O Mistério de St. Reeve's
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Notas iniciais
Abro os olhos e encontro-me parada no mesmo lugar aconchegante de sempre. Olho para um lado e vejo Elizabeth parada em frente aos lagos congelados. Tomo alguns segundos para apreciar como a mulher parecia angelical e etérea no momento.
Seus cabelos voam delicadamente ao lado do rosto, sem que nenhum fio nunca entrasse no meio de seu rosto.
Ela não percebe minha presença, o que é estranho, e a, sempre presente, mesa de chá está ausente. Mas não reclamo e apenas me aproximo dela, relutante por perturbar uma cena tão pura. Posiciono-me ao lado da mulher, minha cabeça termina logo na linha de seus lábios, então me sinto baixa.
Elizabeth ainda não faz menção de ter percebido minha presença, parece tão perdida em seus pensamentos e tão fascinada pelo, infinito, horizonte. Meu coração começa a bater mais lentamente, como se a presença dela, como se esse lugar fosse tão calmante para a alma.
– Bem vinda Ren... – a mulher, finalmente, murmura.
– Tadaima – respondo – É bom estar de volta – traduzo para o inglês.
A mulher sorri, talvez tenha entendido minhas palavras, mesmo em japonês. O silêncio cai sobre nós, não propositalmente, já que tinha milhões de coisas que queria perguntar. Como o porque de não lembrar do último sonho tão bem como dos outro? Mas sinto a dor dela e escolho permanecer calada por mais alguns minutos.
Era estranho, no começo havia acreditado que tudo isso era apenas um sonho, mas aos poucos a gentil mulher que me oferecia chá durante as noites, havia me convencido de que isso era mais do que um sonho. Que todo esse lugar era mais do que um sonho. E já que era assim, ela também tinha direito de ser tratada como todos os outro humanos.
Fecho os olhos e aprecio a brisa. Era diferente, ela era pura. Não carregava o ar pesado e poluído que existia até nos lugares mais remotos da Terra.
– Queria poder ficar aqui para sempre – murmuro antes que possa conter minhas palavras.
– Cuidado com seus desejos Ren – sua voz soa muito baixa – as vezes eles apenas lhe cegam da realidade.
Silêncio paira sobre nós. Sua voz era austera, ela não falava como se tivesse as respostas para tudo, mas sim, como se a própria experiência tivesse a levado a tirar essas conclusões.
“Thomas”, penso.
O que ele tinha a ver com isso tudo? Porque ele estava lá naquele dia? Que língua ele estava falando? E porque só a menção de seu nome perturbava tanto Elizabeth?
Isso era outra coisa, eles eram parecidos, não tinha como negar. Ambos tinham os mesmos olhos azuis acinzentados, embora os de Elizabeth carregassem calma, gentileza e tanta dor, ao passo que os de Thomas eram tão reluzente, encantadores e determinados. Pergunto-me se duas pessoas fisicamente tão parecidas e psicologicamente tão diferentes podiam estar mesmo relacionadas.
– Isso também – murmuro, lembrando de como Elizabeth desviava do assunto toda vez que ele não a agradava, como quando mencionei Thomas – você sempre desvia do assunto, quando ele não te agrada – Elizabeth me encara surpresa, mas não ofendida – Sabe, da primeira vez que apareci aqui, pensei que você era um sonho, que tudo era uma sonho. Afinal é a explicação mais lógica, mas nem mesmo minha imaginação conseguiria criar alguém tão... real, como você.
– Quem somos nós para julgar a realidade do imaginário Ren – ela desvia do assunto novamente – O mundo em que vivemos é sempre o real, seja esse, ou o outro. Material, ou não.
A mulher desvia o olhar do horizonte e encara-me por um segundo. Ela parece tão sábia e experiente, que as vezes me pergunto, quantos anos ela realmente tem?
– Esse mundo, é o mundo real para você? – pergunto.
– É melhor do que o outro. Então sim.
As palavras delas voam na próxima brisa e quase não escuto sua resposta. O vento aumente e meus cabelos começam a voar no meu rosto, mas não os dela. Os dela continuam balançando graciosamente atrás de suas costas, agora mais bruscamente, mas ainda assim perfeitamente.
– Se eu fizesse uma pergunta para você, só uma – começo, meio hesitante – você responderia sinceramente?
– Uma?
– Sim, só uma – esforço-me para conter minha empolgação.
Elizabeth abaixa a cabeça lentamente, em sinal de aprovação.
– Porque você sempre encara o horizonte com essa expressão triste?
Minha pergunta parece choca-la por um instante, mas logo a postura real está de volta e seu rosto volta a, familiar, calma.
– Porque ele não faz parte de nenhum mundo. Não desse e nem do outro, e as vezes eu imagino se esse outro mundo seria diferente, se seria... melhor.
– Se fosse, você iria?
– Sim – ela responde, sem nem ao menos parar para pensar.
– Mesmo que isso significasse deixar todos para trás?
– Eu já deixei.
Os lábios da mulher mal se abrem para falar a última frase. Ela está com dor no momento, posso sentir seu coração quebrado, mesmo dessa distância. Não sabia direito o que havia acontecido no passada, ou quem ela havia deixado para trás, mas podia dizer, que isso realmente havia quebrado seu coração.
– Thomas? – arrisco – Ele foi uma das pessoas que você deixou para trás?
– E se eu dissesse que sim?
– Eu perguntaria o que aconteceu.
– Muito.
Então era verdade? Thomas realmente tinha convivido com ela? Os dois realmente se conheciam? E ela havia o deixado. Porque?
– O que aconteceu?
– Muitas coisas, coisas que você não vai querer saber.
– Mas eu quero.
– Não. Você não quer – ela me reassegura – São coisas demais, e ruins demais. É melhor você não saber Ren.
– E se mesmo assim eu quisesse?
– Eu diria que seus poderes são perfeitos para você.
Sinto minhas sobrancelhas franzirem pela menção. Ela sabia dos meus poderes? Ela sabia que eu podia possuir as pessoas? E mais importante, o que meus poderes tinham a ver com o assunto agora?
– O que você quer dizer com isso?
– Se você quer mesmo saber, eu lhe mostrarei.
– Como?
– Eu vou lhe dar os olhos para ver minha história, sentir o meu sofrimento. A visão para entender o que significa ser eu, mas você vai ter que deixa-los entrar.
– Eu consigo.
– Eu sei – sua voz soa confiante, mas ao mesmo tempo assustada – Só não tenho certeza se eu quero – ela se recusa a me encara, como se tivesse certeza que o que iria fazer agora iria me matar.
– Como você disse, esses são os meus poderes, eu posso fazer isso.
– Muito bem então Ren Kouhen, eu aceito sua oferta – duas mãos se levantam e seguram os lados da minha cabeça, sinto um leve pinicar atrás dos meus olhos, mas ignoro – I am sorry – ela sussurra.
A pressão de suas mãos começa a aumentar e sinto minha cabeça começar a ser comprimida. O pinicar atrás dos meus olhos começa a ficar mais doloroso e aos pouco começa a queimar, o fogo se espalha pelos meus olhos e aos poucos vai caminhando em direção a minha pupila.
