Na manhã seguinte, Adrian percebeu duas coisas antes mesmo do café. A primeira: Leah Clearwater havia chegado. A segunda: algo nela estava diferente.

O som dos passos dela no hall continuava inconfundível: rápidos, firmes, decididos, como se cada tábua do piso tivesse a obrigação de sair do caminho.

Mas, faltava alguma coisa:o ruído habitual de irritação, a energia de tempestade contida.

Naquela manhã, os passos eram mais baixos. Mais pensativos.

Sentou-se na poltrona junto à janela do escritório e abriu o jornal sem ler uma linha. O reflexo discreto do vidro mostrava parte do corredor.

Leah surgiu carregando um balde numa mão e uma caixa de materiais de limpeza na outra. Calça escura ajustada, camisa simples dobrada até os antebraços, cabelo curto agora comprido o bastante para ser preso de qualquer jeito atrás da cabeça.

Bonita de um modo severo. Mas, quieta. E quietude não combinava com ela.

Ela entrou na sala de estar, parou diante de um porta-retrato sobre o aparador e ficou imóvel por segundos demais.

Adrian estreitou os olhos.

A moldura continha uma fotografia antiga dos pais dele sorrindo numa praia qualquer.

Nada importante.

Nada que justificasse aquele olhar distante.

Leah pegou o retrato para limpar. O polegar passou pelo vidro uma vez, distraída, como quem nem via o objeto diante de si. Depois pousou de volta com cuidado excessivo.

Quando retomou o trabalho, os movimentos estavam mais lentos. Mais internos. Distantes dali.

Adrian fechou o jornal. Irritado.

Preferia quando ela entrava nos cômodos discutindo com móveis, xingando objetos inanimados e ameaçando o aspirador de morte violenta.

Preferia quando ela parecia impossível de ferir.

Naquela versão silenciosa, ela parecia jovem demais. E triste demais.

*****

No andar térreo, Leah esfregava a mesa sem precisar. Já estava limpa havia minutos. O problema não era a poeira.

Era a memória.

A fotografia do casal sorrindo lhe acendeu como algo pequeno e cruel. Gente prometendo permanência para uma câmera.

Pensou em Sam Uley antes mesmo de conseguir evitar. No sorriso torto. Nas mãos grandes. Na voz dizendo seu nome como se fosse certeza.

Depois pensou na prima, de vestido branco. E no peso do buquê entre os dedos.

Leah apertou o pano até os nós dos dedos clarearem.

Ridículo.

Mudara de cidade, de vida e até de corpo. Fazia três meses que não se transformava.Três meses sem febre na pele, sem ossos rachando por dentro, sem correr para sobreviver ao próprio humor.

O cabelo cresceu um pouco, as curvas voltavam devagar. Os músculos já não viviam tensionados como corda prestes a arrebentar.

Ela deveria sentir apenas alívio. Mesmo assim, bastava uma lembrança errada para tudo dentro dela querer rasgar.

Respirou fundo.

Pensou, contra a própria vontade, em Adrian Thorne. Na voz grave surgindo de corredores vazios, em sua implicância absurda com botas. E como o pouco que pudera perceber dele, ele aparentava ser grande demais até invisível.

A raiva antiga cedeu espaço para outra coisa menos destrutiva. Leah soltou o ar lentamente.

— Isso é humilhante.

Pensar naquele homem a acalmava.

*****

No andar de cima, Adrian Thorne continuava olhando o jornal fechado. Não sabia exatamente o que havia mudado nela. Só sabia que notou na mesma hora.

E que queria descobrir por quê, e isso o irritava mais do que deveria, porque não tinha direito algum àquela curiosidade. Era apenas o homem que pagava o salário dela. O proprietário da casa, o nome no contrato. Nada além disso.

Não podia descer e perguntar por que seus olhos pareciam longe naquela manhã. Nem exigir saber quem a entristecera. Ou tocar no assunto como se tivesse intimidade para tanto.

