Notas iniciais
musicas: http://www.youtube.com/watch?v=tN_HVup9oOg (you’re my best friend) - primeira cena http://www.youtube.com/watch?v=lMSkC2PGyTs (dancing with the devil) - resto

Um menino, não mais do que 8 anos, levanta da cama, sua boca aberta em um bocejo maior do que seu rosto. Ele esfrega os olhos tentando se acostumar com a luz e joga um olhar mortal para a garota rindo ao lado das cortinas abertas. Seus olhos pregam peças e, por um instante e ele pensa estar encarando seu próprio reflexo.

– Feche as cortinas Liz! – ele exclama para a irmã, se enfiando embaixo das cobertas.

– Não seja rude Tommy! Henrietta disse para acordar-lhe. Então vamos! – ela sorri e vai pulando na direção do garoto.

Tommy, ainda irritado por ter sido acordado tão cedo, resmunga embaixo das cobertas, se recusando a encarar a irmã. Ele grunhe alto o suficiente para Lizzie entender a mensagem. “Rude!” ela pensa e infla as bochechas, com raiva, pensando logo em um jeito de provocá-lo.

– Se você se recusa a escutar-me e insiste em dormir mais, eu vou embora – ela exclama com tom de orgulho.

A sala logo mergulha na escuridão novamente, quando as pesadas cortinas de veludo cobrem as altas janelas, escondendo os peitorais decorados em prata. A menina espera por algum movimento por parte do irmão, que nem resmunga com a mudança. “Deve ter voltado a dormir”, ela pensa e se aproxima nas pontas dos pés, em silêncio para que ele não a note. O menino dormindo na cama, ainda grogue de sono, nem percebe a ameaça. Aos poucos a menina gruda na beirada da cama dele e em um ato rápido se apoia na cabeceira e grita o mais alto que pode se jogando em cima de Tommy.

Um grito agudo é escutado pela casa inteira quando ele percebe o corpo caindo em cima dele. Liz não tem tempo nem de pensar enquanto o menino se joga para fora dos cobertores e começa a se espernear.

– É o apocalipse! Deus, perdoe-me pelo biscoito que roubei de Fergus ontem! – ele grita assustado e não percebe a perna que ainda estava enrolada no cobertor, perdendo o equilíbrio e caindo no chão.

– Tommy – a garota fala se pendurando de ponta cabeça na cama e espiando o irmão caído – Você realmente roubou o biscoito do Fergus ontem?

O garoto cora profundamente e tenta negar, embaralhando-se com as palavras. Lizzie só ri da situação, sentando de volta na cama. Aproveitando da falta de atenção da irmã, Tommy rapidamente escala novamente o colchão e senta na frente dela.

– Não tem graça – ele reclama, bochechas ainda vermelhas – se ele descobrir, estou morto!

– Nunca! – a menina exclama, saindo do seu estado de risadas e assumindo um tom surpreendentemente sério para uma criança – Eu nunca vou deixar ninguém lhe machucar!

Lizzie junta os lençóis da cama e joga-os delicadamente por cima da cabeça do irmão, como se fosse um véu. Segurando as duas pontas embaixo do queixo do menino, ela se aproxima e encosta a testa na dele em uma promessa silenciosa.

O quarto afunda em um silêncio profundo, como se as batidas dos corações dos dois gêmeos estivessem entrando em sincronia e nem o mais sutil dos ventos quisesse interrompe-los. Thomas fecha os olhos, aconchegado pela presença calorosa da irmã.

– Eu sempre vou estar aqui para te proteger Tommy. Você é o meu melhor amigo.

As palavras deixam a boca de Lizzie, tão puras e cheias de significado, que o menino cora novamente. As palavras pinicam a boca de Tommy. Ele quer desesperadamente falar que também sempre a protegeria e sempre estaria do seu lado. Liz era sua melhor amiga, mas desde que os dois nasceram, juntos, sempre juntos, ela sempre foi a protetor e ele o bebê chorão. Tommy queria protege-la e cuidar dela, ele a amava mais do que tudo, mas não tinha os poderes necessários para manter a irmã a salvo. Ela era a irmã mais velha, ela era seu anjo da guarda. E ele? Ele apenas um estorvo, um incomodo, uma irritante pedra no sapato. E isso doía.

– Você parece uma freira desse jeito – a menina interrompe os pensamentos do irmão, rindo – ou uma noiva... Minha noiva!

– O que? – ele exclama, corando mais uma vez.

Elizabeth toma vantagem desses segundos e pula da cama. Ela sai correndo pelo corredor, ainda rindo do irmão. Thomas, por sua vez, não perde tempo e desenrola-se dos lençóis. Os dois correm em disparada pela casa. Liz perde um pouco a velocidade ao descer as escadas e chega na sala de estar ofegante.

A menina sorri e acena para Margareth e Joseph, dois dos seus muitos irmãos mais velhos. Os dois sentam juntos em um sofá, dividindo o mesmo livro. Elizabeth pressiona o dedo indicador nos lábios e se esconde atrás do sofá em que eles sentavam. Margareth ri para o irmão mais velho e os dois voltam a ler juntos, agora escondendo a irmãzinha.

