O Monstro dentro de mim
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O amigo de Adrian Thorne chegou numa quinta-feira à tarde, dirigindo um conversível absurdamente inadequado para a estrada úmida e sinuosa até a propriedade.
O motor anunciou sua presença antes mesmo de o carro surgir entre as árvores.
Quando estacionou diante da escadaria principal, dele saiu um homem alto, elegante de um jeito estudado, com sorriso fácil, barba precisa e casaco caro demais para o clima.
Julian Mercer tinha a aparência polida de quem sempre soube entrar em qualquer sala e sair deixando impressão.
Bonito.
Perigosamente consciente disso.
E perigosamente acostumado a usar.
— Deus me livre, Adrian, você continua morando dentro de um romance gótico.
A voz atravessou o hall aberto antes que a porta se fechasse.
Leah Clearwater, organizando correspondências sobre a mesa lateral, ergueu os olhos.
Antes que pudesse responder qualquer coisa, Margaret surgiu do corredor principal.
Por um instante, a compostura impecável da governanta desapareceu.
— Julian Mercer.
Ele abriu os braços como um pecador recebendo absolvição.
— Minha Margaret favorita.
— Sou sua única Margaret.
Julian atravessou o hall em três passos.
Margaret, que normalmente tolerava afeto como quem tolera chuva fina, sorriu de verdade. Julian a abraçou pela cintura, ergueu-a do chão como se ela pesasse nada e girou uma vez no ar.
— Solte-me imediatamente, seu exibido. — Margaret soltou uma exclamação indignada que virou riso no meio.
— Jamais. — Ele a pôs no chão apenas para encher-lhe o rosto de beijos exagerados nas bochechas.
Margaret bateu-lhe no ombro com a bolsa.
— Imoral.
— Carinhoso.
— Mulherengo.
— Difamado.
Leah cruzou os braços, assistindo à cena. Margaret alisou o cabelo, recompôs a postura e lançou-lhe um olhar lateral.
— Não se impressione. Ele faz isso desde os dezoito anos e continua achando encantador.
— Porque continua funcionando — disse Julian.
— Em mulheres sem juízo.
Leah quase sorriu.
Quase.
Julian então voltou-se para ela com interesse renovado.
— E quem é esta visão severa que me julga em silêncio?
— Alguém que recomenda fortemente que o senhor continue andando. — Leah nem piscou.
— Ah. Interessante. — Ele abriu um sorriso genuíno.
Margaret suspirou.
— Senhor Mercer, o senhor Thorne o aguarda na biblioteca principal. E recomendo que suba antes de arruinar mais ambientes.
— Sempre tão fria comigo.
— Sempre tão merecido.
— Julian. — Do alto da galeria, a voz grave desceu como pedra.
Julian ergueu os olhos. Adrian permanecia na sombra do corredor superior, invisível além da silhueta larga recortada pela penumbra.
Leah sentiu a mudança no ar imediatamente.
Tensão. Território.
Margaret também percebeu.
Endireitou os ombros com satisfação silenciosa.
— Suba — disse Adrian.
Julian pegou a mala.
— Nos veremos, severa desconhecida. — Antes de obedecer, lançou mais um olhar para Leah.
— Espero sinceramente que não.
Ele riu e subiu a escada.
Margaret observou o topo da galeria e murmurou, quase para si:
— Talvez três dias longos sejam exatamente o que esta casa precisa.
*****
Julian entrou na biblioteca principal como entrava em todos os lugares: como se tivesse sido convidado antes mesmo de pensar em aparecer.
A porta fechou atrás dele com suavidade cara.
Adrian Thorne permanecia junto à janela alta, de costas para o aposento, mãos nos bolsos, a silhueta larga recortada pela luz cinzenta do fim da tarde.
— Sempre gostei desta sala — disse Julian Mercer, largando a mala perto da poltrona. — Cheira a couro, dinheiro antigo e repressão emocional.
— Você é um babaca.
— E você continua hospitaleiro.
Adrian virou-se devagar. O olhar claro caiu direto no amigo.
— Deixe Leah em paz.
— Já começamos no assunto interessante? — Julian arqueou as sobrancelhas com prazer quase infantil.
— Estou falando sério.
— Eu também... E meu amigo, ela é linda.
— Julian. — Adrian repreendeu.
— O quê? Tenho olhos.
— Ela não é para o seu tipo de distração. — Adrian aproximou-se um passo.
— Que violência gratuita. — Julian levou a mão ao peito. —Talvez eu esteja buscando conexão verdadeira.
— Você busca aplauso e novidade.
— Às vezes simultaneamente.
