Notas iniciais
Olá! Quanto tempo, hein? Sentiram minha falta? Eu espero que sim. Antes de mais nada, quero dizer que estou muito feliz por ter tirado essa fic do Hiatus (já estava na hora, não é?) e também quero dizer que agora ela tem uma co-autora, que me ajudou muuuuuuito, tipo muuuuuuito mesmo com esse capítulo, porque eu estava com um tremendo bloqueio criativo. Então, dêem as boas vindas à Kha-Chan e espero que gostem do que planejamos para esse capítulo. Boa leitura.

“A família é um conjunto de pessoas que se defendem em bloco e se atacam em particular.” – Condessa Marie de Beausacq Diane.

[Blake]

Um longo silêncio se segue na sala enquanto Alyssa e eu nos encaramos, sem saber exatamente o que responder. Não sei porque imaginei que nós dois poderíamos encerrar esse feriado de Ação de Graças tão tranquilamente quanto o tínhamos começado, mas pela expressão divertida que está pairando no rosto de Sunny e pela forma significativa como ela está erguendo uma das sobrancelhas para nós, eu acho que não poderia ter me enganado mais em minhas suposições.

– Sabe, antes eu estava apenas brincando, mas vendo a expressão assustada de vocês, agora, acho que eu acertei na mosca. – Sunny ri e balança levemente a cabeça enquanto cruza os braços. – Shakespeare, seu safadinho, eu aqui pensando que você ainda era virgem e, na verdade, você está por aí bancando o Bad Teacher¹ e quebrando as regras.

Lanço um olhar feio para minha prima – primeiro, porque ela sabe muito bem que eu não sou mais virgem desde o colegial e, segundo, porque eu não acredito que ela acabou de me comparar à Cameron Diaz naquele filme horrível –, mas quando noto que Alyssa está tão constrangida ao meu lado que é como se estivesse pensando em cavar um buraco e desaparecer dentro dele, imediatamente sinto o meu sensor de problema disparar.

– Sunny... – digo tentando chamar sua atenção para o fato de que o assunto não está nada agradável, mas ela apenas me ignora e continua falando:

– Eu não acredito que isso está realmente acontecendo. Quero dizer, você se lembra de quando me deu aquele sermão terrível sobre etiqueta profissional só porque eu te contei que tinha dado uns amassos, com um dos meus colegas de trabalho, dentro do almoxarifado do meu antigo estágio? Lembra?

– Infelizmente não me lembro, mas que tal você me contar a história toda mais tarde, hein? Acho que ouvi a minha mãe te chamar lá da cozinha. – passo um dos braços ao redor de seus ombros e, sem esperar por uma resposta, começo a puxá-la para fora da sala – O que foi, mãe? A senhora precisa de ajuda para fazer uma limonada? Ah, sim, a Sunny já está indo. – digo em voz alta e depois me volto para Alyssa – Fique a vontade, tá? Eu já volto.

Então, afasto Sunny dali sem nem lhe dar tempo para retrucar.

– Mas que merda foi essa? – Sunny finalmente pergunta quando chegamos a uma parte do corredor que está fora do alcance de visão de Alyssa – E que desculpa mais retardada você acabou de inventar para me trazer até aqui. Fala sério! Ajuda com a limonada? Se eu fosse a Alyssa te dava um chute na bunda só pela falta de criatividade.

– Sunny, pelo amor de Deus, será que você pode calar a boca só por um segundo e me escutar?

– Eu estou te ouvindo. – ela reclama, mal humorada – E não sei porque você está todo estressadinho assim. Você sabe que eu só estava brincando.

– Sim. Eu sei. – confirmo – Mas agradeceria se não tocasse nesse assunto por enquanto. A Liss e eu já tivemos alguns desentendimentos por causa dessa historia de aluna e professor, sabe? Ela não gosta muito de falar sobre isso e eu não quero deixá-la desconfortável aqui. Só queria que você soubesse. – esclareço. Eu já tenho muitas coisas com que me preocupar para ainda arranjar mais um problema nesse feriado por causa dos comentários de Sunny.

As últimas semanas tinham sido um verdadeiro inferno para mim.

Eu havia participado de mais reuniões acadêmicas do que já participara durante toda a minha vida, tinha coordenado os ensaios de Um Bonde Chamado Desejo, corrigido centenas de provas e trabalhos, respondido dezenas de e-mails que Shelby me enviara e ainda tive que lidar com as visitas frequentes de Kirk que, desde que havia começado a sair com Melody, só sabia pedir conselhos sobre ela e reclamar.

