O Mestre - EM HIATUS
10 Capítulo Nove
Notas iniciais
"Você pode fechar os seus olhos para as coisas que você não quer ver, mas não pode fechar o seu coração para as coisas que não quer sentir." – Johnny Depp.
[Alyssa]
Não sei dizer quanto tempo, exatamente, permaneço encarando os olhos azuis de Blake. Creio que é apenas por alguns segundos, mas estou tão presa ao magnetismo de seu olhar que posso, muito bem, tê-lo encarado por horas e não ter me dado conta disso.
Ali, sentada no banquinho em frente ao piano, eu tenho total consciência de que os olhares de todos os alunos no auditório estão voltados para mim. Sei que tenho apenas cinco minutos para me apresentar e que deveria estar fazendo isso. Eu até posso ver Serena, em uma das cadeiras da segunda fileira, acenando para tentar chamar minha atenção, mas eu simplesmente não consigo me mexer.
Meus olhos estão cravados nos olhos de Blake e o azul presente neles é como uma onda que, a cada segundo, me arrasta para mais e mais longe da costa.
Começo a me perguntar se tomei a decisão certa ao afastá-lo de mim e acabar com qualquer possibilidade de ficarmos juntos, mas antes que eu possa responder às minhas próprias perguntas, ouço Wade gritar o meu nome, incentivando-me, e vejo os olhos de Blake se estreitarem.
Eu nunca quis bater tanto em alguém – exceto, talvez, em Melody e Serena – quanto quero bater em Wade naquele momento. Eu sei que ele não faz aquilo por mal e que está totalmente alheio ao que se passa entre Blake e eu, mas ainda assim, ele está atrapalhando.
É então que me dou conta: o que Wade está atrapalhando?
Fui eu quem fugi de Blake no dia em que nos conhecemos. Fui eu quem disse a ele para esquecer tudo o que tinha acontecido entre nós, no dia de nossa primeira aula e fui eu quem, de certa forma, o mandou embora na noite anterior, no West. Então porque eu estou culpando Wade pelos meus erros agora?
Com uma pontada de vergonha, percebo estou sendo injusta com ele, já que toda a confusão que acontece em minha vida é por minha própria causa.
Serena e Melody sempre me disseram que Dylan – meu ex-noivo – era um cafajeste, mas eu quis pagar para ver e vi. Quando conheci Blake eu poderia ter encerrado nosso encontro na festa, mas me deixei levar e decidir ir em frente para depois fugir dele. Na primeira aula eu havia dito a Blake que esquecesse a nossa noite, mas assim que o vi com uma garota no West, eu fiquei com raiva e, depois, quando ele disse que queria ficar comigo, eu o beijei e o mandei me esquecer de novo.
Fiz tudo isso e agora eu estou no palco do auditório, olhando fixamente para Blake e desejando que ele não tenha desistido de mim. O que há de errado com a minha cabeça?
– Nós estamos esperando, Srta. Cooper. – Blake diz em um tom calmo e formal que me faz engolir em seco.
Para o restante dos alunos ali as palavras dele soam como as de qualquer professor educado e paciente, mas o gelo que paira sobre cada uma delas é bastante perceptível para mim e me atinge como uma faca afiada.
Não sei exatamente o que eu estava esperando encontrar ao me dirigir para a aula naquela manhã, mas com certeza não era aquilo. Entretanto, eu estava tendo o que merecia, não é? Eu o havia mandado desistir de mim e, agora, ele parecia estar desistindo. Eu deveria ficar satisfeita por, finalmente, tê-lo feito entender que termos qualquer tipo de relacionamento que não fosse o típico professor-aluna, era inviável. Sim eu deveria, mas não estou.
Eu sei o que disse. Lembro-me perfeitamente de cada palavra que proferi para Blake no dia em que nos conhecemos, em nossa primeira aula e no West, mas, ali, olhando para ele e sabendo que ele nunca mais me beijará como me beijou na noite anterior, eu tenho vontade de engolir minhas palavras e chorar.
Abaixo a cabeça e encaro as teclas do piano e é, então, que percebo que talvez eu ainda não tenha destruído tudo, como penso que destruí. Blake tinha me tratado de maneira fria durante toda a aula, mas alguns segundos antes ele estava me encarando com o mesmo sentimento com o qual eu o encarava e aquilo devia significar alguma coisa.
