O Monstro
4 Decisões
Notas iniciais
Enfim, boa leitura!!
John não conseguia se concentrar em nada. Tudo girava, e parecia que um apito havia sido instalado no fundo de seu cérebro. Ele tentou levantar, mas sua mão ardia como se tivesse pegando fogo. Girou para o lado, ficando de barriga para baixo, e se apoiou nos cotovelos para poder se levantar. Eles também pareciam queimar. Espalhado abaixo de si, várias cores estavam espalhadas, como se elas se tornassem sólidas e resolvessem se espalhar por ele.
O garoto escutou algum choque, parecido de metal atrás de si, seguido por um cheiro forte de enxofre. Porém, o filho de Apolo estava muito ocupado tentando pegar aquelas cores. Quando conseguiu, sua mão ardeu, mas ele não soltou até ver as linhas vermelhas que aumentavam cada vez mais em sua palma. Depois de um tempo que lembrou o que aconteceu.
Ele se virou, caindo de costas e batendo a cabeça. Não conseguindo registrar a dor, se levantou muito rápido, e toda a sua visão escureceu. O mundo rodava como um pião, e o garoto só não caiu pois mãos pequenas, mas firmes.
Pegando uma das mãos em seu ombro, sem reconhecê-la, só sabendo que lhe ajudaria, tentou recuperar a parte da consciência que havia lhe fugido. Ele piscou com força, ainda sentindo tudo girar e os braços e mãos arderem.
Quando conseguiu se restabelecer um pouco, viu que quem o segurava pelos ombros era uma garota mais baixa, com cabelos claros e escuros. Uma parte de seu cérebro reagiu imediatamente e a abraçou. Pelo menos a lembrança dela ainda não havia sido prejudicada.
Ele conseguia sentir o cheiro leve e feminino dela, através da roupa negra de frio. Não parecia machucada, somente assustada. Podia sentir suas mãos tremerem quando abraçou seu pescoço. John queria dizer a ela que estava tudo bem, mas não estava. Além do mais, estava cansado de mentiras.
-O que aconteceu? — Ela perguntou, sua voz em um murmúrio.
John hesitou um pouco antes de responder. Delicadamente, a afastou para poder ver seu rosto.
-A janela explodiu. Eu... eu não lembro de muita coisa após isso. – Sua voz era apenas um sussurro.
Ela o encarava com seus olhos, preocupados, e com uma cor indecifrável. Respirava fundo, procurando alguma resposta. Por fim, acabou se afastando e examinando a janela, pegando os cacos de vidro parecendo não se preocupar com os ferimentos que isso poderia causar. A garota passava os dedos pelos cantos mais afiados, e parecia que uma navalha subia e descia a coluna de John. Porém, quando se virou, estava com as mãos impecáveis.
-Vos chamar os outros – ela disse, com a voz firme. — Você consegue ir à biblioteca sozinho?
Ele hesitou por um momento, tentando entender o que ela havia dito. Por causa do choque, seu cérebro trabalhava um pouco mais lento. Quando a garota começou a abrir a boca novamente, para dizer algo, ele balançou a cabeça, confirmando.
-Consigo sim – murmurou, mais para sim mesmo. Devagar, se mantando perto da parede, caminhou até a porta da biblioteca, que não estava muito longe. Ele parou um momento e olhou para trás. Porém, Mary não estava mais lá.
O filho de Apolo abriu a porta da biblioteca e se arrastou até o divã, com a cabeça ainda girando loucamente. Tateando os bolsos, não achou nenhuma estela. Suspirando, deitou-se, apoiou a cabeça em uma das almofadas e fechou os olhos dourados. Depois de alguns segundos, sentiu alguém entrar, porém, o chiado em sua cabeça era muito grande para que conseguisse escutar quem era.
Seu braço foi tocado levemente, e uma mão repousou sobre sua testa. Abrindo os olhos devagar, viu que era Mary, e algumas pessoas se amontoavam para olhar por cima de seu ombro. Com cuidado, ela passou as mãos pelo seu pescoço e o levantou, para sentar e colocar a cabeça dele em seu colo. A garota não segurava nenhuma estela ou coisa do tipo, mas tinha um olhar enorme de preocupação e tristeza. Conhecendo-a bem assim, John percebeu que ela também se culpava.
Ele tentou levantar a mão, mas ela a rebaixou e a prendeu ao divã. Depois de um tempo, o garoto começou a sentir alguns pontos arderem mais do que já estavam, se é que isso era possível. Com a visão periférica, viu que seu tutor, Grissom, retirava alguns cacos presos em seu corpo com uma pinça. Era melhor fazer isso antes de começar a desenhar uma Marca de cura. O vidro poderia entrar dentro de seu corpo e o ferir mais.
Sentindo a mão de Mary em seus cabelos, ele olhou para a garota. Através de seus lábios, ela pareceu dizer:
-Durma, meu anjo.
E obedecendo a ela, fechou os olhos e tentou ignorar a dor que lhe percorria. Mas não conseguiu dormir. Tudo o que passava por sua cabeça era horrível. Saberia que iria reunir duas antigas raízes, lutar contra demônios e monstros, além de morrer e ressuscitar. Não era algo muito legal de se pensar quando estava querendo dormir.
John sentiu a estela percorrer seu antebraço. Depois de um tempo, o chiado no fundo da cabeça e a dor aguda nos cortes parou. Ele pôde perceber que havia uma discussão acalorada na biblioteca.
-Mesmo que eu não goste deles nem os conheça, nós temos que chamá-los! — Uma voz feminina disse, mais alta que as demais. — É uma guerra, vocês não entendem?
-Mesmo assim, foram somente dois ataques.
-Quem sabe se eles não estão do lado inimigo?
-Eles não estão, seu cretino! Eles querem nos ajudar!
O garoto abriu os olhos, tentando ver aonde a discussão os levava. Ele viu Mary, que estava apoiada no encosto do divã, com os olhos fechados. Parecia tão cheia daquilo quanto qualquer um outro.
Virando a cabeça para o lado, a situação não era melhor. Percy e Albert estavam se encarando, parecendo prontos para uma luta. Pelo visto, Albert não queria ajuda do lado grego. Ele nunca confiou em Mary. Agora, pelo jeito, faria de tudo para que a aliança não acontecesse.
-Você nem os conhece, Percy! Como pode confiar neles? — Ele disse.
Percy hesitou por um momento, pego pela pergunta. Então, aproveitando a pausa, John se sentou no divã, apesar de Mary não parecer deixar. Ela ainda estava segurando-o pelo ombro quando o garoto se expressou.
-Mas eu os conheço. Além do mais, eu sou o mestiço e vou decidir tudo aqui. Entendeu?
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