O Mistério das Pedras - Os Guardiões

2 É Sempre Bom Reencontrar Velhos Amigos


Notas iniciais
Agora é que a história realmente começa. Divirtam-se!

É péssimo ter que mudar de escola, qualquer um sabe disso!

A sensação de que você é a nova atração, em um lugar cheio de adolescentes com os hormônios a flor da pele, prontos para te olharem com aquelas expressões que só eles sabem fazer, é assustadora.

Augusto agora se encontrava em seu dormitório, arrumando as suas malas, para volta para casa o mais rápido possível. Não sabia se conseguiria acostumar-se novamente com seu país de origem, afinal, fazia quase sete anos saíra de lá. A única coisa boa era saber que Laura também iria.

Laura era sua irmã, um ano mais nova que ele. Ambos cursavam a segunda série do ensino médio. Ela era bem mais baixa que ele, morena, cabelos cacheados pretos e usava óculos.

Augusto olhou o relógio mais uma vez e constatou que já estava na hora de descer. Observou pela última vez aquele lugar que durante anos fora seu quarto, pegou sua mala e saiu, sem nem mesmo olhar uma segunda vez para trás, pois sabia que se fizesse isso não iria conseguir partir. Não daria nem tempo se despedir dos amigos, afinal, todos estavam em aula.

Ao chegar no saguão de entrada, todos já estavam a sua espera. O Sr. Oliveira, braço direito do seu pai na mineradora, pediu ao motorista que pegasse sua mala e levasse até o carro.

— Sejam breve! – disse o Sr. Oliveira, saindo logo em seguida.

Augusto observou que as malas de Laura não estavam lá, provavelmente também estavam no carro.

Ele abraçou a irmã, que continha as lágrimas à muito custo, e ainda abraçados olhou pela última vez aquele lugar, que assim como seu dormitório, deixaria muitas saudades.

— Arrivederci! – foi esse o único cumprimento da diretora Fátima.

— Arrivederci! – responderam eles.

Saíram abraçados, do mesmo jeito que haviam entrados há anos atrás.

No momento em que entraram no carro Laura se desmanchou em lágrimas. Ele sabia que seria assim. Ela daria uma de forte na frente de todos, mas quando estivesse só os dois, ela colocaria pra fora toda a dor que sentia.

Ele a compreendia, para ele também não era fácil deixar os amigos, a possibilidade de nunca mais os ver era terrível.

Em poucos minutos já estavam na pequena cidade de Turim. O Sr. Oliveira não voltaria para o Brasil hoje, talvez só estivesse de volta na semana que vem. Daqui ele iria até a França.

Pouco tempo depois do avião levantar voo, Laura já estava dormindo com a cabeça apoiada no ombro do irmão. Augusto resolveu dormir também. A noite havia sido agitada, e como o voo ainda duraria horas e horas, o máximo que podia fazer era dormir, afinal, passar mais de dez horas dentro de um avião não é nada fácil.

Acordou sentindo um peso sobre si, olhou para o lado e viu que Laura estava com a cabeça em seu peito e isso, com certeza, lhe daria um belo torcicolo. Ajeitou a irmã em sua própria poltrona da melhor maneira que conseguiu, certificou-se que ela estava “confortável” e foi ao banheiro lavar o rosto.

Quando voltou, olhou o relógio para saber quando tempo faltava pra pousarem no aeroporto de Guarulhos, e infelizmente faziam apenas cinco horas que estavam dentro do bendito avião.

Não queria comer.

A noite anterior fora bem cheia de surpresas, o que lhe custou uma noite em claro e uma ótima cara de panda. Voltar a dormir era melhor coisa que tinha afazer no momento. Deu mais uma olhada em Laura, e sorriu ao observar que assim que se sentou ela ainda dormindo colocou novamente a cabeça em seu ombro.

Muitos já estariam preocupados pelo tempo que ela estava dormindo, mas não Augusto. Ele sabia o quanto ela gostava de dormir, ainda mais quando estava triste. Ela achava no sono uma espécie de universo paralelo, onde poderia fazer o que quisesse sem se importar com nada.

Augusto sonhou com seu avô. Com a última vez que se viram. Lembrou-se do olhar de decepção que recebeu dele, ao entrar naquela briga. Lembrou-se também das palavras recebidas após a festa, quando se permitiu chorar igual uma criança no colo do avô.

Agora só lhe restara isso: LEMBRANÇAS

Ainda faltava cerca de uma hora para pousarem em terras brasileiras quando Augusto acordou pela terceira vez. Muita gente acha que não, mas dormir cansa. Algum tempo depois já se podiam ver as luzes da cidade que nuca dorme acesas. Decidiu não dormir mais, queria está acordado quando o avião pousasse. Em pouco tempo a voz de uma mulher soou por todo avião, através de vários alto-falantes distribuídos pelo local.