— Não flerte com ela. — Adrian não sorriu.
Julian inclinou a cabeça, estudando o amigo como se encontrasse uma peça rara.
— Curioso.
— O quê?
— O tom possessivo.
— O tom protetor. — Adrian corrigiu.
— Ah, claro. Patronalmente protetor.
— Ela trabalha aqui. — Adrian endureceu a mandíbula.
— E não vejo anel de compromisso no dedo dela.
O silêncio caiu pesado.
Julian quase podia ouvir a paciência do amigo se partindo em algum lugar da sala.
— Não teste meu humor.
— Estou testando sua honestidade.
Adrian passou por ele e serviu-se de uísque sem oferecer outro copo.
— O que você quer aqui?
Julian sorriu. Sabia reconhecer derrota temporária quando a via.
— Além de assistir você descobrir ciúmes aos trinta e tantos?
— Julian.
— Negócios. — Ele tirou uma pasta de couro da mala e a lançou sobre a mesa central.
Adrian não tocou.
Julian abriu sozinho.
Mapas.
Relatórios.
Números.
Projeções.
— Singapura, Seul e Tóquio — disse ele. — Há fundos interessados em parceria logística. Portos, tecnologia de armazenamento, distribuição premium. Se entrar agora, dobra presença internacional em cinco anos.
— Já temos dinheiro suficiente. — Adrian olhou os papéis sem entusiasmo.
— Você sempre responde isso como se eu tivesse falado em dinheiro.
— E falou em quê?
— Em legado.
A palavra ficou no ar. Errada. Julian percebeu tarde demais. O rosto de Adrian não mudou, mas algo nele se fechou.
— Não use essa palavra comigo.
Julian respirou fundo.
— Use então "expansão". Ou "futuro". Ou qualquer outro termo corporativo que não doa.
— Você viajou até aqui para isso? — Adrian fechou a pasta.
— Vim porque você ignora e-mails.
— Então volte e responda por mim.
— Não posso decidir tudo no seu lugar. — Julian riu pelo nariz.
— Tenta há vinte anos.
— E ainda assim você continua difícil.
Adrian caminhou até a janela novamente.
Lá embaixo, viu Leah atravessando o jardim lateral com uma caixa de livros nos braços, passos firmes, cabelo escuro balançando perto dos ombros.
Parou de ouvir o resto da sala. Julian acompanhou o olhar. Sorriu devagar.
— Ah.
Adrian não se moveu.
— Cale a boca.
— Nem falei nada.
— Seu rosto falou.
— Então é sério. — Julian aproximou-se da janela.
— Não é nada.
— Homens dizem "não é nada" quando já perderam metade da guerra.
— Você vai ficar três dias. — Adrian virou o copo de uma vez.
— Excelente.
— Não transforme isso num espetáculo.
— Tarde demais. — Julian olhou novamente para Leah ao longe. Depois para o amigo. — Relaxe. Mulheres como ela não caem no meu tipo de conversa.
Adrian respondeu sem pensar:
— Eu sei.
Julian abriu um sorriso lento e vitorioso.
— Então você já anda estudando bastante o assunto.
*****
Julian Mercer falava demais, ria alto demais e flertava como quem respirava.
Na primeira manhã, apareceu na cozinha enquanto Leah tomava café e folheava material impresso.
— Então você é a mulher misteriosa que revitalizou esta tumba. — Ele serviu café para si mesmo sem permissão.
— E você é o homem irritante que entrou sem ser chamado.
— Adrian não mencionou que contratara alguém tão bonita.
— Adrian menciona pessoas? — Leah ergueu os olhos devagar.
— Tocou num ponto sensível. — Julian soltou uma gargalhada.
— O senhor Mercer precisa de algo? — Ela recolheu os papéis antes que ele lesse o cabeçalho da faculdade.
— Julian.
— Precisa de algo, senhor Mercer?
— Talvez companhia para um passeio pela cidade.
— Não.
— Jantar?
— Também não.
— Você sempre rejeita convites assim rápido?
— Só os ruins.
Julian parecia se divertir ainda mais quando recebia resistência.
No corredor acima, oculto atrás da balaustrada, Adrian ouviu cada palavra. E não soube mensurar o quanto gostou da recusa dela.
*****
Naquela noite, Leah Clearwater saiu como vinha saindo nas últimas semanas.
Calça escura ajustada.
Suéter simples.
Mochila no ombro.
E as botas novas.
Couro macio, cano baixo, acabamento impecável, discretas o bastante para parecerem casuais e caras o bastante para que qualquer homem com olhos e conta bancária reconhecesse de imediato.