Como se isso já não fosse ruim o bastante, eu podia contar nos dedos de uma só mão quantas vezes pude passar algum tempo sozinho com Alyssa no último mês. E, talvez, eu fosse uma pessoa muito otimista, mas imaginei que tudo isso melhoraria quando entrássemos no avião e fossemos curtir o feriado de Ação de Graças em Nova Iorque, mas, obviamente, o que não eu imaginei era que Sunrise fosse estar lá, com sua língua afiada e sua maldita boca grande, para jogar areia em tudo o que eu havia planejado.

– Certo. Entendi o recado, Shakespeare. Nada de falar sobre a relação complicada entre professor e aluna. – ela me dá um sorriso de lado, ao melhor estilo Sunrise e, então, me dá um tapinha no ombro – Foi mal, cara. Eu não sabia que esse era um assunto delicado para vocês dois, afinal, vocês estão aqui agora e estão conhecendo a família um do outro, então, eu presumi que a relação de vocês não fosse exatamente um segredo. Quero dizer, seus pais estão sabendo da história toda, certo? – o meu silêncio constrangido é a única resposta de que ela precisa – Oh, merda. Cada vez me surpreendo mais com você, Shakespeare. Não me diga que também fez uma tatuagem em segredo?

– Bem... Não foi exatamente em segredo e, se você se comportar, talvez eu te mostre ela algum dia. – rio e passo a mão em seu longo cabelo negro, bagunçando-o.

O olhar de espanto no rosto de Sunrise é impagável.

– É sério? Você realmente fez uma tatuagem? – ela pergunta completamente surpresa, mas eu apenas sorrio e dou meia volta no corredor, deixando sua pergunta sem uma resposta.

Assim que ponho os meus pés de volta na sala, encontro Alyssa observando os porta-retratos que estão espalhados pelas paredes e, como se sentisse a minha presença, ela se vira para me encarar com um sorriso nos lábios.

– Então, a limonada já está pronta?

– Bem...

– Ah, você não acreditou realmente naquela história ridícula de limonada, não é? – Sunrise entra na sala me interrompendo antes mesmo que eu possa pensar em responder alguma coisa – Você sabe que o Blake só queria me contar uns detalhes sobre o romance secreto de vocês. Não tem limonada nenhuma na parada. E, Liss, me desculpe por ainda pouco. Eu tenho tendência a falar sem prestar muita atenção ao que estou dizendo.

– Tudo bem. Não é como se você tivesse dito algo em que eu mesma já não tenha pensado – Alyssa balança a cabeça ainda parecendo um pouco constrangida, mas já aparentando estar bem mais calma. Acho que afastar Sunrise dela, mesmo que por um minuto, e deixar que ela respirasse um pouco foi uma boa ideia.

– Entendo. – Sunrise diz, pausadamente – Mas... Então, quando vocês pretendem fazer a grande revelação, hein?

– Que grande revelação? – pergunto, confuso.

– Sobre o namoro de vocês, é claro. O que mais seria? – ela alterna o olhar entre Alyssa e eu, parecendo mais séria por causa da maquiagem gótica que usa – Vocês não estavam planejando manter isso em segredo, estavam?

– Ahn... Bem...

Alyssa e eu nos encaramos um tanto constrangidos e isso não passa despercebido a Sunrise, que coloca as mãos na cintura e se vira para mim, rapidamente.

– Não! Nem pensar! Que merda, Blake! – ela começa a andar pela sala, resmungando – Não pode esconder isso da sua mãe. Você sabe como a tia Jillian é. Ela vai surtar se achar que você não confia nela.

– Mas eu confio nela. – retruco indignado – Ela sabe muito bem disso.

– Então, evite que ela comece a duvidar disso agora e conte logo a verdade.

– Sunny, você por acaso ouviu alguma coisa do que eu te disse lá no corredor? – pergunto já irritado com todo aquele falatório. Eu havia deixado bem claro para ela que aquele assunto era uma espécie de campo minado que ela deveria evitar a todo custo, mas ela faz o que eu digo? Não. É como falar com uma porta.

– Eu ouvi bem o que você disse, tá? Eu não sou surda. – Sunrise reclama – Mas eles são seus pais, Blake. Não entendo porque você não pode simplesmente...

– Fui eu que pedi para ele não contar nada. – Alyssa se apressa em esclarecer – Nossa relação é um pouco complicada pelo fato do Blake ser meu professor e... Sei lá. Eu só não queria que os seus tios achassem que estávamos juntos porque eu precisava de uma nota A.

Sunrise olha para ela e, por um instante, o único ruído que ecoa na sala é o barulho da TV que meus pais deixaram ligada quando sumiram, sabe-se lá para onde, mas essa calmaria dura pouco.

– Isso é sério mesmo? – a gargalhada que minha querida prima solta é tão alta que eu preciso beliscar seu braço para que ela pare de chamar tanta atenção – Por Deus! Vocês dois são uma piada!

–Sunny... – resmungo já cansado daquilo. Meu único desejo era passar o feriado de Ação de Graças em paz, mas, veja bem, nem isso eu consigo.

