O Mistério das Pedras - Os Guardiões
7 As Aparências Enganam
Notas iniciais
Augusto acordou muito antes do despertador programado em seu celular soar, a luz que entrava pela janela o fez abrir os olhos logo assim que os primeiros raios de Sol iluminaram o céu.
Olhou o relógio e percebeu o quão cedo era, cobriu o rosto com o lençol e tentou voltar a dormir. Horas depois de muito revirar na cama, sem conseguir realmente dormir, decidiu que o melhor a fazer era levantar e começar a se arrumar.
Sabia que pelo fato das aulas começarem mais tardes naquele dia, a maioria dos alunos deviam estar dormindo ainda, assim como seu colega de quarto. Que mal havia mudado de posição durante todo o momento em que Augusto se encontrava no quarto.
Quando chegou a sala de estar se deu conta que ainda faltava horas para o início das aulas, e que não sabia o que fazer com todo aquele tempo livre, uma vez que o café da manhã também seria servido mais tarde.
Se direcionou até as estantes e ficou a observar os mais diversos títulos de livros, aquela biblioteca parecia ter filhos de décadas atrás. Em sua maioria eram didáticos, e esses eram os mais recentes e atualizados, porém um terço do espaço era ocupado por livros literários, de diferentes tamanhos e espessuras, alguns possuíam o nome dos antigos donos nas capas, outros a capa já estava velha por demais para ter algo além de borrões amarelados.
Achou um velho livro de história, sua matéria preferida, e com ele em mãos sentou em uma das poltronas. Concentrou-se tanto nas informações sobre a colonização do Brasil, que se esqueceu do passar do tempo. O barulho de portas se abrindo o assustou, fazendo-o saltar da poltrona e consequentemente derrubar o livro no chão.
Porém o susto anterior só não foi maior do que a surpresa que ele teve ao olhar para o chão e ver o livro totalmente despedaçado. A capa estava aos seus pés, enquanto o corpo do livro estava aos pedaços espalhados ao redor.
Com pressa se abaixou e recolheu os pedaços do livro, enfiando-os de qualquer forma na capa antiga, visualizou um espaço qualquer na estante e empurrou-o sem delicadeza.
Quando já estava sentado na poltrona, percebeu que uma folha escrita à mão, com parte da borda inferior rasgada, havia voado, e agora repousava embaixo da mesa de centro. Lutando contra o tempo, Augusto correu e pegou a folha de qualquer jeito, empurrando-a rapidamente no bolso. No mesmo momento em que pisou no primeiro degrau, a porta de acesso a sala de estar foi aberta, porém ele não se atreveu a olhar pra trás, caso alguém achasse o livro, ele não ia querer ser um dos suspeitos.
* * *
O café da manhã foi tranquilo, e para evitar encontrar Daniel, Augusto preferiu sentar com a irmã. Durante todo o café da manhã procurou não encarar de volta aqueles lhes olhavam e cochichavam sobre a noite anterior.
— É melhor a gente se apressar. Se eu chegar atrasada na primeira aula do ano meu pai me mata. — Declarou Catarina já se levantando. — E graças a Deus esse ano continuamos juntas na mesma sala.
— Tem mais de uma sala? — Perguntou Augusto, e pela forma como as garotas o olhou ele teve certeza que aquela informação era algo que ele devia saber.
— Cada ano tem três turmas. Em qual você ficou?
— Valentina, você não percebeu ainda que ele não tem ideia de qual turma é a dele? — Disse Laura que conhecia muito bem o irmão, e tinha certeza que ele não tinha nem sequer pensando no assunto.
— A minha primeira aula é com o professor Pedro, é a única coisa que eu sei.
— Então você ficou na nossa turma, nossa aula é agora com ele. — Disse Catarina enquanto o corredor do segundo andar surgia diante dele.
Augusto agradeceu ter Valentina e Catarina como guias, porque ele tinha certeza que só ia demorar uma eternidade pra achar a sala de aula. Quando estava prestes a entrar na sala Valentina lhe segurou o braço.
— Se você não sabe em que turma ficou, é porque não olhou o horário no mural, certo? — E sem esperar resposta continuou — Então você não sabe que disciplina o professor Pedro ensina. Isso vai ser divertido.
E entrou na sala deixando Augusto planta na porta da sala com cara de tacho. Augusto entrou na sala, encontrando um ambiente totalmente diferente do que ele esperava.
As carteiras estavam dispostas em um semicírculo. Desenhos e quadros ocupavam as paredes, deixando a sala com cara de uma exposição de artes. Por sorte o professor ainda não se encontrava.
O único lugar vazio era ao lado de uma menina morena, baixinha e com um cabelo preto enorme, que quando ela baixava a cabeça concentrada no livro em que lia, ele caia ao seu redor formando uma cortina. Se encaminhou até e sentou-se, porém a menina nem mesmo lhe dirigiu o olhar, e ele passou os próximos minutos tentando enxergar por entre os cabelos o título do livro que deixava a garota tão concentrada.
Suas tentativas foram interrompidas pela chegada do professor, e no mesmo instante a menina guardou o livro, porém antes Augusto conseguiu o que tanto queria, por um segundo o nome “Nárnia” ficou visível.
— Bom dia turma! — Saudou o animado professor Pedro, que em nada lhe lembrava do homem chato de ontem — Prontos para a aula de Artes?
Por pouco Augusto não conseguia segurar a exclamação de surpresa? Como assim ele ensinava Artes? O cara era a pessoa mais chata que ele já conheceu, e ensinava Artes? Ele devia ensinar matemática, física ou qualquer outra matéria igualmente difícil. Isso sim combinava com ele.
