Notas iniciais
A música do capitulo é We Might Be Dead By Tommorow do Soko. https://www.youtube.com/watch?v=QkqP1ar_z_A Leiam as notas finais


Oh, you love him, I know; Like a goddamned thunderstorm. With lighting in your veins, and destruction in your smile.

O som de gritos acorda a criança, passos pesados ecoam pelo apartamento e o barulho de algo quebrando a faz levantar da cama. Ela esfrega os olhos, sonolenta e agarra o ursinho de pelúcia. O chão de madeira estala conforme ela se aproxima da porta do quarto. Ela abre a porta e sai no imenso corredor, segue os sons até chegar na ampla sala de estar, onde duas figuras discutem fervorosamente. O homem diz alguma coisa que ela não consegue entender e a mulher ri sarcasticamente, gesticulando para a porta de entrada. Os dois ainda não haviam percebido a presença da criança.

–Mamãe? — a menina sai do corredor, entrando na sala mal iluminada e contorna o sofá impecavelmente branco, a mulher estende os braços e pega a criança, virando-se para o homem e apertando a garota ainda mais forte — mamãe? O que está acontecendo, por que o papai está assim?

A criança, na inocência dos quatro anos, falhava em perceber o óbvio, o homem estava indo embora. A mulher levou a mão livre ao rosto da menina e falou em uma voz suave.

–Ele está indo embora.

–Indo embora? Ele vai voltar?

O homem soltou uma risada triste e depois estendeu os braços, pedindo a criança.

–Harry, acho que não é uma boa ideia.

–Não vou levá-la embora, Johanna — ele respondeu em uma voz áspera, contrastando com o sorriso direcionado à criança — só quero me despedir.

–Vou conceder um momento — a mulher disse, se retirando da sala — seja breve.

–Charlie, escute — a criança virou a cabeça ao ser chamada, os olhos azuis brilhando e encontrando os mesmos olhos olhando de volta para ela — eu vou ir embora por um tempo, não pergunte por que, mas eu tenho que fazer isso.

Harry colocou a menina no chão, se abaixando até ficarem da mesma altura.

–Quando você for mais velha, eu irei te achar e nós poderemos conversar sobre essa noite, mas até lá, eu preciso que você seja forte e não me esqueça — dito isso, o homem beijou a testa da criança e sussurrou — não me esqueça, eu te amo.

Ele levantou e pegou a mala que estava próxima à saída, ele se virou para olhar uma última vez e parou ao ver que a menina estendia o ursinho. O homem sorriu, havia trazido um pouco antes da criança nascer, quando fora à uma conferência médica na Rússia.

–Fica com ele papai, pra você não esquecer de mim — os olhos da criança mostravam uma sabedoria pouco comum naquela idade — eu quero ele de volta.

O homem sorriu, entendendo o que a menina queria dizer. Ele estendeu o braço e pegou o urso, colocando-o embaixo do braço e saindo do apartamento. A menina então, virou-se para a mãe, apenas para vê-la tentando esconder as lágrimas e então, mesmo sem entender, ela também começou a chorar.

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Acordo com um sobressalto, o quarto estava quieto e escuro, olho ao meu redor, suor escorre pela minha testa e pela minha nuca. Empurro as pesadas cobertas e levanto da cama. O relógio marca 4:58, sento na escrivaninha, era madrugada de segunda-feira, dia primeiro de dezembro. Levo a mão à minha testa, apesar de ser inverno, minha pele está queimando. Pego meu celular e ligo a lanterna, com ajuda da luz, vou até o banheiro e acendo a luz, deixando a porta um pouco aberta e depois de escovar os dentes, pego uma calça de moletom, resquícios da minha época no time de vôlei e coloco um casaco por cima da blusa do pijama. Olhei novamente o relógio, 5:10, tinha duas horas antes das aulas começarem e não conseguiria voltar à dormir de jeito nenhum, não depois daquele sonho.

