N/a: Capítulo ainda sobre o dia anterior, mas sob o ponto de vista do Adrian.

Adrian Thorne percebeu que havia um problema quando acordou antes do despertador. Isso não acontecia há anos.

O habitual era abrir os olhos já cansado, como se o corpo passasse a noite inteira carregando algo invisível. O sono vinha em blocos curtos, irregulares, sempre rasos. Acordar significava apenas trocar um tipo de exaustão por outro.

Havia manhãs em que ele permanecia deitado longos minutos encarando o teto escuro, reunindo vontade suficiente para existir.

Naquele sábado, porém, despertou de imediato. Consciente. E com a sensação estranha de que alguma coisa o aguardava.

Ficou imóvel por alguns segundos, ouvindo a casa.

Vento nas janelas do lado norte. O motor distante da calefação. Um cano antigo reclamando no térreo.

E passos leves no corredor leste.

Ela.

Leah Clearwater.

Ele fechou os olhos outra vez, irritado consigo mesmo.

Nas últimas semanas, a presença dela se infiltrou na rotina com a mesma falta de cerimônia com que a própria mulher atravessava portas.

Antes dela, a casa obedecia a ritmos previsíveis: horários exatos, silêncio funcional, ninguém falando mais do que o necessário.

Agora havia música na cozinha em dias alternados. flores indevidamente espontâneas em vasos formais, janelas abertas em horários impróprios, funcionários rindo no corredor da lavanderia e respostas mais rápidas porque ninguém queria desapontá-la.

Vida, em suma.

Vida barulhenta, inconveniente e indisciplinada...

Ele odiava admitir o quanto a casa parecia menos morta.

Adrian levantou-se. O piso frio encontrou seus pés descalços. Caminhou até o banheiro e acendeu a luz. O espelho o esperava.

Sempre esperava.

Parou diante dele sem pressa, como quem encara um credor antigo.

O lado esquerdo do rosto ainda pertencia ao homem que nascera bonito.

Traços limpos. Linha firme do maxilar. Olho claro demais. A simetria que revistas e fotógrafos haviam adorado em outra vida.

O lado direito pertencia ao homem que sobreviveu.

A pele irregular começava perto da têmpora e descia até a mandíbula em linhas tortas, mais pálidas em alguns pontos, mais escuras em outros. O pescoço trazia marcas repuxadas discretamente visíveis quando ele virava a cabeça. No ombro, escondidas sob tecido quase sempre caro, outras cicatrizes antigas lembravam o percurso do fogo.

Já não doíam.

Era pior.

Faziam parte dele.

Tocou a linha áspera do maxilar com a ponta dos dedos. A cicatriz não era o problema.

Nunca foi.

A cicatriz era simples. Honesta. Mostrava exatamente o resultado, mas o que havia de monstruoso nele ficava mais fundo. Na parte que continuava respirando.

Na parte que seguira em frente quando não devia.

O espelho refletia um homem de trinta e quatro anos, largo de ombros, disciplinado até a rigidez, vestido de controle.

Mas, Adrian via outra coisa.

Via ruína, culpa bem vestida, um homem que aprendeu a administrar empresas com mais facilidade do que aprendeu a administrar perda.

Baixou os olhos para a bancada.

Leah Clearwater ainda não o vira.

Na imaginação dela, ele podia ser qualquer coisa. Um recluso arrogante.

Um milionário deformado.

Um homem velho.

Um covarde.

Ao vivo, seria apenas isto: alguém que não conseguiu salvar tudo o que importava.

Ele lavou o rosto, vestiu uma camiseta escura e desceu pela escada de serviço.

Conhecia caminhos internos que evitavam corredores principais. Passagens pensadas décadas antes para empregados e depois úteis para um homem que preferia não ser visto.

Na cozinha, preparou café.

Não por fome.

Nunca sentia fome cedo.

Mas porque, na manhã anterior, ouvira Leah resmungar para ninguém em particular que "se mais uma pessoa atrapalhasse seu sábado antes do café, haveria vítimas".

Ela falava sozinha com frequência. Ou talvez com a casa.

Moeu os grãos, aqueceu água, preparou tudo com a precisão automática de quem precisava controlar pequenas coisas para suportar as grandes. Depois montou uma bandeja: café, torradas, frutas, geleia.

Ficou olhando para a bandeja por tempo demais.

Ridículo.

Era ridículo que um homem adulto, responsável por patrimônios obscenos e decisões de centenas de pessoas, estivesse debatendo entre geleia de laranja ou morango para uma funcionária insolente.

Escolheu laranja porque uma vez a ouviu que morango industrializado tinha gosto de plástico.

Levou a bandeja até o quarto dela e bateu três vezes.

Passos rápidos. Irritados.

Adrian recuou pelo corredor lateral antes que a porta abrisse.

— Vai embora.

A voz sonolenta dela atravessou a madeira.

Ele conteve um sorriso involuntário.

Esperou mais alguns segundos e bateu novamente, deixando a bandeja no chão.

Quando ouviu a porta abrir, já estava escondido atrás da curva do corredor.

