O quinto mês passou rápido demais.

Leah só percebeu isso quando Margaret Vale deixou um envelope sobre a mesa da biblioteca menor, ao lado da agenda semanal e de uma xícara de café.

— Seu pagamento.

Leah ergueu os olhos do livro.

— Já?

— Trabalhou trinta e um dias. O calendário insistiu em avançar.

Ela abriu o envelope ali mesmo.

O valor era maior do que estivera acostumada a ver em qualquer conta ligada ao próprio nome. Não uma fortuna para o padrão daquela casa, talvez, mas muito para alguém que por anos viveu entre empregos temporários, improviso e a sensação de nunca conseguir construir nada duradouro.

Ficou olhando para os números por alguns segundos.

Dinheiro honesto e dela.

Uma parte foi enviada à mãe naquela mesma manhã, sem aviso, para que Sue Clearwater tivesse menos preocupações naquele mês. Outra parte Leah guardou. O restante decidiu gastar sem culpa.

Não em algo grandioso. Em coisas pequenas e quase esquecidas.

Coisas de menina, como pensou com ironia.

Marcar um salão decente em Seattle para consertar o cabelo que ela mesma vinha aparando com tesoura ruim havia anos. Fazer as unhas. Comprar roupas que não fossem escolhidas apenas por praticidade. Pesquisar cursos. Talvez faculdade.

Talvez uma vida.

A ideia a assustou e animou ao mesmo tempo.

*****

Na primeira noite em que saiu, vestiu jeans escuros, blusa simples, casaco bonito e, depois de hesitar por um instante, calçou as botas novas.

As botas dele.

Macias. Elegantes. Femininas de um jeito que ainda a desconcertava.

Abraçavam-lhe os tornozelos e subiam justas o bastante para alongar ainda mais as pernas fortes.

Leah encarou o espelho.

Parecia outra pessoa.

Ou talvez uma versão dela que nunca tivera tempo de existir.

Encontrou Margaret no hall.

— Vai à cidade? — A velha lançou um olhar satisfeito demais para os pés dela.

— Sim.

— As botas ficaram lindas.

Leah estreitou os olhos.

— A senhora está estranhamente feliz.

— Sou uma mulher simples. Alegro-me com pequenas vitórias.

— Isso soou ameaçador.

— Soou maternal. Não se acostume.

Quando a porta principal fechou atrás dela, a casa caiu num silêncio incomum.

Do alto da escada lateral, oculto pela sombra, Adrian Thorne observou apenas o farol do carro desaparecer entre as árvores.

Depois baixou os olhos para o espaço vazio onde ela estivera. As botas haviam sido um erro. Não porque não lhe servissem. Serviam demais. Alongavam pernas que já chamavam atenção por conta própria. Marcaram a linha firme das panturrilhas. Davam a ela uma elegância perigosa que não precisava.

Leah não precisava de adorno algum. Esse era precisamente o problema. Outros homens perceberiam. A ideia o irritou de forma imediata.

— Ela disse para onde iria? — perguntou.

Margaret, sem sequer se virar:

— Não.

— Voltará tarde?

— Imagino que sim.

— Imagino não é informação.

— O senhor está curioso demais para quem a considera barulhenta.

Ele não respondeu.

*****

Na primeira noite em que saiu, Leah Clearwater dirigiu até Seattle.

Não para homens ou mistérios românticos. Para um shopping enorme e impessoal onde ninguém a conhecia, foi à um salão onde outra mulher tocou seu cabelo com cuidado profissional e perguntou o que ela queria.

Leah quase respondeu não sei. Porque fazia anos que escolhia tudo pela pressa e praticidade.

Pela luta diária de simplesmente continuar. Mas, seu cabelo cresceu muito nos últimos meses. Desde que deixara de se transformar, o corpo vinha mudando em pequenos sinais silenciosos.

Os fios, antes mantidos curtos por necessidade e impaciência, agora caíam pesados, escuros e espessos, quase tocando os ombros.

Indomáveis. Bonitos demais para alguém que nunca tivera tempo de notar.

Mandou aparar as pontas. Criar movimento. Camadas leves que suavizavam o rosto sem apagar sua força. Uma franja longa lateral que podia prender quando quisesse.