Tommy chega na sala momentos depois, mais ofegante do que Liz e começa a olhar em volta. Joseph passa um braço ao redor de Margareth para esconder melhor Elizabeth atrás deles.

– Onde está a Elizabeth? – Thomas pergunta aos dois irmãos mais velhos.

– Ela foi acordar você nesta manhã Thomas – Margareth desvia os olhos da enorme enciclopédia – Não a vimos desde então. Porque?

– Nenhum motivo especial – O garoto dá de ombros e começa a andar pela sala.

Elizabeth pressiona a mão contra o rosto para abafar uma risada, mas Tommy, escuta a irmã gêmea e pula no meio dos irmãos mais velhos. Ele olha para trás do sofá e Lizzie solta um grito agudo. Joseph, ainda no meio da brincadeira envolve o irmão com os braços e segura-o no lugar.

– Corra Elizabeth, enquanto ainda há tempo! – ele exclama rindo.

A menina obedece o irmão e pula para fora do sofá correndo para o outro lado da sala.

– Traidor! – Thomas exclama, esperneando-se nos braços de Joseph.

Elizabeth vira para trás por um segundo para ver o irmão sendo segurado pelos outros dois. Não vendo para onde estava indo, a menina tromba em uma superfície macia e cai no chão. Percebendo a presença de mais alguém na sala, Tommy para de se mexer e seus irmãos o soltam. Erguendo a cabeça para ver quem era, Elizabeth imediatamente sorri.

– Henrietta – Liz murmura.

A mulher sorri de volta para a irmã mais nova e estende uma mão para ajudar a pequena. Lizzie aceita a ajuda e pega a mão pálida da irmã mais velha, muito maior do que a dela e delicada como a de um anjo. Henrietta usava um vestido bege, delicadamente detalhado, com laços feitos de seda. Ela parecia tão bela parada naquele canto tão escuro da casa que até mesmo o sol teria medo de brilhar ao seu lado.

– Você não deveria estar correndo dentro de casa Elizabeth – a mulher responde, sorrindo.

Liz apenas acena com a cabeça.

– Thomas – ela chama, suavemente. O menino se solta dos braços de Joseph e Margareth, que, imediatamente, voltam a ler – Porque vocês não se aprontam para o almoço? A cozinheira já deve estar terminando o banquete – Henrietta guia a minúscula mão de Elizabeth e entrega-a para Tommy, o garotinho olha para cima para a irmã mais velha.

Um sorriso gigante se estica nos lábio do menino. Ele aperta a mão da irmã gêmea, em uma promessa silenciosa de que iria tomar conta dela. Henrietta dá um tapinha nas costas dos gêmeos, como que os apressando gentilmente a se aprontarem. As duas crianças soltam gritinhos abafados e se apressam na direção do quarto, gargalhando.

Antes de desaparecer no topo das escadas, Tommy olha para Henrietta mais uma vez. Seus olhos se encantam com a visão, a irmã que ele tanto admirava. A mulher que era mais sua mãe do que a própria, sorri mais uma vez para ele. Um sorriso tão calmo, tão belo e de certa forma, tão etéreo.

– Nós sempre vamos ser melhores amigos certo? – Tommy murmura, tirando os olhos das pessoas no andar de baixo. Ele encara a irmã, ainda agarrada na sua mão. A pergunta escapa pelos lábios dele antes que possa impedi-la e, sem saber que resposta queria escutar, ele espera as palavras de Lizzie.

– Sempre – ela exclama, com um sorriso sincero no rosto e um coração cheio de amor para dar. E na hora, a resposta tinha sido uma promessa do futuro que ela desejava.

°_°_°_°

O vento gelado atinge meus rosto fazendo meus dentes trincarem. O inverno já havia chegado e os campos do internato já estavam cobertos de neve. Aperto o passo em direção ao castelo, sabendo que uma vez dentro das paredes estaria mais quente.

Esfrego minhas mãos. Apesar dos uniformes de inverno já terem sido entregues, havia sido teimosa e não colocado eles hoje. Já estava me arrependendo. Vejo as portas do castelo ao longe e dou uma corridinha até ele. O ar quente imediatamente me atinge. Sinto meu corpo voltar a vida e volto a sentir meus dedos do pé. Subo correndo as escadas em direção ao segundo andar. Já estava quase na hora do almoço, então a maioria dos alunos estava no refeitório ou perto.

Decido mudar meu visual antes de congelar de vez e passo para as escadas do terceiro andar. Encontro alguns inspetores no meu caminho, mas apenas falando que queria trocar de roupas e gesticulando para minha saia já era o suficiente para eles me deixarem passar. Corro até o meu dormitório, não querendo perder o almoço. Entro no quarto e começo a separar as roupas de inverno.

Uma meia calça grossa de lã preta para usar com a saia. Botas de inverno de escalada ao invés de tênis de corrida. Trocar o blazer e colocar um casacão de inverno impermeável por cima do suéter da escola. Luvas e cachecol, ambos com o emblema da escola costurado.