Sinto meus pulmões sendo afogados. Porque estava tão difícil de respirar? Tusso uma vez e sinto um líquido quente subir pela minha garganta, abro a boca e deixo ele escorrer pelos cantos do meu queixo. Sangue? Tusso mais uma vez e mais uma pequena quantidade do líquido sai, deixando o gosto característico de ferro na minha boca.
Meu nariz começa a arder. A quanto tempo eu não respirava? Tento puxar o ar para dentro dos meus pulmões, mas eles parecem já estarem ocupados. Tento inspirar de novo, mas o ar não entra. O que era isso? Eu estava sufocando!?
Tento me livrar das mãos de Elizabeth e cuspir o sangue para fora dos meus pulmões, mas elas me seguram firmemente. Tento de tudo, arranha-la, empurra-la, mas nada funciona, na verdade parece que ela nem sente meus golpes.
Minha cabeça começa a girar. Será que era a falta de oxigênio? A quanto tempo eu não respirava mesmo? Tinha 100% de certeza que ficar todo esse tempo sem oxigênio fazia mal para o cérebro. Era por isso que eu me sentia tão tonta?
Minhas pernas começam a perderem o balanço e meu corpo desmorona no chão, era isso? Era assim que eu ia acabar? Era esse o meu fim? Eu ia morrer dentro de um sonho?
Não!
Eu havia prometido para Elizabeth que iria fazer isso, e iria! Eu não ia falhar, não agora.
– It is only in your head – uma voz sussurra, ela parece distante e tão estranha, não consigo dizer se é feminina ou masculina.
Minha visão está embaçada. Onde eu estava mesmo? O que eu estava fazendo mesmo? Uma imagem começa a se formar na minha frente. O que era isso? A cena alterna entre a escuridão e um embaçado de cores, ou será que eu estava piscando?
“It is only in your head”
Um garoto estende uma mão para mim. Seus olhos estão embaçados, mas são azuis, com certeza azuis. Isso significava alguma coisa, eu tinha certeza, mas não lembrava o que. Tento estender minha mão e segurar e dele, por algum motivo o garoto me parece muito confiável. Surpreendo-me quando uma pequena e pálida mão se estende, seus dedos são longos e finos, com a delicadeza de um pianista.
Era a minha mão! Eu era pianista?
“It is only in your head”
A névoa volta na minha visão e meus olhos piscam, tentando se livrar da incomoda umidade no ar. Afinal de contas, de onde tinha vindo toda essa névoa? Será que estava aqui o tempo todo? Que frio é esse?
A imagem começa a voltar a focar no meio de um enorme campo de neve. O garoto está lá de novo segurando um floco de neve na palma da mão. Não. Ele não estava segurando um floco de neve, e sim levitando um, como se fosse mágica.
– Você parece com uma agora – o garoto murmura, sua voz era tão doce e meio fina. Ele ainda era novo e sua voz ainda não havia engrossado.
– É... – respondo.
Era essa a minha voz? Porque eu tinha esse sotaque? Eu era britânica?
“It is only in your head”
Minha cabeça gira e meus olhos vão junto, fazendo toda a cena balançar como se um terremoto tivesse começado. Fecho os olhos esperando a tontura e confusão passar.
“It is only in your head”
Vejo um braço jogado na minha frente, era o meu braço. Neve começa a cair aos poucos e se acumular em cima dele, sinto o frio dos flocos passarem pelo tecido da minha roupa. Está tão gelado, estou com tanto frio.
“It is only in your head”
A neve cai, cada vez mais pesada e enterra meu braço, estou me afogando em neve! Sentindo o peso aumentar em cima do meu rosto e pressiona-lo mais fundo dentro de um caixão gelado.
“It is only in your head”
Um borrão preto anda para longe no horizonte, levanto meu braço para ele. Tento pedir ajuda, mas o homem nem se quer se vira. Como ele pode fazer isso? Como ele pode me abandonar? Como ele pode me trair?!
“It is only in your head”
Espera! Como eu sei que ele é um homem? Porque ele me traiu?
“It is only in your head”
Minha visão volta a falhar e meus olhos caem. A neve se acumula em cima do meu braço levantado e enterra ele, o peso aumenta a cada segundo que passa. Cada vez mais pesado, cada vez mais sufocante.
“It is only in your head”
Eu estava sendo enterrada viva.
“It is only in your head”
Era assim que eu iria morrer?
“It is only in your head”
Mas..
“It is only in your head”
Mas...
“It is only in your head”
Mas...
“It is only in your head”
Eu não queria morrer ainda!!!
– Ren! – Elizabeth grita no meu ouvido, o que me faz abrir os olhos de supetão.
Eu ainda estava em pé na frente da mulher, que agora já havia mudado suas mãos para meus ombros e me encarava com preocupação nos olhos. Eu não havia me movido, nem um musculo. Foi tudo a minha imaginação.
– Acabou – ela fala, esfregando meus ombros – eu já lhe dei o que deveria.
A mulher aponta para o meu rosto, então assumo que seja algo nele. Ajoelho do lado de um dos lagos congelados e encaro meu reflexo no gelo.
O susto inicial não é tão grande. Minha cara se mantem intacta, sem sangue, sem nada, isso também tinha sido parte da minha imaginação. Mas o que me surpreende eram meus olhos. Eles haviam mudado.
O que antes era negro agora era um tom impossível de dourado, brilhante e vibrante, uma cor inexistente na realidade. Mas isso não era o mais impressionante. Minha pupilas agora se estendiam verticalmente como as de um felino, assustadoras e poderosas.
Afasto meu rosto da superfície congelada e encaro meu rosto de longe. Era tão diferente, meus olhos davam outro ar para mim, completamente diferente, quase... etéreo.
– O que é isso?
– Eyes of a fairy. Eles irão lhe ajudar a ver meu passado e o sofrimento pelo qual passei – a preocupação de Elizabeth parece ter passado, e sua expressão retornara para a calma de antes – Eles lhe mostrarão quem eu sou.
– Porque olhos de uma fada?
– Ren Kouhen – a mulher murmura, sorrindo levemente – Sempre fazendo as perguntas mais inesperadas.
Sorrio, não sabendo se era um elogio ou um insulto.
– E surpreendentemente, as corretas.
Elizabeth, como sempre, evita minhas perguntas e muda de assunto. Ela era profissional nisso, quase fazia o mestre dos magos parecer um livro aberto.
– Eles também lhe mostrarão o porque – completa depois de um tempo.
– Obrigada.
– Eu acho que sou eu, que deveria estar lhe agradecendo – a mulher sorri, mas mesmo assim posso sentir medo emanando dela – You do not know what you signed up for.
– Nós nunca sabemos – respondo – É a vida...
– Verdade – ela dispara, informalmente.
– Você acabou de dizer “Verdade”? – exclamo.
– Sim, porque?
– É tão... informal. Nem parece você – tento soar menos impressionada do que realmente estou – Sabe? Você é geralmente tão, formal e extravagante com as palavras.
