O Mestre - EM HIATUS
22 Capítulo Vinte e Um
Notas iniciais
“Uma família feliz nada mais é que o paraíso antecipado.” – Sir John Bowring.
[Alyssa]
Estou quase terminando de pentear meus cabelos quando Blake sai do banheiro, usando apenas uma calça caqui escura e secando seus próprios cabelos molhados com uma toalha. Eu já o vi assim muitas vezes ao longo dos nossos pouco mais de dois meses juntos, mas sempre me surpreendo com o quão atraente ele pode ser aos meus olhos.
– Já está pronta? – ele pergunta enquanto termina de secar os cabelos, que ficam um tanto eriçados à medida que passa a toalha pelos fios castanhos escuros – Minha mãe é toda gentil, mas quando se trata de horários aquela mulher se torna uma verdadeira bruxa.
Eu reprimo uma risada por causa do comentário e, então, pouso a escova sobre a cômoda e me viro na cadeira para ficar de frente para ele.
– Já estou pronta. – respondo calmamente – E não consigo imaginar a sua mãe se tornando uma bruxa em circunstância alguma.
– Ah, não precisa imaginar, não. – Blake ri – Basta se atrasar para o jantar e você verá pessoalmente. A minha mãe tem uma coisa com horários e refeições que eu ainda não consegui entender.
– Acho que isso é coisa de mãe. – dou de ombros – A minha também era assim, antes de eu começar a frequentar a universidade e acho que ela só parou porque não tinha mais como ficar me ligando para me obrigar a ir comer.
– Bom, quando eu estava na universidade a minha mãe ainda me ligava. – Blake confessa e eu não consigo evitar que uma risada escape por meus lábios.
– Ah, meu Deus. Sério?
– Sério. – ele assente – Mas ela parou de fazer isso quando me mudei para Londres. Acho que foi por causa do fuso horário.
– Eu estou tentado te imaginar em uma festa com o Kirk, recebendo ligações da sua mãe sobre a hora do jantar. – digo divertida – Devia ser muito engraçado.
– Não. Não era.
– Acho que era, sim. – sorrio – E... Blake, já que estamos falando sobre os seus pais, eu estive pensando no que a sua prima nos disse hoje. – olho para ele tentando transmitir alguma seriedade – Acho que nós devemos contar a verdade a eles.
Blake me encara em silêncio por tanto tempo, que começo a achar que ele não gostou da ideia. Já estou quase voltando atrás e dizendo que se ele não quiser, nós não precisamos dizer nada aos seus pais, quando ele joga a toalha em cima da mesa e caminha até onde estou agachando-se à minha frente.
– Liss, você sabe que não precisa contar nada se não quiser. – ele acaricia os meus braços carinhosamente – Sei que a Sunny disse que nós deveríamos contar a verdade, mas não precisamos fazer isso agora, está bem? Podemos esperar até você se sentir mais confortável com a ideia. Não precisa se obrigar a fazer nada que não queira.
– Eu sei, mas eu realmente quero fazer isso. Acho que a Sunrise tem razão. – Blake me encara como se quisesse retrucar minha afirmação sobre a racionalidade de sua prima e eu sou obrigada a revirar os olhos e rir – Vocês tem que parar de implicar tanto um com o outro. E eu não estou dizendo que a Sunny é o ser humano mais centrado de todo o universo. – acrescento com uma nota de diversão na voz – Só estou dizendo que ela tem razão quanto ao fato de que, enquanto estivermos aqui, podemos relaxar e agir como um casal de namorados normal. Não precisamos esconder nada de ninguém.
Blake me observa por um momento, como se estivesse procurando algum sinal de que eu não estava cem por cento a vontade com aquela ideia, mas como parece não encontrar nenhum traço de dúvida em mim, ele sorri.
– Está bem. Se você quer mesmo fazer isso, então, nós podemos contar tudo a eles durante o jantar.
– Seria ótimo. – concordo – Além do mais, a sua mãe é um amor. Eu não me sentiria bem escondendo alguma coisa dela.
– Fico feliz que tenha tomado essa decisão. – Blake me dá um rápido beijo nos lábios – Eu já disse que te amo?
– Hoje ainda não, mas você pode me dizer mais tarde, quando voltarmos do jantar, porque alguém me disse que a sua mãe é bem rígida com horários e se não nos apressarmos – aponto para o relógio na parede quarto – nós vamos nos atrasar.