Eu ainda não sei o que vou fazer com o fato de ele ser meu professor e com o fato de aquela relação ser muito errada e, talvez, amanhã eu acorde e bata a minha cabeça na parede por ter feito tamanha loucura, mas naquele momento eu não me importo com nada.
Desde o início Blake tinha sido um cara legal e sincero comigo e tudo o que eu havia feito em retribuição tinha sido rejeitá-lo. Eu tive medo de que ele ferisse os meus sentimentos assim como Dylan havia feito e quando descobri que ele era meu professor eu o afastei ainda mais, mas nem mesmo utilizando toda a minha racionalidade eu posso negar os sentimentos que estão dançando dentro de mim naquele momento.
Eu o conheci há meras 72 horas, mas eu não tenho como mensurar o que Blake despertou em mim nesse curto espaço de tempo. Durante todos os momentos em que estive em seus braços eu me senti completa. Pode ser que eu tenha enlouquecido e que amanhã me arrependa amargamente, mas hoje não quero abrir mão disso. Pouco importa que ele seja o meu professor, droga!
Então, tomada por uma coragem súbita, seguro o microfone que há sobre o piano e o levo aos lábios.
– Oi, galera. – digo correndo os olhos pelo auditório rapidamente.
Vejo Serena cobrir o rosto com as mãos, num gesto que diz claramente um “Que merda você vai aprontar agora?”, mas eu a ignoro e me concentro no que preciso fazer. Ouço a voz do restante da turma ecoar pelo auditório em um “Oi” uníssono e volto a me pronunciar:
– Eu subi aqui hoje para cantar outra música, mas acabei percebendo que ela não descreve o que eu sou e os meus sentimentos, por isso, decidi fazer uma mudança de ultima hora. – explico – A música que vou cantar agora fala sobre uma garota que teve um relacionamento ruim, mas, mais que isso, ela fala sobre um cara. Um cara que, contra todas as estatísticas, surge na vida dessa garota e em um piscar de olhos a faz se apaixonar. Um cara que é... um em um milhão e por quem vale a pena se arriscar.
Termino o meu discurso e recoloco o microfone no lugar. Sinto o olhar de Blake sobre mim e, imediatamente, minhas mãos começam a suar. Limpo-as em minha calça jeans, disposta a não deixar que o nervosismo me domine, e depois as pouso sobre as teclas do piano.
Eu só tinha tocado aquela música uma vez em toda a minha vida, mas ainda me lembrava perfeitamente das partituras. Então, depois de respirar fundo uma ultima vez, pressiono a primeira tecla do piano e começo a tocar. One In A Million, da Miley Cyrus, sempre tinha sido uma música bonita aos meus ouvidos, mas agora ela estava ainda mais carregada de significado.
Fecho os olhos e deixo a melodia me invadir e no segundo seguinte os versos fluem por meus lábios. Eu nunca tinha cantado em público e aquilo devia ter me deixado mais nervosa do que eu já estava, mas a situação era exatamente o contrário. Ao cantar, era como se eu finalmente tivesse tomado coragem de colocar todos os meus sentimentos para fora e aquela sensação de liberdade era incrível.
One In A Million falava sobre um típico romance adolescente, algo que não condizia exatamente com meus encontros com Blake, mas eu tinha certeza que ele entenderia cada uma das linhas que eu entoava. A decepção amora que eu tinha sofrido com Dylan. Meu medo de me envolver com outra pessoa e minha falta de confiança no amor. Meus sentimentos por ele no dia em que nos conhecemos. A forma como eu o enxergava e como ele me enxergava... Eu sabia que Blake entenderia tudo aquilo.
Enquanto canto, quero abrir os meus olhos e olhar para ele, mas não faço isso, pois sei que o azul de seus olhos me desconcertaria. Acho que ultrapasso – e muito – meus cinco minutos limite de apresentação, mas Blake não me interrompe e apenas quando finalizo a canção e toco as últimas notas da música, abro os olhos e encaro a plateia que me observa.
As reações que vejo são diversas.
Sophie está me encarando com total desprezo, como se achasse que minha apresentação era tão amadora quanto a de um artista de rua. Wade e Serena me encaram empolgados, embora Serena ainda pareça meio preocupada com as consequências futuras de minha apresentação e, o restante da turma, está divido entre expressões emocionadas e caras de paisagem. Entretanto não é com a reação deles que estou preocupada.
