O Mistério das Pedras - Os Guardiões
8 O Tempo Muda Tudo
Notas iniciais
Nas aulas seguintes ele não conseguiu prestar atenção em nada, nem mesmo o ‘bom dia’ dado pelos professores teve sua atenção. Não parava de pensar nas palavras do professor, milhares de perguntas rondavam sua mente: “De onde o professor conhecia seu avô?” “Quem era a pessoa a quem seu avô considerava um neto?” “Por que o professor lhe falou isso?”.
Durante o almoço mais uma vez sentou com a irmã, porém durante todo o tempo apenas brincou com a comida. Quando o sinal tocou anunciando o fim do almoço já ia se encaminhado ao segundo andar, quando a Laura lhe avisou que após o almoço o primeiro horário era livre.
Após as últimas aulas da tarde Daniel lhe esperava na porta como combinado no dia anterior. A ideia de dividir o quarto por mais uma noite era aterrorizante para ambos.
Porém assim como Daniel previra de nada adiantou o pedido. O diretor Carlos não era um homem conhecido por voltar atrás em suas decisões, e mostrou-se irredutível em atender ao pedido dos garotos. E como toda vez que passavam mais de cinco minutos no mesmo era impossível não discutirem, dessa vez não foi diferente. Ainda na sala do diretor a discussão começou.
— O senhor não está entendendo! Eu não posso dividir um quarto com o Daniel, a gente se odeia, isso não vai dar certo. — tentava argumentar Augusto.
— Na verdade eu não te odeio, você e sua família é que não pode chegar perto de mim sem me acertar um soco ou uma tapa. — Daniel não estava disposto a brigar, mas não ia deixar Augusto o xingar na frente do diretor.
— Por que será? Você não pode chegar perto de mim e da minha família sem ofender.
— Aí é que você se engana, hoje mesmo após o almoço procurei a sua irmã e pedi desculpas a ela.
— Para de mentir Daniel. Você não é do tipo que pede desculpas.
— Então vá perguntar a ela. Tenho certeza que ela vai lhe confirmar.
— Eu vou perguntar sim, não acredito em você. Te conheço há anos, sei que pode ser cruel quando quer, vi muita gente chorar por coisas que você falou. Quantas meninas não tiveram sua maria-chiquinha arrancada apenas por capricho seu? Daniel você comia lanches quando éramos do fundamental. Você pode não lembrar, mas eu não esqueci.
— Em momento nenhum neguei o meu passado, mas éramos crianças, as coisas mudaram.
— É claro que não, e o seu comportamento com a Valentina e a Catarina só me fazem ter mais certeza que você continua tão horrível quanto antes.
— Você passou sete anos fora Augusto, não venha agora querer saber sobre tudo o que aconteceu aqui. Enquanto você tava fora muita coisa mudou. Você estava certo ontem à noite, meu pai não liga pra mim, nunca se importou. Mas você sabe tão bem quanto eu que nem sempre o pai é a figura masculina que se escolhe pra seguir.
— Do que você tá falando?
Vendo que o rumo da briga estava indo pra caminhos indesejados, o diretor Carlos resolveu que era a hora de intervir.
— Meninos, creio que esse não é o melhor momento nem local para uma discussão como essa. Sugiro que ambos se dirijam até a sala de refeições e aproveitem o jantar que será servido em minutos. Minha decisão permanece a mesma, nenhum aluno trocará de quarto se o motivo for a insatisfação com o parceiro escolhido. Quero que saibam que não tolero briga nos limites da escola.
Sem dizer mais nada Augusto e Daniel saíram da sala do diretor cada um seguindo sua própria direção.
* * *
Na hora do jantar Daniel não estava presente, o que pra Augusto foi um alívio. Assim como tinha dito, perguntou a irmã se realmente Daniel tinha lhe pedido desculpa, e como ele temia a resposta foi positiva. Após narrar toda a confusão na sala do diretor pra irmã, ela lhe aconselhou a ser ele a pedir desculpas ao garoto.
— Você tá louca Laura? Esqueceu o que ele fez?
— Não Augusto eu não esqueci, mas ele pareceu sincero quando me pediu desculpas, conversamos um pouco e ele se mostrou arrependido, pediu desculpas as meninas também. E você também errou ao falar tudo aquilo, ele não pediu pra o pai não gostar dele.
Depois disso ficaram em silêncio durante minutos, Augusto não queria dar o braço a torcer, mas sabia que também estava errado, independente dos comentários de Daniel.
Mesmo sendo cedo resolveu ir se deitar, esperaria Daniel no quarto e pediria desculpas. Foi quando se preparava para o banho que sentiu um volume no bolso, e lembrou-se do papel que colocara ali mais cedo.
O papel amarelado estava manchado em alguns pontos, e a tinta apagada junto à letra miúda tornavam difícil a leitura.
“Lúcia, eu consegui. A água não fez muito movimento, mas deu pra perceber, já que cachoeira não tem onda. Estamos sendo observados, por isso fiquei com medo de te parar no corredor e falar. Desculpa está te enviando com seu nome, mas é que esqueci os nossos codinomes. O Gabriel já consegue mover os objetos do lugar, mas o que ele realmente tá dominando é fazer as janelas se moverem, já que pra isso não precisa de tanto ar. Acho que isso tem a ver com ele ser o único que tem a pedra, deve ficar mais fácil pra ele. O Mateus e a Manu eu não sei como estão, a gente tem evitado falar uns com os outros, mas é claro que você sabe disso, foi a instrução do Samid na última reunião. Por falar nisso, veja se nesse livro que você está com ele tem alguma coisa sobre a Pogeshamadu.
