O Observador de Pássaros
3 Capítulo 3
Notas iniciais
A aula passou devagar e eu não prestei atenção em praticamente nada. Passei a aula inteirinha desenhando pássaros. Acho que deveria ter alguma coisa a ver com o menino desconhecido. Ou talvez a aula só estivesse muito chata. Na saída da escola, não tão surpreendentemente eu vi o menino novamente, eu estava realmente achando que ele fosse um perseguidor, não havia outro jeito de descobrir, então resolvi simplesmente segui-lo. Subi na minha bicicleta e fui indo atrás dele, mantendo uma distância razoável para que ele não percebesse. Estávamos em uma decida, e estava realmente difícil de controlar a bicicleta sem frear, já que os freios estavam enferrujados e iriam fazer muito barulho. De repente, me vi descendo a rua muito, muito rápido. No meio segundo em que eu estava tentando decidir entre frear ou cair, eu tombei no chão. Ele obviamente percebeu, se virou e foi na minha direção, estendendo a mão pra mim e perguntando se eu estava bem.
– Não encoste em mim! – Eu disse assustada.
– O que? – ele riu – eu estava só tentando ajudar você, mesmo sabendo que não deveria, afinal você tem me seguido faz dias! Acha que eu não percebi?
Eu estava extremamente confusa. Ele provavelmente percebeu pela minha cara, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, eu retruquei:
– Eu não estou te seguindo! Eu moro aqui, e caso tu ainda não tenha percebido, tu tá invadindo a minha rotina, meus lugares favoritos e que eu frequento desde sempre. Afinal, quem é você?
– Sou um menino. Um menino como qualquer outro que casualmente gosta das mesmas coisas que você.
– Tu é de que cidade?
– O que?
– Aonde tu nasceu? Com certeza não foi aqui. Da pra notar pelo jeito que tu fala, sabe, usando “você” ao invés de “tu”.
– Bem, acho que isso não é uma coisa que eu devesse falar pra uma menina que eu acabei de conhecer tentando ajudar a levantar de um tombo de bicicleta enquanto ela me seguia tentando descobrir se eu era um perseguidor enquanto eu achava que ela era uma perseguidora.
– Ótimo argumento.
– Que tal nos encontrarmos hoje? Assim nos poderíamos conversar melhor, eu realmente gostaria de conhecer melhor você. Fiquei intrigado.
– Hmm, ãhn, ok. Aonde e que horas?
– No Home? À noite?
– Tu realmente não é daqui. O Home só abre durante o dia. Que tal no mirante?
– Fechado, vejo você lá, menina misteriosa.
– Vejo você lá, observador de pássaros.
Ele olhou diretamente nos meus olhos e eu notei o quão bonito ele era. Antes eu estava tão assustada acreditando que tinha alguém me seguindo que não tinha nem reparado na aparência, mas agora, com ele ali olhando pra mim, eu... Não, eu não queria que NADA acontecesse. Minha vida estava perfeitamente bem e eu não iria me apaixonar só pra acabar machucada, como sempre.
– Você é interessante, menina misteriosa. Acho que eu deveria chamá-la de menina observadora. – ele sorriu. Nossa, que sorriso era aquele! Parecia uma daquelas propagandas de pasta de dente em que as pessoas sorriem o tempo todo, aquele tipo de sorriso que chega a humilhar uma pérola de tão brilhante.
Eu não pude evitar um sorriso, mas me virei, montei na bicicleta e fui embora. Pude ouvir ele gritar:
– Não vá cair denovo!
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