“ATENÇÃO PASSAGEIROS DO VOOU 584, ESTAREMOS POUSANDO DENTRO DE VINTE MINUTOS, POR ISSO PERMANEÇAM EM SEUS LUGARES”

Augusto achou melhor acordar Laura, sabia que ela não ficaria nada feliz se tivesse que sair do avião com o rosto amassado de tanto dormir.

— Laura! Laura! Acordam que já chegamos.

— Aonde? – perguntou ela, sem nem mesmo abrir os olhos.

— Como assim aonde? No Brasil, é claro! E levanta que seu rosto está todo amassado.

— O QUÊ? – o grito que ela deu fez várias cabeças se voltarem para eles.

— Por isso te acordei. Acho que você não vai querer descer como rosto amassado.

Em menos de cinco minutos Laura já estava “apresentável”.

Como ele já esperava, seu pai não tinha ido lhes buscar, mandou o motorista em seu lugar.

Iriam ficar em um hotel até a manhã seguinte. Depois iriam no jatinho da empresa até Ouro Preto, interior de Minas Gerais. Onde ocorreria o funeral.

O funeral foi reservado. Só para parentes e amigos. O que não impediu a imprensa de tentar fotografar ou filmar o sepultamento, porque para eles quem morreu foi o fundador da grande empresa de mineração, não ligavam se a família estava sofrendo com a perda do patriarca.

***

Janeiro já estava na metade, faltavam alguns dias para o período letivo brasileiro começar. Como lá, eles já estavam na metade do segundo ano, teriam que começar tudo de novo. Estavam em Ouro Preto aguardando o início das aulas. Pelo que ouviram falar estudariam na Instituição de Ensino Santa Clara, que existia a mais de duzentos anos.

Na manhã do dia vinte e cinco de Janeiro, Augusto recebeu a pior notícia que podia receber depois da morte do avô. O empresário Sérgio BeloMonte daria uma festa para comemorar o aniversário de vinte anos de sua empresa, a “BeloMonete & Cia.”, a maior joalheria da América Latina. E Augusto era obrigado a ir, já que a mineradora de seu pai era a principal fornecedora de matéria-prima da joalheria.

Augusto foi o caminho inteiro ouvindo Laura reclamar do vestido que estava usando. Seu pai não parava de dar-lhe recomendações.

— Por favor, meu filho, não faça como da última vez. Você já tem 15 anos, e dessa vez você não tem seu avô para passar a mão em sua cabeça.

Sua mãe foi quem teve sorte, ela não tinha ido à festa porque estava em um jantar beneficente.

Augusto tinha certeza que até o velório do seu avô foi mais animado que aquela festa. Ela não podia está pior.

Uma música clássica, que mais lembrava uma marcha fúnebre, ecoava por todo o lugar. Pessoas sorrindo falsamente umas para as outras, quando na verdade queriam dizer tudo que a ética e os bons costumes não permitiam.

Cumprimentou alguns amigos do seu pai, que o elogiaram dizendo o quanto o tempo na Itália havia lhe feito bem. Após duas horas de festa, Augusto já estava cansado de tudo aquilo, o que mais queria era ir pra casa, e aproveitar o resto da noite jogando videogame e comendo pipoca, o que sem dúvidas, era bem melhor. Disse ao seu pai que não estava se sentindo bem e que iria pra casa.

Quando já estava alcançando a saída do salão sentiu uma mão em seu ombro. E qual não foi sua surpresa ao virar-se e ver Daniel BeloMonte. Aquele rosto que ele tanto odiava. Lembrou-se de todas as humilhações que já passou e do motivo de ter ido pra Itália ainda criança.

— Eu queria... – começou Daniel, mas foi interrompido.

— Queria o quê? Me lembrar de tudo que me fez passar? Se você não percebeu, eu não sou mais aquele menininho que chorava sempre que quebravam seu lápis. – disse Augusto sem conseguir esconder a sua raiva.

Ele sabia que deveria ter deixado Daniel falar, mas a raiva e a magoa falou mais alto. Já não era mais aquele menininho asmático, que abaixava a cabeça para tudo e para todos. Os anos na Itália lhe ensinaram que um problema só é grande se o enxergarmos de baixo, mas se olharmos de cima, com a cabeça erguida, ele nunca vai ser maior do que nós.

— Não, eu... – mas uma vez Daniel foi interrompido.

— Você nada! Não vou deixar que me humilhe novamente.

— Não, você não está entendendo, eu só... – Daniel estava quase desistindo. “Será que ele só veio a festa hoje pra me interromper sempre que eu tentar falar?”

— Você está me chamando de demente?

— Quer saber? Não! Eu não estou te chamando de demente. Você sabe muito bem demonstrar sozinho que é um completo idiota. Continua o mesmo pirralhinho mimado que chorava por tudo.