Saí do quarto, fechando a porta atrás de mim e caminhei até as escadas. O corredor estava silencioso, um inspetor estava sentado na cadeira perto das escadas, mas parecia estar dormindo. Alcancei o terceiro andar, trocando o peso de um pé para o outro enquanto pensava no que poderia fazer. Cogitei bater na porta de Danny, chama-lo para ir aos jardins ou até a piscina quando me lembrei que eram cinco da manhã e ele estava dormindo. Desci mais um andar, parando em uma das máquinas para pegar um café e um pequeno croissant parei na escada que levava ao térreo, sem ter certeza do que fazer. A biblioteca estava fechada e eu não estava disposta à voltar para o quarto para pegar um livro. Voltei para perto do refeitório e me sentei no chão, com as costas encostadas na porta. Coloquei o café entre as pernas e dei uma mordida no croissant. Com a cabeça encostada na porta, podia jurar que havia ouvido passos do lado de dentro do refeitório, apurei os ouvidos, mas não ouvi mais nada. Suspirei, provavelmente era alguma peça que a minha mente privada de sono estava me pregando.

Mais alguns segundos se passaram e eu estava finalmente me convencendo que havia sido um sonho, quando os passos se aproximaram ainda mais e a porta do refeitório se abriu subitamente. Parado ali, na pouca luz que saia pela porta entreaberta, alto e musculoso, com o cabelo penteado para cima e as mãos nos bolsos, estava Andrew, o professor de educação física que havia me salvado há algumas semanas.

–Ei, kiddo, não imaginava te encontrar aqui – ele estendeu a mão e me ajudou a levantar – na verdade, nunca tem ninguém.

–Não esperava te encontrar aqui também, achei que todos estivessem dormindo – tomei um gole de café e fiz a pergunta que estava retumbando em minha mente — por que está acordado a essa hora?

–Eu ia perguntar exatamente a mesma coisa – ele sorri, mas não responde minha pergunta.

–Pesadelos – olho para baixo, quebrando o contato visual, quando levanto a cabeça, vejo Andrew assentir levemente.

Ele levanta a mão, provavelmente para colocá-la em meu ombro, mas para no meio do caminho e depois o braço volta para o lado do corpo.

–Não sei porque, mas sempre tive essa ideia de que os professores não dormem – Andrew dá um leve sorriso ao ouvir isso.

–Não muito – o sorriso desaparece – com o que você sonha?

–Meu pai – Andrew levanta uma sobrancelha – indo embora, me deixando e deixando a minha mãe.

–O que aconteceu? — ele aponta para a escada e nos sentamos lado a lado – por que ele foi embora?

–Eu não sei, eu tinha quatro anos, ele foi embora e nunca mais voltou, sem explicação nenhuma, nunca ligou ou mandou mensagens, sinto que não o reconheceria se passasse por ele na rua. Às vezes, gostaria que ele estivesse morto. — Andrew colocou a mão no meu ombro e apertou, talvez com força demais.

–A morte não permite despedidas, a morte abre um buraco em sua vida, em seu coração, não deseje isso para ninguém — os olhos dele estavam tristes, reflexos dos meus – um dia, você irá achar alguém que levará embora esse sentimento, a sensação de olhar no espelho e não saber quem vê, não saber quem é aquele estranho, com olhos cheios de ódio e maldade.

O aperto em meu ombro diminuiu e Andrew levou a mão aos olhos, limpando as lágrimas antes que elas tivessem a chance de cair. Pensei em quantas vezes ele havia feito aquilo, chorado em silêncio, enrolado em um quarto escuro e frio. Pensei em quantas vezes eu já tinha feito aquilo, deitada na minha cama, o peito apertado e o sentimento desesperador, não de estar sozinha, mas de se sentir completamente só. Aquele gesto me disse mais sobre Andrew do que o homem jamais me diria.

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Ainda era segunda feira, primeiro de dezembro, horário de almoço. Estava sentada na frente de Danny, observando o garoto levar a comida à boca em um ato que parecia automático, ele também não parecia nada bem.