Troco-me rapidamente e saio do quarto. As roupas eram impressionantemente confortáveis e quentes. Não teria mais problemas no inverno. No meio do caminho até o terceiro andar uma voz me assusta. Procuro sua fonte e vejo um autofalante grudado no teto.

–A direção informa que o baile de inverno desse ano será realizado no dia treze, durante esse tempo e dois dias depois o ginásio estará indisponível para atividades devido às preparações e posteriormente à organização do espaço. As vestes devem ser de gala e o tema desse ano é espaço. Tipo... Galáxias e... – um voz soa atrás — Shiu! Eles entenderam! Ah sim, é claro que sim. Enfim, lembramos que a vila tem uma loja que dá descontos aos alunos do internato e que... Os homens sintam-se livres para convidar suas parceiras. – sua voz muda e sai em um tom romântico, torço o nariz – Mickey me dá isso aqui! – o microfone parece ser arrancado de sua mão – Hm. Devido ao momento da foto, todos devem entrar acompanhados, mesmo que seja com um grupo de amigos. Ninguém pode entrar sozinho, é um momento para confraternização. Esperamos a presença de todos, obrigada pela atenção.

Baile de inverno? Essa não. Volto a andar em direção ao refeitório, dessa vez mais devagar. Se já tive problemas em arranjar uma roupa decente para o Baile de boas vindas, imagina agora que a festa seria muito mais formal. Entro no refeitório, não dando muita atenção para os meus arredores.

Ainda pensando no Baile, entro na fila e pego uma bandeja. Agradeço aos céus pelo meu apetite ter retornado e o enjoo passado. O bufê era enorme, cheio das mais variadas comidas de todos os países imagináveis. Sinto-me nostálgica e decido pegar comida japonesa. Encho o meu prato e sento em uma mesa vazia no canto do refeitório. Mastigo o arroz não prestando muita atenção. Tinha que comprar um vestido para o baile, claro que eles iam dar alguns dias para podermos visitar a vila, mas não podia desperdiçar meu dinheiro com algo tão banal.

Acabo decidindo passar na vila mais tarde e comprar o vestido mais barato possível. Ia perder grande parte do dia com isso e ia ter que gastar meu dinheiro, mas não tinha outra opção.

Termino minha comida e descarto as sobras apropriadamente. Decido dar uma rápida volta pelo jardim antes de passar na vila e começo a me dirigir as escadas. Antes que possa sequer chegar perto dela, porem, meu corpo começa a se sentir mole. Minha cabeça gira e minha visão embaça. Tenho a noção de estar respirando pesadamente e percebo meu corpo cair de joelhos no chão e minha mão procura apoio na parede. Mas meus olhos já não veem mais o colégio, a escadaria, mas sim uma paisagem coberta de neve. Um descampado gelado, por onde duas crianças correm, segurando uma a outra como se suas vidas dependesse disso.

– Liz – sua voz é trêmula, quase um sussurro. A menina se aproxima do irmão, querendo escutar suas palavras – você precisa me prometer que não vai falar isso para ninguém. Isso tem que ser o nosso segredo.

– Claro – ela responde, nem um segundo de hesitação – Não importa o que seja Tommy, eu sempre estarei aqui. Vai ficar tudo bem – Elizabeth promete em um sussurro pressionando os lábios na testa do irmão.

Thomas assente e inclina a cabeça na direção da irmã. Suas mãos logo se entrelaçam e o menino começa a correr pelos campos cobertos de neve. Ele arrasta a irmã gentilmente, cada vez mais longe de casa. Longe de tudo o que odeiam.

Elizabeth perde a noção do tempo. Seu coração bate descompassado dentro do peito, cheio de medo e apreensão, mas suas pernas continuas seguindo o irmão, se recusando a deixa-lo ir para longe.

De repente o menino para. Ele solta a mão que antes se recusava a largar, como se estivesse se despedindo de tudo que havia acontecido no passado. Como se nada mais importasse. Seu braço cai ao lado do corpo e ele dá alguns passos para longe da irmã. Elizabeth tenta segui-lo, mas o menino faz que não com a cabeça. Ele se afasta cada vez mais.

O coração da menina pula. Thomas estava estranho, Thomas parecia estranho. Sua respiração pesada dificulta a rapidez de seu raciocínio e o frio cortante faz seus lábios tremerem e sua visão embaçar. O suor de estar correndo e o clima gelado penetra nas roupas de inverno de Elizabeth e a menina trinca os lábios de frio, já sentindo-os racharem.

Ela tenta olhar para cima, mas não vê nada, a visão dela está embaçada, seus olhos cansados. Por quanto tempo eles haviam corrido? O quão longe eles estavam?

– Tommy – ela murmura, mas sua voz é abafada por uma rajada de vento. A menina agarra o cachecol em volta do pescoço e puxa-o mais para perto, cobrindo o rosto até o nariz.

