O Monstro dentro de mim
3 As botas
Leah continuou trabalhando.
Limpava quartos vazios. Trocava flores que ninguém via. Servia refeições para um fantasma rico.
E conversava com ele por bilhetes.
"Sua governanta me disse que você é insuportável."
"Ela tem 72 anos. Consegue ser mais cruel que você."
"Impossível."
"Concordo."
Sem perceber, Leah começou a esperar por aqueles papéis.
Naquele dia deixou a bandeja na mesa. Ao sair, viu um papel dobrado no prato vazio da noite.
Abriu.
O arroz passou do ponto.
Ela ficou olhando por dois segundos.
Depois escreveu no verso:
Morre de fome.
E deixou ali.
No andar de cima, ouviu uma risada masculina baixa.
Na biblioteca, Leah encontrou um bilhete sobre a mesa central.
Dobrado em quatro.
Abriu.
Suas botas arranham o piso.
Ela olhou para o teto.
— Covarde.
Virou o papel e escreveu:
Seu ego ocupa mais espaço que minhas botas.
Dobrou de novo e deixou ali.
Continuou espanando.
Cinco minutos depois, quando voltou à mesa, havia outro bilhete.
Ela congelou.
Abriu.
Meu ego ao menos foi polido.
Leah encarou a letra elegante.
— Filho da mãe.
Escreveu no verso:
Então manda lustrar sua personalidade também.
Dobrou e deixou.
Esperou.
Nada.
O silêncio da casa pareceu divertir-se às custas dela.
*****
No andar superior, Adrian lia a troca de bilhetes com irritação crescente.
As botas realmente arranhavam o piso.
Mas, esse nunca foi o problema.
O problema era o som delas anunciando Leah antes mesmo de ele vê-la.
O problema era começar a esperar esse som.
O problema era reconhecer o ritmo específico dos passos dela entre todos os ruídos da casa.
O problema era notar, sempre, onde o couro antigo terminava e a pele dela começava.
Ridículo.
Desligou a câmera do corredor.
*****
Na hora do almoço, levou a bandeja para a refeição. Desta vez percebeu detalhes que ontem ignorou: uma cadeira levemente afastada, jornal dobrado com precisão excessiva, taça movida alguns centímetros.
Cheiro masculino no ar: limpo, discreto, caro.
Ele estava sempre por perto. Só nunca onde podia ser visto.
Leah pousou a bandeja e falou para o vazio:
— Você sabe que isso é estranho, né?
Nenhuma resposta.
Ela se virou para sair.
A voz veio atrás dela, baixa e calma:
— E você sabe que falar sozinha é pior.
Leah travou.
A voz vinha da porta lateral, fechada.
Perto demais.
Grave demais.
Ela ergueu o queixo.
— Se queria conversar, podia usar a porta principal.
— Se eu quisesse conversar, não contrataria você.
— Pena. Eu sou encantadora. — Leah abriu um sorriso sem humor.
Silêncio breve.
Então:
— Discutível.
Ela odiou o calor que subiu pela nuca ao ouvir aquilo.
— Come sua sopa, senhor Thorne.
— Compre botas novas, senhorita Clearwater.
Leah saiu batendo a porta com força suficiente para compensar o fato de ele não tê-la aberto.
*****
No outro dia, enquanto dobrava lençóis na lavanderia, percebeu algo incômodo.
Ele a enxergava demais.
As botas velhas. O jeito de andar. A irritação. A voz.
Mas, se escondia como se o direito de olhar não exigisse ser olhado de volta.
Leah conhecia esse tipo de defesa: mostrar o suficiente para controlar. Esconder o resto para não ferir.
Ela fez isso a vida inteira.
*****
Passado mais uns dias, a Senhora Vale a recebeu com um avental impecável e um envelope na mão.
— Já recebi meu pagamento. — Leah franziu a testa.
— Isso é outro.
— Por quê?
— Porque o senhor Vale pediu que comprasse botas decentes. As suas deixam barro no hall.
— Ele me deu dinheiro para sapato? — Leah ficou em silêncio por um segundo.
Sentiu primeiro calor no rosto.
Depois gelo.
Depois raiva.
Não pela crítica.
Mas pela sensação antiga e conhecida de alguém olhar para ela e decidir do que precisava.
