Notas iniciais
Vamos ouvir musiquinha, https://www.youtube.com/watch?v=uFaJNVvOStg.

Cigarras cantavam, sapos coaxavam e as estrelas do céu despencavam. Quando Julia abriu os olhos não sabia ao certo onde estava, não sabia sequer o que a esperava mas de uma coisa a garota estava certa, se encontrava na escuridão mais uma vez. No entanto não estava tão escuro assim.

Quando Julia despertou jazia deitada na relva da clareira de uma floresta, a noite estava escura mas não tão escura a ponto de não enxergar. Acima dela a lua cheia se exibia imponente acompanhada de milhões de estrela que pintavam o céu negro como breu de um lindo tom dourado.

Apesar de ainda estar assustada pelos últimos eventos Julia agora queria relaxar por um momento, a relva estava tão morna e aconchegante que ela apenas quis ficar ali. E por um longo tempo apenas observou o céu noturno e toda sua vasta imensidão. Os animais se manifestavam pela floresta fazendo sons noturnos mas isso sequer a incomodava, estava em um estado de paz interior como nunca jamais estivera. Decidiu então fechar os olhos e deixar que o sono a tocasse, estava tão cansada para se preocupar com a velha e suas charadas malucas que nem se deu conta quando adormeceu.

Não sabe ao certo o quanto dormiu mas aparentemente um bocado, fora despertada por gotas que pingavam em sua face. Abriu os olhos e presenciou o céu negro como piche, nada da lua deslumbrante ou de estrelas decorando a noite, apenas nuvens carregadas tomavam conta do céu noturno agora. A noite se tornou mais densa e escura dificultando ainda mais a visão da garota, o que faria agora era um completo mistério que teria de descobrir.

As gotas começaram a cair com mais intensidade, estava certa de que não poderia simplesmente ficar ali, teria de procurar um abrigo agora. Pensou em se abrigar embaixo de uma árvore qualquer ali, mas não era seguro. Haveria então algum lugar ou construção naquela floresta a qual pudesse buscar abrigo? Resolveu descobrir por si própria. Então lá se foi a pobre garotinha sozinha e indefesa desbravar a floresta assustadora.

Julia se embrenhou então pela floresta fechada, após alguns minutos caminhando e com a chuva caindo em cima da copa das árvores deu-se conta do terrível erro que cometera. Já não enxergava praticamente nada a frente do nariz e os sons dos animais noturnos antes inofensivos agora a aterrorizava, no entanto não havia mais como voltar. Tomou coragem e continuou em frente, volta e meia tropeçava, volta e meia um galho lhe acertava o rosto mas não era hora para desistir, além do mais sabia que tinha de quebrar o segundo selo que estava ali, se pelo menos soubesse qual era.

A caminhada já se arrastava por um bom tempo quando decidiu parar para tomar um fôlego e decidir qual seria seu próximo passo. Sentou-se sobre a raiz de uma grande árvore e pôs-se a escutar o barulho das gotas de chuva caindo sobre a copa das árvores, estava perdida apenas não queria admitir. Fechou os olhos e rogou para que estivesse em outro lugar quando os abrisse, mas sua prece não foi bem atendida, em vez disso escutou um grunhido macabro que rasgou a noite e lhe arrepiou cada fio de cabelo de forma macabra.

O que quer que fosse Julia não ficaria ali para descobrir, estava tremendo, não sabia ao certo se o que emitiu aquele som sinistro fora um animal ou algo pior. Decidiu tocar a marcha, mas e se encontrasse o ser que emitiu tal som? Não podia pensar nisso agora, teria de arriscar e ficar ali não era a melhor opção. Continuou a caminhada, mas dessa vez um pouco mais rápida e ofegante e sequer ousava olhar para trás.

Os minutos foram passando e a chuva começou a apertar, agora as gotas escorriam pela copa das árvores e a encharcavam de forma contínua. Não ouviu mais o grunhido misterioso o que lhe fez pensar que fora sua imaginação lhe pregando uma peça, mas como nada é ruim o bastante que não possa piorar, o som animalesco ecoou mais uma vez congelando seu coração por um segundo. O desespero começou a apoderar-se de Julia, tinha certeza de que um animal não emitiria aquele som, aquilo só poderia ser um monstro e como ela já vira nos filmes monstros quase nunca são bonzinhos.

Seu coração surrava seu peito violentamente, suas pernas tremiam e recusavam-se a se mexer, estava perdida dessa vez. O ser que se aproximava não era como Ausência que iria lhe propor um joguinho de charadas idiotas, não, este iria fazer picadinho dela quando a encontra-se e estava certa disso. Outro grunhido rasgou a noite acompanhado de uma árvore vindo ao chão, o que fez um enorme estrondo ecoar pela floresta.

– Vamos Julia, mexa-se você não pode morrer aqui! – gritou para si em desespero.

A sanidade retornou a sua mente e um pingo de coragem a fez se mexer de novo. Sem pressa saiu correndo sem olhar para trás, e nem ousaria fazer tal coisa. E dessa forma correu, tropeçou tantas vezes e caiu outras mais, a sua frente apenas o desconhecido.

A chuva encharcava o chão e o tornava escorregadio, a noite prejudicava sua visão, galhos machucavam sua face, tudo parecia conspirar contra ela. Continuou correndo e a criatura continuou gritando cada vez mais perto. Julia pensou que seria apanhada a qualquer momento, e isso a aterrorizava e forçava correr cada vez mais rápido.

Após tanto correr começou a dar sinais de cansaço, a floresta parecia não ter fim e já não sabia se poderia manter o ritmo. Começou a desacelerar, seus músculos já estavam chegando ao limite e davam sinais de que não iriam suportar muito mais. Estava molhada, suja e machucada. O pensamento de desistir começou a lhe tentar, mas ao mesmo tempo tinha um medo terrível do que lhe aguardava. O grito ensurdecedor lhe feriu os tímpanos novamente, não queria morrer ali, se é que pudesse morrer nesse jogo maluco, decidiu não arriscar.

Tocou a andar, cambaleante e já sem forças para correr. Devagar e hesitante continuou sua marcha pela floresta sem fim com um potencial monstro assassino em sua cola. Estava sem esperanças e esgotada quando que por um milagre chegou ao fim da floresta maldita, mas a visão que teve não foi exatamente animadora.

A sua frente se estendia um enorme ferro velho com centenas de carros e metal retorcido empilhados uns sobre os outros. Não era nem de perto o que estava esperando encontrar, não sabia nem como era possível aquilo estar ali, mas não era hora para questionar. Podia ser um ótimo lugar para se esconder, ou um péssimo esconderijo diga-se de passagem, mas não havia tempo para reclamar e seu corpo não suportaria outra caminhada.

Sem demora dirigiu-se para o ferro velho, ali poderia encontrar abrigo e se esconder do que quer que fosse que a estivesse perseguindo. No entanto não tinha certeza se estava sendo perseguida. Preferiu não arriscar e se pôs a andar, se estava certa ou errada apenas o tempo diria.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.