Ela sente medo, medo do irmão que agora parece estar tão distante. Porque ele estava fazendo isso? Não era ele que sempre esteve ao seu lado? Porque abandona-la agora?

– Liz – Thomas grita de longe – olhe para cima – o menino soa ansioso e terrivelmente assustado.

Escutando a voz assustada dele, Elizabeth logo ergue os olhos e pisca diversas vezes para tirar a neblina da visão. Era uma reação natural, um instinto involuntário. Seu irmão precisava dela, logo ela estaria lá. Simples assim.

– Prometa que não vai falar disso para ninguém – ele grita, se esforçando para ganhar da tempestade.

– Eu já prometi Tommy – a menina não sabe de onde tirou as forças para responde tão ferozmente como havia respondido, mas usando esse impulso ela grita mais uma vez – seja lá o que for, eu estou do seu lado. Sempre vou estar! Você é o meu melhor amigo!

As palavras de Liz parecem ter um efeito imediato no garoto, pois ele abaixa os braços, como se saindo de um estado de defesa. Uma respiração profunda ecoa pelo descampado coberto de neve. Elizabeth encara o irmão, ainda em dúvida do porque ele precisava de tal promessa. Curiosa sobre o que ele queria mostrar-lhe.

Thomas por outro lado, abaixa o olhar e passa a se concentrar em sua respiração, lentamente a acalmando. A medida que cada baforada de ar deixa os pulmões do garoto o universo parece parar e respirar com ele. Entrando em sintonia, preparando-se para o comando de um maestro. Um dos braços de Thomas lentamente se ergue para os céus, chamando a atenção de Liz.

– Liz, let me show you something magical.

Ele respira fundo mais uma vez, reunindo toda a sua coragem e energia, e abre o punho. Uma a uma os flocos de neve param de caírem pesados e tempestuosos e ficam suspendidos no ar, flutuando.

Elizabeth engole um grito de surpresa e pressiona uma mão enluvada sobre os lábios. O coração da menina para e por um segundo apenas uma palavras pisca em sua mente. Magia. Seus lábios se abrem por detrás de suas mãos e ela fica dividida entre sair correndo ou continuar parada, encarando aquele momento único.

Tommy não espera a irmã decidir e, antes que Liz possa se mexer, ele move os braços, como um maestro controlando o espetáculo, e os flocos de neve começam a se moverem pelos ares. Eles flutuam de acordo com a vontade de seu mestre e brilham a luz da lua, como minúsculas joias de prata.

A dança continua ao redor dos céus e logo desce para envolver Elizabeth. A menina se assusta primeiramente, mas logo percebe o lindo padrão em que os flocos de neve se mexem. Eles se juntam formando estrelas, cada uma com seu brilho único e maravilhoso. Ela exclama em surpresa quando algumas delas começam a avançarem em seu corpo, grudando-se em sua roupa. O susto inicial é breve e logo ela percebe o que estava acontecendo.

Os flocos de neve se agrupam sobre sua roupa, substituindo-a como mágica. A menina teme o frio que sentira se suas roupas forem substituídas pelo gelo, mas logo que esse entra em contato com a sua pele, ela percebe o quão quente e agradável a sensação é. É quente e aconchegante, mais do que as roupas que ela usava antes.

Logo o longo e pesado vestido de inverno desaparece e em seu lugar um belo vestido branco brilha sobre a pele branca de Elizabeth. Sobre a sua cabeça os flocos de gelo começam a se acumularem, formando uma coroa sobre os cachos negros da menina. Era como um sonho.

– Me concede essa dança milady – Thomas sai de dentro do circulo de neve, uma mão estendida carinhosamente para Elizabeth.

– Mas é claro – a menina responde, pegando a mão do irmão delicadamente.

Ela se sente sendo puxada para perto dele e segura seus ombros com as duas mãos, enquanto ele enrola sua cintura com seus braços. O casal de gêmeos dança lentamente entre os flocos de neve, acompanhando-os em um ritmo quase etéreo.

– Prometa-me que não contará isso para ninguém.

– Claro que não – Liz responde, desancado a cabeça nos ombros do irmão e fechando os olhos – eu nunca deixaria ninguém lhe fazer mal. Nunca – ela murmura endireitando a cabeça e encostando sua testa na dele.

Mesmo com os olhos fechados Elizabeth sente o irmão sorrir e não pode evitar um sorriso também. Ela estava feliz, embora não soubesse o que estava acontecendo. O mundo deles tinha acabado de virar de ponta cabeça e ela já não sabia mais o que iria acontecer com eles. Mas eles estavam juntos, juntos como sempre estiveram. Então tudo ficaria bem. Porque aqui e agora, ela sentia como se estivesse dançando nos braços de um anjo. Segura e protegida de todo o mal.

A visão acaba tão repentinamente como veio. Engulo em seco e olho ao meu redor. Não havia ninguém no corredor, ou perto de mim, o que significava que ninguém tinha visto meu colapso. “Sorte”, penso, levantando-me com cuidado do chão.

