O Milagre
2 Pesadelo
Notas iniciais
Depois de sabe-se lá quantos minutos em cima daquele palco, ouvindo o Robert falar aquelas abobrinhas, pude finalmente me dirigir à Fire empire. Estava cheia de documentos para analisar e só de pensar naquilo minha cabeça começava a latejar. – Droga! – Resmunguei. Neal que estava do meu lado perguntou se estava tudo bem, assenti e cada um seguiu para seus respectivos carros.
Assim que entrei no veículo abri minha bolsa e vi que tinham cinco mensagens. Três delas eram da Ruby falando que já tinha terminado algumas investigações junto com o Killian e tinha deixado os documentos em cima da minha mesa. Ou seja, mais papéis para Swan ler a tarde inteira. As outras duas mensagens eram de chamadas perdidas de um número desconhecido. Guardei o celular, fazendo uma nota mental de retornar àquelas ligações mais tarde. Feito isso, dei partida e antes de ir à empresa passei em uma farmácia para comprar remédio pra dor de cabeça e finalmente me dirigir à Fire empire.
A empresa é grande e apesar de ser cautelosa, tem lá seus luxos. No térreo não temos muita coisa importante. Assim que entramos nos deparamos com uma fonte que cobre boa parte do espaço. Aos lados tem algumas salas, uma leva à recepção e as outras são de computação, xerox, essas coisas. Mais ao fundo tem uma lanchonete e ao lado dois sanitários. Apressei os passos quando vi Killian andando em minha direção, não queria ter que encarar suas cantadas de pedreiro àquela hora e definitivamente não estava com cabeça pra isso. Apertei os botões daquele elevador e para meu desgosto alguém o segurava no quinto andar. Bufei, pois Killian acabou me alcançando.
– Fugindo de mim Swan? – Perguntou arqueando a sobrancelha e passando a mão esquerda em seu queixo. Ai! Aquilo me irritava muito. Pensei. Da onde ele tirou que isso é charmoso? Fala sério!
– Não, Jones! Só quero terminar de analisar logo aquela pilha de documentos que me esperam lá em cima. – Finalmente o elevador chegou e dei graças a Deus. Kill é um cara legal e trabalha comigo há três anos, desde que exigi ao Neal por mais um assistente. Não estava mais dando conta de tantos casos só com a Ruby. Mas confesso que me irrita muito esse ar galanteador dele. Entrei no elevador logo seguida pelo Killian que se posicionou ao meu lado.
– Você mente muito mal Swan! Ainda bem que é muito gata, isso compensa bastante. – Disse sorrindo de lado e céus! Eu já estava perdendo a paciência. Levei as mãos massageando a lateral da minha cabeça e respirando fundo. Sinceramente, não estava nem um pouco afim de lidar com aquilo. Nada falei. Não queria dar cordas àquela conversa e ele pareceu entender descendo um andar antes do meu que era o décimo primeiro.
Assim que a porta abriu vi Ruby sentada em uma das poltronas que tem em frente à minha sala. Andei em sua direção, cumprimentando ela e um homem que não reconheci. Ela tratou logo de fazer as apresentações.
– Emma, quero que conheça o Kristoff. Ele começou a trabalhar aqui hoje como detetive e pelo que entendi, não pretende ficar mais do que duas semanas. – Estendi minha mão para que ele apertasse e assim fez.
– Prazer! Emma Swan ao seu dispor. – Falei sacudindo a mão do rapaz e sorrindo
– O prazer é todo meu Sra. Swan. Já ouvi falar muito de seus trabalhos e espero que minha estadia de duas semanas possa ser útil em algum momento. – Falou retribuindo o sorriso
– Por que não pretende ficar aqui mais do que duas semanas? – Perguntei intrigada. Todos que entravam para Fire acendiam velinhas em agradecimento, pois era uma empresa com referências maravilhosas e o sonho de qualquer pessoa que fosse trabalhar com investigações.
