O Monstro dentro de mim
5 Sozinhos
O sábado amanheceu envolto por névoa.
Da janela do quarto, Leah via apenas os contornos borrados dos jardins e, mais adiante, a massa escura das árvores desaparecendo num branco espesso. O mar, que em dias claros surgia ao longe como uma lâmina cinzenta, havia sumido por completo.
A propriedade parecia flutuar fora do mundo.
Era perfeito.
Pela primeira vez desde que chegara, ela tinha um dia de folga real.
Margaret Vale saíra cedo para visitar a irmã e os sobrinhos numa cidade vizinha, algo raro o bastante para ser anunciado com antecedência quase cerimonial.
Antes de partir, deixara instruções para a equipe reduzida de sábado e um olhar significativo para Leah.
— Tente não incendiar nada.
— Não prometo nada.
Leah gostava mais daquela mulher do que admitiria em voz alta.
Com Margaret fora, a mansão parecia ainda mais silenciosa. Não havia passos precisos nos corredores, nem ordens suaves para jardineiros, nem o tilintar disciplinado de louças na cozinha. Restava apenas o vento nas pedras antigas... e ele.
Adrian Thorne estava em algum lugar da casa, como sempre.
Mas, Leah tinha decidido ignorá-lo por vinte e quatro horas.
Mentiu para si mesma às oito da manhã.
*****
Na tarde anterior, seus livros haviam chegado pelo correio: uma pequena caixa amassada que ela quase abraçou ao receber.
Romances, um suspense policial e um volume grosso sobre mitologia nórdica comprado por impulso. Nada sofisticado ou que combinasse com bibliotecas sombrias ou milionários reclusos.
Perfeito outra vez.
Seu plano para o fim de semana era simples: tomar banho, vestir roupas confortáveis, prender o cabelo de qualquer jeito, comer tudo que encontrasse e desaparecer no quarto até segunda-feira.
Ser invisível por escolha própria.
*****
Às dez da manhã, Leah já estava instalada na cama, meias grossas nos pés, moletom largo, cabelos ainda úmidos espalhados pelos ombros. Uma caneca de café fumegava na mesa lateral. O primeiro livro aberto sobre os joelhos.
Silêncio.
Conforto.
Paz.
Ela leu quarenta páginas sem interrupção.
Depois alguém bateu à porta.
Leah ergueu os olhos devagar.
— Vai embora.
Nenhuma resposta.
Nova batida. Três toques firmes.
Ela atravessou o quarto descalça e abriu a porta com expressão homicida.
Corredor vazio.
No chão, uma bandeja: café fresco, torradas, frutas cortadas, geleia de laranja e um bilhete.
Você esqueceu o café da manhã. Pessoas ficam mais irritantes em jejum.
Leah encarou a caligrafia elegante.
— Psicopata prestativo.
— Ingrata. — A voz veio de algum ponto distante do corredor.
Ela girou o pescoço rapidamente.
Nada. Só corredor vazio e o eco da voz.
— Você fica rondando portas agora?
— Só as perigosas.
— Meu quarto é perigoso?
Pausa curta.
— Você está nele.
Leah sentiu algo ridículo no peito.
Leah fechou a porta com o pé, segurando a bandeja para impedir que o sorriso aparecesse.
Percebeu que deixar de sorrir era impossível.
*****
Ao meio-dia, estava no segundo livro.
À uma da tarde, faltou luz, a luminária apagou, o aquecedor silenciou e o corredor mergulhou numa quietude ainda mais funda.
Leah largou o livro na cama.
— Claro.
Abriu a porta.
— Margaret! — chamou por reflexo.
Nenhuma resposta.
Certo.
Margaret estava longe. Restava o fantasma rico.
— Thorne! — gritou.
A voz respondeu quase imediatamente, vindade algum lugar abaixo.
— Não berre meu sobrenome pela casa.
A voz atravessou a escada e encontrou a pele dela antes do resto. Leah odiou notar isso.
— A luz acabou.
— Percebi.
— E?