Varro as fileiras do auditório rapidamente e paro meu olhar em Blake. Sua expressão está indecifrável, mas seus belos olhos azuis estão bloqueados nos meus, demonstrando tanto sentimento que isso quase faz com que eu perca o ar.
Um leve sorriso começa a se formar em meus lábios, mas antes mesmo que ele se instale ali, vejo Blake desviar os olhos dos meus e se concentrar em algum detalhe sem importância das cortinas vermelhas que há nas laterais do palco acabando com todo o encanto.
– Muito obrigado, Srta. Cooper. – ele diz assumindo, mais uma vez, o tom formal que usara antes – Foi uma bela apresentação.
Sinto o meu queixo cair, enquanto permaneço encarando Blake, perplexa. Por um momento achei que ele tinha entendido o significado de minha apresentação, mas no momento seguinte seus sentimentos pareciam estar, novamente, tão distantes de mim quanto no começo da aula.
O que eu tinha feito de errado agora?!
Olho para Serena, procurando alguma ajuda, mas ela só faz dar de ombros levemente e gesticular, praticamente implorando para que eu saia do palco enquanto ainda tenho alguma dignidade.
Minha vontade é de gritar com Blake, apontar-lhe o dedo na cara e perguntar qual o problema dele, mas decido fazer como Serena pede e, mesmo contrariada, abaixo a capa que cobre as teclas do piano e desço do palco.
Meu olhar e o de Blake se cruzam mais uma vez enquanto sigo para minha cadeira, mas rapidamente ele desvia os olhos dos meus de novo e olha para a lista de nomes que há em sua prancheta.
– Sophie Kautzmann. – ela chama e, sorridente, Sophie se levanta e se dirigi ao palco, fazendo questão de dar uma piscadela para Blake ao passar.
Sinto o meu sangue ferver, mas antes que eu possa ter a chance de voltar correndo até o palco e apertar o pescoço de Sophie, Serena me puxa pelo braço e me conduz para fora do auditório.
– Que diabos vocês está fazendo? – reclamo com ela assim que estamos do lado de fora, distantes da porta o suficiente para que ninguém lá dentro nos escute.
– Eu? – ela me encara – O que diabos você está fazendo, Liss? Você esteve a dois segundos de arrancar metade do cabelo da Sophie lá dentro!
– Talvez ela merecesse ter metade do cabelo arrancado. – digo irritada – Talvez ela merecesse levar um tapa ou dois e, quem sabe, talvez ela até merecesse levar um chute naquela bunda enorme dela.
– Hey! – Serena reprime um risada, pois apesar de achar o meu ataque de fúria engraçado, ela está tentando falar a sério comigo – Escute aqui, ok? Você não pode bater nela assim. Talvez ela mereça mesmo os tapas e o chute por ser uma vadia irritante, eu não discordo, mas não você precisa ficar calma. O seu problema não é com a Sophie. É com o Blake.
Respiro fundo e tento me acalmar.
Mesmo sendo duro de aceitar, Serena tem razão. Eu estava uma pilha de nervos, mas Sophie não era o meu problema. O meu problema era Blake. E seus olhos azuis maravilhosos. E seu sorriso sedutor. E seu corpo perfeito...
– Não dá. – levo as mãos ao rosto, nervosa – Simplesmente não dá, Serena. Eu não consigo aguentar mais uma única aula com o Blake. Esse homem vai me matar!
– Ele não vai te matar. – Serena segura minhas mãos e as puxa para longe de meu rosto – Preste atenção, Liss. O que você precisa fazer é se decidir. Ou você quer o Blake ou não quer. Não pode ter as duas coisas.
– Eu não estou querendo ter as duas coisas! – Protesto.
– Ah, você está, sim! E precisa parar agora, antes que surte por completo. – Serena me aconselha – Ou você ignora o fato de ele ser nosso professor e fica com ele, ou o esquece e para de agir como uma psicótica que tem ciúmes de um homem que nem é seu. Escolha, Liss.
Paro e encaro Serena por um momento. Mais uma vez ela tem razão quanto ao fato de eu precisar escolher, mas ela também deixou passar um fato muito importante. Eu praticamente abri o meu coração para Blake enquanto estava naquele palco e tudo o que ele disse, no fim das contas, foi um “muito obrigado, Srta. Cooper ”. Eu tinha feito a minha escolha naquele, mas agora o que eu queria era ter escolhido socá-lo na cara.
