O Natal de Joy & Christian
3 Dois - Reencontro de inimigos
Notas iniciais
“The weather outside is frightful, but the fire is so delightful since we’ve…”
Enquanto a música rolava, suspirei, tirando o olhar na figura mal coberta pelo blazer que se encolhia no banco carona e me virei para Joseph.
Eu não queria soar condescendente, mas não acho que tinha outro jeito de falar numa situação daquelas:
— O telefone… é seu?
O rosto dele ficou vermelho como se fosse explodir e ele negou, relutante, com a cabeça.
A música parou tão abruptamente quanto a pessoa mal escondida jogou blazer de lado, revelando ser ninguém menos que Joy Garland.
Fingindo surpresa, ela pôs uma mão sobre o peito, deliberadamente escolhendo encarar apenas Joseph.
— Ah! Que…coisa. Eu me enrolei toda aqui tentando ajeitar meu sapato, por isso estava abaixada, mas aí o blazer caiu sobre minha cabeça e…
— Joy. — interrompi sua historinha com um cumprimento.
Ela finalmente se virou para mim, inabalada, e respondeu:
— Christian.
Inclinei a cabeça, analisando sua figura bagunçada.
Era surpreendente notar como ela continuava essencialmente a mesma.
Os mesmos cabelos bem pretos e longos, a mesma franja teimosa na testa, os mesmos olhos castanhos bem marcados, o mesmo nariz atrevido e a mesma boca excelente em… soltar mentiras desnecessárias.
Para alguém que estava chegando na época mais fria do outono, sem um carro apropriado nem ninguém próximo para buscá-la, Joy usava um batom vermelho vivo, uma blusa fina amarrotada e, até onde meus olhos conseguiam ver um shorts de cintura alta com uma meia calça por baixo — que seria rasgada ao qualquer momento porque sua pulseira estava bem presa na parte da coxa.
Aquela certamente era uma escolha de roupa para uma sessão de capa de revista, definitivamente não de uma viagem desagradável numa balsa.
Como se não estivesse me ignorando ativamente há poucos instantes, agora ela me encarava sem reservas e uma sobrancelha arqueada de uma maneira quase imperceptível.
Mais nervoso do que quando eu havia descoberto sua mentira, Joseph gaguejou, alternando o olhar entre mim e Joy.
— V-você é Christian Bell? — assenti, sem parar de encarar aquele fantasma do passado que agora estava bem na minha frente. — E-e v-você é Joy Garland?
— A própria. — ela respondeu, também com os olhos grudados nos meus.
Na minha visão periférica, o menino parecia estar vendo Maria e José na sua frente.
O que era irônico considerando estava bem explícito que Joy e eu preferíamos ter sido mandados para uma área remota do globo por 30 anos do que estarmos na mesma cidade.
Ainda assim, sabendo que era uma situação inevitável, eu fui o primeiro a parar com aquele jogo de encarar, me virei para o garoto e disse:
— Pode ir lá na caminhonete do meu irmão, eu deixo o carro na sua casa.
— O quê? — O meio-grito, meio-engasgo, de Joy foi tão fino que fez minha cabeça doer. — E como eu vou chegar em Evergreen Meadows?
Suspirei.
— Contanto que você não tenha um de seus surtos psicóticos no meio do caminho e se jogue do carro em movimento, acho que consigo te levar em segurança.
Joseph estava de olhos arregalados e Joy lançou uma careta raivosa na minha direção, murmurando algo do tipo:
“Surto psicótico quem deve ter é o povo da sua família maluca.”
— Eu não acho…hm… que deva…que possa…hm deixar vocês dois sozinhos.
É, considerando o histórico das duas famílias e o período atual de guerra, todos que moravam em Evergreen Meadows estavam ciente de que seria mais seguro escolher uma avalanche do que colocar um Garland e um Bell próximos um do outro sem supervisão.
Enquanto isso, Joy dava risada do comentário do menino.