– Infelizmente vou ter que sair da cidade e já tinha sido aceito aqui quando recebi a notícia de que teria que voltar para Boston, minha cidade natal. E como não podia ir sem passar por aqui nem que fosse por alguns dias, aceitei trabalhar aqui por duas semanas. – Explicou tristonho. Não quis perguntar o motivo da sua volta, mas estava nítido que não eram bons motivos.
– Sinto muito! – Foi tudo que consegui dizer e eu realmente sentia muito por isso. Ele deu um sorriso amarelo e pediu licença. Foi a vez então de Ruby se pronunciar.
– É uma pena que um cara tão lindo como ele tenha que ir embora assim. Tinha ótimos planos com ele. – Mal consegui acreditar no que ouvira. Ruby e sua libido insaciável. Revirei os olhos e caminhei até minha sala, deparando-me com a pilha de documentos. Fiz uma careta e por fim sentei naquela cadeira, onde passaria boa parte da minha tarde lendo e relendo todo aqueles documentos.
**
POV Regina Mills
Ainda não caiu a ficha. Minha mãe estava morta! Não tinha escapatória, eu teria que encarar aquilo por mais doloroso que fosse. Se não fosse a Tinker, minha melhor amiga, eu estaria chorando ainda sobre o corpo dela e não aconteceria velório nenhum. Ouso dizer que ela é mais que uma amiga, ela é uma irmã que não tive.
Nesse momento ela está ao lado do meu filho Henry, que por sua vez está ao lado esquerdo do caixão da mamãe. Ver meu filho assim estilhaça meu coração. Ele era muito apegado a vó e não foi nada fácil ter que lhe dá essa notícia horrível. Fui tirada de meus pensamentos com Tinker avisando que já iam enterra-la. Ok! Essa é a hora de encarar os fatos. Levantei contragosto, respirei fundo e fui em direção ao seu caixão. Ficando do lado oposto ao meu filho que observava tudo atentamente.
– Mãezinha... – Alisei seu rosto e ela parecia dormir tranquilamente. Eu tinha esperanças que ela acordasse a qualquer momento, mas isso não aconteceria. Eu tinha perdido ela pra sempre. Assim como perdi o Daniel. Lembrar daquilo fez meu estômago de contorcer e arrancaram lágrimas incontroláveis de mim. Meu filho que via tudo, segurou em minha mão tentando me passar conforto e não foi preciso mais nada além daquilo, mas ainda assim doía, doía muito ter que me despedir dela.
Fiquei mais alguns minutos assim e fiz sinal para que Tinker andasse logo com aquilo. Meu filho veio para o meu lado, agarrando-se a minha cintura e minha amiga nos envolveu em um abraço, como se aquela dor fosse se esvair a partir daquilo. Quando finalmente fecharam o caixão, tive certeza que nunca mais a veria.
Caminhamos em silêncio até o local que aconteceria a cremação. Não queria colocar minha mãe de baixo da terra. Ela não me pediu isso, mas como filha e por conhece-la, sabia que era o certo a se fazer. Mamãe tinha uma alma jovial, gostava da palavra liberdade e não combinaria com ela ficar ali de baixo. Depois que a cremação estivesse concluída iria à Nova York jogar suas cinzas da ponte do Brooklyn, já que ela amava por alguma razão que eu desconheço aquele bairro. Quando dei por mim, já tinha colocado ela ali dentro e agora sim, estava encerrado. Em meio a aplausos um por um foi deixando o local e em seguida Tinker, Henry e eu saímos.
