O Mundo Tingido de Preto
2 Um Mundo Negro
Notas iniciais
Acordo com o barulho de conversas, e rapidamente me levanto.
Olho rapidamente para o local: devia ser um quarto de um hotel barato originalmente, mas agora é um refúgio para o grupo mais revolucionário da sociedade pós-apocalíptica. Tem grossas paredes cinza, e um soalho de madeira. Tem também algumas janelas, e um monte de bagunça.
O grupo dividiu o grande quarto em pequenas partes, cada uma com um “proprietário”. Nesse espaço minúsculo, é aonde dormimos e também deixamos todas as nossas coisas. Eu tenho um pedaço de espelho, – a única parte que não se quebrou — bem como também algumas garrafas de água e comida enlatada escondidas numa mochila preta. Além disso, nessa mesma mochila tenho mais algumas peças de roupas reserva, e uma pistola, que me ajudou muitas vezes para eliminar os zumbis. Essa pistola tem um silenciador, e também tem muita munição, não vai faltar tão cedo.
Então, pego o espelho e vejo como estou: Meu cabelo está um pouco comprido demais, com seus tons negros. Dificilmente eu o penteio, já que ele é tão arrepiado que não faz muita diferença. Meus olhos, da mesma cor que o cabelo. Além disso, tenho o corpo magro, mas mesmo assim não deixo de ser forte, o que foi uma necessidade durante esses dois anos. Tenho uma estatura mediana. As roupas que uso nesse momento são uma camisa branca sem estampa, um pouco suja com sangue, juntamente de uma calça de abrigo preta com uma listra vermelha ao lado, que não combinava com o jaleco preto que eu usava naquele momento. Além disso, estou com um sapato esportivo, e com meias brancas. Uso, por fim, um cinto com um espaço aonde meu facão de cozinha está preso.
Dou um longo e lento suspiro, e saio logo do lugar em que estou, e peço minha porção diária à uma idosa que está responsável por isso, e recebo um pouquinho de arroz, juntamente com feijão é um pedacinho bem generoso de bife.
Como tudo rapidamente sem reclamar. Depois entrego o prato para o responsável pela louça do dia, que era um homem gordo, com uns 40 anos.
Após isso tudo, saio do local e vou até fora, nas ruas vazias.
Não há uma alma viva naquele local além de mim. As ruas estão empoeiradas, e dificilmente um carro passa por ali. Bem, o local é um pouco isolado do resto, de qualquer forma...
Mas eu vim aqui para pensar: o que eu posso fazer agora? Deve ter alguma forma... não tem sentido não seguir com o meu objetivo, vivi esses dois anos por isso.
Estou meio perdido... esperava achar algo nesse grupo, mas não faz sentido me arriscar espalhando minhas ideias, pois caso as pessoas neguem, dificilmente vou poder me manter aqui.
Enquanto reflito, algo bem estranho acontece.
Ouço um grito feminino estridente, e depois passos apressados vindos de diversos lugares, todos indo até a origem do grito.
Consigo ouvir vagamente o que acontece dentro do quarto:
O que aconteceu!? – Uma voz masculina indaga.
É um ataque! Eles estão vindo! – Responde a voz feminina que gritou.
Não pode ser... – Responde um outro homem.
Entre gritos e murmúrios, ouço alguém tomar o comando e dar tarefas para cada um. Percebo que alguém deve estar vindo me buscar. Bem, por que não esperar?
Ajo como se não soubesse de nada, e continuo olhando a estrada. Bem longe é visível que um grupo está vindo. Eles parecem estar armados.
Logo uma mulher me chama e eu vou atrás dela. Ela me explica tudo que eu ouvi rapidamente, e então vou até minha mochila, e a coloco em minhas costas, apressadamente.
Todos vão àquela rua em que eu estava olhando, e esperam pacientemente o grupo chegar. Ambos os lados estão armados.
O homem que tinha ficado no comando antes logo fica à frente dos demais, buscando resolver as coisas de forma diplomática.