— Se fosse para gastar meu réu primário pode ter certeza que não daria a ousadia de ser com um Bell. — Respirando fundo, ela ajeitou a postura. — Não se incomode, eu arranjo outra pessoa para me dar carona.
Apenas cruzei os braços, observando-a sair do carro — sua meia calça ganhando o prometido rasgo fino no processo — e perceber o que estava óbvio:
Todos os carros que estavam presos naquele engarrafamento já tinham se direcionado para o atalho deixando apenas o carro de Joseph e a caminhonete do meu irmão.
Depois que aquela estrada tinha sido bloqueada por um deslizamento na montanha, ninguém queria ficar ali para arriscar ser alvo do próximo.
Joy tinha a difícil escolha de voltar para dentro do carro e aguentar um Bell que não tinha a menor intenção de bater papo com ela ou ir na caminhonete com dois Bell que possivelmente aproveitariam cada segundo para soltar farpas e piadinhas.
Percebendo a exasperação dela, Joseph tentou ajudar.
— Se a senhorita conhecer o atalho, pode dirigir e posso acompanhá-la…
— Eu conheço, mas…
— Ela não dirige.
Nós falamos ao mesmo tempo, virando a cabeça para nos encararmos.
Joy estreitou os olhos como se perguntasse silenciosamente como eu ainda lembrava daquilo.
Como eu lembrava qualquer coisa sobre ela.
Os meus deveriam perguntar como não poderia lembrar.
Limpando a garganta, ajeitei a postura e anunciei:
— Eu e meu irmão precisamos chegar logo em casa então se pudermos finalizar esse papo aqui antes que anoiteça, eu agradeceria.
Joy soltou um muxoxo e voltou a entrar no carro com cara de poucos amigos. Joseph apenas assentiu com a cabeça quase batendo continência e foi em direção à caminhonete onde estavam Christopher e Claus. Este último estava lançando dois joinhas sugestivos na minha direção.
Soltei o ar pelo nariz — percebendo só naquele instante como o ritmo de minha respiração tinha sido racionado assim que pus os olhos em Joy — me preparando psicologicamente para estar dividindo o mesmo espaço com aquela Garland em específico depois de uma década sem nos falarmos.
❆❆❆
Enquanto Christian dava a volta no carro para entrar do lado do motorista, eu xinguei os céus por sempre me colocarem naquele tipo de situação humilhante.
Não posso negar que parte da minha mente queria levantar, arrancar a chave do carro da mão de Bell e dirigir eu mesma até em casa.
No entanto, só de pensar em ficar atrás de um volante, eu conseguia perceber minhas mãos começando a tremer. Memórias antigas tentavam emergir para a superfície enquanto eu as empurrava para baixo.
Pior do que precisar da ajuda de Christian a me levar até a cidade, seria deixá-lo ver como eu ainda era patética.
Antes que ele abrisse a porta, peguei a máscara de dormir para colocá-la novamente sobre o rosto e me cobri com o blazer, como se pudesse fazer Bell esquecer que eu estava ali.
Ouvi os movimentos dele entrando e se sentando, mas ele parou por um momento e então soltou um suspiro cansado, dando partida no carro.
Tentei dormir de verdade, mas era impossível.
De todas as coisas que eu esperava para aquele fim de ano, a última era que o caçula dos Bell estaria ali na mesma época que eu.
Era surreal pensar que, há 10 anos, não haveria outra pessoa que eu mais desejasse ver que Christian. A única pessoa que me impedia de enlouquecer naquele lugar.
Meu confidente.
Meu melhor amigo.
Meu parceiro.
E agora…
— Não sabia que você estaria aqui. — sua voz cortou o ambiente silencioso.
Se soubesse, não teria vindo. Era o que ele devia estar adicionando mentalmente.
Continuei em silêncio, jogada no banco, dando meu melhor para parecer adormecida.
Entretanto…meu ex-melhor amigo já tinha sido a pessoa que me conhecia mais do que qualquer outra.
