O Observador de Pássaros
1 Capítulo 1
Em uma típica cidade do interior do Rio Grande do Sul, eu deslizava pelas ruas na minha bicicleta. Era só mais um fim de tarde comum, e eu estava indo até um dos pontos turísticos mais visitados da serra, um mirante na estrada que levava da minha cidade a outra, onde só se podia enxergar morros e o céu. Aquele era meu lugar favorito no mundo inteiro, era uma espécie de porto-seguro pra mim. Eu me refugiava naqueles bancos para apreciar a vista todos os dias em que eu me sentia triste, e eu sempre me sentia melhor. O pôr do sol era minha maior paixão, especialmente daquele jeito, visto através dos galhos das araucárias e pinheiros, com brechas de luz escapando e me iluminando não só a exteriormente, mas interiormente também. O pôr do sol iluminava e aquecia meu coração. O canto dos pássaros era como música pra mim. Não havia nada que me trouxesse mais paz do que ficar ali, lendo um livro.
Naquele dia, eu havia levado “Quem é você, Alasca?”, meu livro favorito. Entretanto, não iria conseguir realizar meus planos de ler. O banco em que eu costumava sentar, o único que estava sempre desocupado por ficar mais longe do mini estacionamento, estava ocupado. Eu queria dar meia volta e ir pra casa, mas iria parecer muito estranho. Fui obrigada a parar. Por sorte, havia levado também a minha câmera fotográfica. Eu fiquei tirando fotos até a hora em que o menino, que aparentava ser uns dois anos mais velho que eu, se levantou do banco, pegou seu skate e saiu, indo na direção de onde eu tinha vindo. Achei a situação muito incomum e estranha, já que eu nunca tinha visto ele na vida (e morando em uma cidade pequena como aquela, era impossível não conhecer um morador), e ele não poderia ser um turista, já que estava andando sozinho pela cidade. Além disso, ele não estava fazendo nada ali. Não carregava um livro, um celular, uma câmera fotográfica ou sequer fones de ouvido, ele estava apenas parado, seguindo um pássaro com os olhos. Eu não pude deixar de notar isso, já que ele estava mexendo a cabeça de um lado para o outro.
No momento que parei de pensar no menino, eu notei que não deveria dar tanta atenção assim para ele, afinal, ele poderia ser muito bem um morador novo ou um turista que conhece bem a cidade. Já estava escuro, então, tive de desistir da leitura e voltar pra casa.
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