O Misterioso Mundo de Julia
13 Emergem as Dolorosas Memórias
Notas iniciais
A solidão atrai trevas e as trevas atraem o desespero, e solidão é uma palavra que a pequena Julia conhece bem. Após seu mundo desabar lá estava ela perdida e confusa novamente engolida pelo vazio assustador, o que iria acontecer ela sequer imaginava, mas havia de concordar que o primeiro obstáculo fora superado.
O pequeno cão havia desaparecido o que foi uma pena já que ela sequer teve tempo de se despedir do pobre animalzinho.
Estava novamente sozinha, mas a escuridão já não a assustava mais, havia aprendido a conviver com ela há muito tempo. Se lembrou do que a velha havia dito, suas memórias retornariam aos poucos a cada selo quebrado, no entanto havia derrotado Ausência e até agora nada havia acontecido. Teria algo dado errado? Não sabia responder. Estava ansiosa é verdade e um pouco temerosa pelo que estava por vir, mas não era momento para um eventual recuo, fechou os olhos e quando os abriu tudo havia mudado mais uma vez.
Estava novamente em casa naquele fatídico dia de 19 de julho de 2000, mas agora era uma simples expectadora dos fatos. Se encontrava em seu quarto naquela manhã, olhou para a cama onde uma inocente garotinha dormia despreocupadamente, era seu aniversário de oito anos.
Julia se moveu em direção a pequena que dormia tranquilamente, tentou toca-la mas sua mão a atravessou de um lado ao outro sem encontrar resistência. Achou aquilo estranho, tentou gritar mas não obteve resultado, a pequena sequer se mexeu em seu leito. Suas suspeitas haviam se confirmado, não passava de um fantasma a observar o passado. Sem poder fazer nada a respeito apenas se pôs a espera do que iria acontecer.
A porta rangeu devagar e por ela entrou Ana tão sorrateira quanto podia, se aproximou devagar do leito da pequena e de repente se jogou em cima da cama a acordando com cócegas de todos os lados.
– Acorda dorminhoca, acorda.
A pequena abriu os olhos despreocupadamente e deu um grande bocejo se espreguiçando toda.
– Que dia é hoje?
– Não se faça de boba danadinha – disse a mãe desferindo mais um ataque de cócegas – hoje a minha princesa está completando oito anos.
A pequena a olhou com ternura, não era todos os dias que era acordada daquele jeito, de certa forma estava feliz e um sorriso lhe percorria a face de orelha a orelha.
– Onde está o papai?
– Ele está ocupado Julia, mas não se preocupe pois ele não esqueceu de seu aniversário – retrucou Ana na esperança de estar certa – agora vê se não demora a se arrumar e desce pois o café já está servido — a abraçando apertado – meu amor.
Ana deixou o quarto enquanto a pequena Julia voltou a se deitar encarando o teto do seu quarto por um longo tempo.
– Papai, você está tão estranho ultimamente – suspirou.
A pequena após vários minutos refletindo decidiu finalmente se levantar. Foi ao banheiro escovar os dentes, trocou de roupa e desceu, Julia fantasma que observava tudo a seguiu até a cozinha.
Chegando lá a pequena teve uma surpresa agradável, uma mesa decorada com pãezinhos, bolo, brigadeiros e todo tipo de guloseimas a aguardava.
– Vamos Julia, não se acanhe hoje você pode comer o que quiser – falou Ana que a esperava sentada – vamos sente-se.
Julia se sentou mais do que depressa e atacou aquela infinidade de guloseimas como se não houvesse amanhã. Ana também a ajudava a devorar aquela pilha de açúcar mas ao mesmo tempo a repreendia alertando-a para não exagerar ou iria passar seu aniversário no hospital.
Em meio a todo aquele alvoroço Romeu Fernandez entrou na cozinha, estava pálido, com aspecto desleixado e enormes olheiras consumindo seu magro rosto. O clima de festa que havia se instalado no ambiente rapidamente se dissipou com sua chegada. Caminhou lentamente até a geladeira sem sequer dar atenção pras duas, pegou uma garrafa de rum que havia guardado em um copo. Se dirigiu a porta sem dar explicações, Ana resolveu intervir.
– Querido, por que não se senta com a gente, hoje é o aniversário da nossa menina ou vai dizer que se esqueceu?
Romeu parou na porta por segundo, por um momento deu a entender que retornaria, mas em vez disso apenas falou.
– Não tenho tempo pra isso, a propósito feliz aniversário Julia – falou em um tom frio e sombrio sem sequer olhar para trás.
E dessa forma deixou o recinto em direção ao porão, lugar esse permeado de mistérios onde ele passava boa parte de seu tempo pintando, bebendo ou fazendo qualquer coisa sem sentido.
Julia que observava a cena ficou chocada, como poderia ter um pai tão insensível e frio como aquele. Já não sabia sequer se o considerava seu pai, seu coração se encheu de angústia após vivenciar aquilo, talvez fosse melhor ter desistido quando teve a oportunidade. Engoliu pesado e resolveu ir atrás de Romeu Fernandez, mas não era mais possível pois como em um passe de mágica seu mundo começou a derreter como a cera de uma vela em chamas encerrando aquela memória e a jogando ao desconhecido mais uma vez.
(...)
Os primeiros feixes de luz banhavam o dia anunciando que a noite estava chegando ao fim, mas não para Ana, ela estava presa em uma noite interminável há anos e por mais que tentasse escapar já não sabia se conseguiria.
Passou a noite inteira acordada, inquieta andando para lá e para cá, a enfermeira viera e lhe dera um calmante que aparentemente não fez efeito. Não sabia mais o que pensar ou como agir, queria apenas ajudar Julia, procurar uma segunda opinião ou quantas fossem necessárias, só não sabia onde.
Pensou em levar a filha para a cidade vizinha assim que fosse possível, Alvorada era uma cidade bem maior, com certeza encontraria o que estava procurando lá. Mas e agora, o que faria? Tudo que conseguia enxergar eram os fantasmas do passado que insistiam em lhe assombrar, se pelo menos conseguisse afugentá-los, mas estava confusa demais até para dar-lhes combate.
Olhou para Jorge que dormia despreocupadamente em sua poltrona, sentiu inveja do irmão por conseguir descansar numa situação dessas, mas como poderia julga-lo, Jorge não era pai e provavelmente não tinha nem ideia da dor que estava sentindo. Olhou para Julia que continuava sedada perdida em seu mundo de escuridão, seria o medicamento tão forte assim, não sabia dizer.
Voltou para a janela, lá fora o dia já dava sinais de despertar mas continuava triste como sempre, e para completar seu sentimento de tristeza voltou a chover.
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