Notas iniciais
Espero que gostem. Musicas do cap: Here I Am (http://www.youtube.com/watch?v=L9tws2cSsMQ)

Meus dedos doem e uma sensação desconfortável e dolorosa percorre meu corpo, meus olhos começam a falhar e a lentamente se fecharem. Respiração pesada, corpo dolorido, dor de cabeça e vozes, principalmente vozes. Tento concentrar-me nelas, mas toda a vez que acho que vou conseguir decifrar algumas palavras, os sons desaparecem deixando-me em um vazio de ruídos irritantes. Está tudo preto, tudo menos duas pequenas bolinhas azuis mexendo-se na minha frente, elas ficam escuras e azuis novamente, como se estivessem piscando e de repente, começam a mudar. Bem no centro, começam a adquirir uma coloração verde, verde escuro, que se espalha pela bolinha inteira. Verde azul, azul preto, verde preto. Pisca.

Abro os olhos e vejo Katherina chacoalhando-me, suas palavras são confusas, mas consigo identificar duas: imediatamente subir!

Acordo sobressaltada. Olho em volta e vejo Kat no beliche ao lado, teclando em seu laptop. Charlie estava, provavelmente no banheiro, pois consigo escutar água correndo da pia.

– Você acordou – Kat larga o laptop e vira-se para mim.

– Bom dia – sorrio.

Ela dá um leve sorriso de volta, pequenas olheiras estão plantadas embaixo de seus olhos, ela provavelmente não dormiu bem de noite.

– E então? – pergunto.

– Então? Vamos fazer o que combinamos – Charlie sai do banheiro, vestindo uma calça jeans azul escura e um moletom vermelho.

Olho para Katherina.

– Podemos, sei lá... pegar comida e ir lá para baixo, explorar – ela responde, Kat soa cansada e esfrega a testa com a mão, tirando o cabelo da frente do rosto.

Ela desce as escadas do beliche e começa a colocar seus tênis, all-stars pretos com pequenas estrelas brancas espalhadas pelo tecido. Charlie imita-a, sentando-se em sua cama e calçando um coturno, solto um riso abafado. Quantas vezes já não tinha visto minha mãe colocar um desses, claro que esse era bonito e os da minha mãe eram de militares de verdade. Bem menos bonitos.

Nessa hora penso em me trocar também. Pulo da cama e agarro uma troca de roupa seguindo para o banheiro, tomo uma rápida ducha e visto-me sem olhar o espelho, com medo de encarar aquela tatuagem sinistra novamente. Coloco um shorts jeans e um moletom cinza, era do colégio e tinha um brasão enorme desenhado no peito, mas eu não me importava, a probabilidade dela sair sujo ia ser enorme.

Quando saio do banheiro vejo que minhas colegas já estão prontas, Kat bufa, irritada pela minha demora.

– Porque demorou tanto?

– Calma, estava tentando me trocar sem ver a tatuagem.

Charlie joga um braço no meio de nós e abre a porta.

– Vamos logo, hoje é domingo, então temos o direito de fazer o que quisermos. Ninguém vai perceber que não estamos.

Concordamos com a cabeça e saímos do quarto, o trancando devidamente antes de sair pelos corredores em busca de uma máquina de comida.

°_°_°_°

– Isso é tudo para mim! – Charlie equilibra barras de chocolate, salgadinhos, e algumas garrafas de suco nos braços – agora é a vez de vocês.

Katherina aproxima-se e aperta, agilmente, uma série de botões, fazendo a máquina cuspir diversas comidas. Assim como Charlie, Kat pega os chocolates e salgadinhos, nada de comida saudável.

Quando chega a minha vez, esvazio a máquina das garrafinhas de água, torradas integrais, barrinhas de cereais, pacotinhos de frutas secas e castanhas. Elas me encaram surpresas.

– Jura que você vai comer isso? – Charlie ajeita as comidas embaixo do queixo e começa a voltar para o quarto.

– É, que tipo de pessoa escolhe de livre espontânea vontade comer coisas saudáveis, ao invés de porcarias?

– Eu! – exclamo olhando para cima, uma das coisas que me incomodava nas minhas colegas de quarto, era a altura. Ela eram muito maiores, 1,70 no mínimo e para mim, isso era muito.

– Hey! Charlie! – uma voz grossa ecoa ao longe.

Viramos surpresas e vimos um garoto loiro correndo em nossa direção.

– Danny? – Charlie parece surpresa – o que foi?

– Ah nada, estava procurando você e... – a voz dele morre, enquanto encara as nossas comidas – o que vocês vão fazer com isso?

– Uma... ah... pija... fêsta do pijama! Isso! Nós vamos fazer uma festa do pijama! – Charlie exclama, feliz por finalmente ter encontrado uma desculpa.