Adrian levantou-se abruptamente.

Precisava gastar a energia em algo menos inútil do que pensar numa mulher de vinte e poucos anos limpando sua sala em silêncio.

Desceu a academia particular que mantinha no subsolo.

Minutos depois, o som metálico começou: peso tocando o chão, correntes tensionando, respiração funda, impactos secos e ritmados no saco de pancadas.

A linguagem mais honesta que conhecia.

*****

Leah estava levando panos limpos para a lavanderia quando ouviu o barulho vindo do corredor lateral. Parou sem querer.

O som repetiu-se: metal, esforço e outra pancada.

A porta da academia permanecia entreaberta apenas alguns centímetros. Ela devia continuar andando. Não continuou. Ao passar diante do espelho alto do corredor, viu primeiro o reflexo.

Distante. Fragmentado pelo ângulo.

Adrian Thorne de costas, dentro da sala.Sem camisa.

O corpo largo se movia com força controlada, músculos tensionando e soltando sob a pele clara marcada por linhas irregulares.

As costas carregavam cicatrizes longas. Algumas finas como riscos antigos. Outras espessas, retorcidas, sinais de queimadura que desciam do ombro até a lateral do tronco.

Leah ficou imóvel por um segundo a mais do que devia. Aquele homem construído de disciplina e dureza também havia sido quebrado.

Talvez mais de uma vez. Talvez de formas que não apareciam no espelho.

Mesmo ferido, parecia enorme. Mesmo marcado, bonito.

Leah desviou os olhos primeiro. Seguiu andando pelo corredor com o coração estranhamente apertado.

Entendia bem sobre esconder a dor, sobre fugir do olhar dos outros.

O que não entendia era outra coisa.

Se ele ainda era tão obviamente belo, mesmo coberto de cicatrizes... Quanto daquela vergonha vinha realmente do rosto... e quanto vinha de dentro.

*****

Enquanto voltava a cozinha, ela imaginou mãos grandes fechando-se em barras de ferro. Ombros largos tensionando sob esforço. O corpo exagerado daquele homem se movendo com disciplina silenciosa.

Suor. Força. Controle.

Leah continuou andando rápido demais.

— Ridículo — murmurou.

Porque conheceu homens fortes a vida inteira. Sam Uley, por exemplo. Seu único namorado: a primeira pessoa a lhe ensinar que alguém podia prometer para sempre numa semana e pertencer a outra mulher na seguinte.

Sam era alto, sólido, poderoso. Tinha a força natural de quem nasceu para ocupar espaço e ser seguido. Quando entrava em um lugar, as pessoas percebiam.

Mas, Adrian Thorne parecia outra espécie de presença. Mais alto. Mais largo. Mais tudo.

Sam sempre foi calor, impulso, tempestade evidente. Adrian parecia gelo sobre algo vulcânico.

A força de Sam era aberta, quase orgulhosa. A de Adrian soava disciplinada. Domesticada. Guardada atrás de portas fechadas. Perigosa.

Leah odiou pensar isso. Tentou insistir em outras comparações.

Sam tinha sido bonito no tipo óbvio, fácil, jovem. Adrian parecia mais homem do que qualquer memória polida do passado.

Sam falava alto, ria alto, sentia tudo à mostra. Adrian mal aparecia e ainda assim ocupava a casa inteira.

Sam a fizera se sentir escolhida por um tempo. Adrian a fazia se sentir observada sem sequer estar presente.

Leah parou no meio do corredor.

Assustada consigo mesma. Porque em cada comparação injusta, Adrian vencia. E isso não deveria estar acontecendo. Não quando comparado a Sam. Não com um estranho mal-humorado escondido numa mansão.

Alguém que ela mal conhecia.

Ela retomou a caminhada, mais rápido ainda.

— Ridículo — repetiu.

E dessa vez já não sabia se falava dele ou de si mesma.