Quando chegamos à sala de jantar a mesa já está arrumada, mas apenas o pai de Blake está sentado em seu lugar. Olho ao redor, à procura das outras duas integrantes da família, mas não preciso esperar muito porque logo Jillian aparece ali, carregando uma travessa com um grande peru de Ação de Graças, que não parece estar menos que delicioso.
– Finalmente vocês desceram. – ela diz com um sorriso gentil – Agora só falta Sunny...
– Não falta mais. – Sunrise diz entrando às pressas na sala de jantar e ocupando seu lugar à mesa. – Pode guardar as garras aí, Tia Jillian. Eu cheguei na hora certa.
– Ótimo. Eu detestaria ter de subir até o seu quarto só para te pegar pelas orelhas. – Jillian lança um olhar divertido para Sunny e depois se volta para nós – e vocês, o que ainda estão fazendo parados aí? Vamos. Sentem-se. O jantar já será servido.
Rapidamente, Blake puxa uma cadeira para mim e, depois que me sento, ele ocupa seu lugar ao meu lado. Jillian, logo se apressa em pegar os pratos e servir toda a comida que preparou e, assim que ela termina, se senta ao lado do marido e sorri para todos nós na mesa.
– É tão bom ter todos vocês aqui. – diz parecendo genuinamente emocionada – Já fazia alguns anos que não reuníamos toda a família assim. Blake estava em Londres, Sunrise passou a última Ação de Graças com o namorado.
– Ex-namorado, tia. – Sunrise a corrige, mas Jillian parece não se importar.
– Estou feliz por estarmos reunidos de novo. Principalmente porque hoje também temos a companhia da Alyssa. – ela olha carinhosamente para mim – Obrigada por aceitar nosso convite para jantar, minha querida.
– Eu é que agradeço. – sorrio de volta para ela – Tudo parece estar delicioso. Senti o cheiro da comida lá do segundo andar.
– Minha esposa é uma cozinheira de mão cheia. – o pai de Blake segura a mão de sua esposa, afetuosamente – Quando Blake era criança estava sempre acima do peso.
– Mesmo? – olho para Blake e tenho que sorrir quando vejo sua expressão constrangida – Não consigo imaginá-lo acima do peso.
– Ah, mas isso não é nenhum problema. – Sunrise diz com um sorriso travesso nos lábios – Minha tia tem um álbum de fotos. Sugiro que você olhe as do Natal. O Blake era uma... Ai! – ela grita ao receber um chute na canela que, tenho certeza, Blake acabou de lhe dar.
– Você está bem, Sunny? – Jillian a encara com uma expressão confusa e Sunrise olha para Blake, fuzilando-o com o olhar, mas ele não percebe porque está sorrindo para a mãe com uma expressão de completa inocência.
– Estou bem, tia. Não é nada. – Sunrise diz por fim, enquanto se inclina para massagear a perna.
Jillian revira os olhos para sobrinha e depois volta a olhar para mim, estendendo a mão para tocar a minha, com um sorriso nos lábios.
– Alyssa, querida, se quiser eu posso te mostrar o álbum de fotos depois do jantar. – ela diz animada – O Blake era tão fofo quando criança. Tenho uma foto dele em uma peça de teatro no pré-escolar que é simplesmente linda. Ele está vestido de...
– Será que nós podemos comer agora. – Blake a interrompe, visivelmente desconfortável com assunto.
– Querido, eu só estava dizendo a Alyssa...
– Tudo bem, Sra. Carson. – dou um tapinha no ombro de Blake e, depois, me volto para sua mãe – O Blake está envergonhado, mas vou adorar dar uma olhada nessas fotos depois do jantar.
– Ótimo. – Jillian sorri – Então, vamos dar graças. – ela segura a mão do marido e de Sunrise, que está ao seu lado e nós repetimos seu gesto, fechando um círculo ao redor da mesa de jantar.
Cada um faz um agradecimento por algo de bom que tenha acontecido em sua vida no último ano e, quando que terminamos, Jillian encerra os nossos agradecimentos com um “Amém” e começamos a comer.
O jantar ocorre tranquilamente e, como eu já havia imaginado, a comida está deliciosa e as historias que Jillian e Phillipe contam sobre a infância de Blake e de Sunny me fazem sentir mais relaxada. Mesmo tendo decidido contar a verdade aos pais dele, eu ainda estou me sentindo um pouco insegura. Sunrise tinha afirmado que eles não se importariam, mas eu tinha passado tanto tempo preocupada com isso que não conseguia deixar de me sentir dessa forma.