Caridade vestida de elegância.
— Tecnicamente, para preservar o mármore.
Leah pegou o envelope.
Pesou na mão.
Dinheiro fácil.
Dinheiro útil.
Dinheiro que pagaria contas.
Dinheiro que queimava.
Enfiou de volta no bolso do avental da Sra Vale.
— Tecnicamente, ele pode ir pro inferno.
— Imaginei essa resposta. — A velha quase sorriu.— Depois xingue. Agora limpe a biblioteca. — Leah seguiu corredor adentro bufando.
Não sabia o que a irritava mais: a crítica, o dinheiro... ou o fato de ele ter percebido as botas gastas.
Leah atravessou o corredor com o peito apertado. Odiava quando ricos tentavam comprar conforto e faziam parecer cuidado.
*****
No segundo andar, atrás de uma porta fechada, Adrian observava pela fresta discreta, através da câmera interna ligada ao corredor da biblioteca.
A nova funcionária limpava estantes como se estivesse em guerra contra a poeira.
Movimentos rápidos. Ombros tensos. Cabelo de qualquer jeito. Bonita demais para parecer tão zangada às nove da manhã.
Ela parou diante de uma janela, encarando a chuva lá fora com expressão dura.
Como se a chuva tivesse ofendido a família dela.
Adrian quase sorriu.
Três anos antes, ele sorriria com facilidade.
Agora media tudo antes de permitir qualquer reação ao rosto. O lado intacto obedecia. O outro lembrava, sempre, que músculos também podiam trair.
Desligou a tela. Não precisava observá-la. Mas, continuou ouvindo-a mesmo assim. Passos firmes. Gavetas abrindo. Um palavrão baixo quando bateu o joelho numa mesa. Viva demais para aquela casa.
Incômoda demais para ele.
*****
No final da noite, quando já havia se recolhido ao quarto, observou o par velho de botas encostado na parede, ainda úmido.
— Não.
Colocou-as para secar. Depois de alguns minutos dormiu.
*****
No outro dia, vestiu uma camiseta larga cinza, short jeans gasto e prendeu o cabelo no alto da cabeça. Pegou as botas pela ponta dos dedos apenas para olhá-las.
Se o senhor Thorne queria preservar o mármore, ótimo.
Ela pisaria descalça.
A mansão parecia ainda mais silenciosa naquele horário. Margaret olhou imediatamente para baixo.
Depois para cima.
Depois de novo para baixo.
— Onde estão suas botas?
Leah adentrou a cozinha.
— No quarto.
— E por quê?
— Porque não vão arranhar o piso de lá.
— Você acordou decidida a provocar hoje. — A Senhora Vale apertou os lábios para esconder um sorriso.
— Acordei obediente.
— O senhor Thorne pediu que limpasse a galeria oeste hoje.
— Ele pediu ou escreveu um manifesto?
— Pediu. Curto e antipático, como sempre.
Leah seguiu corredor adentro, pés nus afundando no tapete macio.
Melhor assim.
Sem barulho.
Sem barro.
Sem favores.
*****
No segundo andar, Adrian viu-a pela câmera do corredor e franziu a testa no mesmo instante.
Descalça.
A primeira percepção veio quase como falta.
Não havia o som seco das botas antigas no mármore. Nenhum anúncio ríspido de que Leah Clearwater atravessava a casa contrariando tudo ao redor. Sem aquele ruído, a mansão parecia estranhamente vazia.
Depois vieram os olhos.
Ela usava um short curto demais para qualquer definição profissional que ele aceitasse admitir, revelando pernas longas, fortes, douradas pela luz difusa da manhã. Pernas de alguém acostumada a caminhar sem pedir licença ao mundo. A camiseta cinza larga escorregava de um ombro cada vez que erguia os braços para alcançar a prateleira superior, expondo por segundos a curva limpa da clavícula antes de cair de novo no lugar.
Aquilo o irritou de maneira imediata e ilógica.
Porque parecia íntimo demais.
Porque ninguém naquela casa deveria ver detalhes assim dela.
Porque ele já tinha visto.
E percebeu rápido demais.
Leah subiu numa pequena escada de madeira e começou a espanar molduras antigas com movimentos precisos, eficientes, quase agressivos. Cada vez que a escada rangia, ela xingava baixo, como se o objeto tivesse falhado moralmente com ela.