– Bom, talvez eu tenha incorporado algumas palavras de uma recorrente visita.
Sorrio com o elogio. A mulher acena em resposta e volta a encarar o horizonte. Paro do lado dela e a acompanho. Quando ela não reclama, tomo a liberdade de permanecer ali, encarando a eternidade da visão e a calma que a brisa trazia ao bater nos meus cabelos.
°_°_°_°
Seguro minha cabeça em pé com minhas mãos. Não sabia como as pessoas conseguiam gostar de uma matéria tão chata como Matemática, não via a hora da semana de esportes finalmente chegar e as aulas serem canceladas por 5 dias. Puxo minha atenção para o relógio e checo novamente as horas, agora eram 11:07, eu tinha mais 7 minutos para decidir se iria com Peter ou não, qual era o problema desses britânicos e seus horários nada exatos?
Encaro o quadro negro mais uma vez e forço-me a prestar atenção nas palavras do Sr. Martin, mas era tão difícil. Porque nós temos que ficar aqui de qualquer jeito? A vida é cheia de coisas para fazer e tem tantas aventuras que podem estar acontecendo lá fora neste instante, porque eu tenho que ficar presa dentro dessa sala? Porque eu tenho que ser uma boa aluna?!
Começo a ficar mais e mais irritada a medida que penso. Eu posso morrer a qualquer instante e não quero que a minha vida se resuma a: e ela sentou obedientemente e assistiu aula! O professor vira as costas para a turma e começa a resolver um problema no quadro, minha chance! Levanto da cadeira e deslizo para fora da sala.
Fecho a porta atrás e saio correndo pelos corredores, subindo a escada rapidamente e indo ao ponto de encontro combinado. Quando chego lá vejo Peter sentado no chão do corredor, esfregando a barba imaginária e encarando um estojo de couro marrom no chão.
– Posso saber o que você está fazendo? – murmuro me aproximando do garoto.
– Ren! – ele exclama, logo depois tapando a boca com as mãos – Que bom que você veio minha cara ajudante.
– Ajudante?
– Porque hoje nós faremos a coisa mais emocionante de toda a historia de St. Reeve’s! – se empolga de novo e tapa a boca.
– Sim, claro... Que seria? – assisto enquanto Peter se ajoelha e cata o estojo de couro do chão. Tento espiar o que tem dentro, mas ele fecha-o muito rápido.
– Nós vamos invadir a sala do Diretor e procurar pistas sobre a morte da Martha!
Meu queixo cai.
– Nós? – aponto para ele e em seguida para mim – tipo, eu e você? Juntos? Fazer o que mesmo?
– I-n-v-a-d-i-r a s-a-l-a d-o D-i-r-e-t-o-r Não vai ser divertido? – Peter sorri abertamente, como se achasse que tudo fosse uma grande piada.
– Okay. Se você quer invadir a sala do Diretor, eu estou dentro – falo, relembrando de uma das frases mais usadas por Kaede-sama: “If life gets crazy, the best thing you can do it’s become a madman”
– Sério?!
– Sério. Mas primeiro você vai ter que me dizer, porque? – Pergunto mudando o tom divertido da conversa.
Os olhos de Peter se escurecem subitamente.
– Ren, você realmente acha que a morte da Martha foi um acidente?
– Espera! Você acha que foi... assassinato? – engulo a palavra como se fosse veneno. Mais uma acidente/assassinato na minha vida.
– Não sei. Mas as circunstâncias inteiras foram estranhas, quer dizer, todo o sigilo? O nervosismo na voz do Diretor quando falava sobre o assunto? Eu posso estar errado Ren, mas quero ter certeza de qualquer uma das opções.
Peter soava sério, eu podia dizer pelo jeito como seus ombros tencionavam todo o momento e suas mãos percorriam a superfície lisa do estojo. Sinto meu estômago se embrulhar e contrair um pouco, não me sentia assim tão enjoada em um bom tempo.
– E como você espera entrar na sala do Diretor? – minha voz sai rouca, tusso um pouco para disfarçar e encaro Peter. Ele não parece ter percebido.
– Ah! Que bom que perguntou senhorita Kouhen. Eu tenho um segredo – A empolgação de Peter volta a tona e ele passa o braço em volta dos meus ombros, me puxando mais para perto – Quando os professores, ou, nesse caso, o Diretor, ficam na sala, ela fica aberta para o público, mas quando eles saem, trancam ela com uma chave única.
– Essa pequena anedota vai servir para alguma coisa? Ou foi só para aliviar a tensão?
– Paciência minha jovem padawan. Então, nós não podemos entrar na sala quando ela está destrancada, porque senão o Diretor estaria lá dentro, mas nós podemos entrar quando ele não está.
– Mas dai a porta fica trancada – aponto o óbvio.
– E é ai – me solta e caminha para a grande porta de madeira entalhada do Diretor – que entra a magia.
Peter abre o estojo de couro e revela pequenos objetos prateados. Ele passa o dedo por eles e escolhe um, checando a ponta com o dedão e colocando este dentro da fechadura da porta. Nós estávamos realmente arrombando?
– Você está realmente arrombando? – sussurro.
– Não. Eu estou abrindo a porta sem a chave, nós estaríamos arrombando se chutássemos a porta e entrássemos.
– Dá na mesma. Eu não acredito que estou te ajudando a invadir a sala do Diretor – suspiro, sentindo o nervosismo subir pelo meu corpo.
– Não seja tão exagerada Ren, não é nada de mais. Além do mais foi você que decidiu vir aqui, então vigie as escadas e me avise se alguém estiver vindo.
– Espera! Você me chamou aqui para ser sua guarda-costas? – pergunto, indignada.
– Não! Acredite se eu precisasse de um guarda-costas eu não teria chamado alguém que não tem tamanho para, realmente, guardar as minhas costas – ele replica, ainda trabalhando na fechadura.
– Ah claro! E lá vão vocês implicando com o meu tamanho de novo. Quando eu ganhar do Joe vocês vão ver.
– Você? Ganhar do Joe? Eu devo dizer que ainda duvido disso. Você sabe o que ele fez não? – Peter estica a língua para fora da boca e morde-a levemente em sinal de concentração.
– Aceitou meu desafio?
– Não! Quer dizer, sim! Mas a outra coisa?
– Peter, eu não estou interessada na vida pessoal de um professor.
– Ele chamou quase toda a escola para ver a luta no ginásio.
– O QUE?!? Ele fez o que? – exclamo, completamente esquecendo que estávamos arrombando uma sala – como assim? – volto a sussurrar – ele não tinha o direito de fazer isso! A luta também é minha.
– Porque? Não está mais super confiante?
– Estou! Mas juro que vou arrancar a cabeça daquele homem da próxima vez. Na verdade, eu vou, agora, tirar uma satis...
– Abriu! – Peter exclama, levantando de sua posição e guardando os instrumentos dentro do estojo e o estojo dentro do bolso da calça – Venha Ren, você se vinga depois.
