O Mundo das Flores de Sangue
1 Até certo ponto.
Notas iniciais
— Alguns anos atrás.
Estavamos limpando o nosso enorme e florido quintal que estava cheio de folhas secas no chão, as folhas das arvores caiam constante por conta da chegada do inverno. O tempo estava mudando, faltava pouco para a primeira neve. A brisa era fria e quando tocava minha pele me deixava arrepiada. Olhei para o céu notando as nuvens cinza chumbo se aglomerando, o que não era uma coisa muito boa.
— Naomi, precisamos terminar logo. A mamãe logo vai terminar o jantar e nós ainda estamos aqui e sem contar que vai vir uma tempestade já já.
Minha irmã assentiu e se apressou em limpar, acho que ela, assim como eu, não estava muito confortável com o clima de hoje. O mundo parecia meio sombrio.
Naomi era uma garotinha de seis anos que não falava muito. Seu rosto era redondo e bem rechonchudo como o de toda criança pequena. O cabelo liso e preto como petróleo, o corpo magro e tão branco que os galhos secos que a arranhavam deixavam enormes marcas vermelhas. Ela também tinha olhos expressivos e no momento eles pareciam bem preocupados.
O barulho de passos arrastados chamaram minha atenção e procurei de onde vinham. Olhei ao redor e logo mandei Naomi chamar a nossa mãe. Andei devagar até o som do barulho e foi aí que vi uma das cenas mais traumâticas da minha vida.
Na pequena cerca da nossa casa meu pai se apoiava como alguém que não aguentaria mais nenhum passo, sua roupa estava ensanguentada e rasgada mostrando feridas profundas e tão horriveis que quase me fizeram vomitar.
— Aiko...- ouvi meu nome sendo sussurrado e depois sufocado pela enorme quantidade de sangue que da boca dele escorria.
Eu congelei, não ouvia, não sentia, não respirava e nem falava. Achei que também morreria por alguns instantes até que ouvi os gritos e a correria da minha mãe e irmã.
A mamãe tirou o papai da cerca e o arrastou para dentro do nosso quintal, sua voz embargada produzia uma enchurrada de palavras as quais não entendi. Naomi ao meu lado apertava minha mão com força. Quando ela veio parar ali? Eu estava em total choque.
Era pra ser um dia como qualquer outro. Papai iria trabalhar, mamãe arrumaria a casa e nos deixaria brincar no quintal pelo tempo que quisessemos se depois limpassemos e no final mamãe estaria conosco no portão esperando o papai voltar. Sempre esperavamos. Mas agora o que eu via era apenas as folhas secas manchadas com o sangue do meu pai.
— Mamãe! — foi o grito de Naomi que me despertou. Minha mãe caiu de costas com força no chão, sangue escorrendo do seu ombro esquerdo. Olhei ao redor assustada e ao longe identifiquei uma figura feminina na rua andando para nossa casa.
— Aiko, Naomi, venham aqui! Me ajudem, precisamos ir! — mamãe parecia desesperada e totalmente amedontrada. Corri quase estantaneamente junto com Naomi até minha mãe a ajudamos a levantar. Mamãe olhou para a mesma mulher que vi e grunhiu.
— Iremos para longe, não olhem para trás em momento algum. Vai ficar tudo bem, minhas meninas. Mamãe está machucada, mas não morta. Agora precisamos correr! — mamãe apertou nossas mãos e nos fez correr pelo portão do quintal para a rua de trás. Corremos até nossos musculos não aguentarem mais. Naomi caiu algumas vezes e mamãe a sustentava mesmo com o rosto cheio de dor. Passamos por quatro quadras até chegarmos a ponte do Rio da Noite — Yoru no Kawa. Uma enorme e alta ponte que passava pelo turbulento e negro rio que quase nada refletia. Parecia o próprio caos aquele rio. Sua agua era poluída e seu consumo era fatal. O rio que refletia apenas a luz da lua.
— Mamãe, aonde vamos? Mamãe, estou com medo.- Eram as primeiras palavras que ouvi da minha irmã até agora. Encarei a minha mãe enquanto corriamos em direção a ponte, seus olhos não tinham foco. Minha mão soava de nervosismo. O que estava acontecendo?
Chegando na ponte tropecei numa pedra que acabou abrindo um corte feio no meu pé. Mamãe segurou minha mão com força e se agachou para me ajudar a levantar. O "tiro" de raspão que passou por seu rosto fez a se afastar de mim abruptamente. Ela virou o rosto pra onde vinha uma mulher de uns cinquenta anos caminhando num tailleur — terninho- rosa bebê armada com uma enorme arma, uma Magnum 500 talvez? Meu conhecimento de armas era baseado em filmes de ação.
— Ora,ora, Mariko. Por que se esconde de mim? Por que esconde suas filhas, minhas netas, de mim? — A mulher tinha uma voz de sapo e o que usava era de quem estava enojada.
Mamãe nos encarou e soltou nossas mãos. Seus olhos lacrimejaram e pareciam refletir toda nossa vida. Ela era linda até mesmo agora que o mundo parecia querer esmagar tudo o que tinha em mil pedaços. Seu cabelo preto esvoaçou e ouvimos o som de um trovão. Ela se levantou sem nossa ajuda ficando na nossa frente protetoramente.
— Você não pode ser avó, Eleanor Matsui. Você nem mesmo foi mãe. — a voz da mamãe soou cortante demais até para ela mesma. Apertei a mão de Naomi que me ajudava a levantar e observei a senhora cerrar os dentes e depois com um sorriso felino ela levantou a arma.
— Se é assim que quer, então eliminarei esses fantasmas que arruinam a minha familia.
Escutei mamãe gritar para corrermos e nos empurrar. A bala a acertou tão rápido que mal escutei qualquer barulho. Apertei a mão de Naomi e corri ao lado dela sem pensar em dor ou perdas. Mamãe gritava lá trás e os tiros não cessavam. O outro lado da ponte estava escuro e lá dava inicio para uma enorme e velha floresta. A escuridão e o medo não sairiam da minha mente nunca. Naomi engasgava com a corrida e eu pisava com força para forçar meu pé machucado a andar. Na entrada da floresta ousei olhar para trás e vi o corpo da minha mãe cair da enorme ponte para o rio tão negro quanto a noite. Minha visão estava turva, mas vi o movimento dos seus lábios enquanto caía: " Amo vocês". E assim ela sumiu nas aguas negras.
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