–Danny? — coloquei minha mão em cima da dele — está tudo bem? Eu sei que o que eu fiz foi errado e que provavelmente você não me vê do mesmo jeito, mas

–Não é você — ele me interrompeu, a voz seca e dura, porém os olhos cheios de tristeza – espero que nossa relação não mude.

–É o Peter? Você contou para ele? — nessa exato momento, o garoto moreno entrou no salão, levantei o meu braço livre para chamá-lo, porém Danny agarrou a minha mão — então é o Peter.

–Eu não sei o que está acontecendo com ele – Dan se virou para checar se Peter havia deixado o salão e depois se voltou para mim – ele andava estranho e agora simplesmente parou de falar comigo.

–Você...

–Eu não contei pra ele – Danny me interrompeu pela segunda vez – e não pretendo contar, se depender de mim, Peter nunca saberá, eu só quero que a nossa amizade fique como está.

–Danny, você devia falar com ele, se não sobre os seus sentimentos, sobre os dele.

–Eu vou, em breve, mas não hoje – Danny se levantou e pegou a bandeja, sinalizando para que saíssemos do refeitório.

Porém, antes que eu pudesse me levantar, soou pelo lugar um barulho que normalmente predizia um anúncio.

–Atenção alunos – voz do Diretor ecoava pelo castelo — é com grande prazer que anúncio a realização do Baile de Inverno, à ser comemorado dia treze de dezembro. Em razão do Baile, ônibus para a vila estarão disponíveis nas sextas, sábados e domingos, para que todos tenham iguais oportunidades para procurar respectivos trajes, apropriados a um evento formal. Como sempre, o Baile terá um tema, e o desse ano será "Noite Estrelada". Mais informações estão por vir, esperamos vocês.

Um bipe indicou o fim da transmissão e logo depois, um grande viva foi ouvido. Olhei para Danny e notei que ele já estava olhando para mim.

–Já que você não vai com o Peter..

–Eu não conseguiria pensar em um par melhor – ele sorriu e estendeu o braço — podemos ir sexta feira para a vila, conheço uma boa loja de roupas de festas.

Olhei para Danny com suspeita, mas então me lembrei que ele estava no colégio há muito tempo, passei meu braço pelo dele.

–Nós podemos ir lá, a não ser que você tenha um vestido de festa guardado na mala.

–Bem, agora que você mencionou... — Danny me deu um leve empurrão.

–Venha, vamos ver se descobrimos mais alguma coisa sobre esse baile — ele entrelaçou nossos dedos e saímos juntos do refeitório.

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Sábado, dia seis de dezembro, nove horas da manhã, eu estava descendo apressadamente as escadas que levavam ao andar do refeitório. Tinha marcado de me encontrar com Danny e já estava atrasada.

Empurrei as portas e entrei no refeitório, quatro ou cinco mesas estavam ocupadas, grupos de três ou quatro alunos vestindo pesados casacos de inverno e conversando animadamente sobre o Baile que aconteceria no próximo final de semana. Na grande sala, uma cabeleira loira se destacou, seguida por um braço acenando euforicamente. Me aproximei da mesa de Danny, o garoto já havia se servido e comia de um prato cheio de ovos, bacon e torradas.

–Sem julgamentos – apontei para o prato e levantei as duas mãos acima da cabeça — vou me servir, não desapareça.

Danny, provavelmente por causa da boca cheia de comida, apenas assentiu. Voltei algum tempo depois, com um prato de sanduiches de manteiga de amendoim e geleia, Danny levantou uma sobrancelha ao ver meu prato tipicamente americano.

–Eu gosto – apontei para o prato dele, que a essa altura já estava pela metade – e eu não estou te julgando.

–Nunca consegui comer isso, sempre derrubava geleia na minha blusa – ele esticou o braço e pegou metade do meu sanduiche – vamos ver se realmente é bom.

Ele deu uma mordida gigante, praticamente terminando com o sanduiche, um pouco de geleia escorreu pelo queixo do garoto, quando eu apontei, ele tentou limpar, porém apenas piorou a situação.