Sinto uma mão agarrar meu braço e me puxar para dentro da sala contra a minha vontade. Tento não tropeçar nos meus pés e viro-me em tempo de ver Peter fechando a porta.
– Vamos Ren! Não temos muito tempo, temos que achar alguma coisa que tenha a ver com a Martha – Peter soa sério, como se toda a atitude imatura dele tivesse sido deixada do lado de fora da sala.
Concordo com a cabeça e começo a andar pelo escritório, folheando papéis em cima da mesa. Passo os olhos pelos livros enfileirados perfeitamente no armário, se ele estivesse escondendo algum tipo de segredo perigoso e não quisesse que ninguém soubesse, as provas estariam, pelo menos, escondidas.
Começo a procurar por lugares onde informações pudesse ser escondidos. Mas é claro que eles também podiam estar bem em cima da mesa, criptografados. Milhões de possibilidades voam pela minha mente, haviam tantas oportunidades de esconder as coisas e tantos meios. E a pergunta permanecia a mesma, será que realmente havia um segredo?
O barulho de madeira rangendo me faz dar um pulo e encarar a porta, alguém estava vindo!
– Ren! – Peter murmura, atraindo minha atenção e me tirando do estado de choque – rápido, vamos!
Não paro para pensar e apenas sigo o meu amigo, que vai para a porta de vidro que dá para a sacada e abre-a. Deslizo para dentro da sacada e assisto enquanto Peter fecha a porta, apagando qualquer evidencia que estivemos aqui.
– Nós temos que sair daqui! – exclamo.
– Não! Ainda não. Temos que ter certeza que é o Diretor.
– Vamos ser pegos desse jeito – agarro o braço de Peter e tento força-lo a olhar para mim, mas seu olhar determinado ainda não havia sumido – tá bom – solto seu braço – se for ele, como nos saímos?
– Nós pulamos – aponta para o chão do primeiro andar.
– O que! Você quer que nós pulemos? – sussurro irritada – se você quer cometer suicídio, da próxima vez me avise para eu não vir junto.
– Não é suicídio Ren – desvia o olhar de mim e começa a prestar atenção nos barulhos atrás da porta. Imito-o – eu já fiz isso antes, é só ter a técnica certa.
O garoto dá alguns passos para trás encosta nas barras de ferro que impediam-nos de cair. Faço como ele e aproximo-me da borda, dividindo meu cérebro para calcular a distância entre nós e o chão e prestar atenção nos sons do corredor. O clique de uma chave sendo inserida na fechadura faz Peter pular e agarrar as barras da grade pelo lado de fora e pular para fora da sacada. Ele para logo depois, sendo sustentado pelas mãos que seguravam nos pedaços finas de ferro.
– Mas o qu...
– Desça, agora! – Peter exclama, soltando das barras e cobrindo a distância restante até o chão.
Engulo em seco, ele queria que eu fizesse isso?! Olho novamente para a sala do Diretor e vejo a maçaneta girando. O mundo parece girar em câmera lenta, e se o segredo existisse? Essa seria nossa única chance de descobrir o que estava acontecendo, e se fosse algo grande? Inspiro fundo.
Era hora.
Eu tinha que usar meus poderes, eu sabia que podia, mas seria tão arriscado. Eu mal sabia como controla-los. Solto o ar que não havia percebido que estava prendendo, tinha que conseguir. Lembro da confiança e coragem brilhando nos olhos de Peter, não podia decepciona-lo.
A porta se abre lentamente com um leve rangido. Tranco a respiração e assim que um pedaço da mão do Diretor aparece de trás da porta, ponho todas as minha energias nela e imagino minha alma viajando até ela. Penetrando o corpo dele, como uma lança e então me fundindo com suas memórias, roubando um pouco do que ele era e tomando total controle de tudo que ele fazia.
No segundo seguinte estou dentro do corpo do Diretor, encarando a mão dele abrir a porta para a sala. Entro rapidamente e fecho a porta atrás de mim, controlando perfeitamente o corpo alheio. Balanço a cabeça, memórias piscam na minha frente, muita coisa para meu cérebro processar.
Tento me concentrar em apenas uma memória, em apenas um acontecimento. A morte da Martha. Flashes brilham na minha frente, tento diminuir deles e fazê-los ter algum sentido, mas é muito para meu cérebro controlar. Respiro fundo e tento lembrar do rosto da mulher, no segundo que visualizo seus cabelos escuros, forçadamente alisados, e sua pele morena, as memórias certas encaixam no meu cérebro e vejo um turbilhão de informações relacionadas com o assunto.
Minha cabeça começa e doer e tombo o corpo do Diretor no chão, sendo imediatamente jogada novamente para o meu próprio corpo. Levanto em um pulo e escuto a voz de Peter, meio gritando meio sussurrando, para eu descer. Ele soava tão zangado.
Ainda me sinto zonza, mas aos poucos começo a entender as memórias na minha cabeça. Olho para dentro da sala e vejo uma enorme mão, caucasiana, se apoiar na mesa e tentar se levantar.
Era o Diretor, ele estava levantando e não podia me ver aqui! Sem pensar duas vezes viro de costas e apoio a sola do tênis no corrimão da varanda me jogando para cima e para fora. Subo alguns centímetros antes de começar a cair em direção ao chão.
Vejo Peter sair correndo do meio do caminho e aterrisso, flexionando os joelhos e dando uma cambalhota para diminuir a força do impacto. Levanto logo em seguida erguendo os braços e os esticando em sinal de vitória.
– Ta dan! – exclamo, enquanto assisto Peter embasbacado pela minha performance – sim eu sei, eu sou demais.
– Ta mais para atrasada demais. O que você estava fazendo que demorou tanto para descer? – ele soa irritado, como se fosse minha mãe me dando uma bronca.
– Relaxe Pete, não foi nada, eu só pensei que já que viemos até aqui, não podíamos sair de mãos vazias, então voltei para pegar uma coisinha.
– Você achou alguma prova? – pergunta animadamente.
Minha expressão muda repentinamente.
– Peter, preste atenção, isso é muito importante. Eu achei um documento escondido em uma gaveta – começo a lembrar da conversa do Diretor com uma mulher vestida em trajes policiais, ela fecha os olhos suavemente e as rugas em sua testa apertam quando, finalmente, a noticia é transmitida – a morte da Martha não foi um acidente. Ela caiu em cima de uma pedra e claro, com a força da queda, ela deveria ter quebrado a cabeça, mas não foi isso que aconteceu. A cabeça dela estava rachada, o que só é possível se você tiver caído com muito força, ou seja...
– Ela foi empurrada – Peter estica o braço e pega minha mão – depois você continua, temos que sair daqui.
Concordo com a cabeça e deixo ele me guiar em direção a floresta do lado do jardim, onde ninguém iria pensar em nos procurar. Vou pensando nas memórias durante o trajeto, havia treinado meus poderes o suficiente para saber que, assim que eu possuía o corpo de alguém podia ver suas memórias de, mais ou menos, uma semana e que elas não ficavam no meu cérebro durante muito tempo. Suspiro fundo, se não contasse para Peter o que havia descoberto logo, a memória iria embora.