– Fêsta? – Danny pergunta – Fêsta?

– Festa! Eu não disse fêsta.

– Disse sim – sussurro.

– Não está ajudando – Charlie murmura na minha direção.

– Festa, fêsta, tudo a mesma coisa – Katherina fala com uma animação tão grande quanto nós na aula de física – agora podemos ir?

– Nossa! Tudo bem então, vou tentar achar o Peter – Danny levanta as mãos em defesa – Ren você sabe onde ele está?

– Uhm, tente a sala de armas.

– Okay – ele dá meia volta e começa a andar para longe de nós – até mais Charlie – Danny acena de longe.

– Uau! Eu pensei que ele não ia embora nunca mais – Kat volta a andar em direção ao quarto.

Depois de alguns segundos, Charlie e eu à seguimos. Entramos no quarto e logo cada uma agarra uma mochila, derrubando dentro todas as comidas e bebidas. Pensei em levar uma folha de papel e um lápis, quem sabe poderíamos desenhar um mapa.

Olho para trás e vejo as meninas prontas. Katherina havia trocado sua regata por uma blusa de manga comprida e para variar, preta e eu não sabia como ela estava se mexendo dentro da calça skinny, adivinha? Também preta.

– Vamos Ren! – Charlie chama – você tem um sério problema com horário garota.

– Eu – pulo do beliche – sei! Estou trabalhando nisso ok?

Jogo a mochila nos ombros e sigo minhas colegas de quarto até o buraco na parede. Kat afasta as escrivaninhas e abre passagem para entrarmos. Charlie vai primeiro, usando a única lanterna de 360° que não havia quebrado, logo em seguida eu entro, com mais facilidade devido ao meu tamanho, “ser pequena tem que servir para alguma coisa”, penso feliz.

Não olho para trás, mas escuto o barulho das escrivaninhas sendo empurradas de volta no lugar.

Andamos e andamos, a descida até as plataformas era longa e a escada danificada tornava as coisas ainda mais difíceis. Quando Charlie começa a diminuir o passo e desaparece atrás de uma parede de pedra, percebo que chegamos.

– E ai? – Ela pergunta – para onde vamos?

– Não sei, mas, seria uma boa ideia marcar a nossa escada – Kat da umas batidinhas no metal – sabe, para sabermos por onde voltar.

– Boa ideia! – Charlie tira um bloquinho de post-it e arranca um.

– Não! – exclamo – espera, eu trouxe uma coisa que pode ajudar – remexo na minha mochila.

– O que? Barrinhas de cereais extra saldáveis? – Charlie ironiza.

– Ha. Ha. Ha. Não, trouxe isso – estendo um caderno e um lápis.

– Uau! Nós podemos sentar aqui com isso e desenhar caricaturas umas das outras!

– Não! Isso é bom – Kat sussurra, apontando para os objetos – podemos fazer um mapa.

– Desse lugar? – Charlie estica os braços, apontando para a enorme caverna.

– É, não é uma má ideia – respondo.

– Ok então, você sabe desenhar Ren?

Aceno com a cabeça. As duas concordam e começam uma discussão de qual direção tomar primeiro, quando decidimos um corredor eu rabisco um caminho no papel e sigo minhas colegas de quarto.

O primeiro corredor que escolhemos era extremamente estreito e subia bem levemente, porém, quanto mais avançamos, mais estreito ficava, até um ponto que até mesmo eu sou forçada a abaixar-me e começar a engatinhar. Quando chegamos no final, vemos uma parede, Charlie, que era a primeira da fila, bate de leve na superfície.

– É fino, deve ser de gesso, como no nosso quarto.

– Pode ser que seja outro quarto – Kat sugere.

– Shiu! Vou ver se consigo escutar vozes – ela encosta a cabeça na parede e escuta atentamente.

“Eu não ligo para o que o exército acha, eu quero aquela sala fora do meu internato. Agora!” Uma voz grossa ruge pela fina parede de gesso.

– Eu tenho impressão de que é a sala do diretor – Charlie massageia os ouvidos, agora surdos.

– Você acha? – pergunto.

A segunda passagem que escolhemos é menos estreita e podemos, tranquilamente, andar as três uma do lado da outra. No final dessa tem mais uma parede de gesso. Encostamos, as três, o ouvido dessa vez e no próximo segundo desejamos que não o tivéssemos feito. Um gemido sai da sala, seguido de um grunhido e um “Fleróvio” sussurrado, que se não me engano, parecia com a voz do Sirén.

Desencostamos da parede vermelhas e saímos correndo de volta para perto das escadas, colando um post-it, escrito “Sala de física. Não entrar!”, em um letra que nunca reconheceria como a da Charlie, na parede.

