A névoa rastejava entre os pinheiros como se a floresta respirasse segredos. Leah Clearwater entendia aquilo melhor do que gostaria. Também carregava coisas demais dentro de si.

Ela se sentia um erro da natureza.

Não importava quantas vezes os outros tentassem normalizar: "é dom", "é legado", "é proteção".

Palavras bonitas para algo que, para ela, sempre pareceu castigo.

Nada mudava a sensação de horror quando os ossos estalavam, a pele queimava e algo selvagem rasgava no caminho para fora. Nada suavizava o instante em que deixava de ser apenas mulher e se tornava outra coisa: veloz, feroz, impossível de conter.

Leah não se sentia especial.

Sentia-se errada.

Pior ainda: uma parte dela gostava da força, da velocidade cortando a noite e da liberdade brutal de correr até esquecer quem era.

E odiava isso também.

Ser monstro era ruim.

Gostar de ser monstro era pior.

Leah precisava de dinheiro para ajudar nas contas em casa.

Mas, principalmente precisava respirar longe dos pensamentos da matilha, ocupar a mente antes que enlouquecesse, lembrando o que deixou para trás.

Foi com esses pensamentos, que naquele dia abriu a porta do apartamento, após mais um turno de trabalho, e encontrou com surpresa a Senhora Margarete parada no corredor estreito como se o prédio inteiro lhe devesse desculpas.

Casaco impecável. Luvas discretas. Postura reta demais para a idade.

Os olhos da idosa percorreram Leah inteira: short gasto, camiseta larga, cabelo desarrumado e botas antigas de couro marrom marcadas por chuva, terra e anos de uso.

— A senhora me rastreou? — Leah perguntou.

— Descobri seu endereço. Há diferença.

— Assustador.

A Senhora Vale entrou sem ser convidada, observando o espaço pequeno demais para conter orgulho.

— Meu empregador precisa de ajuda em casa.

— O homem da mansão triste?

— O senhor Adrian Thorne.

— Prefiro minha versão.

— Limpeza, organização e refeições leves. — A velha ignorou.

— E por que eu?

— Porque bateu em dois homens, não me parece o tipo que tem medo ou se assusta facilmente.

Leah cruzou os braços.

— Isso é currículo?

— Para certas casas, sim.

Leah quase riu.

Se as pessoas soubessem no que ela podia se transformar, o Sr. Thorne seria o menor de seus medos.

Margaret abriu uma pequena pasta e retirou uma folha.

— Horário às seis. Boa remuneração. Também será necessário traje adequado.

Leah ergueu uma sobrancelha.

— Traje adequado?

— Uniforme de governanta.

— Não. — Leah riu sem humor.

— Perdão?

— Não visto fantasia de servidão.

— É um vestido preto simples. — Margaret piscou uma única vez.

— Em mim vira declaração política.

— Você sempre complica coisas fáceis?

— Só as ofensivas.

— Então venha vestida decentemente. — A idosa fechou a pasta.

— Isto é decente. — Leah apontou para si.

Margaret olhou de novo para o short, a camiseta e as botas gastas.

— Discutível.

— Contratada ou não?

A velha citou o salário.

Leah sentiu o estômago apertar. Aceitaria coisa pior por metade daquilo.

— Estou desesperada — disse.

— Excelente motivação.

******

A casa era imensa, antiga, cercada por ferro e árvores. Bonita de um jeito melancólico. Como se a casa lembrasse tempos melhores e se recusasse a seguir adiante.

Leah entrou pela cozinha lateral às seis em ponto. O interior cheirava a café, madeira encerada e silêncio demais.

Casas normais faziam barulho: canos, televisão distante, portas mal fechadas. Aquela parecia prender o ar.

Margaret entregou-lhe um avental. Leah aceitou.

O vestido preto dobrado ao lado foi ignorado.

— Teimosa. — A velha suspirou.

No andar superior, Adrian Thorne observava pela balaustrada.

Ela atravessava a cozinha com passos firmes, sem baixar a cabeça, usando roupas comuns como desafio declarado.

E aquelas botas.

Velhas. Gastas. Marcadas por lama seca.

O tipo de coisa que pisaria trilhas, não mármore italiano.

O som delas ecoou no piso polido.

Seco. Ritmado. Insolente.

Adrian fechou o maxilar.

As botas o incomodavam de maneira ilógica.

Não por serem velhas.