– Okay – Peter para alguns, muitos, metros dentro da floresta – mais alguma coisa que você descobriu?
– Sim – murmuro. Recordo-me das palavras frias do Diretor quando ele disse que o caso, casos, deviam ser mantidos em segredo – Ele também não quer que a imagem da escola seja manchada com um possível assassinato. Então está encobrindo tudo.
– Bastardo! – o garoto ruge, irritado – não acredito que a imagem do colégio é mais importante para ele do que a segurança de todos os alunos.
– E não é só isso. Eles ainda não sabem quem é o culpado. Pior, não tem nenhuma pista.
– Digitais no corpo da Martha, álibis, fios de cabelo perdido, não sei – joga as mãos para cima, parecia desesperado.
– Ela era faxineira, cuidava dos quartos de todo mundo, tinham milhões de DNAs junto com o corpo.
– E o que a escola está fazendo? – Peter soa derrotado e triste, como se a última esperança do mundo tivesse sido destruída.
– Nada – murmuro – como eu disse, o Diretor não quer a imagem de St. Reeve’s manchada e por isso está encobrindo tudo.
Peter abaixa a cabeça e xinga baixinho, virando de costas para mim e sentando em uma pedra. Ela enterra a cabeça nas mãos e solta um suspiro, triste, desesperado, preocupado, como se o último santuário que ele tinha tivesse sido violado.
Sento do lado dele e passo a mão pelos seus cabelos negros, recebendo um leve sorriso do garoto. Tinha que contar a outra parte do segredo, mas não queria deixa-lo ainda mais arruinado, mas ao mesmo tempo, se não contasse logo, a preciosa informação sumiria para sempre.
– Peter – sussurro, fazendo ele levantar a cabeça das mãos e me encarrar – tem mais uma coisa que ainda não te contei.
O garoto levanta a cabeça totalmente e força um sorriso.
– Fale.
Minha expressão séria destrói o minúsculo otimismo que ele havia recuperado.
– Esses misteriosos assassinatos na escola, não estão só na escola – os olhos de Peter se expandem e sua boca começa a tremer de raiva – 10 pessoas já morreram misteriosamente na vila.
°_°_°_°
Andamos em silencio pelo colégio, Peter ainda parece pensativo e caminha como se cada passo fosse doloroso. Levanto minha mão e agarro seu braço, forçando-o a parar e olhar para mim. Seus olhos parecem tão vazios e perdidos, como se não soubessem mais o que fazer. Pouso uma mão na bochecha do garoto e sorrio, não sabia o que ele estava sentindo agora, era como se uma parte dele tivesse sido brutalmente arrancada e ele tivesse sido deixado para trás para remontar sua alma.
Levanto meus braços e puxo ele para uma abraço. Peter retorna hesitantemente, como se nem mesmo soubesse fazer isso, passo os braços pelas costas dele e apoio a cabeça em seu peito. Nunca havia amaldiçoado minha altura como agora.
O aperto de Peter começa a ficar mais forte e meu corpo começa a ser esmagado pela força dele, sinto seu corpo tremer levemente, assustado, mas ainda tentando parecer corajoso. Aos poucos ele vai escorregando e cai de joelhos na minha frente, ainda me abraçando e apoia a cabeça no meu peito.
Sorrio tristemente, não gostava de ver meu amigo assim tão perdido. Assisto enquanto suas feições ficam cada vez mais tristes e ele me aperta mais forte. Levanto os braços e abraço o pescoço dele, fazendo carinho em sua cabeça com uma mão.
Nesse momento, sentia como se estivesse confortando ele como uma mãe, ou irmã. Os olhos do menino se apertam com força e aos poucos relaxam, dando lugar a um pequeno sorriso, ele estava tentando segurar as lágrimas, sabia disso.
Relaxo o abraço e empurro seu corpo um pouco para longe de mim.
– Yoshi yoshi – murmuro sorrindo e acariciando os cabelos pretos de Peter, maternalmente.
Ele finalmente abre um sorriso genuíno e levanta do chão, ficando, novamente, mais alto do que eu. Fico na ponta dos pés e puxo sua cabeça um pouco para baixo, beijando a testa do garoto, como que para reassegura-lo de que estava tudo bem. Que eu iria protege-lo, se ele não acreditava que estaria seguro.
O vento aumenta e joga meu cabelo em frente ao meu rosto. Peter ri suavemente da minha cara e da um empurrão nas minhas costas para que eu comece a andar e sai na minha frente. Tiro o cabelo do meu rosto e volto a andar do lado dele em um silêncio confortável. Começamos a subir as escadas para o segundo andar da escola lentamente, eu ainda perdida em meus pensamentos.
– O que vocês estão fazendo aqui? – uma voz ruge atrás de nos.
Peter dá um pulo e se esconde atrás das minhas costas, como um menino assustado procurando refugio na mãe. O homem na nossa frente franze as sobrancelhas e caminha na nossa direção, fazendo a batina preta girar, quase magicamente, em volta de suas pernas.
– Eu vou perguntar de novo, o que você estão fazendo aqui – padre Damon ruge, nos urgindo a falar alguma coisa.
– Nós, uhm... nós... quer dizer, eu e ela... bom – Peter se engasga com as palavras e procura uma desculpa descente.
– Vocês?
– Nós estávamos... – Peter começa, finalmente tinha achado uma desculpa.
– Estavam pegando os livros que eu tinha pedido para irem buscar na biblioteca – uma voz fala atrás de Damon.
O homem moreno volta os olhos azuis para o dono da voz e solta um grunhido. Jaime.
– Por que você precisa deles para pegar um livro? – pergunta, ficando frente a frente com Jaime e perfurando ele com um sorriso sarcástico.
Jaime sorri debochadamente e ignora o sarcasmo do padre.
– Estou muito velho para ficar transportando livros de uma lado para o outro. Não tem nada de errado para crianças ajudarem um velho em necessidade, não é disso que a bíblia se trata?
– Não distorça minha palavras em seu beneficio James.
– Não distorceria se você não falasse coisas tão vagas e sem sentido. Agora, com licença, acredito que meus dois alunos devam ter que ir procurar um livro para mim.
Jaime anda na nossa direção e nos empurra na direção da biblioteca. Arrisco um olhar para o homem, mas seu rosto está sério e seriamente zangado.
– Porque você precisa de dois alunos para pegar UM livro? – Damon não desiste de implicar conosco.
– Peter vai carrega-lo, não é educado deixar uma garotinha levar algo tão pesado.
– Então porque precisa dela? – aponta para mim.
– Ela está indo para se certificar que Peter pegue o livro certo, afinal de contas, olhe para ele – vira a cabeça de Peter na direção de Damon, espremendo suas bochechas – é um idiota.
Damon parece querer continuar a discussão, mas muda de ideia repentinamente e sai andando na direção oposta, como se nem lembrasse que tinha nos visto. Suspiro de alivio e relaxo meus músculos, nunca havia passado tantos momentos tensos de uma vez, bom, havia, mas tinha desacostumado.