Assim que o jantar acaba e a sobremesa é servida, Jill se coloca de pé e anuncia que irá até o escritório buscar o álbum de fotos para que eu possa ver, mas Blake, rapidamente, a segura pela barra da blusa e a impede de se levantar. Fico imaginando que ele não quer que sua mãe me mostre suas fotos de infância e quase rio de sua atitude, mas quando ele fala, eu sinto o meu estômago congelar.
– Liss e eu temos algo para contar a vocês. – Blake diz lançando um rápido olhar para mim, como se pedisse permissão para continuar. Eu estou suando frio neste momento, pois não sei como os pais dele vão reagir, mais ainda assim assinto e permito que ele continue – Tem... um detalhe sobre o nosso relacionamento que eu ainda não contei para vocês. – ele olha para os pais que estão com sua atenção totalmente voltada para nós – A Alyssa é... Bem, ela é minha aluna na universidade.
Há um silêncio mortal em seguida. Tanto o pai quanto a mãe de Blake nos encaram sem dizer uma só palavra e eu aperto às minhas mãos sobre o colo, já esperando pelas reclamações, mas elas não vêm.
– Oh. Ela é sua aluna? – Jillian finalmente diz – Então você cursa música como a Sunny, Liss? Eu acho esse um talento maravilhoso. Que instrumento você toca?
Ela sorri para mim e eu fico meio estupefata com sua reação, porque eu estava esperando um pouco mais de gritos e, basicamente, nenhum sorriso, mas ninguém ali não parece estar muito surpreso com a nossa revelação.
– Ela toca piano. – Blake responde, parecendo tão confuso quanto eu – Vocês ouviram o que eu falei?
– Claro. – Phillipe sorri para o filho – Você disse que ela é sua aluna, mas não entendo porque fala disso como se fosse algo ruim. Porque acaso isso é algum problema para você, filho? Porque se for, eu...
– O que? Não. – Blake olha para ele parecendo realmente chateado pelo pai ter pensado que o fato de eu ser sua aluna o incomodava – Isso não é nenhum problema para mim. Só estou dizendo por que a Liss estava preocupada com a possibilidade de vocês não aceitarem isso.
– Nós? – Jillian me olha como se eu fosse completamente louca – Ora, minha queria, por que nós não aceitaríamos? – ela pergunta ternamente – Você é uma garota maravilhosa. Não importa se você é aluna do meu filho ou não. Acho que as pessoas da universidade podem não aceitar isso muito bem, mas nós não temos qualquer problema com isso. Vocês dois são adultos, podem decidir o que querem ou não fazer com suas vidas.
– Era por isso que você parecia tão nervosa quando chegou essa tarde. – o pai de Blake pergunta dando uma sonora gargalhada – Alyssa, não somos uma família tão conservadora assim. Além do mais, eu não poderia culpar o meu filho por se apaixonar por uma aluna tão bonita assim.
– Phillipe. – Jillian dá um tapinha no braço do esposo – Você vai deixar a Alyssa constrangida desse jeito. Mas, sabe, Liss, eu tenho que concordar com o meu marido. – ela me olha com ternura – Você é uma moça muito bonita. O meu filho tem sorte de ter conhecido você.
– Obrigada. – respondo me sentindo uma boba agora por ter tido tanto medo de contar a verdade antes e Blake segura uma de minhas mãos sob a mesa, me lançando um sorriso reconfortante.
Eu não devia deixar os meus medos me dominarem daquela forma. Agora, aprendi a lição.
– Eu não disse pra vocês. – Sunrise finalmente se pronuncia, parecendo uma rainha em seu trono por saber que estava certa – Vocês estavam fazendo tempestade em um copo de água. Eu disse que eles iam aceitar bem a situação.
– Então, você já sabia disso Sunny? – Phillipe pergunta lançando um olhar questionador a sobrinha.
– E o Shakespeare consegue esconder alguma coisa de mim, tio? – Sunrise abocanha mais um pedaço de sua torta de maçã – Eu sei mais sobre a vida desse garoto que ele mesmo.
– Bem, então, agora que tudo já está resolvido, eu vou trazer os álbuns de fotos. – Jill encerra o assunto e levanta – Desde que Blake disse que você viria, eu estou ansiosa para lhe mostrar essas fotos, Liss. Você vai ver como ele era o bebê mais lindo do mundo.
– Ai. Eu mereço. – Blake resmunga e dou um pequeno tapinha no braço dele.