Mas, porque terminavam exatamente onde começavam pernas longas demais para merecer couro gasto.

Aquilo lhe pareceu quase ofensivo.

Odiou o pensamento no mesmo instante.

*****

Leah preparou o almoço com instruções da governanta: sopa, pão fresco e chá sem açúcar.

— Deixe a bandeja na sala de jantar e saia imediatamente — orientou a Sra. Vale.

— Ele não come na frente de ninguém?

— Ele não vive na frente de ninguém.

Serviu a mesa da sala de jantar e reparou que era longa demais para duas pessoas. Tinha um lustre baixo e cortinas pesadas.

Leah revirou os olhos, mas fez o que mandaram.

Pousou a sopa no centro.

Sentiu olhos sobre si.

Virou-se para a escada.

Nada.

Mas, havia alguém ali. Ela sentia.

— Pode aparecer. Não cobro ingresso.

Silêncio.

Quando saiu, as botas bateram no mármore com firmeza.

Adrian ouviu o som se afastar.

Irritante: a mulher e as botas. Mas, principalmente o fato de ele não saber qual dos dois o perturbava mais.

No segundo dia, o prato voltou quase intacto.

No terceiro, a sopa estava terminada.

No quarto, encontrou um bilhete ao lado da bandeja vazia.

"Menos sal."

A letra era firme, elegante, irritantemente controlada.

Leah pegou o papel e bufou.

— Grossão.

No dia seguinte, serviu a comida com menos sal... e para sua surpresa havia outro bilhete.

"Se quer reclamar, fale alto. Essas paredes escutam."

Ela congelou.

Depois sorriu pela primeira vez em semanas.

— Então apareça e reclame pessoalmente. — Falou em tom alto o suficiente, já que sabia que ele a escutava.

A voz grave veio do alto da escada:

— Você dá ordens cedo demais para quem acabou de chegar.

Ela ergueu os olhos.

Viu primeiro o corpo.

Ele era colossal. Ombros largos demais para o corte impecável do suéter preto, mãos grandes apoiadas no corrmião, pernas longas e firmes. O corpo lembrava uma escultura talhada para a guerra. Maior que qualquer homem comum. Maior até do que Emmett Cullen em largura brutal, embora de forma humana.

— Assustada? — perguntou.

— Não.

— Mentira.

— Eu conheço monstros, Sr. Thorne. Você não entra no top dez.

Um silêncio tenso caiu entre os dois.

Algo nela despertou.

Não medo.

Desafio.

O mesmo impulso selvagem que sentia diante de qualquer força que tentasse dobrá-la.

Ela ergueu o queixo.

Ela não conseguia vê-lo nitidamente, então não viu os olhos claros dele se estreitarem. Bonitos demais para alguém que queria ser desagradável.

Margaret tossiu discretamente, mostrando que chegou para dissipar a tensão.

— Saia.

— Prazer te conhecer também.

— Não você. Margaret.

Sozinhos, o ambiente ficou menor.

— Você é imprudente. — Ele falava do escuro.

— Você é dramático. — ela respondia.

— Não sabe nada sobre mim.

— Sei que gosta de mandar e de se esconder. — A mandíbula dele travou. — Sei também que paga bem para manter gente quieta.

— E ainda assim você veio.

— Dinheiro é dinheiro.

Foi assim que começou.

Nos dias seguintes, eles se detestaram com disciplina admirável.

Leah reorganizava horários, enfrentava fornecedores, colocava empregados ocasionais nos eixos e trazia vida e movimento à casa morta. Adrian desfazia decisões só para irritá-la. Mandava trocar flores que não notava, reclamava do barulho dos passos dela, criticava cardápios que mal tocava.

Ela respondia tudo.

Chamava-o de tirano.

Ele a chamava de insuportável.

Ela invadia salas sem bater.

Ele aparecia atrás dela como uma tempestade silenciosa.

Os dias seguintes serviram para ela conhecer as regras da casa:

A ala oeste era restrita. A biblioteca superior permanecia trancada. As refeições do senhor Thorne deveriam ser deixadas numa mesa externa ao escritório. Nenhum funcionário subia após as oito da noite. Cortinas específicas jamais deveriam ser abertas. Determinadas portas nunca eram tocadas.

Leah odiava regras automáticas.

Também odiava a forma como ele parecia estar em todo lugar.