– Sala de armas – Jaime dispara, frio – agora!
Peter não discute e começa a marchar obedientemente, sigo-o, meio assustada, nunca havia visto Jaime tão irritado quanto agora. Ele era como eu, nunca explodia e tinha paciência, mas quando explodia, bom...
Entramos na sala e ficamos em pé em frente a escrivaninha, enquanto Jaime vira para nós e encosta no objeto, cruzando os braços e nos encarando seriamente. Engulo em seco, não sabia o que estava acontecendo, mas não era nada bom.
James inspira lenta e profundamente, reunindo toda a calma que ainda restava. Vejo Peter se mexer desconfortavelmente, estranho, ele nunca se sentia desconfortável ao redor do homem.
– Por favor me diga que você não foi até a sala do Diretor – Jaime implora, com a voz fraca.
– Eu – Peter começa, mas perde a voz logo em seguida, não sabendo exatamente como replicar – eu precisava.
– Precisava – Jaime não soa bravo como um pensei que estaria, mas desapontado, um desapontamento de perfurar a alma – porque?
– Porque eu tinha razão! Tem alguma coisa acontecendo, Jaime, isso é importante! Nós temos que fazer alguma coisa, nós... eu... – A certeza que Peter tinha começa a desaparecer e suas ideias se tornam fracas.
– Valeu a pena? – Jaime dispara, cortando Peter.
Assisto, de coração partido, enquanto Peter engole em seco, nervosamente. Olho para Jaime, não acredito que ele esteja bem por estar fazendo Peter se sentir assim tão inferior. Sinto raiva de Jaime, raiva por ele estar fazendo isso, raiva por ele não estar ajudando Peter, não sabia porque, mas o garoto estava muito vulnerável agora e eu me importava muito com o seu bem estar.
Olho desapontadamente para Jaime e pouso uma mão no ombro de Peter, tentando relembra-lo de que ainda estava aqui. No segundo que ele sente minha mão, sua expressão muda e ele se torna corajoso novamente, como se tivesse lembrado que não estava sozinho.
– Valeu – retruca, a força de volta da voz. Jaime ergue as sobrancelhas, surpreso – Valeu a pena! E você quer saber o porque? Porque agora nós podemos ajudar. O Diretor é um monstro e isso só serviu para provar. Eu não pretendo ficar sentado enquanto ele governa essa escola como ele quer.
A expressão de Jaime muda, vejo surpresa, muita surpresa, mas também uma pontada de orgulho. Talvez ele estivesse esperando Peter fazer isso o tempo todo, tornar-se corajoso e lutar pelo que acreditava.
– A verdade pode ser dolorosa, mas vai servir para que eu possa mudar alguma coisa e tornar a realidade melhor. É melhor ser machucado pela verdade do que ser cegado pelas mentiras! – exclama, inflando o peito com orgulho.
– Peter – sussurro, orgulhosa – eu concordo. Sei que foi perigoso ter invadido a sala do Diretor, mas nós precisávamos saber da verdade.
– Eu sei – Jaime responde, calmamente – mas a verdade é um fardo muito difícil de carregar. O que vocês vão fazer agora? – as palavras dele me atingem com força, “A verdade é um fardo muito difícil de carregar”.
– Não sei – Peter responde, olhando para baixo por um segundo, mas logo levantando a cabeça novamente – Mas eu sei o que nós não vamos fazer. Nós não vamos não fazer nada.
– Peter tem razão, nós dois vamos bolar alguma coisa. Não somos heróis, mas se não fizermos nada, quem fará? – pergunto, não esperava mudar o mundo e salvar todos. Não era uma heroína, mas também não era covarde.
– Vocês dois não vão fazer nada – Jaime dispara. Viramos para ele espantados, ele não iria nos deixar fazer nada? Ele iria ficar sentado enquanto pessoas morriam? – Nós vamos, nós três.
– Três? – perguntamos.
– Sim nós três – Jaime desencosta da escrivaninha e entra no meio de nós – afinal – coloca um braço ao redor de cada um – vocês não iriam me deixar fora de toda a diversão, né?
Abro o maior sorriso do mundo e Peter me acompanha. Estico o braço e abraço Jaime também. Sinto o calor agradável emanado do corpo dele, era tão confortável, como se eu estivesse pertencendo à algum lugar finalmente. Não sabia que tipo de família louca eles eram, mas estava feliz por fazer parte dela, afinal de contas, “If life gets crazy, the best thing you can do it’s become a madman”
°_°_°_°
Puxo meu cabelo para cima e prendo-o em um rabo de cavalo, mesmo que tivesse cabelo curto, ainda queria deixa-lo fora do caminho para a grande luta. Era o fim de semana antes da semana dos esportes e ninguém estava mais em clima de aula, então conseguia escutar os gritos animados vazando pelas paredes do quarto.
Sorrio para o espelho, treinando minha cara de vitoriosa para quando derrotasse Joe. Ajeito meu shorts cinza, eles eram do colégio também e, surpreendentemente, tinham um tecido muito macio. Passo a mão por eles, ajeitando algumas rugas, o shorts ficava meio grande em mim, uma das desvantagens de ser tão pequena.
Bato na minha bochecha de leve, não! Hoje iria mostra as vantagens de ser pequena. Encaro meus olhos no espelho, negros e brilhando com orgulho. Sabia o que estava em jogo, meu orgulho. Tinha que ganhar, ia ganhar!
Desço as escadas rapidamente, tentando fazer algum tipo de exercício físico para controlar minha ansiedade. Mesmo que fosse treinada e soubesse como lutar, não podia evitar o nervosismo e ansiedade borbulhando no meu estômago. Só queria entrar logo no ringue e começar a lutar, porque aqui fora eu ainda pensava e ainda ficava nervosa, dentro do ringue tudo isso ia embora. Não havia tempo para hesitação, não havia tempo para ficar ansiosa e se arrepender das decisões. Só havia a luta e o que você podia fazer no momento com a adrenalina bombeando dentro dos seus ouvidos.
Atinjo a porta do ginásio e vejo uma multidão já dentro. Espremo meu corpo para dentro e desvio das pessoas. Eles não parecem perceber que eu havia entrado, talvez, de novo, pela minha altura.
Avisto Peter de longe e aceno para ele, esperando que o menino se aproximasse, mas ao invés disso, ele vira a cabeça para mim e seus olhos quase me sufocam.
Paro no meio do caminho e encaro ele, sem palavras. Ele parecia triste, não só triste, mas de coração quebrado, como se o precioso chão que ele havia construído com tanto esforço tivesse sido estraçalhado. Imagino se é por causa do Diretor e tento dar um passo para frente, mas vejo medo e ansiedade estampado na cara do meu amigo e ele vira costas, andando para longe de mim.
Estranho o comportamento de Peter, mas ignoro e saio do meio da multidão. Devo dizer, Joe realmente tinha convidado a escola inteira. Ignoro os olhares de pena direcionados para mim, parecia que todos já esperavam que eu perdesse feio, o que me deixava muito irritada.