Assim, esperamos por alguns minutos, até que o homem à nossa frente começa à falar:
— Olá a todos. Vocês estão em nossa base, e estão armados. Não podemos... – Ele nunca acabou a frase.
Afinal, alguém deu um tiro na cabeça dele.
O nosso lado entra em pânico, e aquilo se torna uma batalha sangrenta.
Enquanto pessoas se matavam em ambos os lados, eu apenas observava, escondido atrás de uma esquina próxima dali.
Um longo tempo passa nisso, com sons mortais de ambos os lados, e também com alguns poucos tiros – armas são realmente raras e valiosas por aqui.
Assim, começo a sentir fome. Nesse horário, normalmente, eu procuro por aí algo para comer, já que o que está em minha mochila é apenas para questões de emergência. Dou um longo suspiro e me contento em pensar que mais tarde eu farei algo.
Assim, mais um tempo passa, e decido que algo deve ser feito. É uma batalha unilateral, já que nosso lado tem umas 100 pessoas, e o outro lado umas 400. As proporções são ridículas.
Mesmo assim, o que eu poderia fazer?
Fugir? Não, não terei abrigo. Lutar? Não é uma boa ideia, posso acabar morrendo. Tentar resolver conversando? A última tentativa acabou com um tiro na cabeça.
O que deve ser feito...?
Bem, o máximo que pode acontecer é eu morrer, meu pai ter estado certo, e o mundo acabar. Nada a se preocupar. Por que não correr alguns riscos?
Retiro o silenciador da minha arma, e o mais discretamente possível ando até algum ponto no meio daquela briga. Miro minha arma para cima, e puxo o gatilho.
Um forte estrondo destoa no meio daquela briga.
— Pessoal, fiquem quietos! Me deem 5 minutos. Se não for bom o bastante para vocês, eu vou entregar minha vida e minha arma para quem for. Além disso, minha mochila, que tem um silenciador, muita munição e também comida e água. Porém, se não me ouvirem, lutarei até meu fim. Imagino que seja melhor para ambos lados que ninguém morra nesse momento. – Falo alto o bastante para todos ouvirem.
Após alguns instantes de conversas, as pessoas concordam em me ouvir.
Fico aliviado, e penso por um segundo sobre o que deve ser dito.
— Vou ser direto: Não concordo com nenhuma das opiniões políticas do mundo atual. E também não gosto de como ele está agora. Sim, eu tenho apenas 16 anos, mas quando eu tinha 14 meus pais morreram, e nesses dois anos vi o inferno. Não há sentido em me chamar de criança agora! – Inicio, aos gritos – Meu pai foi Kazinami Fujima. Ele está morto. Sua última conclusão foi de que o apocalipse não acaba quando os zumbis morrem, e que, muito pelo contrário, é agora que começa. Eu não sei o que ele quis dizer, mas essas foram suas últimas palavras. Quero cumprir o desejo de meu pai, e sobreviver ao apocalipse. Aos que se unirem a mim, não posso prometer nada, afinal; não tenho suprimentos para outro além de mim. Não tenho certeza de que algo vai acontecer. Não tenho abrigo. Não sou forte. Mas, não tenho dúvidas que quem vier comigo terá mais chances de sobreviver ao novo apocalipse. O que farão!?
Novamente, uma grande quantidade de palavras ecoa no recinto, e então, fico apreensivo. E se der tudo errado?
Então, percebo o que começam as brigas internas: alguns me apoiam, e outros não. Bem, vou sair do meio disso, e apenas esperar algum resultado.
Então, em uns dez minutos, eles começam a lutar de novo, por um motivo completamente diferente.
Dou um suspiro, e saio daquele local, sentando pacientemente na calçada. Já aproveito e abro um dos meus enlatados. Estou morrendo de fome. É um pacote de feijão. Abro facilmente, e como tudo. Não está muito bom, mas não é essa a questão.
O que eu posso fazer sobre essa briga idiota na minha frente?
“Seres humanos são mesmo estúpidos e manipuláveis”.
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