Ele ouviu o som abafado do resmungo pelo sistema de áudio.
E, contra qualquer dignidade restante, quis sorrir.
Havia vida demais nela para aqueles corredores mortos.
Temperamento demais.
Calor demais.
Adrian desligou a tela abruptamente.
O quarto mergulhou no reflexo opaco das janelas fechadas.
Ficou alguns segundos olhando para o monitor apagado, como se aquilo provasse autocontrole.
Não provava nada.
Ligou de novo dez segundos depois.
Leah continuava na escada, agora inclinada para alcançar o canto mais alto da parede, a barra da camiseta subindo alguns centímetros nas costas. Praguejou outra vez quando a escada gemeu.
Ele apertou a mandíbula.
As botas eram ofensivas. Mas, aausência delas era pior.
— Margaret
— Sim, senhor? — A voz dela surgiu no interfone interno, calma demais.
Adrian Throne continuou olhando para a tela: Leah Clearwater ainda estava sobre a escada pequena, erguendo os braços para alcançar o alto da moldura. A camiseta larga escorregou de novo pelo ombro.
Ele desviou os olhos tarde demais.
— A senhorita Clearwater não possui roupas inteiras?
Houve uma pausa longa do outro lado. Aquela pausa específica de Margaret quando estava se divertindo.
— Possui.
— Então por que está vestida para uma praia inexistente?
— Porque o senhor declarou guerra às botas.
Adrian permaneceu em silêncio.
Na tela, Leah desceu da escada com agilidade irritante, pousou o espanador na mesa e passou a mão pela coxa distraidamente antes de seguir corredor adentro como se fosse dona da propriedade.
A mandíbula dele travou.
— Quer que eu diga para ela trocar de roupa? — perguntou Margaret, com inocência completamente falsa.
Ele demorou um segundo a mais do que deveria.
— Não.
— Quer que eu peça para colocar as botas velhas, então?
— Margaret.
— Sim?
— Trabalhe.
Ela riu baixo antes de desligar.
Adrian encarou o monitor por mais alguns segundos.
Depois desligou a tela.
Ligou de novo pouco tempo depois.
*****
Mais tarde, Leah encontrou outro bilhete no aparador.
Vejo que decidiu vir despreparada.
Ela revirou os olhos. Pegou a caneta no bolso traseiro do short e respondeu:
Vejo que continua espiando funcionárias.
Dobrou e deixou ali. Seguiu limpando estátuas.
Quando voltou, havia outro.
Alguém precisa zelar pelos móveis.
Ela escreveu:
Se está tão preocupado, desce e limpa você.
Mais tarde, novo bilhete.
Prefiro não traumatizar a equipe.
Leah ficou imóvel por um segundo.
A provocação era boa.
Irritantemente boa. Sorriu involuntariamente.
Depois escreveu devagar:
Ego grande. Coragem pequena.
Dessa vez não houve resposta imediata.
Vitória.
*****
Margaret apareceu na lavanderia no fim da tarde com o mesmo envelope na mão e a expressão de quem jamais aceitara derrota como resultado válido.
Leah Clearwater estava dobrando lençóis com força excessiva.
— Trouxe de volta — disse a idosa.
— Eu percebi.
— Vai aceitar agora?
— Não.
Margaret aproximou-se e pousou o envelope sobre a pilha de toalhas recém-organizadas.
— O dinheiro já foi separado para você.
Leah largou o lençol.
— Então des-separe.
— Isso não é uma palavra.
— Hoje é.
A velha cruzou os braços.
— Você prefere sofrer por princípio.
— Prefiro escolher por princípio.
— Ele tentou ajudar.
Leah soltou uma risada curta, amarga.
— Gente rica chama de ajuda quando decide o que o outro precisa sem perguntar.
Margaret a observou por alguns segundos. Havia inteligência demais naquela mulher para desperdiçar frases.
— E gente ferida chama de orgulho quando está com medo de receber.
— Não me analisa. — Leah endureceu.
— Impossível. Você se expõe inteira enquanto finge o contrário. — Ela pegou o envelope e enfiou no bolso do próprio avental. — Vou devolver ao senhor Thorne.
— Ótimo.