Botas absurdamente luxuosas para uma funcionária.
Botas escolhidas por alguém com excelente gosto.
Leah desceu a escada ajeitando a alça da mochila, o cabelo novo roçando os ombros em movimento leve.
Parecia casual e apressada. Mas, principalmente, parecia perigosamente bonita sem fazer esforço algum.
Julian Mercer, encostado no console do hall, assobiou baixo.
— Meu Deus. — Leah nem diminuiu o passo. — Se isso foi para mim, procure ajuda.
— Foi para o desperdício geral de oportunidades no mundo.
Ela revirou os olhos.
Julian a observou dos pés à cabeça com a irreverência calculada de sempre.
— Essas botas custam mais do que o aluguel de muita gente.
— Que bom que não paguei. — Leah olhou para os próprios pés.
— Adrian tem gosto excelente.
Do corredor lateral, oculto pela sombra, Adrian Thorne enrijeceu. Julian prosseguiu, agora claramente falando para dois ouvintes.
— E devo informar que outros homens também reparariam em você. Claro que reparariam.
— Que conversa triste. — Leah puxou o casaco.
— Triste? Você é uma deusa saída de Deus sabe onde, vestida como se fosse buscar café, pronta para arruinar qualquer milionário solitário desta região.
Ela soltou uma risada curta, involuntária. Adrian odiou gostar do som.
Julian abriu os braços.
— Se me desse uma chance honesta, eu até consideraria casamento. Talvez filhos.
— Você não sobreviveria a uma semana comigo.
— Subestimo o perigo com frequência.
— E o bom senso também. — Leah abriu a porta principal.
O ar frio entrou no hall.
Julian inclinou-se no batente, sorrindo.
— Vai fugir de mim outra vez?
— Vou viver minha vida. Tenta também.
— Posso acompanhar.
— Não pode.
— Existe alguém me vencendo nessa disputa?
Leah bufou.
— Nem existe disputa. — Saiu sem olhar para trás.
A porta fechou-se.
O silêncio durou dois segundos. Depois Julian virou-se ainda sorrindo.
— Você está carrancudo.
— Você está hospedado por cortesia. Não abuse.
— Ah, então é isso.
— Isso o quê?
— Ela importa.
O silêncio de Adrian foi resposta suficiente.
— Maravilhoso. — Julian sorriu mais largo.
— Cale a boca.
— Não. Acho que vou comemorar.
Ele mal terminou a frase, Adrian avançou primeiro, agarrando-o pelo casaco e empurrando-o contra a parede do hall.
Julian riu alto e revidou no mesmo instante, prendendo-o pelo braço e desequilibrando-o com um golpe antigo, aprendido na adolescência.
Os dois foram ao chão como garotos ricos e malcriados, rolando pelo tapete persa entre insultos, cotoveladas contidas e décadas de intimidade masculina mal resolvida.
— Idiota.
— Ciumento.
— Palhaço.
— Apaixonado.
Adrian tentou estrangulá-lo com dignidade limitada. Julian ria tanto que mal se defendia.
Margaret Vale surgiu à porta da sala de jantar com uma bandeja nas mãos.
Parou.
Observou os dois homens enormes brigando no chão como crianças de internato.
Depois sorriu.
— Graças a Deus.
Nenhum deles ouviu. Ela apoiou a bandeja na mesa lateral e cruzou os braços.
— Finalmente esta casa parece habitada.
Adrian imobilizou Julian por um segundo.
— Diga mais uma palavra e mando trocar seu quarto pelo estábulo.
Julian, ainda no chão, ofegante de rir, respondeu:
— Se ela aceitar casar comigo, uma parte da folha de pagamento vai sentar à sua mesa no Natal.
Adrian avançou de novo.
Margaret soltou uma gargalhada verdadeira, rara e clara, ecoando pelo hall como algo esquecido.
Vida.
A casa inteira pareceu escutar.
*****
Na segunda noite, Julian Mercer piorou.
Apareceu na biblioteca menor onde Leah Clearwater estudava antes de sair.
Sentou-se diante dela sem convite, cruzando uma perna sobre a outra como se o mundo inteiro lhe pertencesse por aluguel.
Leah tinha livros abertos, folhas soltas e o cenho franzido de quem brigava com uma ideia.
— Você desaparece quase todas as noites e volta tarde. Segredo interessante.
— Chama-se rotina. Experimenta algum dia.
— Homem casado? Solteiro e desesperado? Professor charmoso?
— Talvez eu só esteja curiosa para saber até onde vai sua falta de noção.
