O vento frio sibila pelas ruas desertas mergulhadas em uma névoa espessa trazendo consigo uma quietude quase assustadora, onde ninguém ousa quebrar o silêncio, mas se olhar atentamente escondida na lúgubre noite, notará uma luz fraca de lamparina atravessando a vidraça de uma janela solitária e morrendo na escuridão que se aprofundava lá fora. Em seu cenário confortável, aqui está ele, rodeado por suas obras preciosas onde cada pincelada conta uma história que as pessoas dessa cidade provinciana sequer podem imaginar.

Ninguém vê o brilho gélido em seus olhos, nem o sorriso que dança em seus lábios enquanto ele escolhe sua próxima tela, tomando cuidadosamente um de seus frascos de tinta vermelha, sua cor preferida, e senta-se frente a ela, ainda branca, analisando-a demoradamente, como se já pudesse visualizar a próxima figura que, por uma questão de dias, estará pronta.

Ninguém vê. Exceto eu.

Ninguém o conhece. Exceto eu. E ela.

A lua lá fora sabe o que os seus olhos atentos procuram enquanto caminha com seus passos calculados nas sombras noturnas. Eu aqui dentro, só posso esperar pelo momento que ele chega com o presente nas mãos. De tempos em tempos, ele retorna à sua busca pela tinta rara e única, que ele chama de: o elixir da vida. A essência que não apenas dá a cor, mas a vida às suas obras, imortalizando o que jamais poderá ser esquecido.

E assim, o processo começa. Cada pincelada, é uma cerimônia solitária onde ele traça um destino que nem ele, talvez, seja capaz de compreender até o fim.

A obra. A busca pela perfeição a cada quadro pintado.

As pessoas se maravilham com o artista ímpar, cujas obras são discutidas e disputadas. Os seus quadros são vendidos antes mesmo de serem concluídos.

As pessoas querem saber o segredo da sua genialidade. Jamais se viu obras tão realistas e ao mesmo tempo tão etéreas. Nas suas telas, as tonalidades, as sombras e as cores vivas se misturam aos sorrisos cálidos e olhos brilhantes que parecem estar vivos.

Olhando-os fixamente, os vemos quase suplicantes. Belos, mas com um toque de melancolia congelada, como se pudessem contar segredos que não estão destinados a serem revelados, mas que ainda assim, são impossíveis de ignorar.

As figuras femininas retratadas naquelas telas, atrai tanto os curiosos quanto os admiradores, e são nessas exposições que ele encontra suas próximas inspirações. Damas delicadas, de traços suaves e elegantes, peles como seda, rostos ornados aos olhos fascinantes. No entanto, o que ele mais aprecia não está exposto. Está em seu interior.

Contudo, ele não se aproxima. Apenas as estuda por dias, antes de fazer-lhes o convite inegável de ser uma de suas musas inspiradoras.

Não há como dizer não. Afinal, o artista sabe ser tão encantador quanto impositor. A sua persuasão é sutil, mas forte como a gravidade, e nenhuma mulher jamais questiona a grandeza de sua proposta.

Só há um quadro neste ateliê que ele nunca se desfaz. Mesmo com as insistências, as ofertas grandiosas ou as promessas de renome, não fazem efeito sobre ele. Aquele quadro é a sua Obra Maior. A perfeição que acredita ter alcançado, enquanto criador, e que nenhum valor mundano pode substituir.

Ela está sempre lá. Nas exposições, nas suas viagens, sempre no seu campo de visão, como se ele precisasse da presença dela para continuar o seu legado.

E é ela quem está presente no ateliê quando ele chega das noites exploradas com sua encomenda nas mãos. O segredo de sua fama, o elixir de sua arte, armazenado no interior de suas vítimas.

A obra sou eu.

Dia após dia, destinada a vê-lo pintar tela sobre tela, com a cor escarlate da morte. A tonalidade rubra mais valiosa que qualquer outro material.

O que ele busca está no interior delas. A essência preciosa que dá vida às suas figuras retratadas, quase humanas, quase vivas.

E então, noite adentro, mais uma pintura surge, forjada na beleza carmesim do sofrimento. No rubor do desespero.

As câmaras cheias de líquido púrpuro. Os pincéis molhados, aguardando o toque final.

A cidade em silêncio. A lua lá fora, cúmplice .

Então, o corpo pálido estendido no chão, aguarda, enquanto ele faz os retoques finais e, quando sua mão traça a última pincelada, sua respiração cessa: ela, enfim, pertence à tela, presa num sorriso imortalizado que jamais se apagará.

A alma se desvanece, momentaneamente, apenas para renascer dentro de sua obra.

E eu, estou sentenciada a registrar mais um ritual mórbido, catalogando aqui, de minha prisão eterna, onde o tempo jamais passa, assim como a minha interminável dor.