*****

Ao final do expediente, pouco depois das sete da noite, a casa havia enfim desacelerado.

Os corredores estavam silenciosos, banhados pela luz morna dos abajures acesos cedo demais, como acontecia em casas grandes demais para o inverno. O trabalho terminou havia algum tempo, e Leah Clearwater tivera tempo somente de tomar um banho no pequeno quarto que ocupava.

Foi então que Mrs. Vale apareceu à porta carregando algumas peças dobradas nos braços.

— Trouxe isso para você.

Leah surgiu do banheiro secando o cabelo curto com uma toalha. Algumas mechas úmidas caíam sobre a testa e junto ao pescoço. A pele recém-lavada ainda guardava o calor do banho.

— Se for vestido, pode ir embora.

— Que imaginação limitada. É roupa confortável.

Leah arqueou uma sobrancelha. Mrs. Vale estendeu as peças. Um top preto simples e uma legging da mesma cor, de tecido macio e boa qualidade.

— Para quê?

— Para parar de andar pela casa como se estivesse em guerra com o guarda-roupa.

— Eu gosto das minhas roupas.

— Eu sei. Isso é preocupante.

Leah bufou, mas pegou as peças. Minutos depois, saiu do quarto já vestida.

O top justo acomodava o corpo sem esforço, marcando a linha dos ombros e a firmeza natural da cintura. A legging escura alongava as pernas fortes e definidas, ajustando-se como se tivesse sido feita para ela. Nos pés descalços, havia uma casualidade íntima que suavizava a postura sempre defensiva.

Leah nunca precisou de esforço para ser bonita.

Era roupa comum. Mas, nela parecia provocação. E Margaret sabia que o patrão adorava uma boa academia.

O cabelo ainda úmido caía curto ao redor do rosto, suavizando a dureza habitual de suas expressões. Sem botas, sem jeans áspero, sem uniforme improvisado, Leah parecia menos armadura e mais mulher.

Jovem demais por um instante. Bonita demais o tempo inteiro. E absolutamente inadequada para circular perto de homens emocionalmente instáveis.

Mrs. Vale levou a mão ao peito.

— Finalmente.

— O quê?

— Evidência visual de que Deus existe.

Leah revirou os olhos.

— A senhora dramatiza tudo.

— Não tudo. — A velha a examinou de cima para baixo mais uma vez. — Só aquilo que merece atenção.

Leah cruzou os braços.

— Se isso é alguma tentativa de me transformar em boneca socialite, vai falhar.

Mrs. Vale sorriu com perversidade tranquila.

— Oras, lembrei de você quando vi a peça e me recuso a desperdiçar dinheiro.

Leah estreitou os olhos. Parecia plausível o bastante para não discutir. Mrs. Vale virou-se em direção ao corredor.

— Venha à cozinha. Fiz chocolate quente e sorvete.

— Essa combinação é criminosa.

****

Na cozinha, a luz amarela deixava tudo menor e mais acolhedor do que o resto da casa permitia.

O vapor do chocolate quente subia em espirais preguiçosas. Sobre a bancada, Mrs. Vale havia colocado duas canecas, um pote de sorvete aberto e colheradas generosas servidas em tigelas de sobremesa, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.

Leah Clearwater sentou-se ainda desconfiada.

— A senhora sempre alimenta suas funcionárias à força?

— Só as que me interessam.

— Isso continua soando criminoso.

— Ótimo. Pegue uma colher.

Leah obedeceu porque estava cansada demais para sustentar rebeldia em tempo integral.

— Fiquei noiva aos vinte e seis anos. — Mrs. Vale mexeu o chocolate com calma.

— Isso saiu do nada. — Leah ergueu os olhos.

— Não saiu. Você só não acompanha a velocidade da minha mente.

Leah soltou um meio riso.

— E o que houve com o noivo?

— Descobriu que tinha vocação para idiota.