— Gosto quando me tratam mal. — Julian sorriu.
— Então deve se amar muito.
Ela voltou a escrever.
Julian inclinou-se um pouco, observando a página cheia de anotações.
— O que está estudando?
Leah hesitou. Depois fechou o livro pela metade.
— Literatura inglesa.
— Isso explica a expressão de sofrimento.
Ela quase sorriu. Quase.
— Estou escolhendo as disciplinas.
— Então não há homem misterioso?
— Só vários autores mortos me exigindo leitura.
— Menos atraente do que imaginei.
— Sua imaginação parece fraca. — Ela fechou o caderno e levantou-se. — Você é inconveniente demais para esta sala.
— E você é inteligente demais para esta casa.
Saiu com a mochila no ombro.
Do outro lado da porta, Adrian estava parado havia tempo suficiente para ouvir mais do que gostaria.
Julian surgiu instantes depois e encontrou o amigo imóvel.
— Está me espionando agora?
— Estou protegendo minha paz.
— Você está é com ciúmes.
Adrian entrou na biblioteca sem responder. Sobre a mesa restara um folheto da Universidade de Washington
No topo, horários de aulas introdutórias.
Ao lado, a palavra Literatura Inglesa circulada à caneta.
Leah estava estudando, não saindo com alguém. E ele passou semanas imaginando mãos alheias sobre a pele dela.
— Então era isso — disse Julian atrás dele.
— Saia daqui.
Adrian dobrou o papel e guardou no bolso.
— Você gosta dela de verdade.
— Vá dormir, Julian.
— Você está ferrado.
*****
Na terceira noite, Leah voltou tarde e encontrou Julian espalhado numa poltrona do hall, uma mala pequena ao lado, como um gato elegante prestes a abandonar a casa que bagunçara.
— Finalmente. Vim me despedir.
— Aceito sua partida como presente pessoal.
— Cruel.
— Você sobrevive.
— Se mudar de ideia sobre aquele jantar.. — Ele se levantou, aproximando-se só o bastante para ser inconveniente.
— Não vou mudar.
— Pena. Você teria me partido o coração.
— Ele parece acostumado. — Julian riu.
— Um conselho? O homem desta casa sente mais do que admite. — Julian riu e pegou a mala pequena ao lado.
— Que homem desta casa? — Leah estreitou os olhos.
Julian abriu um sorriso lento.
— Exatamente.
Antes que ela respondesse, Margaret Vale apareceu para conduzi-lo ao carro.
Julian piscou para Leah e partiu.
Ela ficou parada, irritada e curiosa.
*****
Quando subiu para o quarto, encontrou uma caixa sobre a cama.
Dentro, uma rosa acompanhada de uma caneta elegante e um bilhete curto.
Parabéns pela faculdade.
Tente não faltar às aulas por preguiça.
Leah ficou imóvel. Depois pegou a caixa e saiu do quarto imediatamente. Desceu dois corredores e bateu forte na porta do escritório principal.
— Entre — veio a voz.
Ela entrou sem hesitar. A sala estava na penumbra habitual. Ele em algum lugar atrás da divisória.
— Você já sabia.
— Sobre o quê?
— Sobre a faculdade.
— Suspeitava.
— Mentira.
Silêncio.
— Vi papéis esquecidos.
— Então você espionou.
— Observei. São esportes diferentes.
Leah bufou.
— Isso é invasivo.
— Concordo. Pergunte ao meu amigo.
— Eu ia contar. — Ela apertou a caneta entre os dedos.
A cadeira rangeu do outro lado.
— Ia?
— Quando tivesse certeza.
— E agora tem? — A voz dele veio mais baixa.
Leah respirou fundo.
— Acho que sim.
— O curso?
— Literatura inglesa.
Pausa.
— Pretensioso.
— Disse o homem que mora num castelo.
Ele ignorou.
— Por quê?
Leah demorou um instante.
— Porque livros sempre pareceram portas. E eu cansei de viver trancada.
O silêncio que veio depois não foi vazio.
Quando Adrian falou novamente, havia algo raro no tom.
Mais gentil.
Mais nu.
— Você vai se sair bem.
Ela engoliu em seco.
— Obrigada.
— Não agradeça ainda. Posso continuar desagradável amanhã.
Leah sorriu no escuro.
— Eu contava com isso.
Virou-se para sair.
— Leah.
Ela parou.
— Não saia sozinha tão tarde sem avisar.
Ela virou parcialmente o rosto para a sombra.
— Isso foi ordem ou preocupação?
Uma pausa longa.
— Vá dormir.
Leah desceu o corredor sorrindo sozinha.
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