O Natal de Joy & Christian
2 Um - O não-milagre de natal
Notas iniciais
É claro que estava tocando uma música de Natal quando eu desci da balsa.
Mesmo que ainda fosse outubro.
A partir do dia 26 de dezembro do ano anterior, nunca era cedo demais para começar os preparativos para o próximo Natal em Evergreen Meadows.
Foi uma surpresa ter conseguido descer da embarcação sem passar vexame. Minha ausência ali nos últimos anos tinha cobrado seu preço na minha falta de traquejo.
Minha memória muscular não me impediu, no entanto, de quase ser prensado por duas caixas gigantes que também estavam sendo retiradas da balsa.
Respirei fundo e forcei um sorriso para os trabalhadores responsáveis pela descarga, que me lançaram olhares de desculpas que pareciam muito significar que eles preferiam estar em qualquer lugar menos ali.
É, eu também meus amigos.
— Ei, cara!! Aqui!
Eu já tinha avistado meu primo encostado na caminhonete vermelha do outro lado da rua assim que a balsa tinha parado no porto. Do lado do motorista estava meu irmão, com uma expressão tão animada quanto eu me sentia.
Claus acenou enquanto eu puxava minhas malas ziguezagueando entre os entregadores das caixas enormes.
Assim que os alcancei, fui puxado para um abraço quase sufocante. Claus com certeza estava maior do que seu pai, com quem compartilhava o nome. Aquilo queria praticamente dizer que ele se aproximava ao tamanho de uma estátua do Paul Bunyan.
A família Bell era formada por homens enormes fosse para os lados ou em altura. (E se dependesse do meu primo, seria uma boa hora para inserir um duplo sentido). De alguma forma, eu e meu irmão conseguimos manter o equilíbrio entre largura e altura, embora eu tivesse que aguentar várias perguntas se eu era bom em esportes.
Eu não era. Muito pelo contrário.
Costumavam dizer que minhas habilidades esportivas eram tão ruins que seriam capazes de fazer o menino Jesus inanimado do presépio começar a chorar.
Na verdade, apenas uma pessoa costumava dizer aquilo…
Christopher, meu querido irmão, não me lançou mais do que um “bem-vindo ao lar” apressado e pegou minhas malas, levando-as para a traseira do veículo.
Aparentemente, ele ainda não havia desenvolvido a parte de sentimentos fraternais.
Muito menos me perdoado por ir embora de Evergreen Meadows.
— Qual é a das caixas enormes? — falei, empurrando Claus para sentar entre Kit e eu no carro. Pro azar dele, ele teria que ir espremido no meio da nossa tensão familiar.
— Parece que o pessoal demorou para decidir sobre o presépio e o resultado foi figuras bíblicas em tamanho real sendo entregues com dois meses de atraso.
— Mas ainda não estamos em outubro? As figuras já não vêm todas prontas? Tipo, só ajeitar os lugares e…
Tanto Claus quanto Christopher me encararam como se eu fosse um idiota.
Pelo visto, eu era. E não saber todos os trâmites da preparação para o Natal ali era basicamente um crime. Especialmente quando se estava prestes a assumir o comando.
Meu primo quebrou o clima tenso rindo e dando tapinhas no meu ombro:
— Cara, você realmente está parecendo um estrangeiro. Estou tentado a sentir pena de você, sabendo que vai ser o representante da nossa família esse ano.
Claus se esticou para pegar uma garrafinha de água no porta-luvas e me entregou, com um sorrisinho falso.
Bufei antes de tomar um gole.
Pela primeira desde que eu os encontrei, Christopher falou num tom que não parecia um resmungo:
— A sorte dele é que a representante dos Garland vai ser a Joy, então basicamente vai ser uma competição de quem faz pior e…
Um silêncio preencheu o veículo depois que uma cusparada involuntária colocasse para fora toda a água que eu estava prestes a consumir.
Tentei encarar o ponto encharcado do painel, mas não enxergava nada claramente. O nome de Joy estava ridiculamente ecoando em todos os meus sentidos.
— Que droga, Christian, você vai limpar essa merda!
— Poxa, Kit, tinha que contar as coisas para ele devagar, desse jeito capaz do cara pular do carro e voltar para a balsa.
Não poderia dizer que aquele pensamento não tinha acabado de passar pela minha cabeça. Entretanto, me forcei apenas a tomar mais um gole de água.
— Esqueci que ele fica sensível quando o assunto é a namoradinha de infância dele.
Minha garganta doeu com o modo abrupto com o qual engoli a água. Os ombros de Claus sacudiam ao meu lado enquanto ele tentava disfarçar uma risada.
— Ela não foi minha namorada.
— Sinto muito por sua frustração.
Abri a boca para rebater, mas, ao fundo, o sinal sonoro indicou que a balsa estava partindo para voltar apenas dali a três dias. Era como um prenúncio de uma tragédia.
Agora minhas opções de ir embora era roubar um helicóptero dos ricaços que tinham passado a visitar a cidade ou me jogar no mar e tentar minha sorte.
Claus começou a gargalhar e disse:
— Tarde demais para voltar atrás, meu chapa.
