O Mestre - EM HIATUS
3 Capítulo Dois
Notas iniciais
“O encontro de duas personalidades assemelha-se ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorre, ambos sofrem uma transformação.” – Carl Custav Jung
[Alyssa]
Eu prendo a respiração por um instante enquanto espero por uma resposta. Ele parece ser o tipo de cara que prefere ficar sozinho e eu começo a me perguntar se Melody e Serena não o escolheram para o meu desafio exatamente por isso. Bem, se fosse esse o caso, não seria a primeira pegadinha que elas faziam para mim.
– Oi. – ele finalmente responde com um leve aceno de cabeça e eu respiro aliviada por ele, pelo menos, não ter me ignorado.
Ele permanece me encarando e eu tenho quase certeza de que ele está se perguntando o que eu estou caçando ali. Sei que farei papel de idiota se eu não tomar uma atitude logo, então eu faço a primeira coisa que me vem à cabeça: abro um pequeno sorriso para ele e me adianto, encostando-me a cerca que delimita a propriedade e observando a paisagem escura como ele estava fazendo segundos antes de eu aparecer.
– O clima está agradável hoje, não é? – digo fechando os olhos e torcendo para que ele interprete isso como uma tentativa de aproveitar a brisa fresca que soprava.
A verdade é que eu apenas precisava me concentrar em minhas próximas ações para conseguir cumprir meu desafio e era mais fácil fazer isso sem ver o olhar questionador que ele, provavelmente, estava me lançando naquele momento já que não havia dito nada sobre meu comentário a respeito do clima.
Abro os olhos e quase quero me dar um soco, quando vejo que ele realmente está me encarando. Sua expressão não me dá nenhuma dica do que ele possa estar pensando naquele momento, mas sendo pessimista como sou, opto por imaginar que ele está apenas se perguntando quando eu pretendo deixá-lo em paz.
– Estou te incomodando? – decido perguntar, tomando cuidado para manter minha voz estável.
– Não. – ele responde em um tom despreocupado e eu, mais uma vez, respiro aliviada, enquanto meu cérebro trabalha para encontrar uma forma de prolongar aquela conversa.
Ele parece ser uma pessoa de poucas palavras e isso torna o meu trabalho ainda mais complicado, pois é bem mais difícil puxar papo com pessoas desse tipo. Se ele fosse um pouco mais extrovertido, seria simples começar uma conversa casual e logo fazê-la se transformar em uma conversa mais íntima, mas percebo que, com ele, eu terei que ser bem mais ousada se quiser que isso aconteça. Então respiro fundo e, usando Melody e Serena como inspiração, me preparo para interpretar meu papel.
– Tem certeza de que eu não estou incomodando? – pergunto com um sorriso que eu espero que ele ache atraente – Eu sou meio sem noção, sabe? Então se eu estiver invadindo o seu espaço, por favor, me avise.
–Fique tranquila. – ele responde em um tom calmo – Você não está me incomodando.
–Que bom. – digo estendendo a mão para ele – A propósito, eu me chamo Alyssa.
– Blake. – ele diz, apertando minha mão em um cumprimento.
Dando continuidade a minha interpretação, eu seguro a mão dele por mais tempo do que é realmente necessário e a acaricio delicadamente com meu polegar.
– Uau! Você tem mãos fortes. – digo fixando meu olhar no dele – Gosto disso.
Ele começa a rir e eu acho sua risada tão gostosa e cativante que até tenho vontade de rir junto, mas ao invés disso, eu me aproximo um pouco mais dele e solto minha mão da sua, depositando-a sobre o seu peito em seguida.
– E, ao que parece, suas mãos não são a única coisa forte que você possui. – completo correndo minha mão mais para baixo de seu peito e demorando-me nos botões de sua camisa.
Blake se afasta um pouco e retira a minha mão de seu corpo com calma.
– Você pode acabar matando alguém assim, sabia? – ele diz ainda sorrindo e eu me sinto satisfeita por ter conseguido, ao menos, fazê-lo rir.
Ele não parece ser tímido ou super sério. Na verdade, parece estar bem longe disso, mas ao que pude notar, ele precisa de um incentivo para se soltar e, agora, eu estou mais que disposta a ser esse incentivo.
– Desculpe. – digo de forma divertida – Eu não sei o que deu em mim essa noite. Eu geralmente não sou tão atirada assim, sabe?
– Tudo bem. – ele se adianta em dizer – As pessoas geralmente ficam mais desinibidas em festas. É normal.
Eu concordo com um breve aceno de cabeça e encosto-me a cerca novamente.
– Você parece ser um cara bem legal, Blake. – digo com um sorriso.
– Você parece legal também. – ele diz, passando a mão levemente pelo cabelo e eu não posso deixar de notar o quanto aquele gesto é gracioso.
– Sabe, eu estava te observando a um tempão e te achei muito interessante. – continuo antes que a beleza dele me distraia e eu acabe fazendo uma loucura.