–Aqui – peguei o guardanapo da mão dele – deixa que eu faço isso.

Me estiquei por cima da mesa e passei delicadamente no rosto dele, sujando ainda mais. Danny riu e bufou, com a boca muito cheia para falar. Passei do lado certo, limpando eficientemente. Uma freira que passava pela nossa mesa suprimiu um risinho, apenas ri da situação.

Terminei de comer meu café da manhã e cruzei os talheres sobre o prato. Olhei para Danny com o semblante sério.

–O que você sabe sobre Andrew? — perguntei

–Andrew? Não muito, ele é bem fechado, por que? — ele respondeu

–Não sei, tive uma conversa com ele — gesticulei para que fossemos embora – qual o pouco que você sabe?

–Bem pouco – Danny se levantou e pegou a bandeja, caminhamos juntos até a lixeira – ele foi um militar antes de vir dar aula, só sei isso, Seth é o mais comunicativo entre eles.

–Sério? Aconteceu alguma coisa?

–Não sei, de verdade, ele não gosta de falar sobre isso, então provavelmente foi algo ruim.

–Imagino que sim, isso pode destruir uma pessoa.

Havíamos chego nas portas e Danny tirou o celular do bolso.

–Temos dez minutos antes da van sair, quer ir pegar um café – ele perguntou, apontando para uma das máquinas, balancei a cabeça negativamente e Dan nos guiou para a escada.

Passamos pelo balcão da secretaria, onde Mickey mexia distraído no celular e abrimos as pesadas portas de madeira, todo centímetro do nosso corpo sendo invadido pelo vento frio que passava pelo castelo. O veículo já estava estacionado e o motorista, um homem gordo e calvo, por volta dos cinquenta anos, conversava com um jovem parado a poucos metros do carro. Danny abriu a porta e nós entramos, gratos pelo ar quente que circulava ali dentro. Ele puxou o celular do bolso e começou a jogar algum jogo que eu não conhecia, então apenas deitei a cabeça no ombro dele e puxei minhas pernas para mais perto.

Eu devo ter cochilado, pois acordei com Danny se mexendo subitamente.

–Bom dia, Bela Adormecida – ele apontou para fora, mostrando que já estávamos na vila – você baba enquanto dorme.

Levei a mão ao canto da boca, temendo ser verdade, porém Danny apenas riu e me empurrou levemente.

–Estou brincando – ele disse, passando o braço pelos meus ombros.

Olhei para trás e só então notei que não estávamos sozinhos, nos últimos bancos, duas figuras escuras conversavam e riam de alguma coisa, mesmo com os sons das risadas, não pude identificar nada mais que um menino e uma menina, também alunos do internato.

O motorista parou a van em uma pequena praça e desceu para abrir a porta.

–Não se esqueçam – ele colocou a cabeça para dentro do veículo – o último transporte sairá as cinco em ponto, não se atrasem.

Dito isso, ele se afastou e permitiu que nós descêssemos. Segurei o braço de Danny, esperando o casal descer primeiro. Assim que eles passaram, reconheci a menina.

–Laura – exclamei surpresa – não imaginava te ver por aqui.

Os dois viraram, surpresos por terem sido pegos em um momento íntimo. A garota tirou o braço da cintura do menino desconhecido, mas isso não pareceu incomodá-lo, visto que ele ainda estava abraçado ao pescoço de Laura.

–Charlie, desculpe, não tinha te visto – ela me deu um abraço rápido e um mero aceno para Danny – esse é Will.

Ela apontou para o menino um pouco mais baixo que Danny, com cabelos e olhos castanhos e covinhas adoráveis.

–É um prazer – ele disse, acenando com a cabeça, depois, ele olhou no pulso da mão livre, de onde pendia um relógio – baby, temos que ir, marcamos as dez com a minha mãe.

Se Laura se incomodou com o apelido normalmente romântico, ela não disse nada, pois apenas apontou para a rua às nossas costas e se despediu de nós.