E ele me lembrou disso ao dizer:
— Sei que não está dormindo. Você ronca.
Puxei a máscara do rosto, indignada.
— Quem ronca é a sua mãe!
Percebi um sorrisinho de canto em seu rosto e ele tirou o rosto da estrada por um segundo para me encarar como quem dizia:
“Eu estava certo, você não estava dormindo.”
Só que suas reais palavras foram:
— Você é obcecada por minha família, queria saber o porquê…
Bufei.
— Acho que seria um sonho seu que qualquer um da família Garland desse o mínimo de atenção para vocês.
Christian voltou a olhar para frente.
— Certo, até porque dá mesmo para fingir que nenhuma das nossas famílias é obcecada uma pela outra quando está praticamente acontecendo uma guerra há anos entre as duas.
Em vez de um tom leve, havia um tom pesaroso em suas palavras, como se aquele assunto já tivesse gerado diversas discussões entre ele e seus parentes.
Mas aquilo não era da minha conta.
Eu não me importava.
Voltamos a ficar em silêncio enquanto eu encarava minhas pernas e o rasgo ridículo na minha meia calça, em vez de focar em qualquer ponto da estrada ou no movimento do carro.
Eu conseguia perceber que vez ou outra, Christian me olhava de esguelha.
Tentei me distrair, murmurando:
— Também não sabia que você estaria aqui.
Christian apenas assentiu com a cabeça como se aquilo fosse lógico, normal e aceitável.
Como se fosse normal eu saber menos sobre um garoto que passou metade da minha vida ao meu lado do que sobre um estranho.
Como se fosse normal não termos notícias um do outro por 10 anos e agora estarmos dentro do mesmo carro, conversando como se fôssemos apenas uma inconveniência um para o outro.
Ele acrescentou quase que para si mesmo, como se fosse necessário:
— Acho que só podemos fugir dos fantasmas do passado até certo ponto, afinal.
Involuntariamente, ao ouvir a expressão, meu pescoço virou para encará-lo.
Fantasmas do passado.
Bem, acho que era isso mesmo que nos tornamos um para o outro no fim das contas.
Voltei a encarar meu colo, mexendo na minha máscara de dormir porque era óbvio que seria impossível pegar no sono com um inimigo jurado ao meu lado.
Mas, pelo visto, para Christian, o silêncio entre nós era mais desconfortável do que estarmos conversando porque ele falou:
— Por que está sozinha? Sabia que ia ter pegar a estrada para chegar na cidade e você não dirige. Cadê sua família?
Sua voz tinha um toque acusatório e eu respirei fundo.
— Queria fazer uma surpresa. Na verdade, minha família não estava ciente de quando eu chegaria aqui. Só Mariah soube quando eu já estava a caminho, mas está cuidando das crianças.
— E você achou que a melhor ideia era vir sozinha? — Ele me censurou com costumava fazer quando estudávamos juntos e ele me repreendia por fazer alguma coisa idiota. O que acontecia com certa frequência.
Um mal estar começou a subir pela minha garganta e eu encostei minha cabeça no assento, fechando os olhos.
— Não, porque eu não ia vir sozinha, eu ia vir com He… — me impedi automaticamente de falar o nome de Henri em voz alta, mas quase tarde demais. — …meu namorado. Ele teve uma emergência no trabalho e aconteceu de eu ter que vir sozinha para não perder as duas passagens de uma vez.
Christian ficou em silêncio por alguns segundos, assimilando minhas palavras.
— Ah…Seu namorado? — repetiu.
— Meu namorado.
O carro deu um solavanco quando, ao olhar para mim, Christian passou por cima de um buraco.
Minha mão segurou seu braço no volante com força num ato reflexo, que meu coração quase saiu pela boca.
— Presta atenção! — disse, sem fôlego.
— Desculpa. — ele me olhou com uma expressão culpada e percebi que sua outra mão tinha parado sobre a minha, um de seus dedos bem em cima do meu anel de compromisso.