Ela xingou baixinho ao encontrar o bilhete.

Depois o chamou de psicopata prestativo.

Adrian voltou para seus aposentos sentindo-se, de maneira profundamente absurda, mais leve.

*****

Tentou trabalhar.

Falhou.

Planilhas abertas.

Contratos à espera.

Chamadas ignoradas.

Sua atenção deslocava-se para sons vindos do corredor leste: páginas viradas depressa, a chaleira servida, passos descalços, um bocejo distante.

Leah lia rápido.

Virava páginas como quem brigava com o livro.

Duas vezes aproximou-se da passagem interna que permitia ouvir melhor o corredor.

Na terceira, admitiu para si mesmo que estava sendo patético.

Começava a conhecê-la por detalhes mínimos.

Odiava passas.

Cantava trechos errados de músicas antigas enquanto limpava gavetas.

Fingia indiferença diante de gentilezas e depois guardava tudo.

Dormia atravessada na cama.

Xingava objetos.

E carregava solidão como quem carrega uma mochila velha: já nem notava o peso.

Esse último traço o perturbava mais porque reconhecia nele algo íntimo.

*****

No início da tarde, tornou ao espelho do escritório. Não o grande da parede. O menor, decorativo, ao lado da estante.

Olhou-se de perfil.

Depois de frente.

Depois desviou.

Se aparecesse para Leah, haveria possibilidades.

Ela poderia rir.

Não parecia provável, mas pessoas surpreendiam para pior.

Poderia recuar.

Poderia fingir naturalidade enquanto o horror atravessava os olhos por um segundo.

Poderia ter pena.

Essa hipótese o irritou instantaneamente.

Desprezo ele suportaria.

Pena, não.

Também havia outra possibilidade, mais perigosa.

Ela poderia não se importar.

E se Leah Clearwater olhasse para ele como olhava para o resto do mundo — direta, sem reverência, sem medo, sem nojo — Adrian não saberia o que fazer com isso.

Ser rejeitado era território conhecido.

Ser aceito exigiria desmontar defesas mais antigas que as cicatrizes.

Passou a mão pelo rosto.

Na pele lisa.

Depois na pele marcada.

O corpo ele conseguira reconstruir.

Treinava cedo.

Comia por disciplina.

Dormia mal, mas persistia.

Os ombros largos, os braços fortes, a postura rígida — tudo era arquitetura contra desmoronamento.

Mas não havia academia para culpa.

Não havia dieta para memória.

Não havia espelho que mostrasse um homem inteiro.

*****

Quando a energia caiu, Adrian quase agradeceu ao destino. Tinha um problema concreto para resolver.

Desceu imediatamente para a sala de manutenção, trocou a chave principal danificada e ouviu o momento exato em que Leah começou a berrar seu sobrenome pelo casarão.

Ele fechou os olhos.

— Não berre meu sobrenome pela casa — respondeu, já antecipando a réplica.

Veio, como sempre. Ela desceu atrás dele.

Impaciente. Curiosa. Incapaz de respeitar fronteiras desenhadas no chão.

Adrian a ouviu parar no topo da escada do porão. Pela fresta entre tubulações, conseguiu ver apenas as pernas dela e parte da mão segurando a lanterna.

Descalça. Moletom largo. Cabelos presos num nó desfeito.

Sem saber, parecia mais perigosa assim do que arrumada e armada de sarcasmo.

Conversaram enquanto ele trabalhava escondido atrás do painel lateral. Quando a luz voltou, saiu pela porta secundária antes que ela pudesse enxergá-lo.

Chamou-a de lenta só para ouvir a indignação imediata.

Funcionou.

Subiu sorrindo pela primeira vez em muito tempo.

*****

No fim da tarde, encontrou um livro abandonado no sofá do corredor leste.

Ela devia ter ido buscar água ou discutir com alguém inexistente e o deixara ali.

Adrian pegou o volume.

Um romance policial previsível. Capa chamativa. Margens marcadas com unhas.

Na página setenta e três havia uma anotação feita a lápis:

o mordomo obviamente fez isso

Ele riu alto, sozinho.

Guardou o livro exatamente onde estava.

Depois preparou a segunda bandeja do dia: sopa, pão e outro bilhete.

Não conseguiu evitar.

Você vira páginas como quem declara guerra. Tente algo melhor. Biblioteca do corredor leste, terceira estante.

Escolheu para ela um romance antigo que costumava reler antes do acidente, quando ainda lia por prazer e não por fuga.

Escondeu-se novamente ao entregar.

Ouviu quando ela o chamou de pervertido literário.

Ouviu quando fechou a porta.

Ouviu, quinze minutos depois, a maçaneta girar outra vez.

Passos decididos no corredor.

Indo em direção à biblioteca.

Adrian permaneceu parado na sombra, escutando o som dela se afastar.

E percebeu, com uma clareza desconfortável, que acordara disposto porque a casa agora continha expectativa.

Ela abria portas.

Mudava móveis de lugar.

Respondia às suas crueldades sem pena.

E, sem pedir licença, começava a mover coisas dentro dele que ele enterrara muito antes das cicatrizes.