Não sei… talvez eu acabasse me descobrindo um bom nadador.
❆❆❆
Duas batidas na porta me fizeram levantar da cadeira num solavanco, encarando um mundo escuro.
— Senhorita Garland? Só falta a senhora desembarcar. — uma voz soou do lado de fora.
Minha mente deixou meus olhos piscarem algumas vezes antes de perceber que eu ainda estava usando a máscara para dormir. Tirei-a com cuidado. Estreitando os olhos para a claridade.
— Eu...hm, já estou saindo... Obrigada.
A cabine improvisada que tinham arranjado para mim tinha um espelho com várias rachaduras, mas que me permitiam ver bem meu estado precário.
Minha roupa estava toda amarrotada, meu cabelo todo desgrenhado e, claro, meu lábio estava branco como se eu fosse desmaiar a qualquer momento.
Só de perceber o suave movimento da embarcação, meu estômago já estava embrulhando. Precisava sair logo dali antes que meu "não-café da manhã" resolvesse ser posto para fora.
Os responsáveis pela balsa tinham sido gentis o suficiente para me colocar num aposento confortável e sem muita iluminação que me permitia esquecer que eu estava no mar por algumas horas, em vez de ficar com o restante dos passageiros.
Aquele enjoo terrível era um dos motivos porque eu evitava voltar para aquele lugar a não ser que fosse estritamente necessário.
Depois de negligenciar por três anos minha responsabilidade de ser a representante da família Garland no Natal, não tinha mais como eu permanecer viva se não comparecesse daquela vez.
Tinha certeza que minha mãe contrataria um assassino de aluguel para me matar. Sem exagero.
Olhei para baixo, tentando me conformar com meu estado humilhante.
Colocando a cabeça para fora do quartinho enquanto ajeitava minha franja teimosa, dei um sorriso simpático para o funcionário que não deveria ter nem 20 anos direito.
— Será que você poderia me fazer dois favorzinhos?
Os olhinhos dele brilharam:
— Claro!
— Poderia me indicar onde fica o banheiro mais próximo e me dar uma ajudinha para ir até Evergreen Meadows com algumas malinhas?
Fiz uma careta mental, me repreendendo mentalmente por estar usando e abusando dos diminutivos, mas o meu último workshop com crianças ainda estava fresco demais em minha mente.
Abri a porta mostrando que não eram exatamente "algumas malinhas", mas corri em me apressar:
— Eu pago bem.
E tinha sorte que sorriso e dinheiro eram duas armas que nunca falhavam. Felizmente, nos últimos tempos, eu estava conseguindo contar com as duas.
*
Claro que não havia ninguém esperando por mim no desembarque. Eu não tinha dito exatamente que dia chegaria — e esse não era o único mistério que eu carregava comigo naquele regresso.
A questão era que também não estava nos meus planos explorar um garoto que mal tinha saído do ensino médio para levar minhas malas e usar seu carro “sofrível" para percorrer 52km até em casa.
Infelizmente, meu namorado teve uma emergência de trabalho de última hora e teve que me jogar aos lobos. Parte de mim acreditava que ele tinha medo daquele encontro com minha família tanto quanto eu e, considerando nossa situação, eu não era capaz de julgá-lo.
Também não conseguia ficar muito tempo brava com Henri, antes de começarmos a namorar 2 anos atrás, eu havia passado boa parte dos últimos anos enfrentando meus perrengues sozinha.
Além disso, eu sabia o quanto o trabalho dele requeria tempo, mas, no fundo, eu estava me preparando psicologicamente para aquela viagem há meses — desde que recebi a mensagem da minha mãe dizendo que se eu não aparecesse naquele Natal poderia tirar o Garland do meu sobrenome — e o meu trabalho também estava sempre me ocupando. Achei que aquela seria uma boa oportunidade de enfrentarmos aquele obstáculo intransponível juntos.
Já tinha passado da hora e eu tinha uma pequena crise de ansiedade toda vez que contemplava a questão.
Para ser sincera, ainda parecia um pouco surreal estarmos juntos.
Eu amava Henri, óbvio.
Logicamente, eu sabia que nosso relacionamento não era algo leviano. Sabia que uma hora ou outra estaríamos…noivos — a ideia de um noivado ainda me dava um frio na barriga, mas não tanto quanto a ideia de casarmos.
No entanto, quando o pedido de namoro aconteceu foi tão… normal. Eu não esperava nem queria nada grandioso, mas… eu não sabia exatamente quais eram minhas expectativas. O amor com Henri era calmo, compreensivo, plácido e seguro, no entanto — principalmente no começo — eu me perguntava se parecíamos mais apenas bons amigos do que qualquer outra coisa.
Me perguntava se o limite que eu havia imposto entre nós muitos anos atrás não seria o certo a ser seguido. Se eu não estava apenas confundindo as coisas.
Se não estava cansada de ficar sozinha.
Mas… eu entendia as dúvidas. Henri era meu primeiro relacionamento sério e oficial. O medo era natural.