Testo minhas pernas, não retirando minha mão de seu apoio na parede. Quando vejo que a minha estabilidade voltou começo a caminhar em direção as escadas como se nada tivesse acontecido. Apesar de Elizabeth ter me dito que as visões ficariam mais claras e menos dolorosas agora que eu havia entendido e aceitado meus poderes, elas ainda não me diziam nada. Até agora tudo que eu havia visto foram incontáveis momentos da infância da mulher e de Thomas. Minha mente estava no mais completo caos.

Esse Thomas que aparecia em minha visões, serio o nosso professor Thomas? E se fosse, como ele ainda poderia estar vivo? Seria ele o homem que está causando todas essas mortes? E se realmente for ele, porque Elizabeth não, simplesmente, me diz o que está acontecendo? Sem charadas, sem pegadinhas, sem mistério. Só uma frase, uma conversa, uma informação que não venha terrivelmente criptografada.

– Ren! – uma voz me surpreende antes que possa alcançar o primeiro degrau.

Olho para trás e vejo Jaime parado em frente a sala de armas, acenando para que eu entre. Não acho que tenha muita escolha em situações como essa, então aceno que sim e passo pela porta atrás dele, guardando minhas duvidas sobre as visões no fundo da minha consciência. James continua entrando, até chegar no quarto dele.

Ele se senta na cama e apoia os cotovelos nos joelhos, encarando-me com uma pena que dava náusea.

– Não sou um cachorrinho sem dono para você me olhar assim – retruco, mais friamente do que o desejado.

– Então pare de agir como um e faça alguma coisa com relação a situação – o tom de voz irônico e zombeteiro do homem me faz duvidar da real intenção da frase.

– O que?

Ele suspira e parece desapontado. Não tenho certeza. Levantando e se dirigindo para o armário perto da porta, Jaime tira uma pacote fechado de dentro.

– Presente – ele fala, me passando uma caixa de tamanho médio. Parece ter esquecido da frase que tinha acabado de falar.

– Para mim? Por que? – me assusto por um segundo. Porque ele estaria me dando um presente? Porque para mim?

– Abra e vai descobrir – ele responde, voltando a se sentar na cama despreocupadamente.

Minhas mãos tremem um pouco. Faziam anos desde que não ganhava nenhum presente e nem havia uma situação para eu estar ganhando um. Então, porque?

Engulo em seco e sento-me do lado do homem. Minhas mãos tremem ao abrirem a caixa. Não entendo direito do que estava com medo. Talvez parte de mim esperasse que isso fosse uma armadilha e que Jaime fosse, na verdade, meu inimigo. Porque mesmo depois de todos esses anos era para isso que eu tinha sido treinada para acreditar. “Não pare, continue andando”, sim, andando em direção ao futuro, um futuro que só poderia ser alcançado se eu sobrevivesse. E eu só iria sobreviver se desconfiasse de todos, se derrotasse meus inimigos, se os visse antes que eles se mostrassem.

Essa era a minha cabeça. Tao confusa e tão barulhenta. Sentimentos humanos constantemente lutando contra a máquina de guerra que eu fui criada para ser. Abrir a caixa era uma certeza, agora, o que haveria dentro dela era incerto.

– É só um presente Ren. Não precisa ter tanto medo – Jaime interrompe meus pensamentos.

– C...Claro – balbucio, envergonhada.

Meus dedos apertam os lados da caixa e em um movimento rápido a tampa sai voando. Solto o ar que não havia percebido que estava segurando e escaro um tecido, envolvido em um fino papel vegetal. Mergulho minhas mãos dentro da caixa, apoiando-a na mesa. De dentro dela, retiro um vestido ciano, escuro como o céu da noite. Um sorriso me escapa dos lábios antes que possa para-lo, pequeno, mas mais verdadeiro do que os que vinha mostrando.

Pressiono o tecido contra o meu corpo alinhando o busto com o meu peito. O tecido era preso na área dos meus seios a logo abaixo abria, caindo como uma cascata até meus pés. Como mangas duas alças com pregas saiam do busto e enrolavam nos meus ombros. Percebo que a ideia desse vestido era alguma coisa para eu usar no baile de inverno e aprecio a tentativa de Jaime, mas o vestido era tão casual quanto o que havia usado no baile de boas vindas.

– Não sou a melhor pessoa para escolher vestidos, mas eu tentei – ele brinca.

– Não – murmuro – é perfeito! – as lágrimas começam a se formarem em meus olhos. Fazia tanto tempo desde que alguém tinha me dado um presente, principalmente algo que era cautelosamente pensado. Engulo as lágrimas antes que possam sequer terminarem de se formarem.

– Pensei que você não tinha nenhum vestido para o baile e as lojas vão estar abarrotadas hoje, então pensei em poupa-la do tumulto.

– Você sabe exatamente o que eu odeio – rio.

Começo a dobrar o vestido novamente e guardo-o na caixa. Não posso evitar me sentir estúpida por ter pensado que essa pequena e delicada caixa pudesse ser uma armadilha. Sinto-me envergonhada, sabia que essa tinha sido a minha criação, mas ver que eu estava me tornando o monstro que meus pais, ainda que odiassem a ideia, tinham me criado para ser me enojava. Eu era nauseante.