– Espera, Blake. Me deixa terminar. – ela dá um tapa em meu braço, ainda sem ter parado completamente de rir – Olha só, vocês não percebem como isso tudo é ridículo? Quer dizer, você tem vinte e seis anos e a Alyssa tem o quê? Vinte? Vinte e um? Vocês são dois adultos, caramba. Não é possível que ainda achem que devem satisfação sobre a vida de vocês para alguém.

– Não é bem isso. – Alyssa tenta se explicar – Eu sei que a vida é nossa e que não devemos satisfação a ninguém, mas o Blake é meu professor e, por mais que isso possa parecer um mero detalhe, para as pessoas na universidade o nosso relacionamento significaria muitas coisas. A reitoria não aprovaria. Os outros alunos poderiam achar que eu recebo algum tipo de privilégio. É tudo muito complicado, Sunrise. Não dá para simplesmente contar a eles.

– Bom, se fosse comigo, eu já teria mandando a universidade inteira se danar. – Sunny dá de ombros – Simples assim. Mas eu entendo que vocês não têm a mesma coragem que eu. Principalmente você. – ela aponta para mim – Então, façam do jeito mais fácil e não contem nada a eles. – ela alterna o olhar entre nós – Gente, entendam que eu não estou dizendo que vocês precisam colocar o relacionamento de vocês em um outdoor na quinta avenida, tá legal? Eu sei que, muitas pessoas, principalmente o reitor e os outros alunos e professores, não veriam esse namoro com bons olhos, mas vocês estão em Nova Iorque agora e, não, em San Diego. – ela abre um sorriso e pisca para nós – Não precisam esconder a relação de vocês aqui, principalmente da família de vocês. Tenho certeza de que os seus pais não vão abrir um processo administrativo para averiguar a situação.

– Eu sei. É só que... – Alyssa começa, mas Sunny logo a interrompe.

– É só que nada. – ela diz, determinada – Você precisa parar de estar sempre tentando encontrar uma desculpa, sabe? Gata, não deixe essa coisa do Shakespeare ser seu professor influenciar na sua vida fora da universidade. Você não vai ser uma universitária para sempre, então, qual é o problema de contar aos meus tios e aos seus próprios pais a verdade? – Sunny segura os ombros de Alyssa e a encara com intensidade – Escute bem, você vai se formar e todos esses problemas vão acabar, está certo? Nenhum deles vai significar nada no futuro. Além do mais, o Blake só vai ficar na universidade por...

– Caramba! Olha que horas são?! – exclamo passando um braço ao redor dos ombros de Sunrise, mais uma vez, e a puxando para junto de mim com um pouco mais de intensidade que o necessário – Acho melhor a gente subir e desfazer as malas. A viagem foi cansativa e você deve querer descansar um pouco antes do jantar, não é Liss?

Sunrise franze a testa e ergue os olhos para mim, com aquela expressão que ela sempre faz quando está suspeitando de algo e eu faço o melhor que posso para fingir que não percebi seu olhar desconfiado.

A verdade é que, quando aceitei o convite para lecionar na Universidade da Califórnia, eu liguei para os meus pais e avisei que voltaria para o país e que ficaria aqui por seis meses, antes de voltar para a Inglaterra. Provavelmente minha mãe tinha comentado sobre isso com Sunrise e, podia até ser covardia minha tentar esconder a verdade de Alyssa, mas eu ainda não havia pensado em uma boa maneira de discutir esse assunto com ela, então, era melhor esperar.

– Não acredito que vocês ainda estão parados aí no meio da sala. – minha mãe surge da cozinha carregando, acredite se quiser, uma bandeja com uma jarra de limonada e uma porção de biscoitos – Blake, porque você ainda não levou a Alyssa para o quarto? A pobrezinha deve estar cansada da viajem.

– Nós já estávamos indo, mãe. – jogo Sunrise no sofá e me apresso em pegar as malas, recebendo um olhar surpreso de Alyssa que parece ainda não ter entendido muito bem como funciona o meu relacionamento com Sunrise. Minha mãe, por outro lado, nem se importa com nossas demonstrações de afeto deturpadas. Ela nos criou e sabe muito bem que atirar um ao outro no sofá é quase nada perto do eu e Sunny fazemos normalmente.

– Eu fiz um lanchinho para vocês dois. – ela diz, cheia de sorrisos – Espero que goste de biscoitos amanteigados, Alyssa.

– Gosto, sim. – Alyssa responde com um sorriso constrangido – Obrigada. Sra. Carson.

– Oh, não foi nada. – minha mãe se encaminha para a escada que leva ao segundo andar – Venham. Eu vou acompanhá-los até lá em cima para deixar esta bandeja.