Acima de tudo éramos compreensíveis um com o outro e eu entendia que estávamos construindo nossas carreiras e nossas vidas para então viver nosso conto de fadas perfeito. Estávamos em momentos cruciais da nossa trajetória profissional e talvez por isso tinha aquela sensação de que faltava algo na nossa relação.
Talvez, quando tudo se estabilizasse…
Um solavanco me fez bater a cabeça no teto do carro do menino gentil que aceitara me levar até o coração de Evergreen Meadows.
Ele me olhou com um pedido de desculpas estampado no rosto.
— Sinto muito, não sei porque resolveram parar justo aqui e…
Foi então que reparei a fileira enorme de carros que se acumulava na subida da montanha.
Não era possível que até ali os engarrafamentos me perseguiam.
Suspirei fundo.
O rapaz — Joseph — deve ter pensado que de alguma forma eu achava que a culpa era dele porque começou a gaguejar alguma coisa relacionada a “ir ver o que estava acontecendo” e antes que eu pudesse indicar que havia um atalho em algum lugar por ali, ele bateu a porta do carro e se juntou a o grupo de pessoas que começavam a se aglomerar.
Tentei me ajeitar no banco carona que estava praticamente colado com o painel do carro por causa das minhas malas no banco traseiro, mas minhas pernas nunca conseguiam ficar num ângulo minimamente confortável.
Isso porque eu não era lá uma pessoa muito alta.
Àquele ponto, eu nem me importava mais com meu estado — que deveria ter passado de precário para calamitoso — e com tudo que eu teria que ouvir da boca da minha mãe assim que passasse pela porta.
Peguei meu celular, prestes a mandar uma mensagem para minha prima para saber como estava o campo de guerra conhecido também como “Os Preparativos da Família Garland”, quando minha atenção foi puxada imediatamente para o ponto vermelho a alguns veículos de distância.
Na “cidade do Natal”, não era incomum pontos vermelhos e verdes espalhados por aí, mas eu conhecia bem demais o tom daquela lataria porque eu tinha ajudado a pintar.
E pior, eu conhecia muito bem a pessoa que estava apoiada nela porque, bem… era impossível que alguém que crescera em Evergreen Meadows não conhecesse Christian Bell e era impossível que a pessoa que o reconheceria mesmo de costas depois de 10 anos não fosse eu.
Foi como um golpe no meu peito.
Como se atraído por meu olhar e reconhecimento, ele se virou exatamente na direção do carro de Joseph e eu afundei no assento o máximo possível — o que não era muito.
Por sorte, um outro homem — seu primo, se eu não estava enganada — chamou sua atenção e começou a falar sobre algum assunto.
Era óbvio que devido à chantagem, ameaça e tortura psicológica da minha mãe eu tinha esquecido de verificar quem estaria em Evergreen Meadows.
Dos 10 anos que se passaram desde que eu e Christian nos mudamos daquele lugar, nós nos planejávamos muito bem para não nos encontrarmos um com o outro.
Era um acordo tácito, para falar a verdade.
Desde a nossa briga no último ano do ensino médio — que havia sido ainda mais intensificada com a briga das nossas famílias — fizemos esse acordo de não entrarmos no campo de visão do outro pelo resto de nossas vidas.
Então, se eu estava com vergonha de ser vista naquele carro minúsculo de um garoto desconhecido enquanto estava totalmente desgrenhada e sem um parente para me receber?
Claro que não. Era apenas a minha fidelidade e comprometimento com nosso acordo silencioso.
Obviamente.
Escorreguei mais um pouquinho no assento e meus joelhos ficaram dolorosamente prensados contra o painel.
Que inferno.
Respirei fundo, prometendo a mim mesma que seriam meses de muita paz. Que eu não sairia do sério. Não cometeria agressões físicas e/ou verbais. Que eu abraçaria o espírito natalino e deixaria o júbilo cristão me envol…
Meus pensamentos foram interrompidos quando, ao esticar meu pescoço para ver onde estava o dono do carro, notei a movimentação dos veículos em volta e duas figuras se aproximando.
— Esse é o meu. — A voz de Joseph soou cada vez mais perto. — Mas acho que não vai caber eu e você no carro.
A segunda voz fez meu corpo gelar e se dobrar bem devagar no banco até estar parcialmente escondido pelo painel e pelo blazer que eu tinha acabado de puxar sobre minha cabeça:
— Tem mais alguém aí com você?
Levantei o pescoço minimamente, aliviada em ver que Christian não estava no meu campo de visão, mas Joseph sim.
Neguei com a cabeça, desesperada, quando meu olhar se encontrou com o do menino, colocando um dedo sobre os lábios, implorando para que ele ficasse quieto sobre a minha presença.
— Éeer…não. — seu tom não foi nada convincente, mas eu sabia que Christian não era o tipo de cara que gostava de apontar a mentira óbvia das pessoas, então respirei aliviada. — É que…estou com algumas malas que uma moça me pagou para levar e não acho que caiba nós dois no car…
Se eu já não tivesse mais de 300 motivos para me ressentir do Natal, a minha farsa e de a Joseph ser revelada ao som de “Let It Snow” quase gritando no meu celular teria sido o primeiro.
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