Notas iniciais
Esse aqui ficou um pouco mais longo que o primeiro, que tipo vocês preferem? Curto ou longo?

Entrei em casa pela porta dos fundos, que dava na cozinha. Silenciosamente, tirei minhas velhas sapatilhas vermelhas, que por mais feias que estivessem, continuavam sendo meus sapatos favoritos. Fui caminhando na ponta dos pés até meu quarto, evitando acordar minha vó, com quem eu morava desde que nasci. Espiei o quarto dela pelo vão da porta, ela estava em um sono tão calmo e profundo que me fez querer dormir também. Eu tinha pensado em colocar um pijama e me distrair com a leitura, mas ao ver minha avó dormindo, percebi o quanto eu também estava cansada. O mirante era meio longe, a mais ou menos uns três quilômetros de distância de onde eu morava, mas por sorte o caminho era plano, sem decidas ou subidas, o que facilitava bastante o trajeto. Do mesmo jeito, eu havia ido e voltado de lá de bicicleta, e sem nem sequer sentar um pouco para descansar. Meus pensamentos voltaram para aquele menino. Eu não conseguia entender como ele conseguira ficar lá tanto tempo observando aquele pássaro. Pra mim, aves são apenas bichinhos chatos que fazem cocô nas pessoas e se mexem toda vez que eu tentava tirar uma foto. A única coisa boa a respeito deles era o canto, que eu poderia ouvir todos os dias até o fim de minha vida sem cansar. Droga, por que eu havia pensado nele de novo? Eu já tinha concluído que era só mais uma pessoa comum na cidade, mas ele não saia da minha cabeça. Eu realmente precisava dormir.

No outro dia, acordei mais disposta que o normal. Como sempre, acordei depois de minha avó, que por mais velha que fosse, não deixava de acordar as seis horas da manhã todos os dias.

– Bom dia, vovó.

– Bom dia, querida. Como fora seu passeio ontem? Tu demorastes a chegar em casa, eu estava cansada, não consegui esperar por você.

– Ahn... Foi bom. Estou indo para a escola, vou parar no Home – o Home era uma cafeteria extremamente aconchegante que eu havia descoberto alguns anos atrás, em um dos meus passeios de bicicleta pela cidade. Além de cafeteria, era também uma espécie de livraria, porém não se podia comprar os livros. Estranho, eu sei. Lá haviam estantes lotadas de livros e revistas para os clientes lerem somente ali. Acho que era um jeito de fazer as pessoas voltarem, já que, convenhamos, é difícil parar uma leitura no meio — quer que eu passe ali na volta também para te trazer um pedaço de bolo?

– E desde quando você me compra bolo? Eu faço meus próprios bolos.

– Ok, até mais então.

Minha avó, Lucille, era uma pessoa extremamente dócil e com uma incrível história de vida. Mas, ela também era muito, muito teimosa. Ela já tinha 87 anos, e nunca deixava ninguém levar comida pronta nos almoços de sábado, quando toda a família se reunia na casa dela, ou muito menos contratarem uma faxineira. Ela dizia que dava conta do serviço, mas a casa estava sempre empoeirada. Resumindo, o trabalho sobrava pra mim. Entretanto, eu tinha que limpar tudo escondida, já que ela não permitiria que eu desperdiçasse tempo de diversão arrumando a casa.

Fui de bicicleta até o home, carregando minha bolsa(que deveria estar pesando uns 4 quilos, graças aos 5 livros e 4 cadernos que eu tinha que levar para a aula) na cestinha da bicicleta, já que era impossível carregá-la pendurada no ombro sem me inclinar pro lado. Além disso, as franjas que enfeitavam a bolsa poderiam se prender na corrente, o que não seria nada agradável de resolver as seis e meia da manhã.

Chegando lá, deixei minha bicicleta no lugar de costume, nos fundos do local encostada na parede. Dei a volta e entrei pela porta principal. Não. Não tinha como... Mas era. Era ele novamente. Sentado na janela, com uma caneca de chocolate quente na mão, observando os pássaros. Eu fiquei assustada. Encontrar um estranho na cidade uma vez poderia até ser normal, mas duas? Naquela cidade minúscula onde todos se conheciam? E ainda por cima nos meus locais favoritos? Aquilo definitivamente não era normal. Fui direto até o balcão, e Cecília me cumprimentou:

– Sabrina! Bom dia! O que vai querer hoje? O de sempre?

– Oi Ceci, sim, por favor.

Cecília Abrams era uma mulher de mais ou menos 60 anos, tinha cabelos ruivos que se pareciam com fogo quando era mais nova (ela me mostrara fotos), porém agora já eram meio grisalhos, mas um grisalho bonito, que deixava-o ainda mais reluzente.

– Aqui está querida. –Ela me entregou um pão de queijo e um café com chantilly por cima, em um copo de plástico, fechado.

– Obrigada. Escute, você conhece aquele menino ali na janela? O de cabelo castanho com olhar distante?

– Ah, querida, só pela sua descrição do moço eu já sei o que está acontecendo. Você se apaixonou por ele a primeira vista, não foi?

– Não! – Ceci era solteira, apesar de ser bonita e não aparentar a idade que tinha, nunca havia se casado. Acho que por isso ela se empolgava tanto com a ideia de que qualquer um estivesse apaixonado, ela não conhecia o sentimento. – Eu o vi ontem no mirante, observando os pássaros. Acho que ele está fazendo o mesmo agora, mas, eu acho que ele pode ser um perseguidor ou algo do tipo. Não é normal nessa cidade encontrar um estranho dois dias seguidos.

– Bem, eu não sei quem ele é, mas não se assuste! Ao invés de ser um perseguidor ele pode ser apenas um jovem estudante que veio até a cidade para fazer um trabalho sobre as aves típicas daqui. Relaxe, e boa aula!

Eu agradeci, e sai dando uma mordida gigantesca no meu pão de queijo. Eu estava com fome, talvez fosse por isso que eu estivesse assustada. Eu não estava pensando direito porque estava com fome. É, deveria ser isso.

Notas finais
Então, gostaram?