–Nos vemos por aí – então, ela e o garoto desapareceram, me deixando sozinha com Danny e com o motorista da van, que se preparava para voltar ao castelo.

–Certo, onde é essa loja misteriosa? – ele apontou para a rua oposta à que nossos amigos tinham ido.

–Por aqui, madame – ele me ofereceu o braço, como um perfeito cavalheiro.

Caminhamos por alguns minutos, ocasionalmente entrando em becos enquanto íamos, obviamente, rumo a parte mais antiga da cidade. Depois de mais ou menos dez minutos de caminhada em um silêncio confortável, Danny apontou para uma esquina, com um charmoso restaurante italiano.

–Nós vamos almoçar aqui – ele disse, já pensando no almoço mesmo depois de ter comido tanto no café – a melhor lasanha da Escócia.

–Aposto que sim – se tinha uma coisa que Danny tinha, era um bom paladar – onde é a loja?

Ele apontou para a esquina oposta ao restaurante, à distância que estávamos, não consegui identificar nada mais que uma pequena placa desgastada.

–É aqui? – perguntei.

Ao chegarmos mais perto, notei que a placa nem mesmo era da loja e sim, de uma padaria que provavelmente não existia mais. Estávamos parados na frente de uma porta de madeira escura, com uma maçaneta dourada que brilhada, contrastando com a porta lascada.

–Sim – ele disse, girando a maçaneta e entrando na loja.

Ao entrarmos, me surpreendi e imediatamente me arrependi de qualquer pré-conceito que pudesse ter tido devido à fachada da loja. Estávamos em um ambiente claro e bem iluminado, com lustres de cristais pendendo do teto e vestidos cobrindo paredes inteiras.

–Essa foi a campainha? – uma voz rouca e que soava idosa saiu de trás de uma cortina nos fundos – Bernie, vá lá ver se foi a campainha.

Nesse momento, saiu de uma portinha antes escondida pelas cortinas vermelhas, um garoto que não devia ter mais do que cinco anos. Cabelos castanhos cacheados e brilhantes olhos azuis.

–Vovó – ele chamou com uma voz infantil – tem gente aqui.

Novamente a porta se abriu, e saiu dela uma mulher por volta dos sessenta anos, os mesmos cabelos encaracolados, embora os delas já estivessem brancos, e os mesmos olhos azuis, que não exibiam sinal nenhum de fadiga. O menino correu e se escondeu atrás da mulher, nos olhando com os olhos grandes e curiosos. A senhora parou ao ver Danny.

–Daniel – ela disse e depois sorriu.

Danny sorriu também e se aproximou para abraçar a mulher.

–Margot, já faz um tempo – para a surpresa de todos nós, a senhora deu um tapa na cabeça de Danny, fazendo o garoto levar a mão ao local machucado.

–Precisa de um evento escolar para trazer você até aqui? – ela ralhou, porém Danny apenas sorriu – nem mesmo uma visita? Agora, no primeiro baile, você vem correndo para minha loja.

Ela provavelmente iria continuar, porém a criança interrompeu, puxando as saias da mulher.

–Vovó, é o tio Danny? – ele perguntou, se afastando um pouco mais das saias da vó e se aproximando do meu amigo.

–Hey Bernie – Danny esticou os braços e o garoto correu para eles, sendo levantado no ar e depois arremessado para cima.

Margot não pareceu se importar, provavelmente estava acostumada a ver pessoas jogarem seu neto para o alto.

– Olá – ela disse, vindo na minha direção e estendendo a mão ossuda – Margot Tanner.

–Charlie Mills – apertei a mão que ela oferecia.

–Soube que vocês têm um Baile – ela disse, ainda segurando minha mão.

–Sim senhora, semana que vem – quando disse isso, Danny se virou, com os olhos cheios de terror e quase fez a criança despencar de onde ela estava sentada, com as pernas entre o pescoço de Danny.