Ordens surgiam sem aviso. Bilhetes apareciam sobre mesas recém-limpas. Objetos mudavam de lugar quando ninguém via. Uma porta aberta por ela surgia fechada minutos depois. Um vaso criticado numa manhã desaparecia à tarde.

E às vezes a voz vinha das sombras. Do topo de uma escada. Do corredor vazio atrás dela. Do outro lado de uma porta fechada.

— O estoque de vinho foi reorganizado errado.

— Você pisa pesado.

— O jardineiro chegou atrasado.

— Essa música é insuportável.

Leah respondia para o nada.

— Vai reclamar olhando pra minha cara.

— Compra uma campainha e para de assombrar o corredor.

— Se sabe tanto, faz você mesmo.

Margaret, imperturbável, quase nunca interferia.

— Ele sempre foi assim? — Leah perguntou certa manhã.

— Não.

— O que aconteceu?

— O que sempre acontece quando o mundo percebe que pode ser cruel — Margaret fez uma pausa, como se estivesse se lembrando daqueles dias. — Na hora certa, você saberá.

******

Na biblioteca inferior, enquanto espanava prateleiras, Leah encontrou uma revista antiga caída atrás de livros.

Na capa, Adrian.

Mais jovem, sorrindo para fotógrafos.

ADRIAN THORNE: O HERDEIRO QUE REINVENTOU O IMPÉRIO

Ela ficou encarando tempo demais. Ele era bonito de forma óbvia. Estava tão admirada com a beleza dele, que não percebeu a porta da biblioteca abrir, então se assustou com a voz grave e baixa do patrão:

— Mexendo onde não deve?

Leah quase derrubou a revista.

Virou-se, com as mãos no peito, como para se controlar.

— Você era irritante antes ou virou depois da fama?

Os olhos dele desceram para a revista.

Escureceram.

— Saia da biblioteca.

— Toquei num ponto sensível?

— Saia.

Leah passou por ele sem abaixar a cabeça.

Mas, levou no pensamnto a imagem dele consigo.

*****

Na primeira semana, Leah pensou em ir embora pelo menos dezessete vezes.

Na segunda, perdeu a conta.

E ele seguia invisível.

Leah ouvia passos pesados no andar superior, a voz grave surgindo de sombras convenientes, ordens aparecendo em bilhetes deixados em lugares impossíveis. Às vezes ela sentia que estava sendo observada. Outras vezes tinha certeza.

Nunca o via.

Era como discutir com a própria casa.

Os lençóis do quarto azul devem ser trocados às quartas.

O fornecedor de peixes entrega produto inferior. Recuse-o.

A música da cozinha estava alta às 7h13.

Leah amassou esse último bilhete e o jogou no fogo.

— Psicopata rico — murmurou.

— Eu ouvi isso.

A voz veio de algum lugar acima da lareira.

Leah fechou os olhos por um instante.

— Ótimo. Então ouve isso também: arranja um hobby.

Um ruído parecido com riso percorreu o salão, rápido demais para ela ter certeza.

Era esse o problema.

Ele a irritava, mas nunca o suficiente para que ela simplesmente fosse embora.

Sempre havia alguma fissura no gelo. Algum momento em que a voz dele saía menos afiada. Alguma observação seca que escondia humor. Algum gesto invisível que contradizia a frieza.

Como a chaleira já acesa nas manhãs em que ela acordava atrasada demais.

Como o fato de que, depois de comentar casualmente que odiava lâmpadas frias, todas as luminárias do quarto dela foram trocadas em dois dias.

Margaret nunca admitia nada.

— O senhor Thorne é atento aos detalhes — dizia apenas.

— O senhor Thorne é estranho.

— Isso também.

Margaret Vale era a única presença constante e humana naquela fortaleza de pedra. Ela se movia pela casa como parte da estrutura, eficiente e discreta, mas às vezes Leah flagrava nela uma ternura antiga, quase maternal, quando falava do patrão.

O que só a deixava mais curiosa.

— Ele sempre viveu escondido assim?

Margaret continuou dobrando guardanapos.

— Não.

— Aconteceu algo?

As mãos da governanta pararam por um segundo.

— Sim.

O silência instalou-se.

Leah não insistiu. Reconhecia dor quando a via, mesmo vestida de compostura.

****

À noite, a transformação chamava como febre. A necessidade do corpo esquentar, os músculos que latejavam com a necessidade de correr.

Leah resistia até onde conseguia.

