Notas iniciais
dividi o conto pra facilitar minha vida, perdão pela formatação estranha

Era uma vez uma pequena garota chamada Victoria. Seus pais não haviam pensado no porquê de seu nome. Apenas acharam que soava muito bonito.

Victoria era uma criança feliz durante o dia e atormentada durante a noite. Antes do cair da escuridão, ela brincava alegremente pelo bosque que rodeava sua casa, junto a seu único amigo Pietro; quando terminava o entardecer completo e era hora de ir deitar, seus próprios pesadelos a asfixiavam.

E em algum momento entre a madrugada e o nascer do Sol ela sempre despertaria brevemente, olharia pela janela e veria os Sonâmbulos a perambular por entre as árvores, presos eternamente em seus próprios sonhos corrompidos. Então ela teria medo, mas uma vontade arrebatadora de dormir novamente a invadiria. Victoria retornaria ao terror de sua própria mente, dia após dia.

“Eu não quero me tornar uma Sonâmbula” ela disse ao pai certa vez, soluçando entre lágrimas amargas, havendo acabado de acordar.

“Então pare de decepcionar Nemula”

Só que ela não sabia onde havia errado, e o grande Nemula continuaria lhe dando pesadelos, não importa o quanto ela rezasse para ele.

As semanas passaram, e não vinha nenhum sonho bom. Victoria então chamou Pietro, que jamais sonhara com algo que lhe amedrontasse, e perguntou o que ele havia feito para tal.

“Não sei” respondeu, deixando-a entristecida.

Ainda assim a menina resolveu tentar alguma coisa. Matou uma lebre no bosque e pendurou o cadáver de cabeça para baixo no galho de uma árvore, e com uma faca arrancou os olhos do animal.

“Grande e poderoso Nemula, por favor, eu quero ter sonhos bons. Aceite meu sacrifício”

Sua voz ecoou no silêncio do bosque vazio.

O dia terminou e Victoria deitou a cabeça sobre o travesseiro, cerrou os olhos e dormiu instantaneamente.

“Eu sou o seu Sussurro. A voz da sua alma e da sua mente” disse a silhueta que se formou no sonho, uma que ela não conseguiu distinguir direito, pois quase não havia luz.

“Por favor. Eu quero sonhar com coisas bonitas, as coisas que Pietro me conta que vê quando dorme. ”

“Tudo o que você sonha é dado por Nemula. A noite te dá o que seu dia merece.”

“E o que eu tenho que fazer para deixar Nemula contente? ”

Mas o Sussurro não respondeu. Victoria abriu as pálpebras lentamente. Raios de Sol entravam pela fresta de sua janela.

Foi até a casa de Pietro, como sempre fazia, mas há um tempo ela já não tinha ânimo para brincar. Apenas se sentaram juntos na margem do rio, observando as águas correrem.

Ele relatou ter visto um campo florido durante o sono, repleto de belos girassóis; o céu era azul e sem nuvens e os animais, seus amigos.

Ela contou que não queria crescer, pois as crianças que crescem sem sonhos se tornam Sonâmbulas. Então chorou, e chorou, e chorou.

“Deve haver algum jeito. Você precisa sonhar. ”

Mataram juntos um veado que andava manco perto da margem, arrancaram seus olhos, queimaram seus chifres e chamaram Nemula. Não houve resposta.

Victoria andou sozinha para casa, se deitou em sua cama e cobriu-se com o mais fino lençol.

“Eu sou o seu Sussurro. A voz da sua alma e da sua mente” disse a silhueta sem forma.

“Eu já ofereci sacrifícios. O que mais tenho que fazer?!”

“Nenhum sacrifício é real se a oferta não for você mesma.”

E sonhou que morreu, e a dor da morte era uma dor que não se sentia no corpo mas se espalhava por toda a alma. Acordou, e da janela viu de novo os Sonâmbulos, com suas expressões em eterna agonia e prisioneiros das próprias mentes ou simplesmente sem expressão ou rosto; eles jamais despertariam e só lhes restava vagar pela madrugada sem fim. Mas, desta vez, ela não voltou a dormir, e teve mais medo ainda.

Só saiu da cama ao entardecer, contra a própria vontade. A mãe lhe chamou para a mesa, dizendo se tratar de um assunto muito sério. O pai tinha uma expressão sóbria, dramática, e estava sentado numa cadeira bamba.

“Você vai precisar ser forte para ouvir isto, Victoria.”

Mas ela estava cansada de ser forte, embora também estivesse cansada de ser fraca.

“Pietro se foi esta manhã. O grande Nemula o levou para sempre em seus sonhos. Ele não é um Sonâmbulo, mas não voltará a acordar”.

A sensação de ouvir aquilo foi como a de ter um pesadelo de olhos abertos. Naquela noite, ela tampouco dormiu. Apenas se revirou em lágrimas, e seu peito doía numa pulsação estranha.

“Eu sou o seu Sussurro. A voz da sua alma e da sua mente” a silhueta se formou em seu quarto, espreitando-se pelas paredes.