Nesse momento eles já atraiam a atenção de todos, parecia que o salão inteiro tinha parado o que estava fazendo para ver a discussão, até mesmo a música tinha sido interrompida, mas como os dois não estavam atento ao mundo que os envolvia, não perceberam nada.

— Eu vou te mostrar o que o pirralho minado aprendeu nesses anos fora. – ameaçou Augusto com raiva.

Antes que Daniel pudesse responder, sentiu algo se chocando com a sua mandíbula e forte gosto de sangue na boca. Quando percebeu o que estava acontecendo, já estavam rodeados por seguranças.

A maioria das pessoas encaravam Augusto perplexas. Ele sentiu dois seguranças o arrastando para fora, sabia que quando chegasse em casa teria que enfrentar a fúria do Todo-Poderoso-Marcelo-Drumontt, e essa ainda não seria a pior parte. Ele não queria nem está perto quando a sua mãe ficasse sabendo o que ele tinha feito.

Enquanto esperava um táxi vazio passar sentiu uma mão em seu ombro. Era Laura.

— Papai está vindo aí, ele se desculpou com todos. E vou logo lhe avisando, o humor dele não está nada bom, mas saiba que eu estou do seu lado. Não sei o que te fez perder a cabeça, mas depois você me fala.

Augusto teve a confirmação do que Laura falou quando o seu pai apareceu. Ele estava vermelho, e transpirava como se tivesse saído de uma maratona e como Laura lhe avisou ele não estava para brincadeira, mal chegaram em casa e ele foi logo distribuindo ordens.

— Você! – disse ele apontando para Laura — Vá para o seu quarto e só saia de lá quando eu mandar.

Se fosse em outra situação Laura com certeza discutiria, mas o medo de que isso prejudicasse Augusto era maior que a sua vontade de retrucar o pai.

Enquanto a irmã subia em direção ao quarto, Augusto observou o pai telefonar para alguém, com certeza era a sua mãe. E quando ela chegasse, aí sim, era bom começar pensar em seu testamento.

Diana Drumontt era uma mulher não muito alta, de pele morena, cabelos castanhos, e extremamente parecida com a filha.

Ela havia ido a um evento beneficente, promovido pela viúva Alice Rocha, uma mulher rica, que há anos dedicava seu tempo e dinheiro às causas sociais. O dinheiro arrecadado seria doado ao orfanato Joaquim José da Silva Xavier, orfanato esse onde sua mãe vivera boa parte da infância.

Após o telefonema, seu pai o olhou de maneira sarcástica.

— Sua mãe está chegando, e saiba que ela acabou de pedir licença no meio do jantar. Estarei no escritório, assim que ela chegar me chame. – e dizendo isso simplesmente saiu, mas Augusto ainda pode ver o sorriso que ele tanto queria conter escapar-lhe pelos lábios.

Depois de quase meia hora, Diana chegou. Sua expressão era indecifrável. Poucos segundos depois seu pai chegou, e não perdeu tempo em narrar todo o acontecido.

Enquanto ouvia seu pai falar, ficou pensando em qual castigo sua mãe lhe daria. Era sempre assim. Seu pai fazia o discurso e sua mãe atribuía o castigo.

— E por esses motivos, e por ter me chamado no meio do jantar, você vai ficar o fim das férias no seu quarto, sem receber visitas, e só vai saí de lá quando eu mandar. Entendeu? – a voz de sua mãe não estava alterada, mas o tom frio estava entrelaçado em cada palavra.

— Sim! – respondeu Augusto de cabeça baixa.

— Agora suba! – ordenou sua mãe.

***

Aquelas foram às piores férias que Augusto já teve na vida. Além de não poder usar nem o computador, nem o celular, ele também não podia ver Laura. Sua mãe realmente não estava brincando quando disse nada de visitas.

Passou o resto das férias tocando violão, ou aumentando a sua coleção de desenhos. Sim, ele desenhava. Não era algo digno de uma exposição, mas era algo que o mantinha distraído. E isso era tudo o que ele queria no momento.

A única vez em que teve permissão para deixar a jaula foi uma semana antes das aulas começarem, e já que tanto ele quanto Laura, precisavam de novos materiais escolares, Diana liberou o filho do castigo. “Mas apenas por algumas horas!”, como ela fizera questão de frisar.

Comprar os materiais escolares não foi nada fácil. Não que essa tarefa fosse difícil. Mas andar pelas ruas cheias de gente, carregando sacolas e mais sacolas, com uma pessoa que não parava de falar por um só segundo, deixava qualquer um sem paciência.

Assim que chegou em casa, foi avisado que seu uniforme escolar já havia sido entregue. Agora era só aguardar as aulas começarem.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Beijos!!!!!!!