O Moço que Acordava Cedo e outras histórias
4 O espelho
O Espelho
— Este espelho é de altíssima qualidade, senhor. Perfeição no reflexo, moldura elegante e um vidro tão cristalino que parece uma segunda realidade! — disse o vendedor, sorrindo enquanto deslizava a mão sobre a borda dourada do espelho.
O cliente permaneceu em silêncio por um instante, observando sua própria imagem no reflexo. Depois, inclinou a cabeça de leve e murmurou:
— Perfeição no reflexo? Acho que não.
O vendedor ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Ora, veja você mesmo! Reflete exatamente o que está à sua frente.
O homem deu um passo mais perto, analisando-se novamente. Seu rosto estava ali, mas algo parecia errado. Seus olhos não carregavam o mesmo peso de sempre, sua boca se curvava de um jeito diferente, e sua postura parecia mais confiante do que ele realmente sentia.
— Não, esse reflexo não sou eu.
— Claro que é! O espelho apenas devolve o que você lhe dá — retrucou o vendedor, batendo de leve no vidro. — Aqui não há mentiras. Apenas a realidade.
O homem soltou uma risada seca.
— Engraçado. A realidade pode ser muito subjetiva.
O vendedor sorriu com paciência, como quem já ouvira objeções absurdas antes.
— O espelho é um objeto neutro, senhor. Ele não opina, não julga, não engana. Ele apenas mostra.
— Será? — O homem cruzou os braços. — Então por que ele me mostra alguém que eu não reconheço?
— Talvez porque você não se olha direito há muito tempo — respondeu o vendedor, com um ar professoral. — Ou talvez porque sempre espera ver algo diferente.
O homem franziu o cenho. Tocou o vidro com os dedos, como se quisesse atravessá-lo, romper a barreira entre ele e aquele outro que o observava de volta.
— Não acredite em tudo o que vê — murmurou.
O vendedor inclinou a cabeça, curioso.
— Como disse?
— O espelho não reflete só imagens. Ele reflete ilusões. Ele distorce, exalta, diminui. Ele mente!
Os dois ficaram em silêncio por um momento.
Então, o homem suspirou e pegou o espelho.
— Eu levo.
— Ótima escolha! — disse o vendedor, satisfeito. — Tenho certeza de que o senhor vai se ver com outros olhos agora.
O homem não respondeu. Apenas pagou, pegou o espelho e saiu da loja.
Já em casa, apoiou-o contra a parede e, hesitante, olhou para ele mais uma vez.
E então sentiu um calafrio.
Porque não importava o ângulo, a luz ou a proximidade...
O espelho nunca mostrava ele.
Mostrava sempre outra pessoa.
E enquanto ele andava para longe, sentia-se perseguido por dois olhos que não eram os seus.
Fale com o autor