A terceira passagem foi a de maiores perdas, ela era larga, não tanto quanto a segunda, mas dava para passar lado a lado, porem era íngreme, um tanto íngreme de mais para o meu gosto. O diferencial é que dessa vez, no final, não havia uma parede de gesso e sim uma enorme pedra em cima de nossas cabeças.

– O que será isso? – Charlie tenta empurrar a pedra, mas parece muito pesada.

– Aqui – Katherina coloca a lanterna dela no chão e começa a ajudar Charlie – Ren, vem aqui ajudar.

– Não dá – respondo – eu não alcanço a pedra, é muito alta.

As meninas por um segundo param de tentar mover a rocha e encaram-me, segundos depois um pequeno riso ecoa pelas cavernas. Era Charlie.

– Tá bom, tá bom! Eu sou pequena, eu sei! Agora voltem a tentar mexer a pedra!

Charlie dá mais um pequeno riso e retorna a tarefa. Alguns xingamentos e resmungos a pedra finalmente se move, mas antes que possamos comemorar, água começa a cair pelo buraco que fizemos e a pressão faz a pedra deslizar um pouco mais para o lado, deixando ainda mais água cair dentro do túnel.

Katherina grita e tenta pegar a pedra e recoloca-la, Charlie tenta também, mas escorrega no chão lamacento e cai, sendo, em seguida, encharcada pela enorme quantidade de água vazando pelo teto. Eu tento me mover, mas a água é mais rápida e me atinge, a forca é tanta que também caio e jogo minha lanterna para cima. Água invade meus olhos e sinto meu cabelo escorrer pelo meu pescoço, fecho a boca para evitar engoli-la e tento trancar a respiração, mas bem na hora mais um jato me atinge. Solto a respiração e engulo um pouco, tossindo logo em seguida.

A água aos poucos começa a ser absorvida pela terra e quando me permito abrir os olhos, estamos as três em um grande túnel lamacento, empapadas. Katherina finalmente conseguiu fechar a entrada do teto, com a ajuda de Charlie.

As duas estavam deploráveis, encharcadas, cabelos longos e despenteados grudando nas roupas e na pele e sujas de lama. Um minuto de silêncio segue e quando percebo estamos rindo, rindo de alivio por finalmente termos fechado a entrada.

Foi o ultimo túnel que exploramos.

°_°_°_°

Na hora do almoço, sentamos em uma das passagens perto da nossa escada e tentamos secar os cabelos e tirar a sujeira da roupa enquanto conversávamos sobre a passagem para a sala de física.

– Claro que era a sala de física! – Charlie exclama, torcendo o cabelo e deixando gotas de água e lama escorrerem pelo chão.

– O que não garante que era um dos chalés dos professores de educação física – Katherina era a com mais dificuldade, ela tinha o cabelo mais comprido e nesse momento, isso era um ponto fraco.

– Também pode ter sido... sei lá? Uma sala secreta? – pergunto usando o moletom do colégio para secar e limpar meu cabelo. Tinha muita sorte de ter cabelo curto.

– Sim claro – Kat ironiza – uma sala secreta de sadomasoquismo.

– Olha nós nunca podemos descartar essa possibilidade Kat – Charlie desiste do cabelo e tira os coturnos tentando seca-los.

– Não me chame de Kat!

– Ui! Desculpe, senhorita Katherina.

Katherina lança um olhar mortal para Charlie, que apenas ri.

– Mas sabe – começo – tem uma coisa que ainda não fizemos.

– Discutimos sobre a relação Siróvio? – Charlie desiste dos coturnos e fica só de meia.

– Siróvio? – pergunto.

– É! Sabe, Sirén e Fleróvio... Siróvio.

– Melhor nome de todos os tempo – Katherina ironiza.

– Enfim! – exclamo – eu ia dizer que nós ainda não descemos até lá embaixo, para ver o Obelisco.

– Obelisco? Estamos chamando aquele monumento de Obelisco agora? – Kat pergunta.

– Porque? Não é uma boa ideia?

– Ah, pode ser. Obelisco então.

– Ótimo! E eu concordo com a Ren, deveríamos descer até lá embaixo e ver o que tem – Charlie levanta-se, animada.

– Claro – Kat arruma a blusa e também levanta – mas primeiro, acho que você deveria colocar os sapatos – ela gesticula para as meias com estampas de naves espaciais de Charlie.

A menina abaixa-se e começa a calçar os coturnos. Levanto-me e espero por ela.

A descida para o Obelisco é enorme, então abrimos pacotinhos de batatas fritas e umas barrinhas de cereais para ir comendo no meio do caminho. Katherina abre um pacote de m&m’s e os devora com tanta vontade que acho que vai implodir.