“Vá embora. Eu nem estou dormindo. “

Mas a sombra continuou ali, e durante o passar dos minutos a dor no peito aumentava.

“Por que o Pietro se foi? Ele nunca fez nada de errado. Ele só recebia sonhos bons”.

“É preciso respeitar a vontade de Nemula, ainda que esta seja dolorosa. ”

Victoria gritou, um berro que saiu de seu âmago. Gritou porque o Sussurro começou a devorar os sonhos que jamais tivera e seus pesadelos também, embora não entendesse como aquilo estava acontecendo: apenas sabia que acontecia, e que doía mais que a dor da própria morte... Porém menos que a dor da morte alheia.

“Eu não quero dormir nunca mais! ” Exclamou a garota com o pouco de ânimo que lhe restava.

“Você não pode. É este o maior dos pecados contra Nemula, e apenas ele pode jamais dormir, pois também Nemula é o Sono e também é a Vigília. ”

Outra vez nasceu o Sol, mas Victoria permanecera de olhos abertos observando o dia chegar. Tinha olheiras e sua pele estava sem cor, todavia ela não queria dormir- com os sonhos devorados, talvez, pensou ela, se tornasse Sonâmbula antes de ser adulta.

O pai e a mãe ainda estavam de luto na sala e suas faces eram como um véu de tristeza. E a menina Victoria ainda estava profundamente triste pela perda de seu amiguinho, mas o luto acabara na madrugada: ainda tinha medo, apenas não sabia do quê, porque não temia mais ao deus Nemula. Na verdade, tinha raiva, e queria dizer que era ele muito injusto por levar uma criança repleta de sonhos como Pietro. Não disse nada. Não ousou provocar a ira de seus queridos pais.

Por isto ela tomou sua decisão e caminhou horas e horas até a parte proibida do bosque, onde era sempre escuro. Seus pés ficaram doloridos e uma pedra cortou seu calcanhar, mas não se importou nem com o sangue vermelho que escorria intensamente.

Quando chegou ao Bosque Escuro, chamou a herege que diziam viver ali escondida. Nenhuma criança tinha permissão para se aproximar dos lugares onde mesmo pelo dia não havia luz, e nenhum adulto tinha coragem. Victoria, no entanto, não se importou. A raiva era maior que seu medo.

Não houve resposta a princípio. Victoria usou quase toda sua voz para continuar chamando pela mulher cujo nome não sabia. Ficou confusa, sem saber se era dia ou noite. Apenas o silêncio era constante.

“O que você deseja, criança? ” Falou enfim uma velha que saiu dentre as árvores. Seu rosto estava coberto por um manto negro.

A velha torceu a boca num sorriso malicioso. “ Não, não, não precisa dizer. Eu já escutei o seu Sussurro. Eu sei o que você quer e também do que você necessita. ”

“É você a herege que tanto falam? ”

“ Herege, bruxa, pecadora... Muitos nomes me foram dados... “

“ Dizem que você pecou contra Nemula. ”

“ Eu apenas acredito que dia e noite sejam parte de um só, e não que um seja consequência do outro. Isto irritou Nemula, e ele quis me castigar com sonhos de sofrimento, mas não pôde. Porque eu escutei o meu Sussurro.”

“Então você tem sonhos felizes? ”

“Não, pois eu jamais durmo. Meus sonhos são aquilo que sinto e vejo e desejo e lembro. ”

“Então me ensine. ”

A velha deu uma gargalhada. Aquela criança era surda, pois escutava apenas os sons que vinham de fora. O Sussurro a contradizia em cada sílaba. E só a velha o ouvia, e ouvia a menina também, não podendo deixar de rir.

Mas ela ensinaria.

Sentaram-se na relva, menina e velha de frente uma para a outra.

“ Feche os olhos sem dormir. Descanse. Este é o primeiro passo para aprender os Cantos da Escuridão”.

“Cantos da Escuridão? ”

“ Sim, e a Voz não deve ser apenas a que sai de sua garganta. Seu Sussurro deve falar. Para isto, precisa aprender a ouvi-lo. ”

“Eu já ouvi, e ele me disse coisas ruins. ”

“Precisa ver o que está dentro de você com clareza. ”

Victoria cerrou os olhos. Mas os sons dentro de si eram horríveis, a pura expressão de uma alma quebrada. Chorou.

“Para o primeiro canto, você deve enterrar seu coração. ”

Entregou à Victoria a fina lâmina reluzente de uma faca, tão afiada que poderia cortar qualquer pensamento.

“Enterre. ”

E o fez. Com o gume prateado, descosturou as veias e artérias, um por um, e segurou o coração que era do vermelho mais vermelho que sangue. Ele ainda batia, num timbre mudo, porém de alguma forma ensurdecedor. Cavou com as mãos a cova onde o depositou e pôs a terra de volta.

O que se seguiu foi o silêncio, mas não o silêncio vazio da floresta. Victoria contemplou pela primeira vez a ausência de sons dentro de si. Ficou surpresa, incrédula, maravilhada.

“ No silêncio, é possível perceber coisas que na verdade sempre estiveram com você.”