— E direi que você recusou porque prefere andar descalça por teimosia.
— Diz também que ele pode parar de me comprar pelos pés.
Margaret arqueou uma sobrancelha.
— Essa frase foi estranha.
— A vida é estranha aqui.
A velha virou-se para sair.
Na porta, falou sem olhar para trás:
— Há pessoas que oferecem dinheiro para humilhar. Outras oferecem porque não sabem oferecer mais nada.
Leah ficou imóvel. Odiava quando ela fazia sentido.
*****
No escritório do segundo andar, Adrian Thorne ouviu a recusa em silêncio.
Margaret relatou tudo enquanto organizava correspondências sobre a mesa.
— Ela devolveu.
— Evidentemente.
— Chamou o senhor de insuportável mais duas vezes.
— Conservadora hoje.
— Vai insistir?— A velha colocou o envelope diante dele.
Adrian olhou para o papel como se fosse ofensivo.
— Não.
Mentira.
Margaret conhecia o menino que ele fora e o homem em que se tornara.
— O senhor parece irritado.
— Estou trabalhando.
— O senhor parece irritado trabalhando.
Ele ergueu os olhos.
— Margaret.
— Sim?
— Saia.
Ela saiu sorrindo.
Adrian recostou-se na cadeira. Não queria comprar nada para Leah. Queria que ela parasse de usar aquelas botas absurdas.
Queria que aceitasse algo dele. Que parasse de recusar tudo como se qualquer gesto fosse ameaça.
Queria coisas demais para alguém que mal aparecia.
Isso o irritava profundamente.
*****
Naquela noite, Leah voltou ao quarto cansada. Encontrou a cama arrumada. As roupas dobradas. E uma caixa sobre o colchão. Parou na porta imediatamente.
A caixa era de papel rígido, creme, laço simples demais para parecer casual.
Ela aproximou-se devagar.
Abriu.
Dentro, um par de botas novas.
Femininas.
Couro macio castanho-escuro. Cano delicado. Costura impecável. Saltinho discreto. Elegantes de um jeito silencioso.
Bonitas demais para o trabalho.
Bonitas demais para ela, pensou no primeiro impulso.
Passou os dedos pela lateral. Macias. Leves. Caras. Ridiculamente caras.
Não havia bilhete.
Nem precisava.
Leah sentou-se na beirada da cama com a caixa aberta no colo.
Sentiu raiva.
Sentiu vergonha por gostar.
Sentiu algo pior que ambos.
Ternura.
Porque ele observara o tamanho certo.
Porque reparara o desgaste das antigas.
Porque escolhera algo bonito e completamente inútil para esfregar chão.
Aquilo tinha menos a ver com trabalho do que qualquer coisa.
Ela fechou a caixa depressa, como se isso escondesse o pensamento.
— Idiota rico — murmurou.
Depois guardou a caixa no armário com cuidado excessivo.
*****
Na manhã seguinte, desceu usando outro par de sapatos: baixos, confortáveis, simples, comprados anos antes e quase esquecidos no fundo da mala.
Sem salto. Sem charme. Sem chance de arranhar mármore.
Margaret olhou primeiro para os pés dela. Depois para o rosto.
— Vejo progresso.
— Vejo intromissão.
— E as novas?
— Guardadas. — Leah pegou café.
— Não gostou?
Leah demorou um segundo.
— Gostei demais.
A velha sorriu de canto.
— Problema sério.
— Nem me fala.
*****
No segundo andar, Adrian observou pelo monitor.
Sapatos novos.
Não os que comprara.
Mas, também não as botas velhas.
Sentiu alívio instantâneo.
Depois irritação por sentir alívio.
Depois algo inesperado ao imaginar a caixa aberta no quarto dela.
Ela tocando o couro.
Ela entendendo que ele percebera detalhes.
Ela guardando ou jogando fora.
— Margaret — chamou no interfone.
— Sim?
— Ela está usando outros sapatos.
— Estou vendo.
— Não precisa desse tom.
— Qual tom?
— O de quem está satisfeita.
Pausa.
— Mas eu estou satisfeita.
Ele desligou.
Na tela, Leah ergueu o rosto de repente.
Como se sentisse estar sendo observada.
E sorriu para o nada.
Devagar.
Provavelmente para irritá-lo.
Funcionou.
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