– Estou ansiosa para ver as fotos, Sra. Carson. – digo Alyssa sentindo como se houvesse tirado um peso dos meus ombros, após contar a eles toda a verdade sobre o meu relacionamento com Blake – Tenho certeza de que o Blake era um bebê muito bonito.
– Ah, ele era mesmo. Uma vez nós o vestimos como um pequeno vampiro no Halloween. Ele ficou uma gracinha.
– Não era um vampiro. – Blake reclama – Era um morcego. Quem coloca uma fantasia de morcego no filho de dois anos?
– Era um morceguinho bem fofo, Blake.
– Ah, sim. Era super fofo. – Sunrise ri – Era o Bat-Fofura em pessoa.
Blake fecha a cara para ela e Jullian se apressa em sair da sala de jantar.
– Volto com as fotos em um minuto. – ela diz e, então, corre paras as escadas.
– Sabia que você é o primeiro professor que eu vou ter a oportunidade de ver vestido como um morceguinho. – comento quando o pai de Blake se levanta e começa a recolher os pratos da mesa.
– Continue falando. – ele diz, ainda indignado – Só não reclame quando tirar um F no final do semestre.
– Meu Deus, não dá para brincar com você. – eu rio.
Conforme havia dito, Jillian volta um minutos depois com uma dezena de álbuns de fotografia nas mãos. Cada um deles parece ter um título e decido começar pelo álbum de Natal como Sunrise havia me instruído, o que não agrada Blake de maneira alguma.
Ele reclama a cada foto pela qual eu passo e, algum momento, sai da sala de jantar para ajudar seu pai na cozinha, deixando-me as sós com Sunrise e sua mãe. Sunny ri de cada uma das fotos, exceto daquelas nas quais ela também está, mas Jillian compensa isso rindo por ela e fazendo comentários engraçados e fofos sobre a sobrinha.
Dá para ver que, de fato, Sunrise foi criada pelos tios como se fosse uma verdadeira filha e eu fico contente por saber que a família de Blake é tão simples e amorosa como é. Quando cheguei a Manhattan e vi a fachada dessa casa, imaginei que encontraria uma família rica e fria, como geralmente encontramos em casas grandes assim, mas aos poucos estou aprendendo que não devo julgar as pessoas com base nos meus próprios medos.
Quando terminamos de ver as fotos, passamos algum tempo conversando na sala de estar, diante da lareira. Blake passa o tempo inteiro segurando uma de minhas mãos e implicando com Sunrise e eu percebo que aquele é exatamente o tipo de família que, um dia, eu pensei em construir ao lado de Dylan. Quando o nosso noivado terminou, eu pensei que nunca mais poderia amar alguém de novo, mas agora eu percebo que a razão pelo qual ele saiu da minha vida, foi para abrir espaço para algo novo e melhor. Acho que minha avó tinha razão quando dizia que Deus escrevia certo por linhas tortas, porque, se não fosse por isso, eu nunca teria me mudado para a Califórnia e nunca teria conhecido Blake e sua família. Terminar meu noivado com Dylan foi a melhor coisa que me aconteceu.
Já são quase onze horas quando os pais de Blake se retiram da sala de estar para ir dormir e nós passamos mais algum tempo ali, conversando com Sunrise, antes que eu finalmente comece a bocejar.
– Acho que está na hora de te levar para cama. – Blake diz, acariciando minha bochecha – Você não dormiu quase nada essa tarde e o fuso o horário deve estar te matando.
– Também não é para tanto. – levo a mão à boca para conter outro bocejo – São só três horas de diferença.
– Três horas de diferença para alguém que enfrentou um voo de cinco horas e que teve de acordar cedo hoje. – Blake se coloca de pé e segura minhas mãos – Vem. Vamos para a cama.
– Mas e a Sunny?
– Eu também já estou indo dormir. – Sunrise sorri para mim – A gente se fala amanhã, Alyssa. Vá descansar.
– Tudo bem. – digo permitindo que Blake puxe da cadeira – Tenha uma ótima noite, Sunny. Foi muito bom te conhecer.
– Foi bom conhecer você também. – ela acena em despedida, enquanto Blake me conduz escada acima, até seu quarto.
Acho que eu durmo quase no mesmo instante em que minha cabeça toca o travesseiro, mas não sem antes sentir os lábios doces de Blake tocarem os meus. Amanhã iremos conhecer minha família e será a minha vez de passar vergonha, mas, hoje, eu posso dormir tranquilamente nos braços do meu querido professor.
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