–Semana que vem – ela olhou para meu amigo com fúria – eu não faço milagres, Daniel.

–Claro que não – ele disse, sorrindo e acrescentando – mas a melhor costureira do Reino Unido deve ter alguns truques na manga.

–Sim, mas a sua bajulação não vai funcionar – ela retrucou, porém, pude perceber um leve rubor nas bochechas dela, Margot suspirou – qual o tema do baile?

–Noite Estrelada – eu disse, analisando os vestidos que estavam mais próximos a mim – estava pensando em um vestido preto, com detalhes dourados ou prateados.

Margot assentiu, indo até uma arara mais distante e voltando com três vestidos longos.

–Veja o que você acha desses, querida – ela colocou eles em uma mesa e eu me aproximei.

Dois deles eram pretos e outro era azul escuro. Um dos vestidos pretos tinha estrelas douradas, que brilhavam conforme a luz batia nelas. O outro mudava de cor dependendo do ângulo, parecendo uma galáxia em constante movimento. O azul tinha estrelas prateadas e alguns detalhes cinzas, imitando um céu noturno e nublado, porém estrelado. Peguei os três, surpresa ao constatar quão leve eles eram. Olhei para Margot, a mulher apenas sorria, me observando. Danny estava mais distante, com os braços cruzados e um sorriso satisfeito. O garoto caminhou até o fundo da loja, abrindo uma cortina e revelando uma sala que servia de provador.

–Venha – ele disse, estendendo a mão.

–Nada disso – Margot cruzou o recinto e ficou na frente de Danny – não na minha loja, você espera aqui.

Dei risada da situação e entrei na sala, Margot tendo certeza que Danny não entraria. Ouvi o garoto discutir alguma coisa com ela, e alguns segundos depois, a cortina se abriu e ele entrou.

–Não sei se gostei desse – ele disse ao ver que eu tinha provado o primeiro vestido preto – ele te deixou meio apagada.

–Certo – olhei o vestido novamente, de fato, combinado com os meus cabelos pretos, a roupa me deixava extremamente pálida – vamos ver o próximo.

Tirei com cuidado e pendurei em um cabide, colocando o segundo vestido.

–Pelo menos eles são longos o suficiente – apontei para meus pés, que estavam cobertos pelo tecido – eu costumava ter problemas com isso.

–Não mais – Danny sorriu e se sentou em uma cadeira, fazendo sinal para que eu girasse.

–Eu gostei desse – exclamei, o tom preto não chamava muita atenção, porém o efeito das galáxias compensava esse fato e era certamente dentro do tema escolhido para o baile.

–Não sei, acho que o outro vai ficar perfeito – suspirei e provei o último vestido.

Danny sorriu quando me viu, e os olhos dele aumentaram ainda mais quando eu me virei e pedi que ele fechasse o zíper. Assim que ele colocou os dedos nas minhas costas, uma pequena cabeça apareceu na cortina, apenas para desaparecer logo em seguida e ser substituída por uma mais velha.

–Eu sabia – Margot disse, vitoriosa.

–Estou apenas ajudando uma jovem em necessidade – Danny exclamou, apontando para o zíper que estava claramente fora do meu alcance.

–Sei – Bernie, apontou para os olhos e depois para nós dois – estamos de olho em vocês.

Depois, as duas cabeças desapareceram, nos deixando sozinhos. Danny fechou o vestido e eu olhei maravilhada, fiquei alguns segundos em silêncio, tentando achar alguma coisa que fosse falha e provar para Dan que ele estava errado. Infelizmente, não havia nada.

O tom azul escuro realçava meus olhos, e os detalhes prateados brilhavam. Ele era fino, porém tinha tecido extra na cintura que se abria conforme eu andava, o vestido era perfeito. Olhei para Danny e ele sorria satisfeito.

–Acho que achamos o seu vestido – ele pegou os outros dois e saiu da sala, me deixando sozinha para trocar de roupa.

Quando terminei de vestir todas as minhas camadas e sai do provador, Danny já estava na frente de um espelho, usando um terno preto e uma gravata da mesma cor do meu vestido.

