Notas iniciais
'A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais." — Epicuro

Acordei numa poça de sangue e lama junto a minha irmã, que estava desacordada e de bruços. Tentei levantar a cabeça, mas me senti tonta. Algo quente escorria pela minha nuca e eu tinha certeza que não era suor. Olhei ao redor e só enxerguei árvores e mais árvores, todas mortas. A paisagem era sombria, a terra estava úmida pela chuva da noite anterior. Eu estava me sentindo cada vez pior, mas não era só pelo machucado do pé, ou pelos arranhões causados por espinhos na floresta, nem mesmo quando caímos de um barranco ou agora o fato de sentir meu sangue escorrer pela minha nuca. Minha irmã estava no mesmo estado um pouco pior talvez. Eu estava me sentindo pior pela sensação de abandono, de traição e de como aquilo não fazia sentido.


"Mamãe mentiu para nós e agora ela está morta. O que eu ou minha irmã fizemos para passar por isso? Por que aquela senhora, que supostamente seria nossa avó, matou a nossa mãe?" Era o que passava constantemente em minha cabeça. Não obtive respostas de qualquer maneira e nem obteria tão cedo, era o que eu achava.

Me apoie no braço que estava menos machucado e tentei sentar, minha roupa estava em trapos. Puxei minha irmã para o meu colo e limpei seu rosto cheio de lama, ela grunhiu de dor, mas por final demonstrou estar bem.


— Não sei onde estamos e nem para aonde vamos, Naomi. — a verdade dita era muito mais dura do que eu esperava.


Lembrei de como corremos através da densa e escura floresta morta até nossos pés criarem bolhas de sangue, atravessamos um pequeno corrego e depois demos de cara com um barranco para agora estarmos aqui perdidas e esperando pela morte. De que adiantou tudo afinal?


— Aiko-nee — Esse era o jeito de dizer "irmã" de Naomi quando ela queria me acalmar.- Vamos achar um lugar para ficar. Mamãe confia em nós, não podemos desaponta-la.


Olhei para o rosto redondo, machucado e com olhos cheios de lágrimas da única pessoa que me restava. Protegeria ela com todos os meus dentes e não desapontaria nossa mãe. Coloquei Naomi sentada e levantei com um pouco de dor. Estávamos imundas, machucadas, sem ter pra onde ir e com fome. O jeito agora seria procurar por civilização, o que não era algo muito bom já que vivíamos na época mais violenta da terra. Encontrar um lugar seguro era raro, mesmo que o Governo alegasse que estava tudo em paz, todos sabiam a grande mentira. A Quarta Guerra Mundial foi totalmente biológica e química, as nações mataram tudo onde suas armas alcançavam. Quase não sobrou planeta pra contar história. Lembro que mamãe me contava sobre a Paz dos Grandes Reis, nome dado a trégua que os países que restaram deram na época, um jeito de dizer que a guerra havia acabado. Eu poderia contar também que as nações criaram AN Cities, cidades "neutras e artificiais", 200 no total, já que foi o que restou de terra intacta e fértil e deixaram o resto como terra de ninguém... Mas agora chega de devaneios, eu precisava encontrar ajuda. Suspirei e passei a mão pela nuca, o sangue estava ficando seco. Arranquei um trapo da minha blusa que um dia foi verde e amarrei no pé ferido. Eu só tinha dez anos, não tinha nenhuma experiência com feridas muito graves ou o que fazer com elas, então foi o melhor que fiz. Notei que Naomi estava cansada e piscava contra o sono, afinal, ela era só uma garotinha assim como eu.


Andei pelos cascalhos, raízes e lama até a árvore com aparência mais "viva" e mais alta que vi, uma árvore negra e seca com galhos espinhosos, tinha uns seis metros ou sete de altura, ela precisaria servir só tinhamos esse jeito. Agarrei o tronco seco e tentei escalar, farpas entrando na minha mão. Eu não tinha forças e nem fôlego pra isso. Forcei meu corpo para cima insistente. Não seria fraca, meu objetivo era proteger minha irmã, minha única família. Continuei na minha vagarosa subida até o topo da árvore, a quantidade de farpas que sentia na pele era maior do que eu poderia contar, mas eu já estava quase lá. Realmente, eu estava quase, mas o grito agudo de dor de algo me assustou e eu cai. Caí batendo de costas em todos os galhos com espinhos que tinha evitado na subida. Pensei em Naomi, eu só consegui ver o vislumbre de uma cidade ao longe e mais nada. Agora estava caindo pra morrer enquanto algo ou alguém poderia por em risco a vida da minha irmã pequena.


Fechei os olhos enquanto sentia o choque da terra contra as minhas costas e o meu pulmão quase saltando do meu peito. O sangue voltando a escorrer pela minha cabeça... Bem, foi doloroso, mas depois não vi ou senti mais nada.

Notas finais
Espero que aproveitem a leitura e que comentem, quero saber a opinião de vocês. Caso houver erros gramaticais é só me dizer :3 Não mordo u.u -Bjos, da Autora