Quando se olhou no espelho ao final, ficou parada alguns segundos. Continuava sendo ela. Só que mais mulher.

Depois fez as unhas em tom discreto. Comprou roupas simples, porém escolhidas por desejo e não por necessidade.

E voltou para casa tarde, cansada e estranhamente leve.

*****

Na manhã seguinte, Adrian Thorne a viu primeiro pelo reflexo do espelho antigo no corredor principal.

Parou no meio do passo. Leah surgia no vestíbulo calçando as botas que ele mandara comprar. As novas linhas do cabelo caíam em ondas pesadas até quase os ombros, brilhantes sob a luz da manhã, moldando o rosto de maneira inesperadamente delicada.

O corte não a tornara menos feroz. Tornara-a perigosamente feminina. Mais difícil de ignorar.

Mais fácil de desejar.

As unhas curtas, feitas num tom neutro e elegante, apareceram quando ela prendeu uma mecha atrás da orelha. Detalhe mínimo. Irrelevante em qualquer outra mulher. Nela, pareceu obscenamente íntimo.

Porque significava tempo gasto consigo mesma. Cuidado. Vaidade recém-descoberta.

Como se Leah Clearwater estivesse, aos poucos, se permitindo existir para além da sobrevivência.

Adrian sentiu algo apertar no peito de forma desagradável. Ela era bonita antes, embora parecesse decidida a esconder isso de si mesma e dos outros.

Agora estava estonteante.

Na segunda noite em que saiu de casa, ainda usava as botas, as pernas longas surgiam ainda mais definidas na saia de couro ajustada, e a cintura marcada pelo casaco fechado.

O cabelo novo balançando quando andava. Ele pensou, com irritação imediata, que homens estúpidos notariam tudo aquilo em segundos.

— Você está silencioso demais — disse Leah, percebendo sua presença sem vê-lo.

— Milagre temporário.

Ela virou parcialmente o rosto, exibindo o novo corte por outro ângulo. Piorou. Pegou as chaves do carro.

— Vai sair outra vez? — perguntou ele antes de pensar.

Leah ergueu uma sobrancelha.

— Vai sentir minha falta? — O corredor inteiro pareceu esperar.

— Não exagere sua importância. — Frio demais.

— Então relaxa. — Ela sorriu de canto.

E foi embora. O som das botas ecoou pelo corredor.

Adrian permaneceu imóvel diante do espelho antigo. Pensando que nunca, em toda a vida, reparara nas unhas de mulher nenhuma.

Até agora.

*****

Leah saiu todas as noites naquela semana.

Na quinta, voltou cantarolando.

Na sexta, demorou tanto que Adrian Thorne passou duas horas para ler uma única página de um contrato importante.

Ridículo.

A conclusão lógica parecia simples: havia um homem.

Alguém que via de perto o cabelo novo caindo sobre os ombros.

Alguém que talvez segurasse a cintura dela ao atravessar uma rua.

Alguém que pudesse encostar a boca naquele pescoço moreno e descobrir se Leah arfava quando surpreendida.

Adrian fechou o contrato com força desnecessária.

A irritação veio imediata e brutal.

Tentou trabalhar de novo.

Leu a mesma linha quatro vezes.

Na quinta, imaginou mãos desconhecidas tirando-lhe as botas.

Na sexta, imaginou dedos alheios abrindo os botões do casaco dela.

Na sétima vez que perdeu o foco, atirou a caneta sobre a mesa.

Ridículo.

Não tinha direito algum sobre a vida daquela mulher.

Não a conhecia de verdade.

Não a via de frente.

Não a tocara.

Não lhe pertencia.

Mesmo assim, a ideia de outros homens percebendo o que ele percebia em silêncio produzia nele um tipo raro de violência.

Margaret Vale entrou na biblioteca principal meia hora depois e encontrou-o diante da janela fechada, sem trabalhar.

As mãos nos bolsos.

A mandíbula dura.

O contrato intacto sobre a mesa.

— Ela está bonita — comentou casualmente.

— Não pedi avaliação.

— Não. Mas, precisava ouvir.

— O que quer dizer?

— Que a senhorita Clearwater parece feliz. — Margaret arrumou um vaso que já estava perfeitamente alinhado.

Ele não gostou da palavra.