— Promissor. — Leah apoiou o queixo na mão.

— Fui trocada por uma cantora de ópera.

— Nossa.

— Medíocre.

— A cantora?

— A voz e o caráter.

Leah riu de verdade dessa vez.

— Veja... Mulheres inteligentes também amam homens péssimos. — Mrs. Vale apontou a colher para ela.

— Isso era pra me consolar?

— Era para me dignificar.

— E se arrepende? — Leah mexeu o sorvete já começando a derreter.

Mrs. Vale pensou por um instante.

— Dele, sim. De ter amado, não.

Leah franziu a testa.

A resposta parecia séria demais para brincadeira.

A senhora continuou:

— Amar alguém nunca é desperdício. Mesmo quando o outro não presta. Você aprende coisas sobre si que não aprenderia sozinha.

Leah baixou os olhos para a tigela. Aquilo bateu onde não devia. Mrs. Vale percebeu.

Sempre percebia.

— Depois disso, segui vivendo. Trabalhei em outras casas, tive outros amores, alguns melhores, outros apenas mais educados. Nada muito memorável.

Mrs. Vale sorriu de canto antes de continuar.

— Cheguei aqui quando Adrian tinha quase dois anos. Eu ainda não tinha cabelos brancos e certamente que tinha joelhos melhores.

Leah ergueu a cabeça.

— Tão pequeno assim?

— Um tirano em miniatura: Pequeno, bonito e mandão. Chorava como se estivesse discursando para multidões.

Leah soltou uma risada curta.

— Os pais dele sempre foram bons com ele. Presentes, amorosos, decentes. Só muito ocupados às vezes. Negócios grandes exigem tempo demais, e crianças pequenas não entendem agendas.

Leah ficou quieta.

— Então eu ajudava. Ficava com ele quando viajavam, organizava a rotina, ensinava-o a ler cedo para que me deixasse em paz por alguns minutos.

— Funcionou?

— Pior que sim. Depois passou a fazer perguntas demais.

Leah sorriu de novo.

Mrs. Vale continuou:

— Ensinei boas maneiras. Ele ignorou várias. Ensinei a usar talheres corretos, a tratar funcionários como gente e a não confundir dinheiro com valor.

Leah arqueou uma sobrancelha.

— Essa última deu certo?

— Em partes. Ele ainda precisa de manutenção periódica. — A velha secou a borda da xícara com o pano. — Também ensinei a esconder tristeza de curiosos.

Leah inclinou a cabeça.

— Essa funcionou.

Mrs. Vale soltou um suspiro pequeno.

— Funcionou demais.

Silêncio breve caiu entre as duas.

— Ele parece... sozinho. — Leah passou o dedo pela borda fria da tigela.

Mrs. Vale demorou a responder.

— Não por falta de amor.

Leah ergueu os olhos.

— Então por quê?

— Porque algumas pessoas, quando se machucam, preferem se esconder.

A cozinha ficou mais quieta.

Leah entendeu aquilo melhor do que queria admitir.

Mrs. Vale apoiou os cotovelos na bancada e sorriu de lado.

— Adrian teve uma boa família. Só nunca aprendeu que ser amado não impede ninguém de se sentir perdido.

Silêncio breve.

— E você já teve alguém? — perguntou Mrs. Adler, casual demais para ser inocente.

*****

Silêncio breve pairou na cozinha, quebrado apenas pelo tilintar da colher contra a porcelana.

No segundo andar, Adrian passava diante do monitor interno quando a imagem chamou sua atenção.

Parou.

Na tela, a câmera do corredor lateral mostrava a entrada da cozinha aberta.

E Leah Clearwater. Sentada na bancada alta, de perfil, usando o conjunto escuro que Mrs. Vale evidentemente lhe dera.

Adrian aproximou-se sem perceber. Reconheceu o golpe imediatamente.