– Ah, é? – ele pergunta encostando-se a cerca também e voltando a observar a paisagem.
– Sim. – eu me aproximo um pouco mais dele – Eu geralmente não largo uma festa por causa de um rostinho bonito, mas você é digno de uma exceção.
Ele ri e eu, mais uma vez, me sinto inebriada com sua risada. Blake realmente é digno de exceções.
– Por acaso está tentando flertar comigo, Alyssa? – ele pergunta, tirando-me de meus devaneios.
Fico tensa de imediato. O tom de sua voz não me dá nenhuma dica de qual seria a coisa mais apropriada para responder, então eu decido seguir pelo caminho mais fácil.
– Depende. – digo inclinando-me em sua direção – Está funcionando?
Ela pensa por um instante e meu coração bate tão rápido em meu peito que eu começo a achar que Blake pode ouvi-lo também.
– Acho que sim. – ele responde por fim, fazendo-me soltar um longo suspiro de alívio e, antes que eu jogue todo o meu esforço no lixo com isso, eu me forço a me recompor e reassumir minha postura ousada.
– Você gosta de se fazer de difícil ou o que? – pergunto com um sorriso travesso.
– Não estou me fazendo de difícil. – ele se vira para mim – Apenas acho mais sensato manter minha guarda alta perto de garotas provocantes como você.
Eu o encaro.
– Me acha provocante?
– Tão provocante que me deixa excitado. – ele responde rapidamente.
Assim que as palavras saem de sua boca ele parecer querer engoli-las de volta. Dá para ver em seus olhos que aquele não é o tipo de coisa que ele costuma falar para uma garota e isso o deixa desconcertado.
– Eu quis dizer excitado no bom sentido, sabe? – ele acrescenta no que me parece ser uma péssima tentativa de consertar seu deslize.
Ele está ficando nervoso e isso é muito bom. Me dá um pouco mais de confiança.
– Não sei se há mais de um sentido para essa palavra. – digo sorrindo – Mas... Você também me deixa excitada... Em todos os sentidos.
Ele sorri e morde levemente o lábio inferior o que faz meu olhar recair para sua boca. Por Deus! Eu mal o conhecia, mas já estava com vontade de beijá-lo.
– E então, porque você está largado aqui ao invés de estar enlouquecendo na festa como todo mundo? – pergunto virando-me em direção à casa numa fraca tentativa de manter a concentração.
Blake se vira em minha direção.
– Eu estava esperando que a garota mais sexy da festa viesse até aqui me fazer companhia. – ele responde, tomando a liberdade de flertar comigo também.
Era exatamente isso que eu queria dele desde o início de nossa conversa, mas no momento em que ele o faz, eu me sinto frenética e essa minha reação involuntária começa a me preocupar. Eu preciso manter o foco.
– Sério? – digo com a maior calma que consigo ter – Então é melhor eu ir embora antes que essa tal garota sexy por quem você está esperando chegue e me encontre aqui dando em cima de você.
Dou um passo à frente para me afastar dele, mas Blake segura meu pulso levemente e me traz de volta para perto.
– Acredite. Não há uma garota mais sexy que você nessa festa. – ele diz percorrendo meu corpo com o olhar.
Eu prendo a respiração enquanto ele faz isso.
Ao mesmo tempo em que uma parte de mim gosta do fato de ele estar me analisando daquela forma, há uma parte de mim que está gritando para eu me afastar antes que seja tarde demais. Blake está me atingindo de verdade e não era isso que eu queria. Ou pelo menos eu achava que não queria... Sinceramente eu já nem sabia mais o que eu queria na verdade.
– Está afim de dançar? – ele pergunta, me olhando nos olhos de uma forma penetrante.
– Com você? – pergunto tentando não parecer tão interessada na ideia quanto realmente estou.
Com seu jeito misterioso e sedutor e com aquele sorriso torto nos lábios – o que é meu ponto fraco, devo admitir – ele está conseguindo atrair meu interesse de um jeito que poucos homens conseguem.
– E com quem mais seria? – ele pergunta, pegando-me pela mão e me arrastando em direção a pista de dança improvisada que há no quintal.
Ele me puxa e eu vou fácil porque simplesmente não consigo resistir ao estranho encanto que ele possui e, então, nós perdemos algum tempo na pista de dança, dançando juntos ao som das músicas eletrônicas.
– Você dança bem. – ele grita para mim, puxando-me para mais perto.
– Você também não dança mal. – brinco.
Sem perceber eu começo a percorrer o corpo dele com o olhar, analisando-o.
Ele possui uma boca bem feita, cujos lábios carnudos são um tanto avermelhados e convidativos. Seu cabelo castanho escuro cai levemente sobre seus olhos azuis intensos, que parecem ficar ainda mais em evidência por causa da roupa preta que ele está usando e, apesar de sua camiseta ter mangas longas e não ser muito apertada, eu posso ver claramente as curvas sinuosas de seus bíceps e de seu abdômen definido, mas isso não impede minha mente de imaginar como ele ficaria sem ela.