Voltamos no carro da minha amiga e assim que chegamos em casa, Henry correu pro seu quarto. Queria poder fazer alguma coisa, tirar dele aquela dor, mas não podia fazer isso e exausta de me conter, desabei em lágrimas no colo da minha amiga que afagava meu cabelo sem dizer uma única palavra. E não era preciso, pois não teriam palavras que me confortassem mais do que está ali em seu colo. Ficamos assim por longos minutos, até que lembrei do que minha mãe tinha me dito no dia anterior antes de sair de casa e nunca mais voltar. ''Gina! Prometa a mim que nunca vai desistir da sua felicidade, pois a vida é uma só minha filha. Desfrute dela cada milésimo de segundo, pois o que você faz agora, daqui há menos de um segundo torna-se passado e você pode ser surpreendida pelo destino.'' Ao lembrar daquilo sorri. Parecia que ela se despedia de mim, mas eu tinha prometido aquilo a ela e assim faria.
Levantei do colo da pequena Tinker secando meu rosto e indo em direção a cozinha, precisava comer alguma coisa ou acabaria no hospital. Minha amiga me seguiu sentando em um dos bancos do balcão e me observando como sempre fazia.
– Bell – Chamei enquanto colocava água na cafeteira.
– Oi, Gi
– Você falou com a Granny? – Granny é minha avó, mesmo que não a chame assim. Na verdade não a conheço, pois ela saiu de Storybrooke quando eu tinha quatro anos. Minha mãe não quis ir com ela e nunca falou o motivo. Também não perguntei. Pelo que conheci da minha mãe, ela sempre quis ser dependente e deve ter buscado isso cedo. Abrindo mão de ir morar com Granny em NY.
– Falei – Limitou-se a responder. Me virei pra ela, encostando na pia e cruzando os braços. Ela sorriu com aquilo, pois sabia exatamente do que se tratava. – Ok! Desculpa! – Disse por fim
– Anda Tinker! O que ela disse? – Perguntei indo em sua direção e sentando no banco a sua frente
– Ela chorou muito... Eu... Eu não soube nem o que dizer para conforta-la. Quando ela por fim se acalmou, pediu desculpas por não poder comparecer ao velório, mas disse que viria logo para te visitar.
– Por quê? Depois de tantos anos sem vim aqui ela decidi me visitar? Não! Não quero ela aqui por dó ou piedade. Vai ficar tudo bem. Não preciso dela! – Cuspi aquelas palavras sem me dar conta que no fundo toda aquela situação dela com minha mãe havia me magoado, porque eu era uma criança e não tinha nada a ver com a complicação da relação delas. Tinker ao ouvir aquilo se assustou e não excitou em mostrar isso.
– Regina! – Repreendeu minha amiga. – Eu sei que você carrega mágoa dela por nunca ter te procurado antes, mas agora ela vai tentar e você não deve se fechar pra isso. Não julgue sua avó sem antes saber do que de fato aconteceu. Dê a ela a chance de se explicar, Regina. Não afaste ela de você novamente, sem ao menos dar-lhe a chance de se aproximar.
Não soube o que responder. Minha amiga tinha razão, mas me machuca muito tudo isso e se ela não me procurou porquê não quis? Talvez eu tenha medo da resposta. Talvez não, com certeza eu tinha medo da resposta.
– E se ela não quis me procurar? Eu tenho medo das respostas. – Falei por fim
– Qual a sua idade mesmo? Às vezes nem parece ter 30 anos Gina! – Revirei os olhos ao ouvir aquilo. Meus medos não tinham nada a ver com idade. Pensei.
– Mas você só vai perdê-los quando os enfrentar, Regina. E na boa, chega de adiar né? Vai ser bom tanto pra você, quanto pro Herny ter a Granny em suas vidas. – A Tinker tinha razão. Eu tinha que perder meu medo e pensar na possibilidade do Henry ter uma avó de novo em sua vida, me fez sorrir. Meu filho precisava daquilo mais que eu.
– Você tá certa! Não vou afastá-la. – Disse isso e minha amiga deu pulinhos de alegria. Parecia uma criança quando ganha doces por ter se comportado.