–O que você acha? – ele perguntou, terminando de abotoar o paletó e dando uma volta.

–Quase tão bonito quando você – Dan sorriu e fez que sim com a cabeça.

Margot apontou para um cabide e Danny começou a se despir, aparentemente não se importando de estar na frente de mulheres e criança. Ele pendurou o terno e só então percebi que ele usava uma cueca de corações vermelhos.

–É sério isso?

–Elas são extremamente confortáveis na.... – levantei a mão.

–Eu não preciso saber.

Me virei de costas enquanto Danny terminava de se vestir e enquanto Margot arrumava as duas roupas. Olhei no relógio, já eram onze e meia, nem tinha percebido o tempo passar. Como se para confirmar, meu estomago roncou. Danny se aproximou, agora vestido apropriadamente e passou o braço pelo meu ombro.

–Está com fome? – ele perguntou, tirando uma mecha de cabelo do meu rosto e colocando atrás da orelha.

–Vocês estão namorando? – Bernie perguntou, aparentemente alheio a toda a discussão sobre o assunto anteriormente.

–Não – Danny e eu respondemos juntos.

–Somos apenas amigos – terminei, Dan tirou o braço do meu ombro e levantou a criança, bagunçando-lhe os cachos castanhos.

Nunca tinha percebido, mas ele era bom com crianças, com certeza seria um ótimo pai. Interrompi a minha linha de pensamento quando Margot anunciou que os vestidos estavam prontos.

–Podemos deixar eles aqui por mais um tempinho? – Danny perguntou com um sorriso inocente – vamos almoçar e já voltamos.

–Daniel, eu não sou um guarda-volumes.

–Eu não quero arriscar estragar seus lindos vestidos – meu amigo apontou.

–Certo, mas não garanto que não vou vende-los – Margot disse com um sorriso, antes de sinalizar que fossemos embora.

Saímos da loja, atravessamos a rua e estávamos na porta do restaurante. Um homem vestido de garçom abriu a porta para nós.

–Mesa para dois, por favor – o homem apontou para uma mesa no canto.

–Por aqui – ele nos guiou pelo lugar, decorado inteiramente em madeira e tons de vermelho.

Além de nós, os únicos outros ocupantes eram um casal idoso, que comia e conversava baixinho e um executivo que batia impacientemente na mesa. Danny puxou a cadeira para mim e eu agradeci com um aceno de cabeça.

–Para o casal – o mesmo garçom voltou, segurando uma vela e a colocou no meio de nós, ele também nos deu o cardápio.

Abri e fingi examinar, esperando o homem se afastar. Danny puxou o cardápio da minha mão.

–Eu te convidei, eu escolho – ele disse fechando os dois e acenando para o garçom.

–Duas lasanhas à bolonhesa, por favor – o homem tirou um pequeno caderninho do bolso e anotou os nossos pedidos.

–Algo para tomar?

–Uma água para mim, sem gás – Danny respondeu e apontou para mim.

–O mesmo que ele – o garçom assentiu e se afastou, levanto o pedido até uma janelinha da parede mais distante.

Caímos em um silêncio confortável. Danny mexia na toalha vermelha e branca e eu examinava a decoração nas paredes, que eram cobertas por bandeiras da Itália, objetos para a fabricação de massa caseira e fotos das paisagens italianas.

–Te incomoda que as pessoas achem que nós somos um casal? – Dan perguntou, quebrando o silêncio.

–Por que me incomodaria?

–Não sei, tenho a impressão de que estar perto de mim afasta possíveis pretendentes.

–Bom, certamente a atenção masculina que eu recebi diminuiu a quase nada desde que eu me tornei sua amiga, mas isso não me incomoda.

–Porque eu acho que....

–Danny – cortei ele – não ter namorados é um preço pequeno a se pagar em comparação à sua amizade – estiquei o braço e pousei a minha mão em cima da dele – eu achei algo muito melhor que um interesse romântico em você.