– Eu preciso ficar longe do Blake. – digo por fim.
– Ótimo. Então, isso significa que se ele ficar com outra pessoa você não vai tentar matá-la, certo?
Imagino Sophie no apartamento de Blake, deitada em sua cama, enquanto ele usa nada além de uma cueca boxer e abre aquele sorriso perfeito para ela e sinto meu sangue ferver novamente. Ah, eu com certeza iria querer matá-la nessa situação.
– Ok. Eu desisto. – Serena joga as mãos para o alto – Eu tentei ajudar, mas é impossível, então vou apenas rezar para que vocês dois ou se acertem ou se esqueçam de vez, está bem?
Permaneço calada, pois já nem sei o que dizer e Serena revira os olhos.
– Eu vou voltar para a aula. Você vem comigo? – ela pergunta indicando a porta do auditório com um aceno de cabeça.
Apenas faço que não e mais uma vez ela revira os olhos. Eu sou um caso perdido!
– Eu trago a sua mochila quando a aula acabar. – ela diz virando-se para voltar para o auditório – Até lá, Liss, compre um suco de maracujá e tente esfriar a cabeça.
Observo Serena entrar no auditório e quando a porta se fecha atrás dela, sigo para uma das lanchonetes da universidade. Eu posso até ser uma psicótica que tem ciúmes de um homem que nem é meu, mas sei reconhecer quando realmente preciso de um suco de maracujá.
O restante do dia segue tão tranquilo que me pergunto por as aulas de Blake têm sempre de ser tão complicadas. Tudo bem que eu quase fomos para a cama uma vez e que ficamos nos agarrando no corredor escuro de uma boate pouco mais de 24 horas antes, mas... cara, porque as aulas dele tinham de ser complicadas?!
De volta para casa, coloco os meus fones de ouvido e deixo o volume no máximo enquanto Serena conta à Melody os detalhes daquele fiasco que algumas pessoas sortudas podem chamar simplesmente de aula de Musicalidade e Interpretação. Pelo sorriso que se instala no rosto de Melody, sei que terei que aguentar piadas sobre aquilo durante pelo menos uma semana, mas eu não me importaria de aguentar piadas desse tipo durante o ano inteiro se isso me livrasse de todas as aulas de Blake naquele semestre.
Meu único alívio é que eu só teria de encontrá-lo de novo na segunda-feira, pois se tivéssemos mais uma aula nessa semana, das duas uma: ou eu faltaria ou me mataria assim que o visse.
– Melhore essa cara, Liss. – Melody joga uma das almofadas do sofá em meu rosto assim que entramos em casa e nos sentamos – Se eu tiver que aguentar você de mau humor durante todas as aulas do Blake, faço questão de ir eu mesma na reitoria e implorar para mudarem a sua grade horária.
– Você me faria um favor se fizesse isso. – digo desanimada – Essa foi apenas a segunda aula dele e eu já estou querendo me matar, então tente imaginar como eu estarei no final do semestre.
Melody faz uma careta.
– Ok. Vá tomar um banho que eu e a Serena preparemos chá e biscoitos para o jantar. Eu acho que você precisa de um chá.
– Eu preciso é de uma arma. – respondo, mas ainda assim me levanto e sigo para o banheiro.
Quando saio do banho, entretanto, percebo que Melody não estava brincando quando falou sobre o chá com biscoitos. Sou obrigada a tomar pelo menos três xícaras de chá de camomila e a comer quase um pacote de biscoito antes que ela me deixe em paz e, quando isso finalmente acontece, corro para o meu quarto para fazer alguns exercícios que precisarei entregar no dia seguinte.
Estou sentada em minha cama, vestindo nada além de um baby doll branco, enquanto respondo a um questionário de Harmonia e contraponto, quando alguém bate à porta de meu quarto.
– Entra. – grito sem tirar os olhos de meu questionário.
Ouço a porta ser aberta devagar e, quando ergo os olhos, encontro Blake parado diante de mim, vestindo uma camiseta branca de mangas longas e uma calça jeans preta e calçando um par de All Star surrados. Ele está lindo, como sempre. Mas o que diabos ele está fazendo no meu quarto?!
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