Tento achar um lugar tranquilo no meio de toda aquela gente para esperar por Joe sem receber olhares zombeteiros. No meio de todas as cabeças, consigo encontrar uma que me deixa muito mais calma. Aproximo-me de Jaime e puxo levemente a barra de sua camisa para que ele me perceba.
– Ren – ele exclama se virando para mim – e ai pronta para a grande batalha?
O tom dele me faz tremer um pouco. Só me faltava essa, agora até o Jaime não acreditava que eu poderia ganhar.
– Você também não acha que eu consigo, não?
– O que? – ele parece surpreso.
– Você sabe. Você não acha que eu consigo derrotar o Joe...
Jaime permanece em silêncio durante alguns minutos, como que processando minha palavras. Alguns minutos depois sua risada ecoa pelos meus ouvidos e tenho que apertar as mãos neles para não ficar surda. Sorte que o ruído de fundo é tanto que ninguém mais percebe.
– De onde você tirou essa ideia? – ele pergunta, limpando uma lágrima.
– Não sei! Mas ninguém acha que eu tenho a capacidade para ganhar dele, quer dizer, você já viu o tamanho dele e o meu?
– E isso quer dizer?
– Quer dizer que, para qualquer pessoa normal, a ideia de eu ganhar é impensável! – começo a me sentir convencida pelas minha palavras e acreditar que realmente iria perder.
– Ren, eu não sou uma pessoa normal. Eu lutei em guerras, acredite, eu sei o significado de poder compacto.
– Jaime... – murmuro, sentindo o medo sumir.
– Eu já vi homens minúsculos ganharem de gigantes. Lutar não é sobre tamanho ou força. É técnica, sabedoria e experiência, e isso eu sei que você tem.
Encaro os olhos marrons do homem, eles estão brilhando com orgulho, com confiança, ele realmente acha que eu posso ganhar. A porta do ginásio se abre novamente e as pessoas começam a abrir caminho. Joe deve ter chegado. Jaime não tira os olhos de mim e pousa as mãos nos meus ombros, como meu pai fazia quando queria me encorajar.
– Me deixe orgulhoso chibi.
Sorrio e aceno que sim com a cabeça, sentindo minha confiança 100% renovada. Começo a ir para o centro da quadra, onde um enorme tatame está estendido para que lutemos. Olho para Joe e vejo ele tirar um robe de lutador de MMA e subir em cima do tatame azul.
Ele está usando apenas uma calça esportiva preta e um sorriso extremamente convencido. Subo no tecido azul também e assisto enquanto as pessoas riem de mim e, provavelmente, da minha idiotice de ter desafiado Joe para uma luta.
– Muito bem lutadores – Luke começa, segurando uma cartão desajeitadamente – a luta será a seguinte: vocês podem dar qualquer tipo de golpe, contanto que não seja mortal – a plateia ri e Luke deixa o cartão cair – e agora eu não sei mais o que falar então... – se abaixa e cata o cartão rapidamente, logo pegando o microfone de volta e voltando ao assunto – quem sair primeiro do tatame perde.
Joe estrala o pescoço e encara-me com os punho fechados frouxamente, subestimando o inimigo, técnica nada esperta. O tempo parece correr devagar quando Luke abaixa a mão e dá o sinal para começarmos a lutar.
No segundo seguinte vejo Joe em cima de mim estendendo a mão como se fosse me empurrar, meu cérebro trabalha rápido, se ele encostar em mim, estou morta! Giro o pé esquerdo e meu corpo acompanha, desviando da mão de Joe. Aproveito essa abertura e dou uma joelhada na parte interna do joelho dele e o homem desmorona um pouco, me preparo para o próximo movimento, mas vejo Joe compensar a perna atacada com a outra e girar na minha direção estendendo novamente a mão para mim.
Minhas pernas se movem sem que eu mande e pulo para longe dele, esbarrando na beirada do tatame. Joe se recupera e corre na minha direção, dando uma série de socos, dos quais desvio rapidamente. Sinto o vento bater nas minhas bochechas, ele era rápido. Sinto o tatame acabar atrás os meus pés e giro meu corpo para a lateral, desviando de um soco certeiro.
Corro até o outro canto, esperando que Joe demorasse um pouco para me alcançar, mas ele é mais rápido do que seu tamanha demostra. Quando atinjo a beirada e olho para trás o homem vem na minha direção com os braços abertos ameaçadoramente. Meu suor corre frio pelo meu rosto e meu sangue gela.
Abaixo meu corpo, pronta para passar por baixo, mas ele fecha a minha abertura e sou pega desprotegida. Vejo seu corpo se aproximar em câmera lenta e calculo todas as possíveis saídas; minha garganta seca quando vejo que não tem nenhuma.
Joe se aproxima, suas mãos estendidas para mim, prontas para me jogarem para fora do ringue. Em um gesto automático levanto o braço, como se fosse subir em cima do beliche, e dou um pulo, apoiando as mãos nos ombros do homem e usando o impulso para voar por cima dele.
Aterrisso do outro lado e viro-me rápido o suficiente para ver ele se desequilibrando com meu pulo e pendendo para o lado de fora do tatame. Com meu cérebro correndo a mil dou um passo para frente e trago minha mão para perto do corpo, aterrissando um golpe certeiro no meio da bochecha de Joe, com meu cotovelo.
Impulsiono meu corpo com as pernas e dou um giro, jogando o enorme homem para fora do tatame e aterrissando novamente na beirada do ringue. Olho em volta e percebo os milhares de olhares surpresos. Eu sabia, eles não acreditavam que eu podia ganhar. Sorrio presunçosamente e limpo as gotas de suor escorrendo pela minha testa.
– Podem aplaudir agora! – exclamo e assisto enquanto todos, imediatamente, fecham as bocas.
Saio do tatame e ando até Joe estendendo a mão para ele. O homem aceita e tento puxa-lo para cima, mas ao invés disso ele me puxa para baixo e caio deitada do seu lado. Joe ri suavemente, não acredito que cai nessa, ele limpa o suor do rosto e passa a mão no nariz, percebendo um pouco de sangue.
– Boa luta – ele suspira, se recusando a levantar.
– Você também, por um segundo achei que iria perder.
– Jura? Eu achei que ia ganhar o tempo todo. Bom, até você pular por cima de mim com aquele movimento totalmente ninja! O que foi aquilo?
– Aquilo, foi uma das vantagens de ser pequena. E agora, acredita em poder compacto?
Ele ergue a mãos mais uma vez e limpa o sangue escorrendo do nariz.
– Se for o seu, acredito – vira a cabeça para mim e sorri levemente.
Viro para ele também e sorrio, era bom ter seu valor reconhecido por alguém.
– Bom – senta subitamente e me puxa junto – é melhor eu ir para a enfermaria checar esse machucado.
– Só de curiosidade, o que você vai falar para a enfermeira?
– Eu invento alguma coisa – ele exclama.
Joe se levanta com um pulo e, pelo fato de ainda não ter soltado minha mão, me puxa para cima também. Puxo minha mão com força e forço ele a me soltar.