Quando chegamos na base do enorme Obelisco, discutimos um pouco para ver para onde vamos primeiro. Charlie acha que deveríamos dar uma volta de perto no Obelisco, Katherina acha que deveríamos dar uma volta maior e ver qual o tamanho da caverna e eu acho que deveríamos andar em linha reta, para ver o quão larga é. A discussão é interrompida por uma luz piscando, era a lanterna da Charlie.

– Charlie, por favor me diga que essa luz piscando significa que ainda tem muita bateria – imploro.

– Ops! Acho que a bateria da minha lanterna logo vai acabar – ela dá umas batidinhas nas laterais da lanterna na esperança de que isso, de algum jeito, a recarregue – a água deve ter danificado ela.

– É o que eu temia...

– Você não checou isso antes de descermos até aqui? – Kat soa indignada.

– Oh eu sinto muito, da próxima vez que eu for descer até o centro da terra, por uma passagem secreta na parede do meu quarto que foi acidentalmente quebrada pela minha colega de quarto. Eu lembro de recarregar a lanterna!

Katherina abre a boca para retrucar, mas eu corto-as antes que possam iniciar outra discussão:

–Ok! Nós estamos sem lanternas então. Já que a lanterna da Katherina se afogou e a lanterna da Charlie logo vai morrer, porque não voltamos antes que a minha também morra e nós fiquemos presas aqui para sempre?

Recebo uns resmungos como “sim” e começamos a caminhar de volta para a escada, no meio do caminho, o esperado momento, em que a lanterna de Charlie se apaga, chega e somos deixadas para sermos guiadas apenas pela luz da minha, que parece insignificante perto da massiva escuridão.

– Que tal apertarmos o passo, antes que a lanterna da Ren resolva morrer e nos deixar presas aqui embaixo para sempre? – Charlie soa levemente assustada.

– Eu aprovo isso – aperto o passo e sou seguida de perto pelas meninas.

Ando iluminando um pouco a frente, para que soubéssemos se estivéssemos indo direto para uma parede, minhas pernas pequenas lutam para manter o passo com Katherina e Charlie que além de serem bem mais altas, eram também, mais rápidas.

Tentando manter o ritmo, mas meus pés se confundem em uma pedra e vejo meu rosto aproximar-se do chão, instintivamente levo as mãos para frente para impedir a queda, lançando a lanterna para o alto. Um barulho de algo quebrando e somos mergulhadas na mais completa escuridão.

– Quem foi o cérebro de... de... de hamster que derrubou a lanterna!!! – Katherina grita.

– Quem você acha que foi? – respondo – quem era única que tinha uma lanterna?

– Ren! E agora? Como vamos fazer para subir!?! – Katherina soa muito irritada.

– Talvez você devesse ter pensado nisso antes de afogar sua lanterna! – Charlie grita, também irritada.

– Eu? Afogar a lanterna? Você que queria abrir o maldito teto! – ela grita – E pelo menos eu não deixei a bateria da minha lanterna acabar!

– Eu pelo menos não quebrei ela!

– Hey! – entro na briga também – não venham jogar o problema todo em cima de mim! Estamos nisso por culpa de todas!

– Eu não tive culpa de afogar a lanterna! Eu nem queria tirar aquela pedra do caminho!

– Mas ainda assim ajudou né? Não tente bancar a perfeitinha Katherina! – Charlie enfatiza o nome de Kat separando silaba, por, silaba.

– Eu bancar a perfeitinha, quando eu disse isso!?! Me relembre Charlotte?

– MEU NOME NAO É CHARLOTTE! – Charlie grita.

– E O MEU NAO É KAT!

– Chega! – grito, para elas. As duas estão encarando-se como se pudessem arrancar os olhos uma da outra, Katherina está toda suja, mas seu cabelo já havia secado, assim como o de Charlie, mas vejo que ela está tendo dificuldades de andar com o coturno molhado.

Espera! Estou vendo! Claro que estou vendo, estou vendo porque tem luz!

Viro-me subitamente e encaro a fonte de luz, meu coração para.

– Gente – sussurro – eu consigo ver vocês.

– Eu sei Ren – Charlie para de encara Katherina e se vira para mim – porque...

As palavras morrem na boca da garota, provavelmente ela tinha visto de onde estava sendo emanada a luz. Parado, em frente a nós, a massiva sombra do Obelisco brilhava no chão, emitindo luz, enquanto o real Obelisco se estendia no centro da caverna, com apenas um contorno muito fraco delineado em luz dourada. Seu interior era negro, como se estivesse sugando toda a luminosidade. Luminosidade que agora emanava de sua sombra, o suficiente para iluminar a caverna inteira e agora, podíamos ver uma coisa.

Aquilo não era uma caverna, era um mundo submerso em rochas.

Notas finais
#Ghost...