– Está afim de beber alguma coisa? – Blake pergunta, retirando-me de meus pensamentos sujos.
Eu aceno de forma afirmativa porque estou muito nervosa para responder com palavras e ele, mais uma vez, me pega pela mão e me arrasta em direção à mesa de bebidas.
Blake enche dois copos pequenos copos de Vodka com limão e me entrega um.
– À garota mais sexy dessa festa. – ele diz ao brindarmos e, em seguida, pisca para mim, deixando-me um pouco sem fôlego com isso.
Quando fui praticamente obrigada a cumprir esse desafio, ele me pareceu extremamente ruim, mas agora eu já não consigo pensar assim. Eu me sinto muito carente desde que terminei meu noivado e... Blake está me matando por me provocar daquele jeito! Então eu simplesmente largo meu copo e o encaro da forma mais intensa que consigo.
– Tudo bem? – ele me pergunta em seu costumeiro tom calmo.
– Não. – respondo passando meus braços em volta de seu pescoço – Eu preciso de um beijo seu.
Blake sorri, mas logo atende ao meu pedido e também larga seu copo para poder envolver minha cintura com as mãos e me puxar para mais perto de si, extinguindo por completo o espaço entre nós. E no momento em que seus lábios tocam os meus, sinto como se milhares de fogos de artifícios explodissem em meu interior.
Eu imaginei que ele beijasse bem, mas nem em meus maiores devaneios eu poderia imaginar que fosse tão bem assim. Seu beijo era algo fora do comum e estava me consumindo da mesma forma que o fogo consome um monte de folhas secas. Era intenso, quente e sagaz e estava drenando todo o oxigênio que havia em meu corpo.
Isso me deixa surpresa, pois durante os cinco anos que passei ao lado de Dylan – meu ex-noivo – eu nunca tinha sentido algo como aquilo. Nunca tinha experimentado um beijo como aquele! E, quando Blake o encerra, eu ainda permaneço de olhos fechados e com os lábios um pouco entreabertos tentando recuperar o fôlego.
– Uau. – é tudo o que eu digo depois de abrir os olhos, pois simplesmente não tenho uma palavra para descrever o que sinto naquele momento.
As mãos de Blake ainda estão em volta de minha cintura e ele está me encarando com um olhar sexy que ele parece fazer sem nem perceber e que, por isso, o torna ainda mais encantador.
Ele não me diz uma palavra e eu também não sei o que dizer para ele. Tudo o que sei é que quero que ele me beije de novo, mas eu o quero em um lugar mais reservado que a mesa de bebidas dessa festa. O problema é que sou covarde demais para pedir.
– Que tal irmos para outro lugar? – Blake sugere para mim em voz baixa.
Estamos compartilhando os mesmos pensamentos e isso me enche de alívio. Ele quer isso tanto quanto eu e um arrepio percorre o meu corpo quando penso na possibilidade de poder ficar sozinha com Blake em algum lugar longe dali.
Eu sei que isso é imprudente e que não deveria estar nos meus planos para aquela minha primeira noite em San Diego, mas eu simplesmente não posso reprimir a vontade que arde dentro de mim. Entretanto, eu me contenho um pouco antes de responder qualquer coisa, pois não quero que ele me tome por uma garota fácil.
– Acho que você está cheio de más intenções. – digo fixando meu olhar nele.
Blake aproxima os lábios da minha orelha e minhas pernas fraquejam só pelo fato de eu sentir sua respiração ali. Meu autocontrole é uma droga!
– Isso depende do que você considere más intenções. – ele sussurra – Para mim, todas as minhas intenções são muito boas.
Ele se afasta de mim apenas o suficiente para poder me encarar com um sorriso nos lábios e eu faço o meu melhor para resistir à vontade de beijá-lo novamente.
– Tudo bem então. – eu concordo com um leve aceno – Vamos lá.
Ele me segura pela mão e, então, eu deixo que ele me guie para fora da casa, enquanto sinto uma corrente elétrica atravessar meu corpo.
No caminho até a rua, passamos por Melody e Serena que nos encaram um tanto boquiabertas. Tenho certeza que, por mais que elas tivessem insistido para que eu ficasse com alguém aquela noite, nenhuma das duas poderia imaginar que eu realmente fosse fazê-lo, até mesmo porque nem eu poderia imaginar isso.
Esse não é tipo de coisa que costumo fazer, mas Blake parece ter uma espécie de influência sobre mim que me deixa tentada a fazer coisas idiotas e imprudentes e eu as faço sem nem me dar conta. É algo quase instintivo.
Não sei bem o que aconteceu entre nós, mas fosse o que fosse, era bom.
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