– Calma ai garota – ele responde, levantado o braço. Solto uma leve risada o que faz o homem abrir um sorriso – até mais Ren.
Joe estende a mão amigavelmente para mim. Estico a minha para um aperto, mas mudo de ideia na última hora, pensando que poderia ser mais uma pegadinha. Ele apenas ri e fecha o punho, esticando-o para mim, para que eu bata. Analiso os riscos dessa ação e levanto o braço, dando um leve soco.
– Você deveria entrar no time de... seja lá qual for seu estilo de luta, da escola. Poderia competir semana que vem nas lutas – Joe fala, animadamente, fantasiando sobre minhas futuras lutas.
– Eu adoraria! – exclamo, lutar e atirar eram minhas coisas favoritas, e como atirar não era parte das competições, poderia pelo menos lutar – mas não dá – murmuro, mudando de ideia – tenho 100% de certeza de que a luta que eu pratico não existe aqui.
Joe concorda com um aceno e dá de ombros. Ele parece desapontado, mas logo sua expressão volta a felicidade de antes.
– Nós nos veremos de novo Ren. Afinal, como todo bom lutador, eu quero uma revanche.
– Como quiser. Estou disposta a te derrotar a qualquer hora.
– Eu peguei leve com você, só para avisar.
– Que bom! Porque eu nem me esforcei.
– Imagina se se esforçasse – Joe dá uma piscada para mim e sai andando.
Assisto o homem sair do ginásio, sendo seguido por uma multidão de alunos e os 3 amigos, que agora estavam, provavelmente, zoando dele por ter perdido para mim. As pessoas começam a saírem em multidões se empurrando e reclamando. Procuro por Jaime ou Peter na multidão e depois de alguns segundo cruzo olhares com o garoto.
Sorrio, mas ele não retribui, seu comportamento ainda estava estranho. Ele vira a cabeça e começa a andar para fora do ginásio, tento ir em sua direção, mas seus olhos me paralisam. Eles estavam tão frios, decididos e doloridos, mas por um segundo e só um segundo, vejo um brilho de orgulho passar por seu rosto.
°_°_°_°
– Esse deve ser o seu – Charlie fala, fazendo o seu melhor para soar confiante – veremos com Katherina amanhã.
Sem esperar por uma resposta, a menina voa para fora do quarto, fechando a porta atrás de si e deixando-me sozinha. Desço meu olhar para os desenhos, eles eram tão perfeitos, copias idênticas das imagens que tinha visto. Folheio as páginas e encontro o que pertencia a Charlie, tento levar minha mente de volta para o momento em que vi essa cena. “Away from the people, away from the pain. Let go this feeling and throw it away”, relembro. O que você temia tanto Charlie? Que sentimento você precisa deixar ir?
Minha mente gira em torno das palavras de Elizabeth, lembrava do que havia sentido quando estava naqueles lugares. Uma personalidade, uma alma, uma fachada de frieza guardando uma boa alma. Era essa a verdadeira Charlie?
Viro as folhas e acho o desenho de Katherina. As palavras de Elizabeth fluem mais facilmente em minhas memórias. “Hold in your pain, that ache your heart. Don’t you let it go, it will break you apart”. Eu sempre soube, sempre vi em Katherina a dor em seu coração, mas agora sabia que seu coração não estava apenas quebrado, mas também trancado.
O barulho de passos do lado de fora me assusta e entro no banheiro, trancando a porta atrás de mim. A última coisa que precisava agora, era Katherina entrando e percebendo o quão emocional eu estava.
Agarro as folhas com força. Não sabia se queria saber quem eu era, não sabia se queria ver o próximo desenho. Encosto as costas na parede de lajotas e deslizo lentamente até estar sentada no chão, fechando meus olhos no meio do caminho. Estava assustada, assustada como não me sentia em anos e meu medo não era nem sequer real.
Minhas pálpebras deslizam abertas lentamente e ouso espiar o desenho que pertencia a mim, com grande peso no coração. “Banish your feelings to the back of your head, and carry the pain you do not want to bear”. As palavras ecoam na minha cabeça, carregando uma melodia agradável.
Quem era eu?
Ren Kouhen. Quem era Ren Kouhen? “Banish your feeling to the back of your head”, a garota que ainda lamentava a morte dos pais? A garota que ainda queria ser forte para não sentir mais dor? “and carry the pain you do not want to bear”.
Lembro das pequenas fadas voando ao redor de mim dentro do sonho, lembro de suas palavras, suas emoções. Tão tristes, tão dolorosas, tão perdidas. Era essa a dor que eu deveria carregar?
Coloco os desenho do meu lado, para que não precise mais olhar para eles. Afinal de contas qual era o meu poder? Era só possuir as pessoas? Se era, porque eu sentia tanta dor quando fazia isso? Porque toda a dor, porque todo o sofrimento, a solidão, a tristeza, porque todas as coisas ruins tinham que vir para mim?!
Eu já tinha meus próprios problemas! Minha cicatrizes incuráveis! Porque tinha que arcar com as dos outros!?!
“And carry the pain you do not want to bear”, sorrio ironicamente.
Fecho meus olhos, haviam tantas pessoas que gostariam de ter todos os problemas lavados da sua alma, e eu era uma delas, mas parece que tinha sido amaldiçoada em ser o recipiente das mágoas e não a pessoa livre delas. E quer saber? Tinha 100% de certeza que não queria saber quem eu era...
Aperto minhas pálpebras umas contras as outras o mais forte que posso e deixo meus olhos começarem a arderem, arderem tanto que sinto o fogo, lentamente, consumir toda a minha íris e sobrepujar o preto. Abro meus olhos novamente.
Mesmo que não pudesse me ver sabia, sabia que eles não eram mais os olhos que antes tinha. Eles brilhavam dourados sobre os pedaços de papel agora e uma dor inimaginável se projeta no meu corpo.
Jogo a cabeça para trás e trinco os dentes. Tanta dor, tanto remorso, tanta tristeza. Tristeza de séculos, armazenada dentro de uma pessoa e alimentada pelo ódio, pela traição, pelo desejo de vingança e ganância. Esses sentimentos não eram meus, mas passavam pelo meu corpo, descarregando toda a negatividade na minha alma.
Tantas coisas ruins, tantas coisas ruins que uma alma teve que aguentar. Só quanto sofrimento pode ser acumulado em tanto tempo? Lágrimas começam a escorrerem pelos meus olhos, mas não as minhas, porque agora, do mesmo jeito que a minha alma podia possuir o corpo de outros, meu corpo estava sendo possuído pela alma de alguém.
As lágrimas que escorriam desesperadamente pelo meu rosto não eram minhas, mas eu as sentia e sentia a agonia no coração da pessoa dividindo o corpo comigo. Elas caiam rubras no meu uniforme e manchavam de vermelho minhas bochechas. Porque essas não eram lágrimas normais, eram lágrimas de sangue, lágrimas de real dor e desespero.
Eram lágrimas de uma fada.
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