Faço como ela pede e, ignorando o olhar maléfico que Sunrise está me lançando, me encaminho até a escada, com Alyssa caminhando calmamente atrás de mim. É só quando deposito o pé no primeiro degrau da escada que me lembro que ainda não sei que quarto da casa minha mãe separou para Alyssa e decido perguntar para que eu possa colocar suas malas no lugar certo.

Para a minha grande surpresa e, principalmente, para a surpresa de Alyssa, minha mãe age como se eu tivesse acabado de lhe perguntar se a Terra realmente é redonda.

– Como assim em qual quarto você deve colocar as malas dela? – ela pergunta como se meu simples questionamento fosse completamente absurdo – É obvio que você deve colocá-las no seu quarto, Blake. Onde mais seria?

– O que?! – Alyssa exclama no mesmo instante e o som da gargalhada de Sunrise parece preencher cada canto da sala. Ela está rindo tanto que até chega a se deitar no sofá abraçando a própria barriga enquanto seus pés balançam no ar – Blake. – Alyssa me encara com uma expressão suplicante e ela nem precisa dizer nada para que eu saiba exatamente o que está pensando.

Reviro os olhos e solto um suspiro cansado.

– Mãe, será que não dá para colocar a Alyssa em um dos quartos de hóspedes? – pergunto apenas porque sei que é aquilo que ela espera que eu faça.

Alyssa ainda está com vergonha dos meus pais e ainda está com medo do que eles podem pensar sobre ela. Logo, dormir no meu quarto, sabendo que minha mãe e meu pai estão sob o mesmo teto que nós é algo que ela considera extremamente constrangedor, embora eu ache tudo isso uma besteira.

Obviamente, minha mãe parece concordar comigo.

– Ora, não precisam disfarçar. – ela diz, risonha. – Vocês não são mais crianças. Ninguém aqui acredita que vocês não dormem juntos em San Diego.

– Bom... Nós não... Quero dizer... Eu e ele... – Alyssa gagueja e minha mãe lança a ela um olhar bastante parecido com o olhar-de-sabe-tudo que Sunny às vezes lança para mim.

– Alyssa, minha querida, não precisa se envergonhar. Eu também sou mulher, lembra-se? Conheço as nossas... necessidades. Além disso, eu conheço bem o filho que tenho e sei que o Blake não é nenhum santo.

– Mãe! – exclamo, fuzilando-a com o olhar e a risada dela apenas aumenta e se junta às gargalhadas de Sunrise. – Oh, meu Deus! Dai-me paciência! – resmungo, mau humorado – Vem, Liss, eu vou te mostrar o quarto. – continuo subindo as escadas e Alyssa que, naquele momento, estava mais vermelha que um pimentão, me segue sem hesitar.

– Daqui a pouco eu levarei a comida. – minha mãe grita quando chegamos ao topo da escada – Vou dar um tempinho aqui em baixo para vocês se recomporem.

– Mãe, por favor! – eu grito de volta, mas quando olho para o início da escada ela já não está mais a vista.

– Tia, o seu filho é uma comedia. – ouço Sunrise dizer lá da sala.

– Isso eu já sei, mas vocês implicam demais um com o outro. Vou ter que conversar sobre isso com o terapeuta. Esse não deve ser um relacionamento muito saudável. – minha mãe observa, mas logo ouço o barulho da bandeja sendo depositada sobre a mesinha de centro da sala e ela muda de assunto – Bem, me conte. O que você achou da Alyssa, Sunny? Ela é bem bonita, não é? Também me pareceu ser uma garota muito doce.

– Ah, sim. Muito. – Sunrise responde sorridente – Tive até vontade de mordê-la.

– Sunrise! – minha mãe exclama, mas um segundo depois ela e Sunny estão rindo alto na sala e eu sigo o meu caminho até o quarto, sem querer escutar o restante da conversa.

Eu mal cheguei à Nova Iorque e aquelas duas já estão me fazendo querer pegar um avião de volta para San Diego. Eu só espero que o jantar de Ação de Graças não seja tão embaraçoso.

Notas finais
NOTAS EXPLICATIVAS: 1) Bad Teacher (Professora sem Classe, no Brasil) é um filme americano de comédia, dirigido por Jake Kasdan e que conta a história de Elizabeth Halsey, uma professora do ensino médio da John Adams Middle School de Illinois, que deixou a profissão para se casar com seu noivo rico e que, após ser abandonada por este, retorna a escola. Elizabeth é um professora desinteressada pelos alunos, que exibe filmes em suas aulas enquanto cochila ou bebe. *** Bom gente, é isso aí! Estamos de volta e eu espero que tenham gostado do capítulo. Em breve eu aparecerei aqui com o próximo, onde vocês vão poder desfrutar do jantar de Ação de Graças da família Carson e acho que vocês já perceberam que vem muita comédia por aí, não é? Beijos e até o próximo.