Top preto. Legging escura. Roupa simples, funcional, confortável. Exatamente o tipo de coisa que ele preferia: mulheres que não precisavam anunciar nada para chamar atenção.

Ninguém naquela casa conhecia seus gostos melhor do que Mrs. Vale.

Ele quase conseguiu se irritar com ela.

Quase.

Porque a verdade pior estava diante dele. Leah superava qualquer intenção alheia. O top justo desenhava a linha dos ombros e o contorno firme do busto com uma simplicidade indecente. A legging abraçava a cintura estreita, seguia a curva generosa dos quadris e descia pelas pernas longas como se o tecido tivesse sido feito apenas para testá-lo.

Aquilo não podia ser normal. Nenhuma roupa comum deveria causar tamanho desarranjo mental.

Disse a si mesmo que desceria para verificar se estava tudo bem. Afinal, Leah pareceu cansada mais cedo.

Mentiras administrativas.

Continuou olhando.

O cabelo dela ainda estava úmido, curto demais para prender direito, caindo em mechas escuras perto do rosto. A pele recém-lavada parecia mais viva sob a luz quente.

Ela parecia confortável. O que piorava tudo. Afastou-se do monitor.

Voltou dez segundos depois.

Na tela, Leah levou a colher à boca e falou algo que o áudio não captou. Adrian percebeu que queria ouvir.

Cinco minutos depois, estava no corredor do térreo sem lembrar de ter descido as escadas. Parou a alguns passos da cozinha. A porta seguia entreaberta. A luz amarela escapava para o corredor escuro. Lá dentro, Leah ria de alguma resposta de Mrs. Vale.

Ele ficou imóvel.

Não entrou.

Permaneceu onde estava, tomado por uma irritação nova e completamente irracional.

Ciúme.

Não de um homem.

De uma roupa.

Do tecido escuro colado às curvas dela.

Do modo como parecia pertencer ao corpo de Leah melhor do que qualquer coisa naquela casa.

Do conforto que a roupa lhe dava.

Do privilégio de tocá-la onde ele não podia sequer olhar por tempo demais.

Ridículo.

Na cozinha, Mrs. Vale secava xícaras com calma ofensiva.

— Teve alguém? — perguntou.

Leah mexeu o sorvete.

A velha arqueou uma sobrancelha.

— Essa pausa significou sim.

Leah bufou e afundou a colher no sorvete já começando a ceder nas bordas.

— Teve um namorado..

Adrian permaneceu parado no corredor, sem água, sem dignidade e sem a menor intenção real de ir embora.

— Só um?

— Só um.

A surpresa da velha foi genuína.

— Você é bonita. Temperamental, mas bonita. Eu esperaria uma fila de decisões ruins.

Leah riu pelo nariz.

O som bateu no peito de Adrian como algo indecentemente íntimo.

— Que elogio generoso.

— Obrigada.

Leah apoiou o cotovelo na bancada e girou a colher entre os dedos.

Quando voltou a falar, a voz saiu menos armada.

— Comecei a namorar com treze.

Adrian ergueu os olhos imediatamente.

Treze.

Cedo demais.

— Ainda criança. — Mrs. Vale franziu a testa.

— Em cidade pequena isso passa por normal — disse Leah. — Crescemos juntos. Escola, praia, família... ele sempre estava lá.

Ela deu de ombros.

— Aos dezessete, estávamos noivos.

Adrian não gostou de nada naquela frase. Não gostou do tempo que outro homem tivera com ela.

A mão dele fechou-se ao lado do corpo.

— E você queria isso? — Mrs. Vale perguntou com calma

— Achei que queria. — Leah demorou a responder. — Parecia o caminho natural. Como se minha vida já viesse escrita. Hoje, por algum motivo, não sei definir.

— Há pessoas que confundem costume com amor. — A velha assentiu.

Leah sorriu de lado. Gostaria que fosse somente isso, e não um carma genético.

— Acho que sou especialista no assunto.