— Estou resolvendo.
— Do escuro?
— Diferente de você, eu conheço esta casa.
Ela bufou e começou a descer as escadas.
O casarão sem energia parecia ainda mais antigo, como se pudesse voltar um século inteiro em poucas horas.
Chegando ao vestíbulo principal, ouviu ruídos metálicos vindos de um corredor lateral que raramente usava.
Seguiu o som.
— Você não sabe ficar parada? — ele perguntou, invisível adiante.
Perto demais, Leah parou, ainda não o via.
— Você não sabe aparecer?
— Não.
O arrepio veio antes da irritação.
Ela entrou no corredor estreito e encontrou uma porta aberta para o subsolo. Lá embaixo havia luz de lanterna.
E o cheiro dele: madeira limpa, sabão caro, metal... Homem.
Leah segurou o corrimão.
— Você está no porão?
— Sala de manutenção.
— Claro que existe uma sala de manutenção secreta.
— Nada aqui é secreto. Você só não presta atenção.
— Você literalmente vive escondido.
Um pequeno silêncio. Depois:
— Desça a lanterna que está no segundo degrau.
Ela hesitou, então encontrou a lanterna exatamente onde ele dissera. Acendeu-a e desceu alguns passos.
O porão era amplo, de teto baixo, com tubulações, quadros elétricos e prateleiras antigas. A luz da lanterna recortava pedaços do espaço. O restante permanecia em sombra.
Ela sabia que ele estava ali. Conseguia ouvi-lo mexendo em algo pesado logo adiante. Mas, ainda não o via.
— Você chamou o eletricista? — perguntou.
— Para trocar uma chave geral? Não.
— Milionário e competente.
— Você parece decepcionada.
Um estalo seco ecoou.
Depois outro.
Então a energia voltou de uma vez, acendendo lâmpadas no teto.
Leah piscou com a claridade repentina.
Do outro lado da sala, uma porta de aço bateu fechando.
Ela correu o olhar.
Nada.
Só ferramentas, bancadas e o espaço vazio onde alguém estivera um segundo antes.
— Você tá brincando comigo.
— Você é lenta. — A voz veio já distante, subindo pela escada oposta.
Leah apertou a lanterna na mão.
— Covarde!
Leah soltou um suspiro longo, irritado e frustrado.
— Seu café está esfriando.
Ela ficou sozinha no porão, com raiva.
E curiosamente sem vontade de subir.
*****
Mais tarde, de volta ao quarto, tentou retomar a leitura. Contudo, não conseguiu passar da mesma página por meia hora.
Toda vez que fechava os olhos, lembrava do timbre da voz ecoando perto demais no subsolo, do cheiro dele no ar, da rapidez com que desapareceu quando as luzes voltaram.
Que tipo de homem evitava ser visto com tanta habilidade?
Ferido demais?
Vaidoso demais?
Assustado demais?
Ou bonito demais para desperdiçar efeito?
Leah jogou o livro ao lado e pegou outro.
*****
No fim da tarde, alguém bateu novamente.
Ela abriu a porta rápido demais.
Outra bandeja.
Desta vez sopa quente, pão amanteigado e um novo bilhete.
Você vira páginas como quem declara guerra. Tente algo mais leve. Biblioteca do corredor leste, terceira estante.
Leah olhou para o corredor vazio.
— Você estava ouvindo eu ler?
A resposta veio baixa. Muito perto da curva do corredor.
— Você resmunga em voz alta.
Ela mordeu o lábio para não rir, o pulso acelerado.
— Pervertido literário.
— Gosto discutível em romances policiais.
— Como sabe o que eu estou lendo?
— A capa estava virada para cima quando deixou a porta aberta.
Ela estreitou os olhos para o nada.
— Você é impossível.
A resposta veio baixa, quase perto da curva do corredor.
— E você vai acabar saindo do quarto.
Leah olhou para a bandeja. Depois para a direção da voz.
Então fechou a porta devagar.
E quinze minutos depois estava no corredor leste, procurando a terceira estante.
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