Termino de arrumar a caixa e ergo-a da cama.

– Bom, acho melhor eu voltar para o dormitório e guardar meu presente.

Jaime apenas assente e com essa deixa começo a me retirar. Balanceio a caixa com um braço em com o livre estico-me para o trinco.

– Ren! – James exclama antes que eu possa abrir a porta – quase esqueci.

Ele se levanta em um pulo da cama e abre a primeira gaveta do criado mudo. De dentro tira um colar de pérolas, perfeitamente amarrado com um fio de seda vermelha. Era o mesmo colar que eu havia usado no baile de boas vindas. Era o colar que pertencera a Clara.

– Jaime eu não posso aceitar isso – exclamo. Não esperava que ele fosse me dar algo tão importante.

– Mas você vai – suas longas pernas fecham a distancia entre nós e ele enrola meu pescoço com as pérolas – esse colar, guardado dentro da minha gaveta é uma memória muito dolorosa. Por favor me deixe ve-lo em uma pessoa mais uma vez. Por favor me deixe associa-lo com algo bom de novo. Ele é bonito de mais para pertencer a apenas uma mulher.

– Então guarde-o – insisto.

– Para quem?

– Para a filha de vocês, para a filha do Peter... Não sei – imploro, ele não entendia o quanto eu não era digna de ter algo tão belo e puro – Para qualquer um, mas não para mim. Eu não mereço isso.

– Que filha? Mesmo que Clara acorde, minha esposa nunca vai conseguir ter filhos – seu semblante é de pura dor, embora seus lábios mostrem um sorriso.

– Então para Peter...

– A família que Peter vai criar vai ser dele. Esse colar pertence a mim e a Clara. E eu gostaria de dá-lo a alguém que ajudou a mim e ao Peter, que nos amou, tanto quanto ela – Jaime põe as mãos em meus ombros sorrindo. Uma lágrima escapa dos olhos do homem e ele me puxa para um abraço, pressionando minha cabeça contra seu peito – essa menina é você Ren. Você é tudo que eu queria em uma filha. Você e Peter são tudo que eu queria em meus filhos.

A caixa do vestido cai no chão. Meus braços trêmulos conseguem, então, acharem o caminho para abraçarem James de volta. O homem me aperta em seus braços, como se acreditasse que eles poderiam me impedir de escaparem de seu alcança como Clara escapara.

– Eu não vou fugir. Não vou sumir – aperto meu professor mais perto, seu cheiro me enrola como um cobertor. É tão quente, confortável – Não vou ir para onde vocês não podem me seguir.

Sinto o aperto de Jaime ficar mais forte. Lágrimas escorrem pela sua face e molham as costas da minha blusa, mas eu não podia me importar menos. Só queria ficar naquela posição para sempre, junto com a família que eu tinha construído, junto com o homem que havia virado meu pai depois de eu ter perdido o meu. Não queria perder James. Não queria perder Peter.

– Eu sempre vou estar aqui – minha voz trêmula – Eu prometo – deixo escapar antes que possa impedir.

Minhas palavras parecem acertarem Jaime em cheio. O homem começa a chorar mais alto e me apertar com ainda mais força. Sei que o que falei foi impulsivo, mas me sinto tão feliz por finalmente ter encontrado algo parecido com um lar. Embora saiba, bem no fundo do meu coração que essa tinha sido uma promessa que eu nunca poderia manter.

°_°_°_°

Elizabeth estende uma xícara para mim. Ela sorri acenando para que eu pegue. Obedeço-a e levo a porcelana aos lábios inspirando o cheiro cítrico do chá preto. A mulher prossegue, então, a fazer uma xícara para si mesma.

Assisto seus longos e delicados dedos se moverem com precisão e moverem os objetos. Primeiro ela ergue o bule como se não pesasse nada e despeja o chá no copo. Em seguida parte para um recipiente menor, todo decorado por flores lilases, e respinga algumas gotas de leite por cima do chá. Por ultimo pega uma pinça de prata e derruba três cubos de açúcar na xícara, finalizando seu chá.

– Fazer chá é uma arte. Como japonesa tenho certeza que me entende, não? – a mulher começa a mexer os líquidos com uma colher.

– Não tenha tanta certeza – respondo – se eu fizesse isso de colocar leite e açúcar em um chá verde, acho que teriam muitos japonese tentando me matar agora – rio.

Elizabeth solta um riso suave. Delicado e nada exagerado. Ela leva a xícara aos lábios e dá um gole, apreciando seu trabalho.

– Como foi a sua ultima visão? – ela pergunta.

– Minha visão? – gaguejo relembrando da visão dos gêmeos. Relembrando sobre Thomas. Havia tantas variáveis. Não podia arriscar me expor desse jeito para ele e perguntar diretamente para o homem, quando não sabia tudo sobre ele. Conhecendo as circunstancias ele podia até ter perdido a memória – tenho uma pergunta... se você me permite?