— E depois?

— Aos dezoito, ele conheceu minha prima. — A colher parou entre os dedos dela.

O maxilar de Adrian endureceu.

— Ah. — Mrs. Vale expirou baixo.

— Pois é. — Leah olhou para a janela escura.

Do corredor, Adrian viu o perfil dela amolecer de tristeza.

— Foi rápido — Leah disse. — Um dia ele era meu noivo. No outro, parecia que eu já era passado.

— Ele explicou? — perguntou a velha.

Leah soltou uma risada sem humor. Não tinha explicação racional, somente destino e universo. Então a morena suavizou:

— Disse que não podia lutar contra o que sentia.

— Homens adoram transformar covardia em poesia. — Mrs. Vale fez uma careta.

Adrian concordou em silêncio imediato.

— Achei que destino era só uma desculpa elegante. — Leah mexeu no sorvete derretido.

— E sua prima?

— Chorou. Pediu perdão. Me amava e amava ele também. — Ela respirou fundo. — O que só piorava tudo. — Mrs. Vale não a apressou. Sabia ouvir. — Fui ao casamento.

A garganta de Adrian secou.

— Fui a madrinha.

O silêncio pareceu apertar o corredor inteiro.

Leah passou o polegar pela borda da tigela.

— Segurei o buquê da minha prima enquanto ainda amava o homem que ia se casar com ela.

Mrs. Vale largou o pano.

— Criança...

— Todo mundo achou bonito eu ser forte. Minha mãe, a família... diziam que eu ia superar, que eu era madura demais para escândalo. — A voz dela baixou. Ficou mais antiga. — Eu também achei. — Ela sorriu sem alegria.

Levantou a colher à boca. Um traço de chocolate tocou o lábio inferior antes que ela limpasse distraidamente com a língua.

Adrian desviou os olhos tarde demais.

— Descobri depois que eu só estava entorpecida.

Mrs. Vale aproximou-se um pouco.

— E quando passou?

Leah pensou longamente.

— Não passou de uma vez. Primeiro veio a raiva. Depois a vergonha da raiva. Depois o cansaço. — Olhou para a tigela. — Depois eu fui embora. Eu me sentia um monstro porque ainda amava alguém que já era de outra pessoa. Porque odiei minha prima por instantes. Porque queria que desse errado. Porque sorria para os dois e depois queria desaparecer.

A cozinha ficou quieta. Falar parecia diminuir o peso. Como se, fora da cabeça, a dor perdesse autoridade.

Mrs. Vale tomou a colher de suas mãos.

— Não há nada monstruoso em sofrer.

Leah ficou imóvel por um segundo. Depois assentiu quase imperceptivelmente.

— Parece menor quando eu conto.

— Segredos sempre parecem gigantes no escuro.

Leah respirou fundo.

Mais leve.

— Foi ele quem me ensinou a ir embora.

No corredor, Adrian permaneceu parado.

Agora entendia melhor.

A menina que crescera abruptamente.

A jovem que confundiu permanência com promessa.

A mulher que sorriu num casamento enquanto quebrava por dentro.

Mas, outra coisa atormentava Adrian: a ideia de outro homem tê-la tocado primeiro. Conhecido sua risada primeiro. Recebido uma versão mais jovem, menos ferida, dela.

Ciúme era palavra pequena. Aquilo era pior. Então olhou de novo para a abertura da porta. A cintura marcada pelo tecido escuro. Os quadris sólidos apoiados na cadeira.

Os olhos mais leves do que no início da conversa.

E entendeu que aquele homem já a machucara o suficiente sem precisar de sua raiva tardia.

Mrs. Vale ergueu os olhos discretamente para o corredor. Sabia que ele estava ali havia tempo demais.

Adrian recuou em silêncio, com a certeza incômoda de que, se continuasse ouvindo Leah Clearwater falar do passado, acabaria querendo disputar o futuro.