Notas iniciais
Essa história foi meio que um experimento pra mim. Nunca tinha escrito algo parecido antes. Obrigada aos que leram :) e desculpem pela formatação, vou descobrir como ajeitar isso aí

“No silêncio, é possível perceber coisas que na verdade sempre estiveram com você. “

No Bosque Proibido, Victoria percebeu que não importava se havia ou não Sol. Era como se o tempo fluísse lentamente.

“O mesmo serve para quando se está no escuro. ” Continuou a velha.

“A mente é o olho da alma. Tudo que você vive é através da mente. Se esta não estiver em equilíbrio, tudo o que se vive estará desprovido de significado. ”

Victoria não entendia as coisas que lhe eram ditas, mas escutava atenta na esperança de compreender.

Pela primeira vez começaram a caminhar até chegar numa caverna profunda. A medida que entravam, desciam mais e mais para baixo do chão.

“Não tenha medo do que não enxerga. Não é preciso.”

Desceram tanto que Victoria não via mais nada. Só sentia as pedras úmidas da caverna à medida que andava, e hora ou outra perdia o equilíbrio. A velha, porém, caminhava sem demonstrar nada de insegurança.

Em determinado momento, cessaram-se os passos. A velha tinha parado. Tirou de seu manto uma vela e a acendeu, fazendo uma frágil chama trazer luz ao ambiente. Antes que Victoria questionasse o motivo, viu algo que jamais esqueceria.

Uma figura encapuzada estava parada diante delas; mas, por debaixo do capuz, não havia rosto nenhum. Apenas um vazio sem cor.

A menina gritou. Seu coração acelerou de onde estava, debaixo da terra em algum lugar do Bosque proibido. E foi quando o medo passou... Pois Victoria de fato percebeu que não havia nada em seu peito.

“Quem é você? ” Quis logo saber.

“Eu sou a Morte, é claro. ”

A Morte disse que era ela o bem precioso há muito tempo fora esquecido pelos humanos.

“Prazer em te conhecer. ” Apertou educadamente sua mão.

“A Morte é alguém muito simples de se lidar” disse a suposta herege “ Se você tiver medo, não vão se dar muito bem. Por outro lado, ela honrará aqueles que a respeitarem. ”

“Sabe, vocês humanos são muito cruéis. ” Se aquela figura tivesse um rosto, ele estaria agora emburrado como uma criança. Fácil distinguir a expressão pelo tom da voz. “Antigamente, antes de Nemula, eu andava com vocês o tempo todo, sabe. Lado a lado, sabe, e todos costumavam felizes, entendeu? Felizes. De repente vocês passam a me rejeitar para sempre, e sou obrigada a ficar aqui, sabe, sozinha e escondida. É muito triste, sabe. ”

“Você não vai ficar mais sozinha. Eu prometo. Tem alguém que precisa te conhecer”.

A menina botou a mão na garganta... E percebeu que não vibrava. Ela não usara sua voz desde que chegara no fundo da caverna. Pois ela falava agora com a mente...

.... Ela não falava mais sozinha.

Sua voz era a Voz de seu Sussurro.

“Vamos. ” Pegou na mão pálida e enrugada da velha, e seguiram o caminho que deveriam seguir. “Nós já voltamos, dona Morte. Por favor, nos espere. ”

Victoria correu como nunca antes. Ainda assim, a bruxa era capaz de acompanhar seus passos ágeis de criança. Subiram de novo à superfície, e a luz de fora fez doer seus olhos.

Quando voltaram, a Morte as esperava impaciente. Não era possível ver suas lágrimas- isto, pois, a Morte não tinha rosto. Mas o som que emitia era o de um choro solitário.

Victoria carregava nos braços uma criança de sua idade, um menino, profundamente adormecido. O ritmo de sua respiração era constante, e, se alguém pusesse a mão sobre o peito, sentiria o movimento suave de inspiração e expiração. A menina conseguia segurá-lo sem nenhuma dificuldade. Como aquilo era possível? Ela era pequena mesmo para uma criança.

Ela estendeu o garoto à Morte.

“O nome dele é Pietro. É um ótimo amigo. Não te deixará sozinha. ” Uma lágrima prateada escorreu por sua bochecha, mas o olhar permaneceu determinado.

Dos lábios de Victoria saiu uma melodia quase inaudível. Ela mal movimentava sua boca. Mas a bruxa, que escutava todos os sons do mundo, pensou ter ouvido naquele momento algo que se assemelhava à uma canção de ninar.

E assim a Morte ficou feliz, pois desde então teve sempre alguém para brincar.

“Por que fez aquilo? ” Perguntaria a velha, dias mais tarde, enquanto estavam sentadas sobre a fria grama de orvalho do Bosque.

“O Pietro não poderia descansar se continuasse no Sono eterno. ”

“ E se a morte for só outro sonho que não se acaba? O que você fará? ”

“ Para falar a verdade, não entendi direito quem é ela. Mas, quando a vi, foi muito estranho. Foi como se eu de repente lembrasse que estou viva. E ele não está dormindo. O Pietro está feliz, em algum lugar igual ao dos sonhos que ele tinha. Só que muito melhor, porque lá é real. Eu sei que ele está bem. ”

“E por acaso aqui não seria real? ”

“Não sei. De algum jeito, tudo parece um sonho, não importa se Nemula te deixa dormir ou não. ”

Um sorriso travesso se desenhou no rosto da herege, e, naquele breve intervalo de tempo – que Victoria jamais percebeu a efemeridade, pois para ela tudo começava a ter uma fração do infinito – seu rosto pareceu ser anos e anos mais jovem. Ora ela parecia ser criança, ora adulta, ora velha de novo, ora sem idade nenhuma.

“Tem razão. Acho que eu preciso descansar... Se bem que, mesmo sem dormir por tantos anos, eu sonhei mais que muita gente”. Ela deitou seu corpo sobre a grama, apreciando o cheiro de chuva fresca. Fechou os olhos serenamente. Suas mãos enrugadas repousaram sobre seu peito, e, mesmo que seu coração não estivesse mais ali, ela ainda podia ouvi-lo. Jamais se esqueça onde de você guardou seu coração. Assim você sempre poderá escutar cada batida, disse. “Cante para mim. O Canto da Escuridão”.

Até então, Victoria não tinha se dado conta de que já sabia o canto.

Ela o cantou em silêncio, com a voz de seu Sussurro, pois o silêncio rimava com todos os sons.

“Até logo, criança. Até quando você acordar. ”

A bruxa ficou ali, deitada na grama, com a expressão mais calma que Victoria já vira. Pensou que estava dormindo, mas, ao se aproximar, notou que não havia respiração.

Naquela noite, Victoria dormiu. Não porque estava cansada ou porque não queria pecar, mas porque quis. E sonhou.

Era um vale florido, e as flores eram de tantas cores que ela não conhecia. As árvores eram baixas e todas tinham frutos. Um rio corria no meio do vale. Pietro corria para lá e para cá, e junto a ele estava a velha, correndo enérgica. Havia um sorriso largo no rosto de ambos.

O Sol nasceu do lado de fora da casa de Victoria, e ela despertou. Olhou pela janela. A grama de seu jardim era muito verde e bonita. Os Sonâmbulos já haviam ido embora.

Ela saiu da cama e se alongou, tão animada que estava. Pela primeira vez, sentia o sangue de seu corpo correr com vida.

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