos 50. Cores vivas e o piso em xadrez. Incrível.
– O vestido de bolinhas é pra entrar no clima dos anos 50? – Sam indagou.
Era verdade. Sem querer eu acabei combinando com o ambiente.
– Da próxima vez você pode vir de jaqueta de couro e cabelo lambido para trás. Aí sim seremos o casal vinte.
Nos sentamos à mesa perto do jukebox, e então, uma garçonete apareceu. No estilo retro, ela estava de patins. Deslizava no chão com tanta facilidade, parecia estar flutuando. Na primeira vez em que eu coloquei um patins, quebrei a perna e nunca mais me arrisquei novamente.
A moça então ofereceu-nos o cardápio e escolhemos um prato grande de batatas fritas com queijo e duas garrafas de Coca-Cola.
– Então, empolgada para voltar à faculdade?
– Sim! Antes das férias o professor Jeff nos mandou fazer um projeto de um ambiente qualquer, então, eu resolvi fazer do orfanato. Ficou exatamente do jeito que eu faria se o orfanato fosse meu. Estou muito ansiosa para mostrá-lo a ele.
– Eu gostaria de ver também!
A garçonete chegou, colocou o prato sobre a mesa e as garrafinhas de Coca-Cola também.
– Não vou conseguir me conter. Eu adorei o seu vestido! Onde você comprou? – a moça de patins perguntou.
– Obrigada! Comprei em um brechó na Serra. Ele estava bem surradinho, então, tive que fazer uns ajustes, mas não podia deixar de comprá-lo.
Conversamos mais um pouco e em seguida o gerente chamou seu nome, era Valentina. Espero que ele não xingue ela.
– Vou colocar uma música no jukebox.
Sam se levantou e foi até a máquina, colocou Meu Amor é Teu, do Marcelo Camelo. Voltou para mesa, comemos nossa porção de batatas fritas e pedimos um milkshake de morango com dois canudos para nós.
– É tão romanticamente idiota fazer isso. – Falei em relação a compartilhar o milkshake.
– Acho super meigo.
– Isso foi meio gay, mas tudo bem.
Terminamos nosso milkshake e fomos ao parque. Logo que entramos, fomos brincar de carro de bate-bate. Eu e um carro e o Sam em outro.
– Eu dirijo muito bem, pode confessar. – Ele disse se gabando.
– Eu também dirijo muito bem!
– Amorzinho, eu não quero te magoar, mas você é meio barbeira. – Falou rindo.
– Não sou não!
Caminhando e conversando pelo parque, me deparo com o Bento. Ele me viu também, e veio em minha direção.
– Sofia! – ele falou me abraçando.
– Oi, Bento!
– Então, esse é o famoso Samuel? – perguntou.
Assenti e, então, os dois se cumprimentaram.
– Está sozinho? – Sam indagou.
Bento respondeu que estava com o seu irmão e em seguida ele apareceu correndo e sorrindo ao seu encontro mostrando o ursinho que havia ganhado por atirar nos patos. Vendo que seu irmão mais velho estava conversando conosco, se apresentou.
– Oi, eu sou o Luis Otávio e tenho oito anos.
Eu e Sam fizemos a mesma coisa, nos apresentamos e falamos nossa idade. Bento riu.
– Vamos Luis, temos que voltar pra casa. A mamãe está nos esperando pro chá.
Nos despedimos deles e continuamos a andar pelo parque. Sam queria ir à roda gigante, mas eu tenho pânico de altura e a fila estava enorme. Ele tentou me convencer falando que um dia teria que superar esse medo. Ele tinha razão. Então eu resolvi enfrentar. Mais de trinta minutos na fila e estávamos no topo da roda. Comecei a ficar nervosa e Sam tentava me acalmar.
– Já vai descer, calma! Feche os olhos e imagine que estamos no solo. Não podemos cair. Estamos no solo.
Fiz o que ele pediu. Adiantou. Até que eu abri os olhos e olhei para baixo. O pânico voltou.
– Preciso descer! Eu não vou aguentar. Por favor, chame alguém! Sam, isso está balançando! Vamos cair. Chame alguém. – Estava gritando.
Sam começou a gritar pedindo que o monitor da roda gigante fizesse com que ela girasse até o solo. Todos começaram a reclamar e bufar. Descemos e, então, eu me sentei no chão, enquanto o Sam ia buscar um copo d'água para mim.
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