Elizabeth acena positivamente e baixa a xícara, prestando toda a atenção nas minhas palavras.

– O que aconteceu com Henrietta? E porque Thomas não gostava da sua família?

O rosto da mulher se contrai em surpresa. Acho que a surpreendi mais uma vez com minhas perguntas inéditas. Mas era realmente o que eu mais precisava saber. Se perguntasse algo direto Elizabeth apenas desviaria dos assunto como sempre, então teria que descobrir o máximo que podia com o mínimo possível.

– Minha família – ela começa, seus olhos tristes por relembrar o passado – era muito complicada. Mas se realmente desejar, posso contar-lhe o que aconteceu.

– Quero! – exclamo, levantando da mesa – foi por isso que perguntei – volto a sentar-me, embaraçada pela explosão anterior.

Ela assente e traz uma mão perto dos lábios. Assoprando levemente sobre a palma da mão, como se estivesse me mandando informações pelo vento, a mulher faz o ar tremer. Logo na minha frente o ar começa a tremeluzir e um vortex se forma. Assisto-o enquanto seu interior toma a foto de uma pintura antiga.

Uma foto de família aparece, todos usam roupas antigas e bem arrumadas. Deveriam ser uma família real, ou importante da época. Aos poucos letras aparecem sobre a imagem e nomes se formam em cima das cabeças de cada membro da família.

Abraham: Um homem alto e esguio, com a cabeça quase sem cabelos e um rosto preenchido por rugas de cansaço e velhice. Olhos escuros e afiados dão a ele a seriedade e maturidade de um pai.

Cassandra: Uma mulher alta e magra, com rugas delicadas e olhos sérios e frios. Cabelos longos e pretos rodeavam seu rosto, pálido como o de um fantasma e chamavam atenção para sus olhos azuis, que em nada lembravam os de Elizabeth. Ela é a mãe.

Henrietta: Uma mulher loura com olhos escuros, tão gentis como os de um anjo. Feições delicadas e adoráveis que não param de expressar amor e carinho. Ela é a primeira filha, a mais velha dos irmãos.

Fergus: Um homem com olhos e cabelos escuro, queixo bem definido e uma pequena barba crescendo. Ele aparenta ser inteligente e durão. É o segundo filho, o segundo mais velho.

Joseph: Garoto de pele pálida e cabelos louros e encaracolados, como os de um anjo. Sorriso encantador e brilhantes olhos azuis. Ele é o terceiro filho.

Margareth: Menina um pouco mais nova que Joseph e de aparência tão parecida, que qualquer um podia confundi-los por gêmeos. Cabelos longos e encaracolados descem até a cintura, mas seu sorriso malicioso a difere do irmão. É a quarta filha.

Bartholomeu: Garoto de traços fortes e queixo bem definido. Olhos azuis e destemidos e cabelos escuros, penteados perfeitamente para trás. Seu sorriso é encantador e ele esbanja de um certo charme. É o quinto mais velho.

Camille: Menina elegante e magra. É a única dos irmãos que se parece com Thomas e Elizabeth. Tem os mesmos cabelos escuros e olhos claros, mas desfila com uma elegância e sensualidade que os gêmeos não possuem ainda. É a segunda mais nova.

Por fim Thomas e Elizabeth aparecem no final da foto de mãos dadas, sorrindo como quem não desconfia do futuro sombrio que vinha a frente.

– Essa é a minha família Ren – a voz de Elizabeth me acorda do transe.

– Parece uma boa família – arrisco.

A mulher solta um longo suspiro e acena a mão novamente, fazendo a nuvem desaparecer.

– Minha mãe, Cassandra, era uma mulher nobre que não tinha tempo para cuidar dos filhos, ela preferia sair para ir a festas e esbanjar a riqueza da família. Sendo assim, Henrietta a mais velha entre nós sempre cuidou de todos os irmãos. Ela era a real mãe da família. Nisso todos concordávamos.

Elizabeth faz uma pausa e respira fundo, apertando as laterais do nariz, como se quisesse conter as lágrimas. E talvez quisesse.

– Mas quando ela tinha 18 anos, se cortou em um pedaço de metal com o intuito de proteger-me de um acidente e acabou contraindo o que agora é conhecido como tétano. Na época uma doença mortal. Minha querida irmã logo sucumbiu e faleceu, deixando-nos todos desnorteados – ela conta a história com uma frieza ensaiada e inspira profundamente mais uma vez – antes disso eu e meu irmão nunca tínhamos nos dado bem com todos os outro, salvo por Joseph e Margareth, os únicos de quem gostávamos, ou então eu achava.

Elizabeth toma outra pausa e começa a preparar outra xícara de chá. Não a apresso e assisto suas mãos ágeis trabalharem, pacientemente esperando pela continuação da história.

– Quando Henrietta faleceu, eu fui a que tive mais dificuldade em superar o fato. Ao me ver assim tão triste, Thomas, que antes amava tanto nossa irmã mais velha, começou a desenvolver um raive pela mulher que morreu e nos deixou sozinhos. E me deixou triste. No final acabamos nos isolando da família e nem Joseph nem Margareth tiveram o interesse em consolar-nos ou ajudar-nos.