O café ficou pronto e tomamos uma xícara acompanhado de bolachas. Logo em seguida Tinker foi embora e eu decidi tomar meu banho. Antes de fazer isso passei no quarto do Henry e vi que o mesmo já dormia. Fiquei aliviada que tenha conseguido dormir rápido. Entrei no quarto, o cobri e dei um beijo em sua cabeça. Desliguei a luz do abajur e fui para o meu quarto. Tirei toda roupa jogando-a em um canto do banheiro e em seguida entrei de baixo d'água. Fiquei assim por horas, queria que aquela dor fosse embora junto com a água que caia sobre meu corpo. Me permitir chorar mais uma vez e prometi que isso não voltaria a acontecer. Queria lembrar da minha mãe e sorrir, pois era assim que devia ser e assim seria.
Sai do banho, coloquei minha camisola, penteei o cabelo e me joguei na cama. Estava exausta e só queria dormir até aquilo tudo passar. Meu chefe, Dr.Whale, me deu três dias de luto. Trabalho em sua clínica há cinco anos, sou fisioterapeuta e mesmo que ele tivesse cedido esses três dias em casa, eu atenderia apenas um. Queria voltar a trabalhar logo. Afinal, a vida continua não é? E eu nunca gostei da ideia de ficar sem fazer nada. Ainda mais no momento desses em que preciso distrair minha mente. Não demorou muito e o sono chegou, fazendo-me esquecer de tudo e finalmente poder descansar.
**
POV Emma Swan
Finalmente em casa! Me joguei na cama e graças a Deus os remédios fizeram efeitos sobre aquela terrível dor de cabeça de começara a aparecer. Procurei pela Anny, mas ela havia ido à Nova York. Provavelmente para falar com meus pais e isso significava um final de semana a base de comidas enlatadas, porque sou péssima na cozinha. Rolei na cama e peguei meu celular na bolsa, já se passava das 18h30 e mais uma vez me atrasaria. Dei um pulo ao lembrar do que Ruby falou mais cedo ''19h em PONTO, Emma! Não me venha chegar aqui 1h depois do combinado que arranco seu coração pela boca!'' Corri pro banheiro assim que lembrei das palavras nada delicadas da minha amiga.
Tomei um banho rápido e nem pude relaxar como queria. Sai do banho já procurando o que vestir e encontrei um vestido preto com flores brancas que se ajustava na cintura e era soltinho em baixo. Coloquei ele mesmo, não estava com tempo de discutir com minhas roupas. Deixei meu cabelo solto com as pontas onduladas, passei rímel, lápis de olho, blush e um batom vermelho que valorizava meu olhar e me deixava extremamente sexy. Pra finalizar coloquei uma sapatilha bege que é adoravelmente confortável, já que passei o dia em cima do salto e meus pés gritavam por piedade. – Bichinhos! – Falei e por fim apanhei uma bolsa pequena que cabia meu celular, documentos, dinheiro, cartão de crédito e a chave do carro.
Desci as escadas correndo e quando entrei no elevador vi que já eram 19h10, já podia me considerar um ser sem coração. Assim que o elevador abriu a porta, corri pro meu carro, destravei e entrei já dando partida. Não demorou muito e meu celular começou a tocar. Bufei só de pensar no sermão que levaria da Ruby. Por sorte o sinal fechou bem na hora e pude atender. Quando olhei o visor, não era o número da Ruby, era o mesmo número que tinha me ligado mais cedo. Sem delongas atendi.
– Alô! – Silêncio. O sinal abriu, coloquei o celular no alto-falante e voltei a dirigir. Chamei mais uma vez e nada. Já estava ficando impaciente com aquilo. – Olha só, ou você fala quem é ou vou desligar.
– Em.. Por favor não desliga. – Ao ouvir meu nome sendo pronunciado daquele jeito fiquei gelada e freei o carro bruscamente. Apertando o volante com toda força e pedindo que aquilo fosse um pesadelo.
– Em! Por favor! – Droga! Isso não podia ser verdade. — Por quê?- Era tudo que eu conseguia pensar. Por quê?
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