Queria parar.

Queria saber quem seria sem aquilo.

Sem a raiva sempre tão perto da superfície. Sem os sentidos afiados demais. Sem a lembrança viva de uma vida que ela deixara para trás. Sem o vínculo invisível com tudo que vinha de La Push.

Ser apenas uma mulher cansada num quarto silencioso parecia, às vezes, uma ideia maravilhosa.

Mas, então abria a janela e desaparecia na mata. Corria por quilômetros. Voltava mais leve e mais triste. Porque, correndo como loba, sentia-se livre. E isso a enojava.

Na terceira noite, ao voltar pela janela, encontrou uma bandeja no chão.

Café quente.Torradas. Aspirina.

Leah franziu o cenho.

Abriu a porta bruscamente.

Corredor vazio.

— Isso é estranho pra cacete! — gritou.

A resposta veio de algum ponto distante.

— Você faz barulho quando chega.

— Então você fica me espionando? — Ela fechou os olhos.

— Eu fico tentando dormir.

— Compra tampões.

— Tenha modos, senhorita Clearwater.

Ela pegou a bandeja mesmo assim. E sorriu sem querer.

*****

Dois dias depois, brigaram por causa de flores.

Leah trocara os arranjos rígidos e sem vida da sala principal por ramos colhidos no jardim: lavanda, hortênsias azuis, folhagens soltas. O cômodo pareceu respirar pela primeira vez.

Quando voltou do mercado, tudo havia sumido.

No centro da mesa, um bilhete.

Não transforme minha casa em uma estufa desorganizada.

Leah subiu as escadas segurando o papel como arma.

— Senhorita Clearwater — Margaret a interceptou no corredor.

— Nem começa.

— Ele não gosta de invasões.

— Eu também não gosto de sabotagem floral. — Leah atravessou até a porta dupla do escritório principal.

Bateu uma vez. Nenhuma resposta. Abriu.

O cômodo era vasto, revestido de livros e madeira escura. Cortinas fechadas filtravam a luz da tarde em tons cinzentos. O fogo crepitava na lareira. No fundo, uma divisória alta de madeira talhada escondia parte do ambiente.

Ele estava atrás dela. Leah soube imediatamente.

Pelo silêncio atento.

Pela presença pesada no ar.

Pelo modo como a sala inteira parecia esperar.

— Você perdeu o juízo? — a voz dele saiu baixa e próxima demais.

— Você jogou minhas flores fora. — Ela não recuou.

— Corrigi um erro decorativo.

— Elas eram bonitas.

— Eram excessivas.

— Eram vivas.

Silêncio.

— Sai daí e fala comigo olhando no rosto. — Leah avançou um passo na direção da divisória.

— Vá embora. — A cadeira rangeu do outro lado.

— Não.

— Leah.

Seu nome, dito daquele jeito, teve um efeito estranho nela. Grave. Controlado. Sem sarcasmo.

Ela ignorou isso com esforço.

— O que você quer afinal? Uma casa perfeita e morta?

— Quero ordem.

— Você quer controle.

— E você quer desordem.

— Eu quero janelas abertas.

— Então abra as do seu quarto.

Ela quase sorriu, o que foi péssimo sinal.

— Você me provoca porque está entediado — disse ela. — E se esconde porque tem medo.

O ar pareceu mudar.

Quando ele respondeu, a voz veio mais perto.

— E você me enfrenta porque também tem alguma coisa da qual fugir.

A frase a atingiu em cheio.

Leah apertou o bilhete entre os dedos.

— As flores voltam para a sala — ele disse, depois de alguns segundos.

Ela piscou.

— Isso foi um pedido de desculpas?

— Não se empolgue.

— Foi sim.

— Saia do meu escritório.

— Com prazer. — Ela se virou, satisfeita demais.

*****

Naquela noite, Leah não correu. Ficou sentada na cama, ouvindo o vento bater nas janelas. Pensando em como um homem que não mostrava o rosto conseguia ocupar tanto espaço, em como queria odiá-lo com simplicidade, e não conseguia.

Já quase dormia quando ouviu passos no corredor. Lentos. Pesados. Parando diante da porta.

Ela prendeu a respiração.

Nenhuma batida.

Nenhuma palavra.

Depois, o som se afastou outra vez.

Leah permaneceu imóvel no escuro.

E percebeu, com irritação crescente, que queria ter aberto a porta.