Um longo gole de chá e uma longa respiração. Ela parecia cansada, abatida.

– A família que antes era uma se tornou várias, separadas, destruídas, mas os mais afetados fomos nós dois. Éramos apenas crianças e não sabíamos o que toda aquela solidão e raiva iria gerar – ela cerra os olhos, assustada e machucada pelas memória – Um pesadelo.

Silêncio paira sobre nós. Um silêncio pesado, cheio de rancor e dor. Vejo Elizabeth abaixar a cabeça e seus dedos tremem quase imperceptivelmente. Forço-me a desviar os olhos da cena e encaro uma criatura no chão da floresta, tão pequena quanto uma maça e felpuda, enquanto ela balança as longas orelhas de uma lado para o outro ritmicamente.

Suspiro profundamente e fecho os olhos, prestando atenção na respiração de Elizabeth e mesmo que não possa mais ve-la, por algum motivo, percebo a lágrima solitária que escorre pelo rosto da mulher. Rubra como sangue e pesada como uma rocha.

°_°_°_°

Abro a porta do quarto com um suspiro e deslizo para dentro do quarto rapidamente, antes de trancar a porta com a chave. Respiro fundo e viro as costas para a porta. Katherina se encontra deitada em sua cama, ouvidos tampado pelos fones e olhos fixos no laptop. Charlie por outro lado está sentada no chão, com as costas apoiadas na cama e milhões de folhas espalhadas ao seu redor.

Pigarreio para chamar atenção das meninas. Charlie levanta a cabeça preguiçosamente, mas Kath nem dá sinal de ter me visto entrar.

– Katherina – chamo, levantando meu tom de voz para que ela me escute.

A menina parece captar a mensagem e ergue os olhos, tirando os fones de ouvido vagarosamente.

– Precisamos conversar – começo.

Espero algum comentário sarcástico da parte de Charlie ou a completa falta de interesse de Katherina, mas as duas viram para mim, com os olhos cheios de seriedade. Era quase como se a situação finalmente tivesse removido a infantilidade com a qual estávamos lidando com os problemas. Agora as coisas eram sérias, agora o que estava acontecendo era um problema e deveria ser tratado como um.

Adeus aos nossos dias de infância.

– É sobre os desenhos de Charlie – esclareço fazendo um sinal para a menina – especificamente sobre o desenho do baile de inverno.

Katherina franze as sobrancelhas, não aparenta gostar de ter sido deixada de fora.

– Que desenho?

– Esse desenho – Charlie murmura, passando uma série de folhas grampeadas para a outra.

Kath encara a figura do homem sendo engolido pelo Obelisco e franze ainda mais as sobrancelhas.

– Quem é esse? – ela pergunta.

– Não sabemos – Charlie responde, nem um pingo de sarcasmo na voz.

– Mas sabemos que isso vai acontecer no baile de inverno. Ou pelo menos achamos.

Kath suspira e devolve o desenho para Charlie.

– E o que isso implica para nós?

– Não sei – respondo.

– Implica que – Charlie começa, guardando as folhas de papel em uma pasta – devemos ficar de olho aberto no dia do baile e procurar alguém que bata com o desenho.

– Por que? – Katherina pergunta.

– Não sei – Charlie suspira, ela parece cansada – mas acho que se descobrirmos mais sobre o que esses desenho significa saberemos mais sobre tudo que esta acontecendo conosco.

O quarto mergulha em um silencio desconfortável. Katherina parece desviar o olhar de nós e encara a janela, como se quisesse evitar falar alguma coisa, como se soubesse de alguma coisa. Abro a boca para perguntar, mas mudo de ideia logo em seguida. Se eu podia manter meus segredos, então ela também.

– Só fiquem atentas durante o baile de inverno e se preparem – falo, soando distante. Caminho em direção a minha cama e pego meu pijama de uma gaveta – Alguma coisa muito ruim vai acontecer – apesar de não querer, meu aviso quase soa como uma premonição.

Minhas colegas de quarto, porem, não se incomodam e retomam as atividade anteriores. O clima pesado ainda boia sobre nossas cabeças, mas também, considerando todas as circunstancias, não podia ser diferente. Não me importando em fazer a situação parecer melhor como sempre fazia, retiro-me para o bainheiro.

Tranco a porta e abro o chuveiro, rapidamente entrando debaixo do jato de água. Suspiro pesadamente e encosto a cabeça na parede, deixando a água escorrer livre pelo meu corpo. Estava cansada, física e mentalmente. Só queria que tudo isso acabasse, só que queria que essa confusão que nem ao menos entendia, acabasse.

Só queria sair desse eterno turbilhão de desastres, morte e sofrimento que desde tempos remotos, sempre girou ao redor de dois pares de olhos azuis. Olhe uma vez e eles parecem anjos, olhe duas e eles são o demônio, mas olhe três e quem é o demônio é você.

Notas finais
let me show you something magical - deixe-me te mostrar algo magico #Ghost...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.