Ele sorriu com o que eu disse, colocando a outra mão em cima da minha e apertando gentilmente.

–Se algum dia você quiser mais espaço, é só me dizer – ele disse com um sorriso triste – oh, lá vem.

Olhei para onde Danny estava apontando e percebi que, de fato, o garçom se aproximava com uma bandeja.

–Bom apetite – ele disse, ao colocar um prato gigante de lasanha na minha frente – espero que vocês gostem.

Dan nem parou para me olhar, ele imediatamente pegou o garfo e a faca e atacou o prato, parando apenas para tomar eventuais goles de água. Comi uma garfada e imediatamente sorri, aquela era, sem dúvida nenhuma, a melhor lasanha que eu já havia comido.

–Eu disse que era boa – Danny falou, com a boca cheia.

Fora essa interação, nós dois estávamos muito ocupados comendo para conversar. Foi apenas quando Danny terminou, muito antes que de mim, que ele falou novamente.

–Sobremesa? – deixei escapar um suspiro e fiz que não com a cabeça.

O garoto chamou o garçom e falou alguma coisa que eu não entendi, pouco tempo depois, o homem voltou com uma espécie de bolo, branco e canela.

–O que é isso? – apontei para o prato, assim que terminei de cruzar os talheres.

–Tiramisu – Danny arregalou os olhos quando eu fiz que não com a cabeça – é uma sobremesa italiana, feita com café e mascarpone.

Ele pegou um pedaço e me entregou o garfo para que eu provasse.

–Meu deus – eu falei, assim que terminei de mastigar.

–Apenas Danny – ele riu da própria piada, depois se endireitou – eu sei, é muito bom.

Ele terminou de comer e olhou o celular.

–Nós podemos sair correndo e chegar em cinco minutos onde a van vem nos pegar, ou podemos esperar meia hora nesse belíssimo restaurante com essa maravilhosa sobremesa – ele me olhou, cruzando as mãos sobre a mesa.

–Como se você precisasse perguntar.

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Domingo, dia sete de dezembro. Estou deitada na minha cama, já é o meio da tarde e meu cérebro resolveu que seria um bom momento para lembrar do trabalho de geografia para o dia seguinte. De algum modo consegui terminar a atividade sobre relevos e escalas e agora estou deitada na cama, encarando o estrado da cama da Ren e pensando nos acontecimentos desse ano. Todos os poderes misteriosos, minhas ainda mais misteriosas colegas de quarto, meu melhor amigo gay, que aparentemente tem uma queda pelo melhor amigo dele e meu primeiro ano no ensino médio.

A ansiedade aumenta conforme o Baile de Inverno se aproxima, não apenas pelo grande evento escolar, mas também pelo meu misterioso desenho. Estava pensando e aparentemente, a única ocasião que exigiria uma roupa mais formal seria essa. Estava pensando em sair procurar por Ren, discutir isso com ela, quando a porta do quarto se abriu e a menina entrou.

–Charlie – ela sorriu ao me ver, porém o brilho não chegou aos olhos.

–Ren – levantei da cama – tenho que conversar com você.

–Claro – ela franziu o cenho – está tudo bem?

–Sim, quer dizer, na medida do possível, mas não é isso – olhei ao redor, para me certificar de que estávamos realmente sozinhas – aquele desenho, o Baile de Inverno seria uma boa oportunidade para alguém usar uma roupa tão chique.

O olhar dela ficou vago, como se ela tivesse distraída por um pensamento bem especifico, mas depois ela voltou a me olhar.

–Claro – ela deu tapinhas no meu ombro e pegou uma bolsa que estava em cima da cama – vamos pensar em um plano.

Com essa frase ambígua, ela saiu, me deixando novamente sozinha com meus demônios e meus pensamentos.

Notas finais
~Nymeria. Mil desculpas pela demora, culpem na pressão do terceirão e nas responsabilidades que vem com o ENEM e as provas de vestibular. Esperamos postar o próximo em breve.