P.S.: não se esqueça de queimar o papel
Airolg (pelo menos o meu eu lembro)”
Que papel era aquele? Quem eram essas pessoas? Augusto tentava entender sobre o que estavam falando, mas a cada teoria ele só tinha mais certeza de que estava ficando louco. Ele nunca tinha ouvido falar em alguém capaz de fazer onda em cachoeira, ou mover objetos com a força do vento. Aquele papel deve ter sido uma pegadinha de algum aluno, pensando melhor era a cara de um aluno fazer algo como isso.
Quando saiu do banho colocou o papel dentro de um de seus cadernos, não era bom que algo assim caísse em mãos erradas. Augusto não era nem capaz de imaginar o tanto de confusão que um aluno como o Tiago podia causar se tivesse a mesma ideia.
Deitou na cama e esperou Daniel chegar, tinha que pedir desculpas a ele. Pegou o primeiro volume da trilogia “O Senhor dos Anéis” e começou a ler, estava tão entretido com a leitura que quando olhou o relógio mal acreditou o quão tarde já era. Passava da meia noite e Daniel não tinha voltado ainda. “Com certeza estava aprontando alguma!” Pensou Augusto com ressentimento, e teve que se segurar para não fechar a porta do quarto e deixar o colega do lado de fora, já tinha o bastante pra se preocupar. Resolveu dormir, ainda não tinha olhado o horário, então não sabia de que horas começaria a aula, e chegar atrasado não era algo que ele queria.
* * *
O dia seguinte amanheceu quente, o verão desse ano estava sendo pior ainda pra Augusto acostumado as baixas temperaturas da Itália, apesar de quê nos últimos anos o verão tenha sido cada vez mais quente por lá também.
Quando Augusto acordou Daniel ainda dormia, não viu a hora em que ele havia voltado, mas a julgar pela hora que ele próprio tinha ido dormir, o colega devia ter voltado já de madrugada. Resolveu esperar ele acordar para se desculpar, como teriam aulas pela manhã achou que após sair do banho encontraria Daniel já acordado.
Apesar de ter demorado no banho mais que o normal, quando Augusto retornou ao quarto Daniel ainda dormia. Mesmo que não fossem melhores amigos, a consciência de Augusto não permitiu deixar o colega se atrasar. Quando Augusto chegou perto de Daniel percebeu que ele tremia.
Augusto não era muito bom em Biologia, mas sabia que não era normal alguém tremer quando se fazia mais de 30º lá fora. Com cuidado tocou na testa dele, e percebeu que ardia em febre. Augusto não sabia o que fazer.
Não fazia a menor ideia onde ficava a enfermaria, e tinha certeza que Daniel não conseguiria andar nem até a porta. Não podia sair pra tomar café como se nada estivesse acontecendo, de alguma forma ele teria que ajudar.
Resolveu que o melhor a fazer era ir até a enfermaria, e trazer quem quer que fosse que estivesse lá até o quarto. Foi até o quarto de Tiago, mas esse assim como todos os outros, estava vazio. Pelo que ele sabia da escola, no térreo ficava a sala de refeições, a biblioteca e a sala do diretor. No primeiro andar apenas as salas de aula e os laboratórios, e o segundo era ocupado pelos dormitórios. As torres eram proibidas, e a floresta não era um lugar onde se colocaria uma enfermaria. Decidiu começar pelo primeiro andar, era onde estavam as salas comuns ao uso dos alunos.
Foi nesse momento que Augusto percebeu o quanto amava placas de sinalização, há minutos ele andava por corredores e não tinha visto uma só pessoa a quem pedir informação. Ele não queria pensar negativo, mas sua cabeça não parava de imaginar situações a quais Daniel podia estar passando enquanto ele andava perdido. Já havia passado pela entrada da biblioteca por no mínimo três vezes quando virou à direita e viu um corredor que ele jurava que não estava ali antes.
Era estreito, porém seu comprimento já cansava Augusto só de olhar. Decidindo que não tinha como ficar mais perdido, Augusto resolveu que não custava nada tenta esse novo caminho. O corredor terminava em um lance de escadas, subiu pedindo a Deus ainda estar nos domínios da escola. A escada dava acesso a uma pequena porta, estreita o suficiente pra passar apenas uma pessoa por vez. Passando pela porta se viu dentro de uma pequena sala de aula, que há muito parecia ter sido desativada.
Ao sair da sala se viu em um novo corredor, e sua frustração era tanta que estava quase desistindo de procurar alguém, sua barriga roncava lhe lembrando de que não tinha comido nada ainda. Ao olhar para trás viu que a porta pela qual saíra era na verdade um quadro, com uma porta pintada em si. Deixando de lado as estranhezas daquele lugar, que a cada minuto se acentuavam mais, Augusto olhou para frente e viu o que tanto desejava.
Uma porta dupla com uma placa acima onde se lia:
“ENFERMARIA”
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