Num espaço de poucos segundos, ele analisou a joia e eu puxei minha mão de volta para o meu colo, quase escondendo-a debaixo do blazer.
— Não é um anel de noivado. — acrescentei tão rápido que me senti a maior das idiotas. Girei o anel no dedo, me sentindo nervosa de repente. Como se tivesse sido pega no flagra. — É de compromisso.
Christian assentiu com a cabeça em silêncio e se recompôs, colocando as duas mãos no volante e estabilizando a velocidade do carro, embora ainda desse olhadelas para mim enquanto eu tentava normalizar minha respiração. Como se quisesse confirmar que eu estava bem mesmo e não prestes a ter algo como um “surto psicótico”.
— Foi mal, Joy.
— Tá tudo bem. — falei, fixando meu olhar num ponto do painel do carro. — Esse atalho sempre foi cheio de buracos mesmo, mas por favor, olhe para frente.
Não caberia naquele momento dizer que meu nervosismo não era só pelo atalho perigoso e sim porque parte de mim temia a reação que Christian teria se soubesse que meu namorado era Henri.
Eu odiava estar em carros e odiava aquele carro por ser apertado demais. Odiava o fato de que mesmo sendo pequena, essa parte temerosa de mim ainda conseguia ser dominante sobre as outras. Eu não devia nada a Christian Bell e o contrário também era verdade.
Por sua vez, ele também não parecia estar confortável já que era gigante e minhas malas no banco traseiro impediam que ele empurrasse seu assento mais para trás.
Que droga.
Mesmo depois de 10 anos, eu não deveria pegar leve com o que tinha rolado na nossa amizade e estar me preocupando com o bem estar de Christian. Não deveria me preocupar com que ele achava sobre minha vida.
A ruptura na nossa relação não era algo tão simples que uma década poderia apagar, assim como o papel que Henri ocupou em nossos passados também não era algo fácil de relevar.
Aliás, eu tinha levado um bom tempo para recomeçar com ele também.
Nossas famílias — a minha e a de Christian — ainda mantinha bem viva a chama do ódio entre elas, conosco não deveria ser diferente.
Ajeitei minha postura e me preparei para soar firme.
Só que quando falei, a voz do cara ao meu lado saiu junto a minha.
— Não precisava ter se oferecido para me levar.
— Não sabia que você estava… com alguém.
Nos encaramos brevemente e eu suspirei. Christian foi o primeiro responder meu comentário.
— Joseph não conhecia o caminho do atalho e nós já passamos por aqui várias vezes. Além disso, é um caminho perigoso. Meu irmão levá-lo e eu te levar foi a melhor opção.
Balancei a cabeça, concordando.
Bem, era completamente lógico, embora se o restante dos Bell e dos Garland ouvissem aquilo discordariam.
Caramba, acho que até eu discordaria se fosse o contrário.
Christian tinha me visto numa situação complicada e resolveu ajudar, mas não sei se eu teria a bondade necessária para fazer o mesmo por ele.
Aquilo só podia significar que ele havia superado o que vivemos. Esquecido até. Talvez ele tivesse vivido tanta coisa quando esteve fora de Evergreen Meadows que a nossa antiga amizade já não tivesse mais a mínima relevância na sua vida. Nem nossa briga.
Não era como se tivesse relevância na minha também, mas ainda assim…
— Não teria como você saber que eu estava namorando. — respondi, com um tom firme e sério. — Não fazemos mais parte da vida um do outro.
Ele soltou um suspiro resignado.
— Não, não fazemos. — E dispensando aquela conversa estranha, sugeriu: — Pode cochilar se quiser, te acordo quando entrarmos na cidade. Ainda não estamos nem na metade do caminho.
Assenti com a cabeça, colocando novamente minha máscara sobre os olhos mesmo sabendo que não conseguiria dormir.
Era mais fácil fingir aquilo do que fingir que ainda dava para ter alguma conversa normal com um filho de uma família rival. Por mais antiquado e ridículo que aquilo soasse.
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