Augusto estava tão concentrado em sua revolta interior que não percebeu quando o professor pediu a todos que se dirigissem até um dos armários, que ficavam no fundo na sala, e pegassem um avental. Quando se deu conta alguns já estavam retornando aos seus lugares, e ele se levantou o mais rápido possível para não levar uma bronca nos primeiros minutos da aula.
Antes mesmo de que todos estivessem acomodados em seus lugares, o professor voltou a falar.
— Por hoje ser apenas o primeiro dia, não irei passar nenhum conteúdo, vamos todos voltar a alfabetização. Porém quero deixar claro que isso não quer dizer que irei tolerar comportamentos infantis. Tiago a carteira deve apoiar o caderno, e não sua cabeça. Se lhe pagar dormindo novamente, irei lhe mandar pra direção.
Só agora Augusto percebeu que Tiago, Orlando e Daniel estavam todos na sala, o que só podia indicar uma coisa: eles caíram na mesma turma.
— Pelo menos o sofá de lá é mais confortável que essas cadeiras. — Resmungou Tiago levantando o rosto amassado de pelos livros que serviam como travesseiros.
Augusto não soube dizer se o professor realmente não ouviu, ou se apenas ignorou o comentário de Tiago.
— Tenho aqui alguns desenhos, vamos usar tintas para pinta-los. E nada de pincel, quero todos usando os dedos. — a reclamação das meninas foi geral, todas lamentando o esmalte perdido. Porém foram prontamente ignoradas pelo professor. — Na verdade não são desenhos, são símbolos, símbolos esses que estudaremos na próxima aula. Ou seja, hoje lhes darei um determinado símbolo, e para a próxima aula quero que todos pesquisem o respectivo significado, fui claro? — O coro de “sim professor” encheu a sala. — Venham até aqui e escolham um símbolo.
Augusto levantou e se dirigiu até a mesa do professor, procurando não encara-lo muito. O símbolo que mais lhe chamou atenção foi um paralelogramo, formado por quatro triângulos, unidos em um ponto em comum por um dos ângulos. Os triângulos da horizontal possuíam uma reta próxima ao seu ponto de ligação. Escolheu-o e voltei ao seu lugar.
Pouco tempo depois terminou seu trabalha, olhou para o lado e viu que a menina ainda estava na metade do seu. O símbolo olímpico estava sendo milimetricamente pintado, nem mesmo um borrão era visível.
Poucos minutos antes de acabar a aula, o professor tornou a falar.
— Vejo que todos já terminaram suas atividades. Irei chamar de um por um em ordem alfabética para correção e visto. Mas antes tenho algo a acrescentar, a pessoa que pegou o respectivo símbolo, — E quando ele mostrou que o símbolo do qual fala era o mesmo que Augusto tinha escolhido, Augusto sentiu que coisa boa não ia ser. — terá um trabalho a mais. Esse símbolo foi criado há muitos anos por uma tribo indígena local, ele é formado por quatro ouros símbolos, cada um desses triângulos tem significado próprio, e quero que o aluno busque o que significa esses quatro símbolos unidos. Nos tempo que resta de aula, peço que cada uma escreva no caderno um pequeno texto, falando sobre o que espera do semestre. Alguém tem alguma dúvida?
Nesse momento apenas a mão de Tiago se ergueu no ar, com um balançar de cabeça o professor indicou que o aluno podia prosseguir.
— O que é semestre? — perguntou Tiago levando a turma a gargalhadas.
— É um período de seis meses. — Foi tudo que o professor se limitou a responder, chamando em seguida o nome de Augusto, uma vez que ele era o primeiro da lista.
Ele levantou-se e sentiu todos os olhares sobre si. Tentando ignorar as borboletas no estômago, dirigiu-se até a mesa do professor pela segunda vez naquele dia, retornando logo após a correção. Se depois o perguntassem o que aconteceu nos minutos finas da aula, ele não saberia responder, ele não entendia porque o professor estava tão amigável naquela manhã. Foi tirado de seus devaneios pelo toque estridente do sinal, anunciando o término das aulas.
Já estava próximo a saída quando ouviu a voz do professor Pedro pedindo que ele aguardasse um momento. Relutante voltou ao seu lugar. Mas foi só quando todos saíram que o professor lhe dirigiu a palavra novamente.
— Sei que está com dúvidas sobre o meu comportamento, — e como Augusto nada disse, ele continuou — e como você deve ter percebido, ontem eu estava um tanto arrogante. Todo início de ano eu ajo assim, não quero que os alunos pensem que por ser professor de Artes podem fazer o que quiserem comigo e com minhas aulas. Não imponho medo se é isso que estar pensando, apenas demonstro que posso ser tão ruim quanto posso ser legal, a minha personalidade vai depender do aluno. Chamei aqui para que não ficasse com uma impressão pior do que a que já causei.
— Sem problemas. — foi a única coisa que conseguiu dizer, ele não sabia que reação o professor esperava dele, as palavras do professor o deixaram em choque.
— Agora pode ir, já falei com o professor Guilherme e avisei que você ia se atrasar, ele não vai lhe barrar da primeira aula de física do ano.
A forma como ele disse isso fez Augusto ter certeza que o professor sabia que ele não tinha ideia de qual seria sua próxima aula. Agradeceu com um aceno de cabeça, e mais uma vez se dirigiu até a porta. Como da outra vez, a voz do professor o interrompeu.
— Francisco teria orgulho de você Augusto. Mas não perca tempo brigando, vocês eram os garotos dele. Ele o amava como neto também. — E a porta se fechou as suas costas.
Augusto só tinha uma certeza: não era dele que o professor falava.
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