— E por que isso o incomoda tanto? — ela completou.

— Não incomoda.

— Naturalmente. — A velha passou os dedos pela folha de uma planta e continuou, como quem comenta o clima. — É uma moça jovem...

Adrian permaneceu imóvel.

— Jovem, saudável, bonita... descobrindo que pode querer coisas de novo.

O silêncio da biblioteca pareceu enrijecer.

— Margaret.

— Mulheres da idade dela costumam sair por vários motivos.

Ele virou o rosto devagar.

— Não me interessa.

— Não? Que bom. Porque alguns desses motivos acontecem tarde da noite.

A voz dele saiu baixa.

— Chega.

Margaret ignorou.

— Companhia. Desejo. Curiosidade. Diversão. Há idades em que o corpo pede movimento antes que a cabeça entenda.

Adrian deu um passo na direção dela.

— Eu disse chega.

Margaret enfim o encarou, impassível.

— Se eu tivesse a idade dela, um rosto e um corpo daqueles, também não ficaria em casa todas as noites.

Algo escuro atravessou a expressão dele.

Raiva.

Ciúme.

Impotência.

Talvez as três coisas juntas.

— A senhora ultrapassa limites com frequência.

— E o senhor vive atrás deles.

Ela pegou o contrato sobre a mesa, alinhou as folhas e devolveu ao lugar.

— O problema, Adrian, não é Leah sair. — A pausa foi precisa. — É o senhor continuar parado.

Margaret deixou a biblioteca.

Ele ficou sozinho.

A respiração curta.

Os punhos fechados.

E a imagem insuportável de Leah rindo para outro homem em algum lugar da cidade.

*****

Na semana seguinte, a rotina continuou.

Leah saía ao anoitecer quase todos os dias e voltava cansada, às vezes com livros novos, às vezes com pastas, às vezes cheirando a café e papel.

Adrian notou tudo.

Notou também que ela começou a acordar cedo por vontade própria, que descia antes dos demais, de cabelo ainda desalinhado, para ler na mesa da cozinha enquanto o café esfriava ao lado, que fazia anotações rápidas nas margens, pressionando a caneta como se discutisse com o texto.

Ela tinha comprado uma bolsa nova, e nessa bolsa havia mais livros a cada noite. Percebeu também que ela deixava recibos, guardanapos e papéis improvisados marcando páginas.

E que havia formulários impressos no quarto dela, segundo comentário distraído da camareira.

Notou os olhos mais vivos.

A pressa nova nos passos.

O cansaço satisfeito de quem estava construindo algo.

Notou tudo. Menos o que realmente importava.

Cego demais pelo próprio ciúme para entender de imediato que Leah não voltava de encontros.

Voltava cheia de planos.

Enquanto imaginava homens inexistentes, ela comprava futuro.

A constatação tardia deveria tê-lo aliviado. Em vez disso, apenas o perturbou de outro modo. Porque uma mulher que começava a construir a própria vida talvez não permanecesse ali por muito tempo.

Ele percebeu, com irritação crescente, que não sabia nada concreto sobre a mulher que mudara sua casa.

Não sabia qual música ela realmente gostava, se tinha amigos, do que ria quando estava sozinha, do curso que pesquisava.

Não sabia o que sonhava ser.

Não sabia, de fato, para onde ia todas as noites. Muito menos se existia, de fato, um homem.

E não sabia por que isso o corroía.

*****

Naquela sexta-feira, Leah voltou mais tarde que o normal. Encontrou uma caixa pequena diante da porta do quarto.

Sem bilhete.

Dentro, um marcador de páginas de prata trabalhada.

Novo.

Pesado.

Claramente caro demais.

Ela passou o polegar pelo metal frio.

Havia desenho delicado nas bordas, discreto e elegante.

No verso, gravadas duas palavras:

Para estudos.

Leah ficou imóvel por alguns segundos.

Ele notara.

Não os vestidos.

Não o cabelo.

Não as saídas.

Aquilo.

Os livros extras.

As anotações.

As páginas dobradas.

A vontade dela de aprender alguma coisa nova.

Sorriu involuntariamente.

Depois olhou para o corredor vazio.

— Você é impossível, Thorne.

A resposta veio das sombras ao fundo, baixa e rouca.

— E você demora demais para voltar.